Sexuality Policy Watch [PTBR]

O que significam os sucessos da AfD nas recentes eleições estaduais na Alemanha

Por Alrik Schubotz, politólogo em Berlim, 02/10/26

Foto: Wikipedia

As recentes eleições estaduais na Alemanha confirmaram uma transformação profunda do sistema partidário do país: a Alternative für Deutschland (AfD) deixou de ser uma força política marginal e se consolidou como um dos principais veículos eleitorais da direita radical alemã. Em Mecklenburg-Vorpommern, no nordeste do país, a AfD terminou as eleições de 20 de setembro de 2026 como a força mais votada, com 38,2% dos votos, à frente do Partido Social-Democrata (SPD), que obteve 35,5%. Trata-se de uma ruptura importante com a história política recente do país pois o SPD havia sido a primeira força de todas as eleições estaduais desde 1998.

A AfD conquistou 32 das 71 cadeiras do Parlamento estadual, enquanto o SPD ficou com 29.  O  CDU, partido do atual chanceler federal Friedrich Merz, não conseguiu superar a cláusula de barreira de 5%. A elevada participação eleitoral, de aproximadamente 78%, também mostra que o resultado não pode ser explicado simplesmente por uma mobilização de uma minoria que antes não votava. O avanço da AfD precisa ser compreendido, portanto, como efeito de  uma combinação de inseguranças materiais “percebidas”,  desconfiança em relação aos partidos tradicionais e, sobretudo uma transformação politico-cultural mais ampla e profunda.  

A extrema-direita conseguiu converter questões como custo de vida, imigração, segurança e guerra em uma narrativa política que apresenta a sociedade alemã como estando ameaçada em razão da “perda de controle” sobre as dinâmicas sociais. Nesse enquadramento, imigração  é uma questão central pois esse discurso a vincula ao fantasma de uma suposta transformação da identidade nacional, da família e das normas sociais alemãs. A defesa de uma ordem social heteronormativa e tradicional, a oposição aos direitos LGBTQIA+ e a rejeição ao feminismo são, portanto, elementos fortes do projeto político mais amplo de reconstrução da suposta normalidade social. É muito importante sublinhar essa dimensão ao analisar os sucessos eleitorais da AfD. Sua política não se limita à questão migratória: gênero e sexualidade funcionam como campos privilegiados de produção de fronteiras entre um “nós” nacional considerado legítimo e grupos apresentados como representantes de uma suposta decadência cultural.

Na  eleição de 6 setembro em  Sachsen-Anhalt, essa dimensão se manifestou de maneira muito contundente. A AfD alcançou 43,8% dos votos, um crescimento de aproximadamente 23 pontos percentuais em relação a 2021. A CDU caiu de 37,1% para 17,2%, e a AfD conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual. Particularmente relevante é o fato de que a expansão da AfD não se restringe aos grupos etários mais velhos frequentemente associados à direita radical. Entre eleitores de 18 a 24 anos, a AfD alcançou 41%, e entre os de 25 a 34 anos, 43%. Esses números precisam ser interpretados com cuidado, sem dúvida,  mas tornam difícil muito sustentar a ideia de que a extrema direita alemã seja, simplesmente, um fenômeno associado à geração mais velha reagindo às transformações sociais.

A AfD construiu uma oferta política para  setores jovens, usando uma linguagem de contestação cultural. Questões como imigração, segurança e economia são combinadas com uma crítica agressiva ao feminismo, à chamada “ideologia de gênero”, à política de igualdade e aos direitos de pessoas LGBTQIA+. Essa combinação  permite transformar mudanças sociais reais em uma narrativa de perda de status e ameaça identitária. O avanço dos direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias sexuais é apresentado não como ampliação da democracia, mas como suposta imposição de uma elite cultural sobre uma maioria silenciosa.

O discurso da AfD sobre “gênero”  não significa apenas a rejeição de determinadas políticas públicas, mas se destina a mobilizar a visão de um projeto de sociedade, baseado na centralidade da família heterossexual, em papéis de gênero mais tradicionais e na rejeição de formas de vida que escapem dessa norma. Da mesma forma, a   retórica anti-LGBTQIA+  opera em conjunto com discursos anti-imigração: ambas questões são integradas numa narrativa segundo a qual a sociedade alemã estaria sendo, simultaneamente, “desnacionalizada” e “destradicionalizada”. Para isso a extrema direita oferece uma promessa de restauração: recuperar fronteiras, autoridade, hierarquias e uma ideia supostamente estável de identidade coletiva.

