{"id":29080,"date":"2026-04-17T16:18:41","date_gmt":"2026-04-17T19:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/?p=29080"},"modified":"2026-04-17T16:18:46","modified_gmt":"2026-04-17T19:18:46","slug":"marcha-do-orgulho-em-budapeste-entrevista-com-judit-takacs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/artigos\/marcha-do-orgulho-em-budapeste-entrevista-com-judit-takacs\/29080","title":{"rendered":"Marcha do Orgulho em Budapeste: Entrevista com Judit Tak\u00e1cs \u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Apresenta\u00e7\u00e3o&nbsp;&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2025, a revista <em>Feministische Studien<\/em> publicou uma entrevista com Judit Tak\u00e1cs, soci\u00f3loga <em>queer<\/em> h\u00fangara sobre o significado e efeitos pol\u00edticos da grande Marcha do Orgulho LGBTQIA que aconteceu em Budapeste em junho de 2025<sup data-fn=\"ec33c082-6db8-4c04-ade3-81be8b56c22b\" class=\"fn\"><a href=\"#ec33c082-6db8-4c04-ade3-81be8b56c22b\" id=\"ec33c082-6db8-4c04-ade3-81be8b56c22b-link\">1<\/a><\/sup>. Consideramos que era urgente traduzi-la ao portugu\u00eas nesse momento em que, nos mais variados contextos, analistas se dedicam a interpretar as causas e consequ\u00eancias da fragorosa derrota de Victor Orb\u00e1n nas elei\u00e7\u00f5es de 12 de abril de 2026. \u00a0 <strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da diversidade das lentes usadas, as recentes elei\u00e7\u00f5es h\u00fangaras emergem da maioria dessas an\u00e1lises como um potencial ponto de inflex\u00e3o na persistente trajet\u00f3ria de desdemocratiza\u00e7\u00e3o que tem varrido a Europa e as Am\u00e9ricas desde o come\u00e7o dos anos 2010. Na entrevista, Judit Tak\u00e1cs, significativamente, tamb\u00e9m interpreta a Marcha do Orgulho de 2025 como ponto de virada na din\u00e2mica de contesta\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia ao regime que agora come\u00e7a a ser desmantelado na Hungria.&nbsp; <strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sonia Corr\u00eaa <strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>____<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Judit Tak\u00e1cs em conversa com Mona Mokatef\u00a0\u00a0<\/em><\/strong><sup data-fn=\"dcdf6e8b-6a80-4b2e-afdf-9bc04b79cb03\" class=\"fn\"><a href=\"#dcdf6e8b-6a80-4b2e-afdf-9bc04b79cb03\" id=\"dcdf6e8b-6a80-4b2e-afdf-9bc04b79cb03-link\">2<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma das maiores manifesta\u00e7\u00f5es LGBTIQ+ da Europa nos \u00faltimos anos teve lugar na Hungria. Mais de 200.000 pessoas participaram na Parada do Orgulho em Budapeste no final de junho de 2025. Inicialmente proibida pelo governo Orb\u00e1n, o presidente da C\u00e2mara de Budapeste, Gergely Kar\u00e1csony, declarou a Parada um evento municipal para contornar a proibi\u00e7\u00e3o. Enquanto as Paradas do Christopher Street Day que acontecem em algumas cidades da Europa ocidental s\u00e3o hoje em dia questionadas como festas excessivamente comercializadas, o significado pol\u00edtico da parada em Budapeste foi inequ\u00edvoco. Milhares de pessoas marcharam para exigir direitos LGBTIQ, para expressar a sua resist\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas do governo, bem como para defender o futuro democr\u00e1tico da Hungria. Qual \u00e9 o significado da Parada do Orgulho de Budapeste de 2025 no contexto das pol\u00edticas antifeministas e anti-LGBTIQ+ dos tempos atuais? Que consequ\u00eancias tem a marcha, tendo em conta a perda de confian\u00e7a p\u00fablica e os crescentes protestos pol\u00edticos contra o governo de Orb\u00e1n? <\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Exploramos estas quest\u00f5es e outras com Judit Tak\u00e1cs, soci\u00f3loga especializada em g\u00eanero e fam\u00edlia e investigadora de renome no Centro de Ci\u00eancias Sociais da ELTE \u2013 Centro de Excel\u00eancia da Academia H\u00fangara de Ci\u00eancias, em Budapeste. A sua investiga\u00e7\u00e3o est\u00e1 centrada na interse\u00e7\u00e3o entre&nbsp; g\u00eaneros, sexualidades e pr\u00e1ticas familiares na Europa Central e Oriental. Tem uma vasta produ\u00e7\u00e3o publicada sobre a hist\u00f3ria social da homossexualidade, homofobia, fobia do g\u00e9nero, pr\u00e1ticas familiares, paternidade e aus\u00eancia de filhos.