Sexuality Policy Watch [PTBR]

Marcha do Orgulho em Budapeste: Entrevista com Judit Takács  

Apresentação  

Em novembro de 2025, a revista Feministische Studien publicou uma entrevista com Judit Takács, socióloga queer húngara sobre o significado e efeitos políticos da grande Marcha do Orgulho LGBTQIA que aconteceu em Budapeste em junho de 20251. Consideramos que era urgente traduzi-la ao português nesse momento em que, nos mais variados contextos, analistas se dedicam a interpretar as causas e consequências da fragorosa derrota de Victor Orbán nas eleições de 12 de abril de 2026.    

Apesar da diversidade das lentes usadas, as recentes eleições húngaras emergem da maioria dessas análises como um potencial ponto de inflexão na persistente trajetória de desdemocratização que tem varrido a Europa e as Américas desde o começo dos anos 2010. Na entrevista, Judit Takács, significativamente, também interpreta a Marcha do Orgulho de 2025 como ponto de virada na dinâmica de contestação e resistência ao regime que agora começa a ser desmantelado na Hungria.   

Sonia Corrêa  

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Judit Takács em conversa com Mona Mokatef  2

Uma das maiores manifestações LGBTIQ+ da Europa nos últimos anos teve lugar na Hungria. Mais de 200.000 pessoas participaram na Parada do Orgulho em Budapeste no final de junho de 2025. Inicialmente proibida pelo governo Orbán, o presidente da Câmara de Budapeste, Gergely Karácsony, declarou a Parada um evento municipal para contornar a proibição. Enquanto as Paradas do Christopher Street Day que acontecem em algumas cidades da Europa ocidental são hoje em dia questionadas como festas excessivamente comercializadas, o significado político da parada em Budapeste foi inequívoco. Milhares de pessoas marcharam para exigir direitos LGBTIQ, para expressar a sua resistência às políticas do governo, bem como para defender o futuro democrático da Hungria. Qual é o significado da Parada do Orgulho de Budapeste de 2025 no contexto das políticas antifeministas e anti-LGBTIQ+ dos tempos atuais? Que consequências tem a marcha, tendo em conta a perda de confiança pública e os crescentes protestos políticos contra o governo de Orbán?  

Exploramos estas questões e outras com Judit Takács, socióloga especializada em gênero e família e investigadora de renome no Centro de Ciências Sociais da ELTE – Centro de Excelência da Academia Húngara de Ciências, em Budapeste. A sua investigação está centrada na interseção entre  gêneros, sexualidades e práticas familiares na Europa Central e Oriental. Tem uma vasta produção publicada sobre a história social da homossexualidade, homofobia, fobia do género, práticas familiares, paternidade e ausência de filhos.   

Mona Motakef: Comecemos por falar dos seus interesses de pesquisa e da sua experiência profissional: a sua pesquisa e o seu envolvimento político têm sido fortemente influenciados pelos desenvolvimentos políticos na Hungria. Poderia nos dar uma ideia do que significa para você trabalhar na área da sociologia, dos estudos de gênero e dos estudos queer na Hungria atual? 

Judit Takács: Trabalhar em sociologia, e especialmente em estudos de gênero e queer na Hungria de hoje significa estar constantemente conciliando o compromisso intelectual com restrições políticas. Por um lado, essa área cresceu significativamente nas últimas duas décadas, com muitas e muitos acadêmicos produzindo investigações críticas sobre práticas familiares e de cuidados, desigualdades, sexualidades e ativismo, que se entrelaçam com debates globais. Por outro lado, as políticas cada vez mais restritivas do governo – tais como a remoção dos programas de estudos de gênero dos currículos universitários, a estigmatização da “ideologia de gênero” e a proibição da marcha do Orgulho em 2025 – criam um ambiente em que tanto a pesquisa como o ensino são vistos como atos politicamente arriscados. Trabalhar sob uma lógica de deslegitimação pública persistente pode levar a um sentimento de marginalização, mas também confere ao campo uma relevância particular. Muitos de nós – eu certamente – entendemos nossas pesquisas não apenas como investigação acadêmica, mas como uma forma de envolvimento cívico, que contribui para lutas mais amplas pela democracia, igualdade e liberdade. Nesse sentido, fazer estudos de gênero e queer na Hungria hoje é precário, mas também é significativo, pois faz parte da resistência mais ampla ao autoritarismo e à erosão dos direitos. 