Olhando para as próximas eleições federais, é fundamental não transformar os resultados eleitorais estaduais em previsão automática do futuro. A próxima eleição regular para o Bundestag está prevista para 2029, e o comportamento eleitoral de três anos adiante não pode ser deduzido, mecanicamente,  dos resultados de 2026. O que os resultados de agora  permitem observar, porém, é a consolidação de uma mudança estrutural. Nas eleições federais de 2025, a AfD já havia alcançado 20,8% dos votos, tornando-se a segunda maior força parlamentar. Os resultados em Sachsen-Anhalt e Mecklenburg-Vorpommern mostram que sua capacidade de mobilização pode ser ainda maior em partes do leste alemão.

Por outro lado, a exclusão da AfD das coalizões formadas pelos principais partidos democráticos continua sendo uma barreira institucional relevante, mesmo quando seus resultados eleitorais cada vez mais amplos pressione continuamente esse chamado cordão sanitário. Para a esquerda, o problema colocado pela AfD é especialmente difícil porque sua força não pode ser enfrentada apenas através da denúncia moral do extremismo. Uma política antifascista efetiva precisa disputar as condições sociais e culturais que tornam plausíveis suas narrativas, sem aceitar seus pressupostos. Isso significa falar sobre salários, moradia, serviços públicos e desigualdade, mas também enfrentar de cara a disputa sobre gênero, sexualidade e reprodução social.

A extrema direita  descreve os  direitos LGBTQIA+, o feminismo, as políticas de igualdade e diversidade como privilégios de uma elite urbana desconectada das “pessoas comuns”. A  resposta progressista precisa mostrar que esses direitos não são uma questão periférica ou exclusivamente cultural: dizem respeito à distribuição de poder, segurança, autonomia corporal e participação social. Da mesma forma, deve argumentar que a defesa dos direitos de pessoas migrantes não está em oposição às preocupações materiais da população trabalhadora.  Por outro lado, a fragmentação dessas questões beneficia a direita radical, cuja estratégia  é fomentar a competição entre  grupos que experimentam formas variadas de precariedade. O desafio político para a esquerda alemã, portanto, consiste em construir uma alternativa que conecte  justiça econômica, democracia, igualdade de gênero, direitos sexuais e uma política migratória baseada em direitos, em lugar de fazer da agenda politica da extrema direita o ponto de partida do debate eleitoral.

Um dos aspectos mais importantes, e potencialmente mais duradouros, do que estamos assistindo é a popularidade da AfD entre jovens e capacidade do partido de ocupar os espaços digitais nos quais novas gerações constroem identidades políticas. Em Sachsen-Anhalt, os 41% obtidos pela AfD entre eleitores de 18 a 24 anos são particularmente significativos. Eles não autorizam, evidentemente, a conclusão de que a totalidade dos jovens alemães estejam se tornando, majoritariamente,  de extrema direita. Mas tornam, igualmente insustentável o imaginário que juventude seja, automaticamente,  sinônimo de progressismo.

Parte da explicação está na transformação da comunicação política. TikTok, Instagram, YouTube e outras plataformas não funcionam simplesmente como meios neutros de transmissão de posições políticas. Seus algoritmos favorecem formatos capazes de captar atenção, gerar identificação emocional e interação rápida. A AfD está mostrando uma considerável capacidade de adaptar sua estratégias de comunicação a essa lógica, utilizando humor, provocação, memes, personalização e antagonismo cultural para apresentar posições políticas complexas de maneira altamente acessível. Isso é particularmente importante na disputa em torno de gênero e sexualidade. Um debate sobre políticas de igualdade pode ser reduzido a alguns segundos de vídeo sobre “ideologia de gênero”; uma discussão sobre direitos trans pode ser transformada em uma narrativa sobre uma suposta ameaça às crianças; políticas feministas podem ser apresentadas como uma guerra contra homens; e direitos LGBTQIA+ podem ser associados à ideia de uma elite que estaria impondo novos valores à sociedade.