&nbsp; <\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mona Motakef<\/em>: Comecemos por falar dos seus interesses de pesquisa e da sua experi\u00eancia profissional: a sua pesquisa e o seu envolvimento pol\u00edtico t\u00eam sido fortemente influenciados pelos desenvolvimentos pol\u00edticos na Hungria. Poderia nos dar uma ideia do que significa para voc\u00ea trabalhar na \u00e1rea da sociologia, dos estudos de g\u00eanero e dos estudos queer na Hungria atual?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jud<em>it Tak\u00e1cs<\/em>: Trabalhar em sociologia, e especialmente em estudos de g\u00eanero e <em>queer<\/em> na Hungria de hoje significa estar constantemente conciliando o compromisso intelectual com restri\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Por um lado, essa \u00e1rea cresceu significativamente nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, com muitas e muitos acad\u00eamicos produzindo investiga\u00e7\u00f5es cr\u00edticas sobre pr\u00e1ticas familiares e de cuidados, desigualdades, sexualidades e ativismo, que se entrela\u00e7am com debates globais. Por outro lado, as pol\u00edticas cada vez mais restritivas do governo \u2013 tais como a remo\u00e7\u00e3o dos programas de estudos de g\u00eanero dos curr\u00edculos universit\u00e1rios, a estigmatiza\u00e7\u00e3o da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d e a proibi\u00e7\u00e3o da marcha do Orgulho em 2025 \u2013 criam um ambiente em que tanto a pesquisa como o ensino s\u00e3o vistos como atos politicamente arriscados. Trabalhar sob uma l\u00f3gica de deslegitima\u00e7\u00e3o p\u00fablica persistente pode levar a um sentimento de marginaliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m confere ao campo uma relev\u00e2ncia particular. Muitos de n\u00f3s \u2013 eu certamente \u2013 entendemos nossas pesquisas n\u00e3o apenas como investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas como uma forma de envolvimento c\u00edvico, que contribui para lutas mais amplas pela democracia, igualdade e liberdade. Nesse sentido, fazer estudos de g\u00eanero e <em>queer<\/em> na Hungria hoje \u00e9 prec\u00e1rio, mas tamb\u00e9m \u00e9 significativo, pois faz parte da resist\u00eancia mais ampla ao autoritarismo e \u00e0 eros\u00e3o dos direitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: O que significa lutar pelos direitos das pessoas LGBTIQ+?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT<\/em>: Lutar pelos direitos das pessoas LGBTIQ+ hoje em dia significa insistir na dignidade fundamental dos indiv\u00edduos num contexto em que esses direitos s\u00e3o cada vez mais instrumentalizados e erodidos. Na Hungria, a luta n\u00e3o se resume apenas a buscar prote\u00e7\u00f5es legais e mudan\u00e7as pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m implica contestar as narrativas que retratam as vidas <em>queer <\/em>como amea\u00e7as \u00e0 \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d, aos \u201cvalores familiares\u201d e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o h\u00fangara \u201caut\u00eantica\u201d. Envolve visibilidade \u2013 marchas, organiza\u00e7\u00e3o, publica\u00e7\u00f5es \u2013, mas tamb\u00e9m resili\u00eancia na vida cotidiana: criar espa\u00e7os seguros onde as pessoas possam viver livremente e fi\u00e9is a quem s\u00e3o, apesar da hostilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia \u00e9 tanto simb\u00f3lica