
Olá,
Esta é a sexta edição do Boletim Políticas Trans: Ofensivas e Resistências, uma iniciativa conjunta da ANTRA, SPW e NUH/UFMG.
Nesta edição, republicamos uma entrevista com Keila Simpson, ex-presidenta da ANTRA, para a Gênero e Número. Também falamos sobre a crescente censura aos debates sobre gênero em sala de aula e sobre o ataque aos direitos de pessoas trans encarceradas na Escócia.
As edições anteriores do boletim estão disponíveis aqui.
Keila Simpson: ‘Direitos de pessoas trans não retiram direitos de mulheres cis’
Keila Simpson, ex-presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e uma das ativistas LGBTQIA+ mais importantes do Brasil, disse em entrevista à Gênero e Número que os direitos da população trans não retiram os direitos de pessoas cis: “Dar ou resguardar direitos de pessoas trans não vai fazer com que os direitos das mulheres cis sejam retirados. A gente não pede isso e nunca vai advogar por isso”, afirma.
Na entrevista com a repórter Mariana Rosetti, Keyla reflete sobre três décadas de ativismo, os gargalos da Lei Maria da Penha para a população trans e a urgência de que o Estado brasileiro crie mecanismos efetivos para que travestis e mulheres transexuais possam envelhecer com apoio e segurança.
Nascida em Pedreiras (MA), Keila trabalhou como empregada doméstica em Teresina (PI), cruzou Recife (PE) e fincou raízes em Salvador (BA), onde iniciou seu ativismo. Em 1990, no epicentro da epidemia de HIV, passou a distribuir preservativos às colegas travestis que sobreviviam da prostituição. Apesar de sua atuação política, Keila não deixou de experimentar na própria pele as discriminações impostas às pessoas dissidentes da cisgeneridade. Em 2022, tornou-se a primeira travesti a receber o título de Doutora Honoris Causa no Brasil, outorgado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ): “Eu sou uma travesti de 61 anos e tenho a meta de chegar aos 100. Vim com a missão de não sair daqui sem deixar um rastro”, disse Keila.
Cotas para pessoas trans são aprovadas na UFPR
A Universidade Federal do Paraná (UFPR) aprovou, em 1º de julho, a reserva de vagas para pessoas trans. Com a decisão, a UFPR se tornou a 40ª universidade a assegurar cotas ou políticas específicas de acesso na graduação para a comunidade trans e travesti. No dia 30 de junho, a universidade realizou um evento de formação sobre o tema “Cotas Trans no Ensino Superior”. O debate contou com a participação da Profa. Dra. Joyce Alves da Silva, pró-reitora de Assuntos Estudantis da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Leia mais: Observatório das Cotas Trans – ANTRA
Debate sobre ‘neutralidade’ nas universidades revela desconforto com inclusão
Em coluna na revista AzMina, Gisa Carvalho analisa como o avanço das políticas de inclusão nas universidades brasileiras, especialmente na última década, vem gerando incômodos. Segundo ela, antes das cotas, discursos elitistas, excludentes, misóginos, transfóbicos e racistas circulavam nas universidades sem maiores contestações. “Quando pessoas pobres, negras, trans, mulheres – historicamente excluídas – começaram a acessar e ocupar esses espaços de debate, passaram também a questionar esses discursos de marginalização”, escreve Gisa.
Para a autora, pesquisadoras e pesquisadores que sempre detiveram poder sobre as narrativas que ganharam relevância nas universidades passam a reivindicar o direito à liberdade de pensamento (ou à neutralidade). Esses pensamentos reivindicados, no caso, são acompanhados de argumentos misóginos, transfóbicos, racistas, xenofóbicos.
Esse novo e paradoxal cenário mobilizou a elaboração do contramanifesto Pluralismo Encarnado, articulado, entre outros intelectuais, pelo professor Marco Aurélio Máximo Prado, da Universidade Federal de Minas Gerais. A proposta interroga, com vigor, a concepção liberal e abstrata de pluralismo defendida por alguns professores e professoras universitários. Ao questionar uma neutralidade impossível: “não estamos apagando posições ideológicas, mas reconhecendo que todo conhecimento é produzido a partir de marcas históricas, sociais e políticas”.
Leia o texto de Gisa Carvalho para AzMina no link abaixo.
