
Primeiras palavras
Esse mini boletim está sendo publicado na semana de 12 de outubro, quando o Brasil caminha para o segundo turno de uma eleição presidencial decisiva, cujos resultados vão determinar o futuro da democracia no país. Fala do primeiro turno da votação, mas também oferece conteúdos para situar a eleição brasileira em relação a outros dois contextos. Um deles é vizinho, a Colômbia, que teve eleições presidenciais em junho; o outro, longínquo, são as eleições estaduais alemãs que transcorreram em setembro. Essa escolha editorial busca sublinhar, mais uma vez, o que se passa no Brasil que, embora possa ter singularidades, não é exatamente excepcional.
Sobre o primeiro turno das eleições brasileiras, um conjunto de sete artigos, elaborados pela plataforma Gênero&Urnas, examina como o “gênero” apareceu na tensa dinâmica eleitoral. Essas análises são complementadas por um briefing sobre os dados da votação e por uma seleção de análises qualificadas sobre o significado político, de curto e de longo prazo, desses resultados. E, nas páginas que se seguem, oferecemos um panorama geral sobre os outros dois processos eleitorais, complementado por entrevistas e análises de Alejandro Gamboa, Viviana Bohórquez Monsalve (Colômbia) e Alrik Schubotz (Alemanha), a quem agradecemos pela presteza e generosidade.
Colômbia e Alemanha: os traços comuns que cruzam distâncias
Uma primeira observação a fazer em relação às eleições nesses dois países é que elas não só diferiram em termos de escopo – a primeira foi nacional e as duas outras estaduais – como também transcorreram em contextos muito diferentes tanto do ponto de vista histórico quanto em termos de condições socioculturais que determinam os humores eleitorais. Entretanto, seus resultados são ilustrações muito contundentes de antecedentes e efeitos da ascensão, concomitante e persistente, da ultradireita, com inequívocos efeitos sobre a política do gênero e da sexualidade. Olhando esses processos do ponto vista do cenário brasileiro, também cabe sublinhar que o atual contexto colombiano permite visualizar, com muita acuidade, os drásticos efeitos pós-eleitorais da chegada ao poder da ultradireita na era Trump II, quando eles são não apenas implacáveis como também vertiginosos1.
Colômbia
No país vizinho, as primeiras oito semanas do governo de Abelardo de la Espriella, empossado em 7 de agosto, não deixam dúvidas que chegou ao poder um líder autocrático. Como observa o Portal da Fundação Jacarandas, assim como se viu quando o segundo mandato de Trump começou, em 2025, as medidas tomadas desde agosto visam desmontar, o mais rapidamente possível, sistemas regulatórios e de proteção social existentes e, abertamente, contestar direitos assegurados. O uso ostensivo de discursos, gestos simbólicos e ritos religiosos cristãos pelo presidente projeta uma atmosfera fortemente teocrática que ameaça a laicidade.
Não menos relevante, no começo de setembro, o presidente encenou um ato francamente necropolítico quando, após um bombardeio de uma zona de selva, deambulou, confortavelmente, entre os cadáveres. A cena, que provocou amplo repúdio e indignação, foi um forte indício de que o complexo de instituições e políticas estabelecidas por efeito do Acordo de Paz 2016, que tem como centro a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), estava sob ameaça explícita2. Efetivamente, algumas semanas mais tarde foi noticiado que, tal como previsto no orçamento para 2027, os recursos da Unidade de Desaparecidos tiveram um drástico corte de 50%.
Durante a campanha e no período antes da posse, ministros e ministras recém-nomeados anunciaram a deflagração de uma “guerra cultural” nos campos da educação e da cultura, para transformar a Colômbia no “país milagre” prometido pelos discursos de campanha. Como sabemos, essa “guerra” tem sempre como alvos principais o gênero, a sexualidade e o direito ao aborto. Assim sendo, tão logo instalado o governo, a então ministra da Educação, Viviane Morales, anunciou a revisão de material didático-escolar voltado à educação sexual, alegando que o mesmo se destinava à “ideologização” e ao “wokismo”. Passado um mês, Morales renunciaria ao cargo, mas poucos dias antes designou, por decreto, 11 delegados da Presidência da República que agora terão assento nos Conselhos Superiores Universitários das universidades públicas do país, a metade deles com vínculos com igrejas. Morales foi substituída pela procuradora ultracatólica Ilva Myriam Hoyos. Não casualmente, ambas são figuras conhecidas da “guerra ao gênero”, na sua versão colombiana que, de fato, não começou agora.