como material. Por um lado, trata-se de destacar como a marginaliza\u00e7\u00e3o das minorias sexuais e de g\u00eanero acompanha, frequentemente, restri\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade de express\u00e3o, de associa\u00e7\u00e3o e de exist\u00eancia de uma cidadania participativa. Implica afirmar que as vidas LGBTIQ+ importam, contrariando o silenciamento e a estigmatiza\u00e7\u00e3o que dominam os meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais. Por outro lado, tamb\u00e9m se trata de garantir o acesso aos cuidados de sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao emprego e \u00e0 seguran\u00e7a: \u00e1reas onde a desigualdade e a discrimina\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito reais. Numa perspectiva sociol\u00f3gica, nesse contexto, o ativismo funciona tanto como defesa de direitos concretos \u2013 por exemplo, o reconhecimento de diversas formas de fam\u00edlia \u2013 como desafia narrativas hegem\u00f4nicas que posicionam os temas LGBTIQ+ como \u201canormais\u201d e\/ou amea\u00e7adores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes, depara-se com a opini\u00e3o, no \u00e2mbito da sociologia, de que os temas LGBTIQ+ n\u00e3o seriam as quest\u00f5es mais prementes no \u00e2mbito das desigualdades na Hungria. Embora seja verdade que a sociedade h\u00fangara \u00e9 marcada por m\u00faltiplas e interseccionais formas de desigualdade \u2013 incluindo aquelas relacionadas com a classe social, a etnia, as disparidades regionais, etc. \u2013, as quest\u00f5es LGBTIQ+ est\u00e3o entrela\u00e7adas com estas estruturas mais amplas. A marginaliza\u00e7\u00e3o baseada na orienta\u00e7\u00e3o sexual, identidade de g\u00eanero e\/ou caracter\u00edsticas sexuais&nbsp; se cruza com a precariedade econ\u00f4mica, o acesso aos cuidados de sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, e a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ignorar as desigualdades LGBTIQ+ \u00e9 correr o risco de negligenciar as formas como os quadros normativos da fam\u00edlia, da cidadania e do pertencimento social excluem sistematicamente certos grupos. Estudar este campo oferece, assim, insights importantes sobre os mecanismos de poder, estigma e controle social que moldam as desigualdades de forma mais geral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: Como e onde voc\u00ea acompanhou a Parada do Orgulho deste ano em Budapeste?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT: <\/em>Acompanhei a marcha do Orgulho fora do pa\u00eds, pois participando de uma confer\u00eancia em Liubliana, na Eslov\u00eania. No entanto, nossa fam\u00edlia estava representada na marcha por um dos nossos filhos. Ao mesmo tempo, um querido amigo esloveno nosso participou do Orgulho de Budapeste, creio que pela primeira vez. Ele nos contou sobre a escala&nbsp; impressionante do desfile e sobre as \u00e1rduas exig\u00eancias f\u00edsicas de uma longa marcha numa tarde quente de ver\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: H\u00e1 anos, sob o pretexto da \u201cprote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as\u201d, o governo Orb\u00e1n tem restringido severamente os direitos das pessoas LGBTIQ+. Poderia descrever estes desenvolvimentos pol\u00edticos e jur\u00eddicos? Quais s\u00e3o as suas consequ\u00eancias para a Parada do Orgulho?