
Como temos analisado desde 2022, o esporte é hoje um conflagrado campo de batalha centrado na participação de mulheres trans. Nesses embates, as forças conservadoras antigênero se entrelaçam com posições de defensoras dos direitos das mulheres – muitas das quais se definem como feministas — cuja pauta é a suposta defesa do lugar das mulheres nos esportes. O resultado desses embates tem sido o cerceamento e exclusão de atletas trans dos espaços esportivos.
No nosso primeiro artigo, apontamos a atualização das regras da Federação Internacional de Natação (FINA) como fator crucial para entender o que poderia vir a acontecer nessa disputada esfera. Isso porque a decisão da FINA se deu alguns meses após mudança de diretriz do Comitê Olímpico Internacional (COI), que transferiu às federações esportivas a regulação de suas modalidades.
Desde então, tal como previsto, regras proibindo a participação de mulheres trans se multiplicaram, espraiando-se a todos os níveis de competição, inclusive o esporte em nível amador ou escolar. Além disso, nas Olimpíadas de Paris 2024, a boxeadora Imane Khalif foi vítima de um grotesco episódio de transfobia.
Em março de 2026, o COI uma vez mais alterou suas regras para proibir o acesso das mulheres trans aos esportes de elite, restaurando, a partir das Olimpíadas de 2028, a obrigatoriedade do teste genético de sexo que havia sido abolida em 2000. Essa nova norma já foi validada por muitas confederações, inclusive a Federação Internacional de Vôlei (FIVB). No caso do Brasil, onde Tiffany Abreu, jogadora trans, atua profissionalmente, essa decisão adicionou água ao moinho de vozes e posições transexcludentes que, também desde 2022, têm ganhado espaço, visibilidade e robustez institucional.
Nesse contexto conflagrado, temos uma grata notícia. Estamos disponibilizando a tradução ao português de dois recursos fundamentais para compreender os vieses e limitações estruturais das novas regras do COI no que diz respeito aos seus fundamentos científicos e seus desdobramentos em termos de direitos humanos, privacidade e segurança.
O primeiro deles é um FAQ elaborado pelo consórcio Sex Testing in Sport (STS), um grupo editorial interdisciplinar cujo objetivo é fornecer uma análise independente e transparente das dimensões jurídicas, científicas, éticas, de proteção e de equidade das políticas de testes de sexo no esporte. O FAQ traz, em linguagem direta, simples e objetiva, informações sobre o teste genético de sexo (o que é, o que informa e o que não informa, suas limitações), as políticas adotadas pelo COI historicamente e os problemas da nova normativa sob diferentes ângulos, como os biomédicos, políticos, de sigilo e privacidade de dados e suas implicações para a inclusão e a equidade. A versão em português foi traduzida pelo SPW e, além dela, o FAQ também está disponível em inglês e espanhol.
A equipe de pesquisadores que escreveu o FAQ – Madeleine Pape, Marcus Mazzucco, Payoshni Mitra e Sone Erikainen – ainda escreveu um artigo exclusivo para o SPW resgatando o histórico que levou a essa nova política, quais são as principais questões em xeque, por que ela preocupa e apresentando iniciativas de enfrentamento qualificado.
Recursos indispensáveis no atual contexto brasileiro
O FAQ elaborado pelo consórcio Sex Testing in Sport (STS) é um instrumento crucial para questionar os fundamentos que ancoram as regras do COI e da FIVB. Ou seja, o paradigma essencialista superado pelos novos achados da pesquisa em biologia, o qual também alimenta as visões e posições que, no âmbito social e político, repudiam, com vigor crescente, a transgeneridade. Sua relevância no caso brasileiro pode ser ilustrada pelo recente caso de agressão ao jornalista Caê Vasconcelos e a proibição de jogar imposta à atleta de vôlei Tifanny Abreu.
Há muito tempo o jornalista esportivo Caê Vasconcelos, homem trans e especialista em futebol feminino, tem sofrido sistemáticos ataques transfóbicos em suas redes e nas de sua atual emissora, a ESPN Brasil. No programa Mina de Passe de 31 de julho de 2026, Caê falou sobre a situação, afirmando emocionado que os ataques não o impedirão de seguir existindo e exercendo sua profissão. Lamentamos profundamente as agressões de que Caê foi vítima e transmitimos a ele nossa solidariedade.