Leia mais: A suposta neutralidade nas universidades e o incômodo com a inclusão – AzMina
Projetos anti-LGBTQIA+ buscam censurar debate sobre gênero nas escolas
A principal pauta dos projetos de lei anti-LGBTQIA+ no Brasil mudou. Entre 2020 e 2021, a maior parte das propostas legislativas sobre a matéria se concentrava na proibição da linguagem neutra. Mas em 2025 e nos cinco primeiros meses de 2026, o tema recorrente passou a ser a censura escolar, categoria que reúne iniciativas voltadas à restrição de conteúdos sobre diversidade sexual e de gênero no ambiente educacional.
Os dados são da atualização mais recente da Observatória, plataforma da Agência Diadorim que monitora e classifica PLs relacionados à população LGBTQIA+ nas assembleias legislativas estaduais, na Câmara dos Deputados e no Senado. O levantamento de Camilla Figueiredo mostra que a censura escolar respondeu por 25% dos projetos anti-LGBTQIA+ apresentados em 2025 e por 33,3% das propostas registradas nos cinco primeiros meses deste ano.
Leia mais: Censura escolar vira principal bandeira dos projetos anti-LGBTQIA+ no Brasil – Agência Diadorim
STM se ilumina com as cores LGBT+ pela primeira vez em 200 anos
Pela primeira vez em 218 anos, o Superior Tribunal Militar foi iluminado nas cores do arco-íris em homenagem ao mês do Orgulho LGBTQIA+.
A ministra-presidente do tribunal, Maria Elizabeth Rocha, disse que a iniciativa vai além de um gesto simbólico. Representa uma afirmação pública de compromisso institucional com a dignidade humana, com o respeito às diferenças e com a construção de uma sociedade em que nenhuma pessoa seja diminuída por sua forma de existir, amar, sentir ou participar da vida coletiva.
“As cores que hoje revestem esta Casa não são mero ornamento. Elas comunicam uma mensagem clara: a Justiça não pode permanecer indiferente às desigualdades que atravessam a experiência concreta de determinados grupos sociais. Ao contrário, deve estar atenta às vulnerabilidades historicamente produzidas e às barreiras que, muitas vezes, impedem que a igualdade prometida pela Constituição se realize de maneira efetiva”, destacou Maria Elizabeth.
Leia mais: STM se ilumina em homenagem ao mês do Orgulho LGBT pela primeira vez em mais de 200 anos – Veja
Em visita ao Brasil, Comissão Interamericana monitora políticas LGBT+
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) realizou uma missão ao Brasil entre os dias 10 e 12 de junho de 2026. Um dos objetivos da visita foi o monitoramento das políticas públicas voltadas à defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+. A delegação da CIDH foi liderada pelo Comissário José Luis Caballero, relator para o Brasil e direitos das Pessoas LGBTI. A comitiva também contou com a participação da Secretária Executiva da Comissão, Tania Reneaum Pansz.
Durante os três dias de agenda em Brasília, a delegação se reuniu com altas autoridades governamentais e com órgãos do sistema de justiça. Esteve nos Ministérios das Relações Exteriores e dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), nesse último com foco na atuação da Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+.
Leia mais: CIDH conclui visita de trabalho ao Brasil para monitorar direitos das pessoas LGBT+
INTERNACIONAL
Em meio a uma onda política ultraconservadora, Peru realiza primeira Marcha Trans
“Esta marcha é a consolidação da nossa existência política e territorial”. Assim, Dani Silva Pastor, advogado peruano e pessoa transmasculina, integrante da organização do evento, sintetizou o que significou a Primeira Marcha Trans e não-binária realizada em Lima, capital do país, em 28 de março.
Cerca de 500 pessoas ocuparam as ruas numa mobilização que ocorreu num momento político crítico. O contexto era de um segundo turno eleitoral incerto, num cenário regional em que a ultradireita e fundamentalismos religiosos avançam de forma articulada, fazendo, em muitos casos, das identidades trans seu alvo político principal.
“Nos últimos anos, a transfobia se positivou no plano normativo”, explica Silva Pastor. O que antes operava como exclusão social hoje se traduz em leis, decretos e políticas públicas que buscam limitar, criminalizar e patologizar as identidades trans. “Estamos em um ano eleitoral em que se reativaram narrativas de ódio. Nossas identidades são utilizadas como cortina de fumaça para desviar dos problemas estruturais do país”, afirma.