O contexto colombiano ilustra tanto a longevidade das “guerras culturais” ao gênero quanto o lugar que elas ocupam nas dinâmicas de revolução permanente que têm nutrido a ascensão da ultradireita em toda parte. Isso porque, no país, a “guerra ao gênero” tem quase duas décadas. Seu início pode ser situado em 2007, quando se publicou “Ideología de Género: Utopía trágica o subversión cultural”, de autoria do procurador Alejandro Ordoñez, atualmente, pela segunda vez, embaixador colombiano na OEA.
O livro de Ordóñez, primeira diatribe antigênero não clerical produzida na América Latina, foi lançado, não casualmente, no ano em que a Conferência Episcopal Latino Americana deflagrava a primeira campanha oficial da Igreja Católica contra o fantasma da “ideologia de gênero”. Em 2016, quando o Acordo de Paz, assinado entre o governo e as FARC, foi objeto de referendum, essas iniciativas até então de baixa intensidade se condensariam, numa escala muito maior, na fantasmagoria incitada pelas forças da direita de que o acordo iria submeter a sociedade colombiana à “ideologia de gênero”.
Esse tumulto político foi investigado por Franklin Gil Hernández no estudo publicado pelo SPW em 2020. Nele, são revisitados os antecedentes que pavimentaram o caminho para a “guerra ao gênero” no Acordo de Paz. Também se examina o papel de Ordóñez e Ilva Hoyos, então subprocuradora, nos duros embates em torno ao direito ao aborto na segunda metade dos anos 2000. Também é mencionado o apoio do procurador e de seu grupo às mobilizações contra a “cartilha de respeito à diversidade sexual” que precedeu a fúria antigênero do referendum. Gil Hernandez também refaz o desempenho ultraconservador de Viviane Morales como deputada do bloco evangélico no Congresso nesse mesmo período. A releitura do estudo, inevitavelmente, provoca a sensação de mergulhar num mar de sinais daquilo que já então anunciava o que poderia ser o futuro.
Hoje há fortes indícios de que esse futuro chegou com ameaças de revogação do direito ao aborto e, sobretudo, discursos e medidas de repúdio aos direitos LGBTQIA+. Em meados de setembro, a chancelaria colombiana deixou, sem aviso prévio, a copresidência da Coalizão pela Igualdade de Direitos (Equal Rights Coalition), plataforma intergovernamental voltada à promoção e proteção das pessoas LGBTQIA+ e, em outubro, retornou ao chamado Consenso de Genebra, do qual havia saído em 2022.
Alejandro Gamboa, numa breve reflexão sobre o cenário político nacional no começo de outubro, observa que pesado ajuste fiscal proposto pelo novo governo tomou a cena do debate político. Mas, segundo ele, à sua sombra proliferam intervenções em organizações privadas e, sobretudo, ofensivas contra a imprensa, e a “guerra cultural” anunciada desde a transição segue seu curso. Sobretudo, são fortes os sinais que De la Esprillera almeja não apenas esfacelar a esquerda, mas também subordinar a direita tradicional.
Para saber mais sobre o que tudo isso implica para as políticas de gênero, sexualidade e direitos ao aborto, entrevistamos Viviana Bohórquez Monsalve, diretora da Fundação Jacarandas.
Saxônia e Pomerânia
Nas eleições da Saxônia, no início de setembro, a vitória expressiva (44% dos votos) do partido de ultradireita Alternativa para Alemanha (AfD) foi manchete pelo mundo. No final do mês, numa nova rodada de eleições estaduais, a AfD foi a sigla mais votada (38%) nas eleições de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, mais do que dobrando a votação em relação ao último pleito em 2023. O ressurgimento da AfD também vem de longe, mas ganhou maior apelo e densidade desde que o partido chegou ao parlamento nacional em 2017.
As vitórias de 2026, entre outros efeitos, apontam para a implosão do CDU, partido liberal conservador que, juntamente com o social-democrata SPD, sustentou a estabilidade política alemã desde os anos 1950. E também indicam, conforme analisa Andrea Dip no artigo “Na Alemanha, o fascismo perdeu a vergonha”, que essa mudança política não surpreende quem acompanha a cena alemã, pois ela estava em curso desde algum tempo. Uma matéria do Politico (em inglês) publicada em 11 de outubro examina como a ascensão da AfD foi precedida por movimentos nativistas, os quais tiveram adesão de uma juventude educada para repudiar o nazifascismo, mas que hoje está seduzida pelo imaginário de uma sociedade em que “cada pessoa tem seu lugar”3.
