Imagem: Congresso em Foco
O candidato de ultradireita Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), terminou o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT): 47,03% contra 45,16% dos votos válidos. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro. O PL sai com as maiores bancadas da Câmara e do Senado, e quem vencer governará com um Congresso com dominância da ultradireita. A disputa pelo Supremo Tribunal Federal também está em jogo, já que o próximo mandatário indicará quatro ministros à Corte.
O que as urnas disseram
Com 100% das urnas apuradas, Flávio teve 56,1 milhões de votos e Lula, 53,9 milhões. A diferença foi de 2,2 milhões, ou 1,87 pontos percentuais. Brancos e nulos somaram 4,8%. A abstenção chegou a 21%, cerca de 33,5 milhões de pessoas. Os quatro candidatos seguintes somaram 7,6% e estão todos à direita de Lula: Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Os outros seis ficaram, juntos, com 0,2%. É a primeira vez desde 1998 que Lula termina um primeiro turno em segundo lugar. Em 2022, ele superou Jair Bolsonaro por 5,23 pontos. Lula perdeu cerca de 3,4 milhões de votos em relação àquele primeiro turno.
Resultados nos estados
O mapa geográfico da distribuição de votos é bastante nítido. Flávio venceu em todos os estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste, no Distrito Federal e em quatro estados do Norte. Lula venceu nos nove estados do Nordeste e no Pará, no Amazonas e no Amapá. Minas, que costuma acompanhar o resultado nacional, deu 48,25% a Flávio e 43,31% a Lula.

Os governadores
O PL foi o partido com mais governadores eleitos no primeiro turno: seis (Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Santa Catarina). Além disso, partidos aliados à sigla levaram outros cinco estados no primeiro turno (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraíba, São Paulo, Pará). O PT conseguiu apenas três estados (Ceará, Bahia e Piauí), e seus aliados enfrentarão segundo turno em quatro estados.
O Congresso
A eleição definiu 54 das 81 cadeiras do Senado. O PL deve começar a legislatura, em fevereiro de 2027, com 28 senadores, um terço da Casa. Segundo a Agência Senado, é a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988. Na Câmara, a projeção da própria Casa dá ao PL 121 das 513 cadeiras, contra 99 em A federação de PT, PCdoB e PV fica em segundo, com 82. Aliados de Lula sofreram derrotas simbólicas. As ex-ministras Gleisi Hoffmann, no Paraná, e Simone Tebet e Marina Silva, em São Paulo, não se elegeram ao Senado. Renan Calheiros não se reelegeu em Alagoas. Do outro lado, Michelle Bolsonaro foi a mais votada no Distrito Federal, e Nikolas Ferreira voltou a ser o deputado mais votado do país, com 3,1 milhões de votos.
Efeitos previsíveis
Como esses números na Câmara e no Senado a ultradireita ganhou espaço para negociando com o chamado Centro propor e aprovar emendas constitucionais. Já o aumento do seu número de senadores abre espaço para mudanças das regras do Supremo Tribunal federal e impeachment de juízes. Se Lula vencer, terá portanto oposição do Congresso e dos governadores de quatro grandes estados do Centro-Sul. Se Flávio vencer, terá maioria congressual, apoio desses governadores mas oposição de governadores do PT no Nordeste.
Por que as pesquisas erraram
Na véspera, a maioria dos institutos mostrava empate técnico, com Lula numericamente à frente na maioria das sondagens. Só o Gerp dava vantagem a Flávio. O Datafolha de 03/10 acertou o percentual de votos de Lula e errou o de Flávio em cerca de cinco pontos. Essa pesquisa ,com 4.006 de entrevistas e margem de erro de 2 pontos, não apontava o encolhimento expressivo dos candidatos Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema que, juntos, perderam 3,4 pontos entre a pesquisa e a urna. Essa diferença explica mais da metade do erro.
Mas tampouco pesquisas que saíram nas semanas prévias ao pleito indicavam a discrepância: a sondagem BTG/Nexus, divulgada uma semana antes, apontava Lula com 42% e Flávio com 37%. Há duas explicações para o que se passou, e uma não exclui a outra. A primeira é o voto útil de última hora: eleitores da direita migraram para Flávio depois de dias de campanha pela vitória já no primeiro turno. A segunda é erro de medição, com eleitores de direita que não respondem às pesquisas. Só estudos feitos depois da eleição poderão separar uma coisa da outra.
Compilação de análises
Português
Análise dos dados
Congresso amplia presença feminina, mas vê avanço antifeminista – Folha de São Paulo
Bancada feminina bate recorde e é mais de esquerda que total da Câmara – Folha de São Paulo
Número de pessoas LGBT+ eleitas neste ano dobra em relação a 2022 – Carta Capital
Quem são as pessoas LGBTQIA+ eleitas em 2026 – Agência Diadorim
Quem é Thabatta Pimenta, primeira deputada federal trans do Nordeste – Folha de São Paulo
Jovens de direita e extrema-direita são maioria entre eleitos em 2026 – O Globo
Bancada evangélica perde 4 de 5 presidentes, e urnas desgastam velha guarda – Folha de São Paulo
Análise dos resultados
Vladimir Safatle e Jamil Chade comentam o resultado do 1º turno | Direto da Redação – Carta Capital
Para além da desolação – Revista Piauí
Flávio Bolsonaro na frente de Lula: o que isso diz de um povo? – Sumauma
A síndrome do segundo mandato – Folha de São Paulo
Espanhol
Lula contra un tsunami conservador – Nuso
Brasil y el problema que las izquierdas todavía no quieren mirar – Marco Fonseca (Substack)
Elecciones en Brasil: breve manifiesto contra la desolación – Nuso
¿Qué representa el nombre Bolsonaro? – Le Monde Diplomatique
Flávio o el mito de un «Bolsonaro moderado» – Nuso
La ola conservadora de América Latina llega a Brasil – El País
La ultraderecha mundial celebró el triunfo de Flavio Bolsonaro en Brasil – Página 12
La celebración de los votantes de Bolsonaro: “Dios está en estas elecciones” – El País
Inglês
Flávio Bolsonaro announces he wants to ‘reform the Constitution to redemocratize’ Brazil – El País
Brazil: The Future of the Far Right – Equator
Brazil’s Election Debacle Is Lula’s Fault – Project Syndicate
Brazil’s Voters Have Moved – Project Syndicate
A Bolsonaro Win Would Nearly Complete Trump’s Latin America Map – NY Times
Autoritarismo Brasil conservadorismos Direitos Sexuais LGBTQIA ultradireita