A eficácia dessa estratégia de  comunicação não depende necessariamente de que as e os usuários sejam convencidos por uma ideologia coerente. Ela opera simplesmente através da normalização de determinadas categorias de pensamento, tornando aquilo que anteriormente parecia extremista progressivamente familiar, engraçado ou aceitável. Exatamente por isso a esquerda não deveria interpretar esse fenômeno de maneira simplista. Jovens também utilizam as redes para produzir contra narrativas, organizar movimentos feministas e LGBTQIA+, denunciar racismo e construir novas formas de solidariedade política. O problema não é a existência das redes sociais em si, mas a disputa desigual pela atenção e a maior ou menor capacidade de transformar frustrações sociais em  narrativas políticas.

Nesse sentido, a ascensão da AfD entre jovens deve ser entendida não apenas como uma mudança eleitoral, mas como parte de uma disputa cultural pela definição do que significa ser jovem, alemão, homem, mulher, queer, migrante ou cidadão em uma sociedade em transformação. A resposta da esquerda não pode consistir simplesmente em pedir aos jovens que sejam “mais progressistas”. Precisa oferecer formas convincentes de pertencimento, comunidade e futuro, nas quais igualdade, liberdade sexual e de gênero e segurança material não apareçam como projetos separados, mas como dimensões de uma mesma transformação democrática.

Um dos campos em que as consequências do avanço eleitoral da AfD se tornam particularmente evidentes é o dos direitos reprodutivos e da autonomia sobre o próprio corpo. A AfD não defende apenas uma interpretação conservadora da legislação vigente, mas uma restrição drástica do acesso ao aborto. Em seu projeto de programa eleitoral para as eleições federais, sob o lema „Willkommenskultur für Kinder“ (“Cultura de acolhimento às crianças”), o partido propõe que a interrupção voluntária da gravidez seja praticamente proibida, passando a ser admitida apenas em circunstâncias excepcionais. Entre as medidas previstas estão a apresentação obrigatória de imagens de ultrassom do embrião durante o aconselhamento de mulheres em situação de conflito e o incentivo à adoção como alternativa ao aborto. Em julho de 2026, a bancada da AfD no Bundestag apresentou uma proposta para excluir a Pro Familia, uma organização alemã de planejamento familiar, saúde sexual e direitos reprodutivos, do aconselhamento obrigatório para mulheres que pretendem realizar um aborto e suspender o financiamento público destinado a esse serviço. Trata-se, portanto, de uma organização com uma posição favorável ao direito de decisão reprodutiva, e não de uma organização antiaborto, como a denominação poderia sugerir no contexto brasileiro ou latino-americano. A AfD também se opôs categoricamente às iniciativas de flexibilização do artigo 218 do Código Penal alemão, que regulamenta juridicamente o aborto.

Um ponto importante para compreender a dimensão dessas propostas é a chamada “regulamentação do aconselhamento” (Beratungsregelung). Na Alemanha, o aborto continua formalmente incluído no Código Penal, mas não é punível quando a pessoa grávida realiza um aconselhamento obrigatório em uma instituição reconhecida, observa um período mínimo de três dias entre o aconselhamento e o procedimento e realiza o aborto dentro das primeiras doze semanas de gestação. Ou seja, trata-se de uma situação na qual o aborto permanece juridicamente considerado ilícito, mas deixa de ser punido quando determinadas condições são cumpridas. Em 2025, cerca de 96% dos abortos registrados na Alemanha foram realizados segundo essa regulamentação do aconselhamento, enquanto aproximadamente 4% tiveram como fundamento uma indicação médica ou criminológica. Restringir os abortos legais exclusivamente aos casos em que existe risco à vida ou à saúde da gestante ou em que a gravidez resulta de um crime, como estupro, significaria portanto retirar a base jurídica da grande maioria dos abortos atualmente realizados. Do ponto de vista feminista, essas iniciativas ultrapassam o debate jurídico sobre a proteção da vida em gestação: representam uma tentativa de subordinar a autonomia reprodutiva a uma concepção tradicional de família, maternidade e papéis de gênero.