Tanto o El País quanto o News Statesman analisam o crescimento, antes gradual e agora vertiginoso, da AfD como resultado da incapacidade das forças políticas comprometidas com a democracia – em particular o CDU e o SPD – de preservar o “cordão sanitário” que desde muito havia delimitado o avanço eleitoral da ultradireita. Cujos ganhos são especialmente perturbadores, porque foi na Alemanha da primeira metade do século 20 que se gestou o totalitarismo nazifascista, mas também porque o projeto político da AfD contempla abertamente a ruptura com a União Europeia com vistas a um alinhamento geoestratégico com Putin. Como observa o ex-chanceler Joschka Fischer (SPD), quando se lê o cenário alemão em conexão com a ascensão concomitante da ultradireita na França, o horizonte à frente é tenebroso.
No período entre guerras, a presença e influência do nazifascismo foi um tema de debate frequente nos países latino-americanos, sobretudo naqueles em que se contabilizava um volume importante de migrantes alemães. Nos tempos de agora, contudo, essas conexões têm sido ofuscadas pelo maior peso relativo, hoje imperial, da ultradireita norte-americana e, nos países hispânicos, pela maior visibilidade de forças e atores espanhóis. Isso não significa, contudo, que essas conexões não existam.
Em 2021, por exemplo, um de nossos boletins registrou a passagem pelo Brasil de algumas figuras icônicas da extrema direita alemã que, inclusive, estiveram seja com o então presidente Jair Bolsonaro (julho de 2021), seja com outras autoridades, como a ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves (setembro de 2021). Muito significativamente, a então vice-líder da AfD Beatrix von Storch (neta do ministro das Finanças do regime nazista) chegou ao país em função dos vínculos de seu marido – um empresário chileno-alemão – com o então candidato chileno (e hoje presidente) José Antonio Kast.
O repúdio visceral à imigração, num registro abertamente supremacista, foi sempre a pauta prioritária da AfD. Mas isso não significa que as questões de gênero e sexualidade estejam ausentes de seu programa político. O partido se opõe vigorosamente à legislação que simplifica os trâmites para a mudança de gênero no registro civil e preconiza a proibição dos cuidados em saúde para a transição de adolescentes. E, muito embora sua líder, Alice Weidel, seja lésbica e esteja casada com uma imigrante, a defesa da “família tradicional” é também central na agenda partidária – o que implica repúdio tanto à educação inclusiva para as pessoas LGBTQIA+ nas escolas, quanto ao direito de adoção para casais do mesmo sexo. Os efeitos dos ganhos eleitorais da AfD sobre as políticas de gênero, sexualidade e direito ao aborto são analisados no artigo de Alrik Schubotz.
A seguir, oferecemos um conjunto de análises sobre os significados e impactos das eleições colombianas e alemãs.
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Colômbia
Espanhol
El gran cambio: esto hacen los ultraderechistas en sus primeros 100 días de gobierno – Jacarandas
Las batallas populares y populistas que escoge De la Espriella – La Silla Vacía
Lo que hay detrás del uso de la religión por parte del presidente – La Silla Vacía
Atacan a la magistrada Lemaitre porque no pueden atacar su trabajo- La Silla Vacía
La avanzada del trumpismo en Colombia y su acceso al círculo De la Espriella – La Sila Vacía
Hannah Escobar sale del MinSalud por diferencias con el gobierno – La Silla Vacía
Português
Saxônia e Pomerânia (Alemanha)
Inglês
How long can Germany resist the far right? – New Statesman
Breaking Down Far Right AfD Party’s Anti LGBTQ+ Platform in Germany – Queer News Tonight
The Return of the German Question – Project Syndicate
Is Germany’s Firewall Collapsing? – Project Syndicate
State parliament elects Germany’s first far-right speaker since second world war – The Guardian
Espanhol
Señal de alarma para las democracias – El País
Alemania, Europa: perdidos en el espacio y en el tiempo – El País
Alemania tras las elecciones regionales: salir del «letargo suicida» – Nuso
La marea ultraderechista en Alemania: otro ladrillo en el muro – El País
Ulrich Siegmund, ¿el hombre más peligroso de Alemania? – Nuso
En Sajonia-Anhalt, «la AfD ha hecho historia» – Grand Continent
Cómo (no) frenar a la extrema derecha – El País
Vox y Aliança exhiben su afinidad con el ultranacionalismo alemán – El País
Por qué AfD es un partido de extrema derecha – El País
Português
Na Alemanha, o fascismo perdeu a vergonha – Agência Pública
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Nota de rodapé
2 – Esse complexo tem como mandato, além das funções judiciais de investigação e punição de perpetradores, medidas para superar os conflitos que persistem, identificação de mortos e desaparecidos, integração social e territorial de deslocados e de ex-combatentes da guerrilha e também proteção de direitos humanos.
3- Uma das jovens entrevistadas declara que se juntou a um desses movimentos por causa das medidas estatais de contenção da pandemia de Covid-19. Para saber sobre o que aconteceu naquele momento na Alemanha, recomendamos a leitura do artigo de Alrik Schubotz publicado em 2020.