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT<\/em>: Desde 2021, o governo h\u00fangaro, liderado pelo primeiro-ministro Viktor Orb\u00e1n, aprovou uma s\u00e9rie de medidas legislativas sob o pretexto de \u201cproteger a inf\u00e2ncia\u201d, as quais restringiram significativamente os direitos das pessoas LGBTIQ+. Discuti estas medidas em pormenores no artigo sobre \u201cResisting Genderphobia in Hungary\u201d (publicado em Politics and Governance:<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.17645\/\"> <\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.17645\/pag.v10i4.5528\">https:\/\/doi.org\/10.17645\/pag.v10i4.5528<\/a> ). A g\u00eanerofobia, entendida seja como uma ideologia enraizada no medo da diversidade de g\u00eanero, seja como estrat\u00e9gia deliberada de alarmismo para fins pol\u00edticos, \u00e9 um tra\u00e7o definidor da agenda cada vez mais abrangente da ultradireita. Agenda essa que tem sido ativamente implementada desde a cria\u00e7\u00e3o pelo governo Orb\u00e1n, em 2010,&nbsp; do chamado \u201cSistema de Coopera\u00e7\u00e3o Nacional\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2020, apenas os casais casados podem adotar crian\u00e7as na Hungria. Os requerentes solteiros, incluindo l\u00e9sbicas e gays, s\u00f3 podem adotar com&nbsp; autoriza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do ministro respons\u00e1vel pelos assuntos familiares, o que, na pr\u00e1tica, imp\u00f4s obst\u00e1culos adicionais \u00e0 ado\u00e7\u00e3o por parte de candidatos n\u00e3o heterossexuais.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu-se a 9\u00aa Emenda \u00e0 Lei Fundamental h\u00fangara, aprovada em 15 de dezembro de 2020, introduzindo altera\u00e7\u00f5es muito significativas e negativas para os direitos LGBTIQ+. Isso incluiu a redefini\u00e7\u00e3o do conceito de fam\u00edlia, adicionando-se uma nova cl\u00e1usula: \u201cA m\u00e3e \u00e9 uma mulher, o pai \u00e9 um homem\u201d, para refor\u00e7ar explicitamente a defini\u00e7\u00e3o heteronormativa de fam\u00edlia, excluindo os casais do mesmo sexo do reconhecimento legal como genitores. Embora a emenda n\u00e3o mencione, explicitamente, as pessoas transg\u00eanero e intersexuais, essa&nbsp; codifica\u00e7\u00e3o que concebe o sexo como estando determinado no nascimento contribui para o apagamento legal das identidades trans e n\u00e3o bin\u00e1rias e limita a possibilidade do reconhecimento da identidade de g\u00eanero.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, o Parlamento h\u00fangaro aprovou uma outra lei, originalmente destinada a combater os crimes de pedofilia, que proibiu o acesso de menores de 18 anos a conte\u00fados considerados como \u201cpromo\u00e7\u00e3o da homossexualidade\u201d. Por exemplo, livros que retratem ou \u201cpromovam\u201d a homossexualidade ou a transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero devem ser embalados em pel\u00edcula de pl\u00e1stico para impedir a sua visualiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o podem ser expostos nas vitrines ou nas se\u00e7\u00f5es juvenis das livrarias.As infra\u00e7\u00f5es podem resultar na suspens\u00e3o das atividades do estabelecimento comercial ou no seu encerramento.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, claro, h\u00e1 que mencionar a 15\u00aa Emenda \u00e0 Lei Fundamental, adotada em 14 de abril de 2025, e que afirma, explicitamente, que \u201cuma pessoa \u00e9 um homem ou uma mulher&#8221;, permitindo&nbsp; ao governo proibir eventos p\u00fablicos LGBTIQ+, incluindo marchas do Orgulho. Segundo esta emenda, o Estado deve garantir a prote\u00e7\u00e3o legal da \u201cordem natural\u201d e \u201cimpedir esfor\u00e7os que abram a possibilidade de alterar o sexo atribu\u00eddo no nascimento\u201d. Enquadrar eventos p\u00fablicos LGBTIQ+, como o Orgulho de Budapeste, como sendo prejudiciais ao desenvolvimento das crian\u00e7as tamb\u00e9m abre a porta para a potencial proibi\u00e7\u00e3o de qualquer outra manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica considerada indesej\u00e1vel pelo governo, representando, portanto, uma s\u00e9ria amea\u00e7a ao livre direito de associa\u00e7\u00e3o pac\u00edfica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: De que forma a Parada do Orgulho de Budapeste de 2025 se destacou em compara\u00e7\u00e3o com as anteriores? Surgiram conflitos na sua prepara\u00e7\u00e3o ?