Leia mais: 1ª Marcha Trans do Peru desafia onda conservadora no país – Transmídia
Suprema Corte dos EUA autoriza veto a mulheres trans em esportes femininos
A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que os estados podem restringir a participação de meninas e mulheres trans em equipes esportivas femininas. A decisão, tomada por 6 votos a 3, valida leis aprovadas em Idaho e na Virgínia Ocidental e é uma vitória para setores da sociedade e governos estaduais republicanos que defendem a divisão das competições com base no sexo atribuído no nascimento.
O julgamento não cria uma proibição nacional, mas autoriza os estados a manter ou aprovar regras que impeçam atletas trans de competir em categorias escolares e universitárias femininas. A decisão foi comemorada pelo presidente Donald Trump nas redes sociais. Em publicação no Truth Social, ele classificou o julgamento como uma vitória para sua agenda. “Grande vitória: a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que homens não podem competir em esportes femininos. Uau! Isso elimina de vez essa situação absurda!”, escreveu Trump.
M. Gessen, articulista trans do New York Times, analisou em detalhe, em sua coluna, os argumentos da maioria ultraconservadora e os votos dissidentes das juízas Helena Kagan, Ketanji Brown e Sonia Sotomayor concluindo que: “O esporte pode ser um instrumento de inclusão. O mesmo se aplica à lei. Mas, nas mãos deste tribunal, os princípios e as práticas que outrora se destinavam a garantir direitos a mais pessoas tornam-se, muitas vezes, ferramentas de exclusão”.
Leia mais: Suprema Corte dos EUA restringe atletas trans em competições femininas – Congresso em Foco
Artigo de M. Gessen (em inglês): The Transgender Sports Decision Was About Something Deeper Than Law – NYT
Estudo aponta mudança da cobertura sobre pessoas trans no NYT
Uma análise dos textos publicados no The New York Times sobre trans nos últimos anos identificou uma franca guinada em direção à maior hostilidade do jornal em relação à questão. A pesquisa, elaborada pela pesquisadora independente Alejandra Caraballo para o site The Dissident, analisou 3.242 textos publicados no jornal americano entre 2014 e 2026.
A cobertura sobre pessoas trans manteve um enquadramento mais afirmativo e protetivo até 2025, quando o tom dos artigos passou a ser majoritariamente cético e restritivo. Essa mudança ocorreu de forma mais acentuada em textos sobre serviços de saúde para crianças e adolescentes trans. O The New York Times negou a acusação de viés editorial contra pessoas trans.
Leia mais: How The New York Times Changed Its Coverage of Trans People – The Dissident
Justiça da Escócia ordena transferência de detentas trans para presídios masculinos
Um tribunal da Escócia derrubou medidas administrativas que garantiam a pessoas trans encarceradas o direito de cumprirem pena em presídios de acordo com a sua identidade de gênero. Após a decisão, detentas trans foram transferidas para presídios masculinos. A decisão é resultado de uma ação judicial movida pelo grupo antigênero For Women Scotland. O governo escocês havia afirmado que não iria recorrer.
O novo julgamento sobre pessoas trans nas prisões escocesas baseia-se na decisão da Suprema Corte do Reino Unido que, em abril de 2025, determinou a exclusão de mulheres trans da definição de mulher para efeitos legais.
Leia mais: Scotland moves trans women prisoners back to male jails – Inside Time
Turquia debate projeto que pode levar à maior criminalização de pessoas LGBTQIA+
A mídia turca informou que o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan elaborou um novo documento para os parlamentares do seu Partido da Justiça e Desenvolvimento, propondo emendas legais para ampliar a criminalização de pessoas LGBTQIA+. O texto replica o conteúdo de um projeto de lei anterior, vazado para a mídia em outubro de 2025, que, após protestos de movimentos sociais turcos e transnacionais, não foi analisado pelo Parlamento. A proposta previa punições por “atitudes e comportamentos contrários ao sexo biológico e à moralidade pública”, bem como por qualquer ato de elogio ou promoção dessas condutas, com penas de prisão de até três anos.
Na Turquia, onde a cirurgia de redesignação é um pré-requisito para o reconhecimento legal de gênero, a proposta elevava a idade mínima para a redesignação sexual a 25 anos, impunha a esterilização compulsória antes do procedimento e proibia pessoas com filhos de realizá-lo. Segundo a HRW, a possibilidade de aprovação de uma lei com esse conteúdo implicará a ampliação desmesurada da discriminação contra pessoas trans.
Leia mais: Abusive Anti-LGBT Proposals Resurface in Türkiye – Human Rights Watch