MM: O que significa lutar pelos direitos das pessoas LGBTIQ+? 

JT: Lutar pelos direitos das pessoas LGBTIQ+ hoje em dia significa insistir na dignidade fundamental dos indivíduos num contexto em que esses direitos são cada vez mais instrumentalizados e erodidos. Na Hungria, a luta não se resume apenas a buscar proteções legais e mudanças políticas, mas também implica contestar as narrativas que retratam as vidas queer como ameaças à “nação”, aos “valores familiares” e à tradição húngara “autêntica”. Envolve visibilidade – marchas, organização, publicações –, mas também resiliência na vida cotidiana: criar espaços seguros onde as pessoas possam viver livremente e fiéis a quem são, apesar da hostilidade. 

A resistência é tanto simbólica como material. Por um lado, trata-se de destacar como a marginalização das minorias sexuais e de gênero acompanha, frequentemente, restrições à liberdade de expressão, de associação e de existência de uma cidadania participativa. Implica afirmar que as vidas LGBTIQ+ importam, contrariando o silenciamento e a estigmatização que dominam os meios de comunicação estatais. Por outro lado, também se trata de garantir o acesso aos cuidados de saúde, à educação, ao emprego e à segurança: áreas onde a desigualdade e a discriminação são muito reais. Numa perspectiva sociológica, nesse contexto, o ativismo funciona tanto como defesa de direitos concretos – por exemplo, o reconhecimento de diversas formas de família – como desafia narrativas hegemônicas que posicionam os temas LGBTIQ+ como “anormais” e/ou ameaçadores. 

Por vezes, depara-se com a opinião, no âmbito da sociologia, de que os temas LGBTIQ+ não seriam as questões mais prementes no âmbito das desigualdades na Hungria. Embora seja verdade que a sociedade húngara é marcada por múltiplas e interseccionais formas de desigualdade – incluindo aquelas relacionadas com a classe social, a etnia, as disparidades regionais, etc. –, as questões LGBTIQ+ estão entrelaçadas com estas estruturas mais amplas. A marginalização baseada na orientação sexual, identidade de gênero e/ou características sexuais  se cruza com a precariedade econômica, o acesso aos cuidados de saúde e à educação, e a representação política. Ignorar as desigualdades LGBTIQ+ é correr o risco de negligenciar as formas como os quadros normativos da família, da cidadania e do pertencimento social excluem sistematicamente certos grupos. Estudar este campo oferece, assim, insights importantes sobre os mecanismos de poder, estigma e controle social que moldam as desigualdades de forma mais geral. 

MM: Como e onde você acompanhou a Parada do Orgulho deste ano em Budapeste? 

JT: Acompanhei a marcha do Orgulho fora do país, pois participando de uma conferência em Liubliana, na Eslovênia. No entanto, nossa família estava representada na marcha por um dos nossos filhos. Ao mesmo tempo, um querido amigo esloveno nosso participou do Orgulho de Budapeste, creio que pela primeira vez. Ele nos contou sobre a escala  impressionante do desfile e sobre as árduas exigências físicas de uma longa marcha numa tarde quente de verão. 

MM: Há anos, sob o pretexto da “proteção das crianças”, o governo Orbán tem restringido severamente os direitos das pessoas LGBTIQ+. Poderia descrever estes desenvolvimentos políticos e jurídicos? Quais são as suas consequências para a Parada do Orgulho? 

JT: Desde 2021, o governo húngaro, liderado pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, aprovou uma série de medidas legislativas sob o pretexto de “proteger a infância”, as quais restringiram significativamente os direitos das pessoas LGBTIQ+. Discuti estas medidas em pormenores no artigo sobre “Resisting Genderphobia in Hungary” (publicado em Politics and Governance: https://doi.org/10.17645/pag.v10i4.5528 ). A gênerofobia, entendida seja como uma ideologia enraizada no medo da diversidade de gênero, seja como estratégia deliberada de alarmismo para fins políticos, é um traço definidor da agenda cada vez mais abrangente da ultradireita. Agenda essa que tem sido ativamente implementada desde a criação pelo governo Orbán, em 2010,  do chamado “Sistema de Cooperação Nacional”.  

