
Marco Aurélio Prado e Sonia Corrêa
Gênero & Urnas é uma plataforma coletiva de estudantes, pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do país, interessados em compreender como o gênero “aparece” no tempo eleitoral de 2026: nos planos de governo das candidaturas, na propaganda e nas narrativas e outros conteúdos circulando nas redes, em entrevistas, debates e embates das campanhas e no próprio pleito. Também vamos observar e analisar o que vem em seguida, no período pós-eleitoral imediato.
A presença do “gênero” nas eleições não é uma novidade. Ao longo do processo de redemocratização do país, a emancipação feminina e a igualdade de gênero, assim como a violência contra as mulheres, a saúde sexual e reprodutiva, o direito ao aborto e os direitos das pessoas LGBTIAQ+ foram questões tratadas nas disputas eleitorais. Há também uma longa história de candidaturas que fizeram do gênero e da sexualidade sua plataforma, e de conquistas que alteraram as próprias condições dessas disputas, como cotas por gênero e crescimento das candidaturas femininas e LGBT+.
Contudo, desde os anos 2010, os temas do “gênero” se converteram em alvos de ofensivas cada vez mais agressivas. Essa inflexão foi anunciada na campanha eleitoral de 2010, quando Dilma Rousseff foi fortemente atacada por ter, muito antes da campanha, manifestado apoio à legalização do aborto. Oito anos mais tarde, como se sabe, ataques sistemáticos contra a “ideologia de gênero” contribuíram, e muito, para insuflar os ventos da tormenta perfeita que levou Jair Bolsonaro ao poder.
Desde então, o “gênero” tem sido invocado para nomear e vilipendiar as mais diversas questões, convertendo-se em fonte infinita de significados negativos. O famigerado “kit gay” é, nesse sentido, exemplar. Era nada mais que um material didático para combater preconceitos nas escolas públicas, mas, em 2018, foi colado a uma rede de significação moralizadora e passou a conjurar elementos assustadores, mobilizando temores, incertezas e raiva. Um claro exemplo de como, em tempos eleitorais, o “gênero” afeta, espelha e cria significantes flutuantes que se agregam em fantasmagorias.
Isso acontece porque tanto a palavra em sí mesma quanto, sobretudo, a categoria acusatória em que foi convertida, a “ideologia de gênero”, têm enorme poder de incitar afetos e imaginários. O “gênero” é uma chave de leitura para compreender jogos de poder, desigualdade, identidades, pluralidade e direitos. Mas também, como temos assistido, fquando radicalmente distorcido, converte-se em ferramenta muito eficaz de produção de imaginários assustadores, ou, para usar a linguagem de Judith Butler, fantasmagorias.
A inquietação crescente com os ciclones afetivos e políticos que o gênero suscita em contextos de debate eleitoral, especialmente quando estão em jogo confrontos entre projetos políticos radicalmente opostos, inspirou a invenção de Gênero & Urnas. Como já dito, a partir desse espaço, acompanhamos as inscrições e as funções das múltiplas articulações do gênero ao longo do primeiro turno e vamos estender esse exercício ao que segue e ao que virá. Esse dossiê coloca em circulação os primeiros resultados desse esforço coletivo: reúne sete artigos breves, nos quais várias faces de uma complicada geometria de como o gênero está “aparecendo” na campanha eleitoral de 2026, polarizada e tensa, são examinadas mais de perto.
A presença do gênero na campanha presidencial de 2026, de Natália Assunção e Nana Soares, examina a inserção discreta de pautas de gênero nos documentos oficiais elaborados para informar a corrida presidencial. As autoras mostram que, nesses planos, o “gênero” se traduz predominantemente em políticas de resposta ao feminicídio, o que, em parte, se explica pelos números alarmantes da violência contra as mulheres. Também apontam que, no caso dos candidatos de direita ou ultradireita, o foco no feminicídio é sempre associado ao punitivismo e a políticas mais duras de segurança pública. O artigo, contudo, informa que oito dos doze planos não mencionam políticas para a população LGBTQIA+, sublinhando ainda que os programas dos quais constam propostas desse teor estão confinados às candidaturas minoritárias de esquerda (PCB, PSTU, PCO e UP). Finalmente, a análise registra que, no plano do governo de Lula, em cujos programas anteriores essas pautas já foram proeminentes, essas questões são abordadas de maneira genérica, associadas aos guarda-chuvas da vulnerabilidade social ou aos indicadores estatísticos.