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT<\/em>: Como j\u00e1 mencionei, apenas alguns meses antes do Orgulho de Budapeste, o Parlamento h\u00fangaro aprovou legisla\u00e7\u00e3o que, na pr\u00e1tica, proibia todo e qualquer evento de Orgulho LGBTQIA+. Al\u00e9m disso, foi&nbsp; autorizada a utiliza\u00e7\u00e3o de tecnologia de reconhecimento facial para identificar os participantes, que iam pagar poss\u00edveis multas, enquanto as e os organizadores corriam o risco de pris\u00e3o. Vale dizer que a mesma amea\u00e7a pesou sobre as e os organizadores do Orgulho de P\u00e9cs,&nbsp; a quinta maior cidade da Hungria e a \u00fanica onde acontece uma grande parada anual de Orgulho fora da capital. De fato, enquanto conversamos, a pol\u00edcia j\u00e1 proibiu a marcha do Orgulho de P\u00e9cs marcada para 4 de outubro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: Quem participou no Orgulho? Envolveram-se novos segmentos da sociedade? Como se explica que havia tanta gente? (movimentos feministas e LGBTQ+, jovens LGBTQ+). E nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e redes sociais destacou-se a participa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos da Uni\u00e3o Europeia (UE).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT<\/em>: O Orgulho de Budapeste de 2025 registrou um aumento significativo no n\u00famero de participantes, muitas\/os delas\/es estrangeiras\/os, incluindo v\u00e1rias\/os deputadas\/os do Parlamento Europeu e pol\u00edticas\/os de parlamentos nacionais. Em compara\u00e7\u00e3o com anos anteriores, a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional aumentou significativamente. A presen\u00e7a de vozes pol\u00edticas da UE transformou um evento local de celebra\u00e7\u00e3o LGBTIQ+ numa declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ampla de solidariedade, em oposi\u00e7\u00e3o ao autoritarismo e em apoio aos valores democr\u00e1ticos. Esta mudan\u00e7a se refletiu tamb\u00e9m na composi\u00e7\u00e3o das e dos&nbsp; participantes: para muitas\/os, esta foi a primeira Marcha de que participaram. Em anos anteriores, as e os participantes n\u00e3o LGBTIQ+ j\u00e1 superavam, frequentemente, o n\u00famero de&nbsp; participantes LGBTIQ+, mas em 2025 foram muitas e muitos mais, o que significou uma forte express\u00e3o p\u00fablica de solidariedade com a comunidade LGBTIQ+. Al\u00e9m disso, na minha opini\u00e3o, este ano o Orgulho foi um ponto de virada. O governo pode ter cogitado que poderia&nbsp; agir impunemente contra minorias marginalizadas, mas muitas e muitos h\u00fangaros reconheceram em 2025 que qualquer pessoa poderia tornar-se vulner\u00e1vel sob o regime. Na minha opini\u00e3o, esta consci\u00eancia contribuiu para fazer da Parada do Orgulho um espa\u00e7o altamente vis\u00edvel de mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e resist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: Na sua opini\u00e3o, que impacto a Parada do Orgulho de Budapeste teve nas e nos seus participantes, nas e nos organizadores, na cidade e no pa\u00eds?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT<\/em>: Para as e os participantes, o Orgulho de Budapeste foi um ato de resist\u00eancia contra leis opressivas e uma demonstra\u00e7\u00e3o de solidariedade com a comunidade LGBTIQ+, cuja situa\u00e7\u00e3o atual parecia projetar vulnerabilidade futura de muitas outras pessoas. Para as e os organizadores, o sucesso do evento &#8211; que provavelmente superou todas as expectativas &#8211; destacou a resili\u00eancia das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e do governo local de Budapeste como pilares de apoio aos valores democr\u00e1ticos face \u00e0 repress\u00e3o do governo central. O papel de Budapeste como cidade anfitri\u00e3 da marcha do Orgulho refor\u00e7ou a sua imagem como um polo de valores