Essa dimensão ganha ainda maior relevância quando as propostas da AfD são inseridas em uma ideologia pronatalista mais ampla. A Alemanha enfrenta, de fato, uma transformação demográfica profunda: em 2025 nasceram apenas 654.241 crianças, o menor número desde 1946, e a taxa de fecundidade caiu para 1,32 filho por mulher. Ao mesmo tempo, o país registrou um déficit natural de cerca de 352 mil pessoas, isto é, morreram muito mais pessoas do que nasceram. A baixa fecundidade e o envelhecimento colocam problemas reais para a previdência, o mercado de trabalho e a organização dos serviços públicos. É nesse contexto que políticas não etnonacionalistas de apoio à reprodução e à parentalidade, como o Elterngeld (benefício que compensa parte da perda de renda após o nascimento de um filho), a Elternzeit (licença parental com proteção do emprego), o Kindergeld (benefício financeiro destinado às famílias por filho), a expansão das Kitas (creches e instituições de educação infantil), benefícios fiscais e a Mütterrente (reconhecimento de períodos de criação dos filhos no cálculo da aposentadoria), podem ser compreendidas como instrumentos de política social. Seu objetivo é reduzir os custos econômicos da criação dos filhos e ampliar as condições materiais para que as pessoas possam ter os filhos que desejam, sem determinar quem deve reproduzir-se. A questão muda radicalmente quando o natalismo é articulado a um projeto nacionalista e etnonacionalista: nesse caso, a reprodução deixa de ser compreendida fundamentalmente como escolha individual ou questão de justiça social e passa a ser concebida como instrumento para assegurar a continuidade demográfica de uma determinada comunidade cultural ou étnica.

A história alemã oferece precedentes particularmente sombrios dessa transformação. Durante a Primeira Guerra Mundial, discursos sobre a maternidade passaram a apresentar a gravidez e a reprodução como uma espécie de equivalente feminino do serviço militar. Sob o nazismo, essa lógica foi radicalizada: a Mutterkreuz (Cruz de Honra das Mães Alemãs, condecoração concedida a mulheres consideradas racialmente “valiosas” por terem vários filhos) premiava a maternidade “racialmente desejável”, enquanto o Lebensborn (programa da SS destinado a promover nascimentos considerados racialmente desejáveis e, posteriormente, à germanização de crianças sequestradas nos territórios ocupados) buscava ampliar a reprodução de pessoas consideradas “arianas”. Ao mesmo tempo, o Estado nazista praticava uma política brutalmente antinatalista contra pessoas consideradas “indesejáveis”, através de esterilizações forçadas, perseguição e assassinato. Esse contraste é fundamental: o natalismo fascista nunca significou simplesmente “mais crianças”, mas mais reprodução de determinados grupos e menos reprodução de outros. A comparação histórica não significa equiparar a AfD ao nazismo, mas ajuda a compreender por que a relação entre reprodução, nacionalismo e poder estatal merece atenção crítica.

Na extrema direita contemporânea, essa lógica reaparece sob formas diferentes. A AfD defende uma nationale Bevölkerungspolitik (política populacional nacional) e associa o declínio demográfico à continuidade da população alemã, contrapondo políticas de estímulo à natalidade à imigração. O antigo slogan Kinder statt Inder (“crianças em vez de indianos”), utilizado no debate alemão de 2000 sobre a imigração de trabalhadores qualificados, condensava essa ideia de substituir parcialmente a imigração pela reprodução interna. Mais recentemente, discursos sobre uma demografische Wende (“virada demográfica”) podem combinar preocupações legítimas com envelhecimento e escassez de mão de obra com a ideia de que a imigração ameaça a continuidade cultural da Alemanha. É nesse ponto que a restrição ao aborto deixa de ser uma questão isolada e passa a integrar uma política de governança da reprodução: se cada nascimento é concebido como contribuição à sobrevivência demográfica da nação, a interrupção de uma gravidez pode ser reinterpretada como perda para a coletividade. Essa visão também aparece em subculturas digitais tradwife (movimento que idealiza papéis tradicionais de gênero, casamento, maternidade e famílias numerosas), nas quais a valorização da maternidade pode se combinar com discursos anti-imigração e de Remigration (projeto político de expulsão ou retorno forçado de pessoas consideradas estrangeiras ou não pertencentes à comunidade nacional). Como sintetizou Maria Antonietta Macciocchi, “a peste do fascismo deflagrou uma epidemia familista e natalista”. A questão contemporânea não é se o Estado deve apoiar quem deseja ter filhos, mas se a política demográfica amplia a liberdade reprodutiva ou transforma a reprodução em dever nacional.



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