Gênero eleitoral: do “kit gay” à violência de gênero e a política “mano dura”, de João Maracci e Silas Lindolfo, explora a pergunta “Onde está o ‘kit gay’ em 2026?” para analisar o lugar do gênero no ciclo eleitoral. Ao fazer isso, leva mais longe as análises do problema identificado por Soares e Assunção: na atual eleição, feminicídio se tornou sinônimo de “gênero” e as soluções, sobretudo à direita do espectro, desaguam no estuário das medidas radicais de “redução da criminalidade”. Monitorando as redes sociais de todas as candidaturas à Presidência, o artigo mostra que o vácuo de conteúdos sobre diversidade sexual e de gênero foi ocupado pela violência de gênero, em especial pelo feminicídio, problemas inscritos na gramática do punitivismo, da criminalização e do encarceramento. Ou seja, o gênero já não está aparecendo abertamente na semântica dos candidatos presidenciais como antifeminismo, homofobia ou transfobia. Mas agora, inscrito como um problema de violência social e crime, tornou-se um dos canais por meio dos quais o “modelo Bukele” vem ganhando espaço na retórica política nacional.
Seguem-se três artigos que abordam frontalmente como as questões LGBTQIA+ , obscurecidas pela semântica da disputa presidencial estão aparecendo nos demais espaços do cenário eleitoral, sejam as campanhas legislativas, sejam processos locais que, em geral, escapam à atenção da grande mídia ou mesmo dos estudos eleitorais panorâmicos
Diversidade à Direita? Candidaturas LGBT + D, Marco Aurélio Máximo Prado e Paulo Bevilacqua interrogam as candidaturas LGBT+ no campo da direita e os sentidos que esta presença aponta para uma nova articulação do sistema sexo/gênero nas pautas representacionais das políticas partidárias, com efeito, sem dúvida, para enquadramentos conservadores que reatualizam ideias e políticas de gênero na contemporaneidade.
Ofensivas antitrans no Piauí em 2026, de Dandara Leite Carvalho, expõe a face fantasmagórica do gênero, sobretudo no que diz respeito aos direitos de identidade de gênero. A autora torna visíveis as ofensivas antitrans no Piauí no momento da pré-campanha eleitoral, entre janeiro e junho de 2026, tecendo fios que mostram como fatos locais num estado “longínquo”, do qual quase nunca se fala, estão organicamente vinculados às dinâmicas nacionais e transnacionais de propagação do repúdio e do medo ao gênero.
No texto Uma mulher trans e a transfobia disputam a maior votação de São Paulo, Bruna Camargo analisa o confronto escancarado entre afirmação dos direitos das pessoas trans encarnada na candidatura de Erika Hilton e transfobia política crescente no cenário brasileiro que tem como um de seus atores principais o vereador paulista Lucas Pavanato que também disputa um lugar na Câmara Federal. Numa análise breve, mas muito acurada, Camargo examina de perto como essa oposição, mais que acirrada, é muito mais ampla e profunda do que uma mera divergência político-eleitoral: o que está em jogo nela é, de fato, uma disputa estrutural sobre princípios e gramáticas que determinam os horizontes democráticos do país.
Em seguida, Nana Soares e Sonia Corrêa, em Quem diz proteger a infância deveria não querer que crianças engravidassem, artigo originalmente publicado no portal Azmina, abordam a interseção entre a forte retórica de proteção da infância dos planos presidenciais de 2026 e a ausência de propostas sobre direitos sexuais e reprodutivos. A análise dos programas de todos os candidatos à presidência mostra que a defesa da infância está por todo lado, mas ninguém menciona o direito das crianças estupradas de acessar informações sobre direitos e serviços de saúde que as apoiem nessas condições dramáticas. Com base nos resultados de uma pesquisa IPSOS-IPEC, contratada pela Campanha Criança não é Mãe, a análise sublinha como esse flagrante vazio contrasta com a percepção da sociedade, que tanto apoia a existência de serviços quanto o direito ao aborto nesses casos.
Finalmente, em Resistindo à ultradireita nas eleições de 2026: iniciativas feministas e LGBTQIA+, Gabriela Oliveira, a partir de observações empíricas coletadas para sua tese de doutorado, mapeia coalizões e iniciativas específicas para analisar e responder a ameaças e riscos do processo eleitoral que afetam mais diretamente ativistas feministas e LGBTQIA+, sobretudo pessoas negras e indígenas. O artigo ilumina a riqueza e a criatividade dessas plataformas voltadas para a batalha contra a desinformação e para os cuidados (digitais, pessoais e psicológicos). Também enfatiza o significado estratégico de “unir as lutas”, em contextos, como as eleições, nos quais os riscos de consolidação política da ultradireita ganham nova escala. Sobretudo, sublinha que, sendo a mobilização dos afetos um traço central das estratégias dessas forças, as políticas de cuidado são um pré-requisito para sustentar a resistência dos feminismos e dos ativismos antirracistas e LGBTQIA+.
antifeminismos antigênero Brasil conservadorismos Direitos Reprodutivos Direitos Sexuais direitos trans Feminismos gênero LGBTQIA transfobia ultradireita