inclusivos e de defesa dos direitos humanos na Hungria e, potencialmente, em toda a regi\u00e3o. Para a Hungria, o sucesso do evento constituiu uma poderosa declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: demonstrou uma oposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica significativa \u00e0s pol\u00edticas do governo e desafiou a narrativa de apoio incontest\u00e1vel \u00e0 sua agenda de extrema-direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>MM<\/em>: Como algu\u00e9m que h\u00e1 muito tempo investiga a hist\u00f3ria social da homossexualidade, da homofobia e da transfobia, como voc\u00ea avalia os desenvolvimentos pol\u00edticos na Hungria em torno da Parada do Orgulho? Considera que se trata do refor\u00e7o de uma tend\u00eancia de longa data? A Parada do Orgulho proporciona um novo impulso? A sua visibilidade internacional d\u00e1-lhe esperan\u00e7a de um renascimento democr\u00e1tico?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>JT<\/em>: Os desenvolvimentos pol\u00edticos na Hungria em torno da Marcha do Orgulho s\u00e3o melhor compreendidos como parte de uma trajet\u00f3ria de longo prazo de consolida\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e redefini\u00e7\u00e3o normativa promovida pelo governo de Orb\u00e1n. As pol\u00edticas de fobia de g\u00eanero e as medidas legislativas que miram nas express\u00f5es p\u00fablicas de conte\u00fados e identidades LGBTIQ+ fazem parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla para centralizar o poder, controlar a sociedade civil e restringir a dissid\u00eancia, sendo os direitos LGBTIQ+ um alvo altamente vis\u00edvel para a imposi\u00e7\u00e3o da conformidade normativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o Orgulho de Budapeste de 2025 demonstra que tais pol\u00edticas n\u00e3o passam sem contesta\u00e7\u00e3o. A aflu\u00eancia recorde e as estrat\u00e9gias organizacionais criativas empregadas para contornar as restri\u00e7\u00f5es legais sugerem uma mobiliza\u00e7\u00e3o significativa da sociedade civil. Consequentemente, a marcha do Orgulho representa um momento politicamente e simbolicamente carregado para as for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o, ao sinalizar que o ativismo de base, a forma\u00e7\u00e3o de coliga\u00e7\u00f5es entre movimentos sociais e a solidariedade internacional podem gerar visibilidade e press\u00e3o mesmo num contexto repressivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 certo que este impulso se traduza numa verdadeira mudan\u00e7a pol\u00edtica estrutural. A visibilidade internacional chama a aten\u00e7\u00e3o da comunidade internacional para o decl\u00ednio democr\u00e1tico do pa\u00eds, enquadrando-o como uma quest\u00e3o de preocupa\u00e7\u00e3o tanto moral como pol\u00edtica. Tal visibilidade pode moldar a opini\u00e3o p\u00fablica, refor\u00e7ar a solidariedade transfronteiri\u00e7a e exercer press\u00e3o sobre as autoridades h\u00fangaras. No entanto, o controle legislativo do governo, o dom\u00ednio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social e a influ\u00eancia sobre o poder judicial indicam que o impacto estrutural imediato nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas provavelmente continuar\u00e1 a ser limitado.&nbsp;<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"ec33c082-6db8-4c04-ade3-81be8b56c22b\">\u00a0Ver <em>Feministische Studien 2 \/ 25; DOI 10.1515\/fs-2025-0036\u00a0<\/em> <a href=\"#ec33c082-6db8-4c04-ade3-81be8b56c22b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"dcdf6e8b-6a80-4b2e-afdf-9bc04b79cb03\">Mona Mokatef \u00e9 professora de sociologia da Universidade de Dortmund na Alemanha <a href=\"#dcdf6e8b-6a80-4b2e-afdf-9bc04b79cb03-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o&nbsp;&nbsp; Em novembro de 2025, a revista 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