Desde 2020, apenas os casais casados podem adotar crianças na Hungria. Os requerentes solteiros, incluindo lésbicas e gays, só podem adotar com  autorização explícita do ministro responsável pelos assuntos familiares, o que, na prática, impôs obstáculos adicionais à adoção por parte de candidatos não heterossexuais.  

Seguiu-se a 9ª Emenda à Lei Fundamental húngara, aprovada em 15 de dezembro de 2020, introduzindo alterações muito significativas e negativas para os direitos LGBTIQ+. Isso incluiu a redefinição do conceito de família, adicionando-se uma nova cláusula: “A mãe é uma mulher, o pai é um homem”, para reforçar explicitamente a definição heteronormativa de família, excluindo os casais do mesmo sexo do reconhecimento legal como genitores. Embora a emenda não mencione, explicitamente, as pessoas transgênero e intersexuais, essa  codificação que concebe o sexo como estando determinado no nascimento contribui para o apagamento legal das identidades trans e não binárias e limita a possibilidade do reconhecimento da identidade de gênero.  

Em 2021, o Parlamento húngaro aprovou uma outra lei, originalmente destinada a combater os crimes de pedofilia, que proibiu o acesso de menores de 18 anos a conteúdos considerados como “promoção da homossexualidade”. Por exemplo, livros que retratem ou “promovam” a homossexualidade ou a transição de gênero devem ser embalados em película de plástico para impedir a sua visualização e não podem ser expostos nas vitrines ou nas seções juvenis das livrarias.As infrações podem resultar na suspensão das atividades do estabelecimento comercial ou no seu encerramento.  

E, claro, há que mencionar a 15ª Emenda à Lei Fundamental, adotada em 14 de abril de 2025, e que afirma, explicitamente, que “uma pessoa é um homem ou uma mulher”, permitindo  ao governo proibir eventos públicos LGBTIQ+, incluindo marchas do Orgulho. Segundo esta emenda, o Estado deve garantir a proteção legal da “ordem natural” e “impedir esforços que abram a possibilidade de alterar o sexo atribuído no nascimento”. Enquadrar eventos públicos LGBTIQ+, como o Orgulho de Budapeste, como sendo prejudiciais ao desenvolvimento das crianças também abre a porta para a potencial proibição de qualquer outra manifestação pública considerada indesejável pelo governo, representando, portanto, uma séria ameaça ao livre direito de associação pacífica. 

MM: De que forma a Parada do Orgulho de Budapeste de 2025 se destacou em comparação com as anteriores? Surgiram conflitos na sua preparação ? 

JT: Como já mencionei, apenas alguns meses antes do Orgulho de Budapeste, o Parlamento húngaro aprovou legislação que, na prática, proibia todo e qualquer evento de Orgulho LGBTQIA+. Além disso, foi  autorizada a utilização de tecnologia de reconhecimento facial para identificar os participantes, que iam pagar possíveis multas, enquanto as e os organizadores corriam o risco de prisão. Vale dizer que a mesma ameaça pesou sobre as e os organizadores do Orgulho de Pécs,  a quinta maior cidade da Hungria e a única onde acontece uma grande parada anual de Orgulho fora da capital. De fato, enquanto conversamos, a polícia já proibiu a marcha do Orgulho de Pécs marcada para 4 de outubro.

MM: Quem participou no Orgulho? Envolveram-se novos segmentos da sociedade? Como se explica que havia tanta gente? (movimentos feministas e LGBTQ+, jovens LGBTQ+). E nos meios de comunicação e redes sociais destacou-se a participação de políticos da União Europeia (UE). 