Contudo, essa virulência lamentavelmente não nos surpreende, pois reflete a vertiginosa intensificação dos ataques antitrans no Brasil desde 2023. Por isso, celebramos sua coragem para enfrentar esses ataques e expor as origens desta violência, assim como parabenizamos a ESPN Brasil e o Sindicato de Jornalistas de São Paulo pelas firmes respostas institucionais em defesa do jornalista. A ESPN levou ao ar, na TV e nas redes sociais, um robusto repúdio à discriminação de que Caê foi vítima, e o Sindicato de Jornalistas do Estado de São Paulo fez uma nota pública condenando os ataques feitos a um profissional no exercício de seu ofício. Esperamos que respostas institucionais como estas se multipliquem para fazer frente às virulentas ofensivas transfóbicas que continuam a ganhar tração no Brasil.
Duas semanas mais tarde, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) aderiu à nova e excludente regra da Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Isso significou a exclusão imediata da jogadora Tiffany Abreu, atleta trans que joga pelo Osasco. Essa medida causou muita indignação no ambiente esportivo, inclusive porque a decisão foi comunicada à jogadora sem qualquer estudo ou aviso prévio e com a temporada de clubes já iniciada. O clube de Tiffany já informou publicamente que vai recorrer da decisão. A jogadora, por sua vez, declarou que “A CBV está tirando tudo o que eu tenho”, adicionando que “voltamos para a forma vexatória como se testavam as atletas nos anos 60/70″.
Ataques contra Tiffany, que joga profissionalmente em equipes femininas há cerca de 9 anos, não são uma novidade, mas intensificaram-se em 2026, concomitantes com a publicação das novas regras do COI e da FIVB. Em fevereiro, a Câmara Municipal de Londrina, no Paraná, aprovou uma resolução para impedir que Tiffany jogasse a final de um campeonato que seria sediado no município. À época, a CBV acionou o STF, que liberou sua participação.
Tanto em fevereiro como agora, as torcidas manifestaram apoio incondicional à Tiffany, ovacionando seu nome em quadra. Apoios institucionais, no entanto, têm sido mais escassos. Entre os clubes, apenas o próprio Osasco, diretamente afetado pela regra, se manifestou. Ademais, segundo a imprensa especializada, a decisão da CBV foi parcialmente motivada por pressão de agremiações rivais. Entre atletas, manifestaram-se Key Alves e Brionna Butler (colegas de clube), Valquiria Dullius (ex-colega de clube). O apoio mais importante entre as pares veio de Gabriela Guimarães, capitã da seleção brasileira de vôlei e considerada a melhor jogadora do mundo.
Gabi postou um longo texto em seu Instagram questionando o abandono à Tiffany (sem mencionar diretamente a CBV), a instrumentalização da pauta LGBT para fins comerciais e a homotransfobia que os atletas das seleções adultas têm sofrido recentemente. Seu texto foi endossado por Rosamaria Montibeller, também da seleção adulta, por Julia Bergmann e Luzia Nezzo, também da equipe nacional. Outros apoios de peso vieram de três ex-atletas da modalidade e grandes ídolos do vôlei brasileiro: Sheilla Castro, Fabi Claudino e Fabi Alvim. Sheila e Fabi Claudino reforçaram que Tiffany sempre cumpriu todas as regras e jogou de forma regular e que, agora, se vê abandonada pela Confederação, impedida de seguir com seu trabalho. Já na imprensa, Milly Lacombe, Alicia Klein, Amara Moira e Demétrio Vecchiolli têm criticado duramente a decisão da CBV.
É improvável que Tiffany jogue a próxima temporada da Superliga, mas seu nome certamente seguirá mobilizando o debate. Seu caso, que implica uma forma de exclusão pessoalizada, tem grande potencial para agregar solidariedade e alianças inesperadas em torno à defesa dos direitos das pessoas trans. Por outro lado, no contexto da acirrada eleição geral que agora se inicia, também tem tudo para se converter em mote preferencial de candidatas e candidatos que se opõem a esses direitos, sobretudo os que disputam vagas parlamentares. Pesquisas que captam tendências da dinâmica eleitoral já estão, inclusive, detectando essa tendência. Por isso, reforçamos que recursos como o FAQ podem ser cruciais para qualificar a resistência de todas as pessoas que se levantam contra as injustiças em curso.
Recursos adicionais
- Em recente entrevista traduzida ao português pela UNISINOS, Judith Butler sublinha os traços potencialmente genocidas das politicas antigênero que varrem hoje os Estados Unidos e muitos outro contextos, inclusive o Brasil.
- Artigo de Bruna Benevides, presidenta da ANTRA, que expõe como o essencialismo biológico transforma diferenças corporais em destino e naturaliza a supremacia cisgênera.
- Artigo de Françoise Girard (traduzido pelo SPW) sobre a decisão da Suprema Corte dos EUA que permite aos estados proibir meninas e mulheres trans de integrarem equipes esportivas femininas.
Boas leituras!