JT: O Orgulho de Budapeste de 2025 registrou um aumento significativo no número de participantes, muitas/os delas/es estrangeiras/os, incluindo várias/os deputadas/os do Parlamento Europeu e políticas/os de parlamentos nacionais. Em comparação com anos anteriores, a representação política internacional aumentou significativamente. A presença de vozes políticas da UE transformou um evento local de celebração LGBTIQ+ numa declaração política ampla de solidariedade, em oposição ao autoritarismo e em apoio aos valores democráticos. Esta mudança se refletiu também na composição das e dos  participantes: para muitas/os, esta foi a primeira Marcha de que participaram. Em anos anteriores, as e os participantes não LGBTIQ+ já superavam, frequentemente, o número de  participantes LGBTIQ+, mas em 2025 foram muitas e muitos mais, o que significou uma forte expressão pública de solidariedade com a comunidade LGBTIQ+. Além disso, na minha opinião, este ano o Orgulho foi um ponto de virada. O governo pode ter cogitado que poderia  agir impunemente contra minorias marginalizadas, mas muitas e muitos húngaros reconheceram em 2025 que qualquer pessoa poderia tornar-se vulnerável sob o regime. Na minha opinião, esta consciência contribuiu para fazer da Parada do Orgulho um espaço altamente visível de mobilização democrática e resistência. 

MM: Na sua opinião, que impacto a Parada do Orgulho de Budapeste teve nas e nos seus participantes, nas e nos organizadores, na cidade e no país? 

JT: Para as e os participantes, o Orgulho de Budapeste foi um ato de resistência contra leis opressivas e uma demonstração de solidariedade com a comunidade LGBTIQ+, cuja situação atual parecia projetar vulnerabilidade futura de muitas outras pessoas. Para as e os organizadores, o sucesso do evento – que provavelmente superou todas as expectativas – destacou a resiliência das organizações da sociedade civil e do governo local de Budapeste como pilares de apoio aos valores democráticos face à repressão do governo central. O papel de Budapeste como cidade anfitriã da marcha do Orgulho reforçou a sua imagem como um polo de valores inclusivos e de defesa dos direitos humanos na Hungria e, potencialmente, em toda a região. Para a Hungria, o sucesso do evento constituiu uma poderosa declaração política: demonstrou uma oposição pública significativa às políticas do governo e desafiou a narrativa de apoio incontestável à sua agenda de extrema-direita. 

MM: Como alguém que há muito tempo investiga a história social da homossexualidade, da homofobia e da transfobia, como você avalia os desenvolvimentos políticos na Hungria em torno da Parada do Orgulho? Considera que se trata do reforço de uma tendência de longa data? A Parada do Orgulho proporciona um novo impulso? A sua visibilidade internacional dá-lhe esperança de um renascimento democrático? 

JT: Os desenvolvimentos políticos na Hungria em torno da Marcha do Orgulho são melhor compreendidos como parte de uma trajetória de longo prazo de consolidação autoritária e redefinição normativa promovida pelo governo de Orbán. As políticas de fobia de gênero e as medidas legislativas que miram nas expressões públicas de conteúdos e identidades LGBTIQ+ fazem parte de uma estratégia mais ampla para centralizar o poder, controlar a sociedade civil e restringir a dissidência, sendo os direitos LGBTIQ+ um alvo altamente visível para a imposição da conformidade normativa. 

Ao mesmo tempo, o Orgulho de Budapeste de 2025 demonstra que tais políticas não passam sem contestação. A afluência recorde e as estratégias organizacionais criativas empregadas para contornar as restrições legais sugerem uma mobilização significativa da sociedade civil. Consequentemente, a marcha do Orgulho representa um momento politicamente e simbolicamente carregado para as forças da oposição, ao sinalizar que o ativismo de base, a formação de coligações entre movimentos sociais e a solidariedade internacional podem gerar visibilidade e pressão mesmo num contexto repressivo. 

No entanto, não é certo que este impulso se traduza numa verdadeira mudança política estrutural. A visibilidade internacional chama a atenção da comunidade internacional para o declínio democrático do país, enquadrando-o como uma questão de preocupação tanto moral como política. Tal visibilidade pode moldar a opinião pública, reforçar a solidariedade transfronteiriça e exercer pressão sobre as autoridades húngaras. No entanto, o controle legislativo do governo, o domínio dos meios de comunicação social e a influência sobre o poder judicial indicam que o impacto estrutural imediato nas instituições democráticas provavelmente continuará a ser limitado. 

  1.  Ver Feministische Studien 2 / 25; DOI 10.1515/fs-2025-0036  ↩︎
  2. Mona Mokatef é professora de sociologia da Universidade de Dortmund na Alemanha ↩︎


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