{"id":28948,"date":"2026-02-23T17:53:00","date_gmt":"2026-02-23T20:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/?p=28948"},"modified":"2026-02-23T18:02:15","modified_gmt":"2026-02-23T21:02:15","slug":"a-crise-da-onu-e-a-desordem-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/artigos\/a-crise-da-onu-e-a-desordem-no-mundo\/28948","title":{"rendered":"A crise da ONU e a desordem no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) completou 80 anos \u2013 e se prepara para eleger um novo Secret\u00e1rio-Geral \u2013 em meio a uma crise do multilateralismo agravada pelo segundo governo de Donald Trump. Com uma redu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria resultante de um corte nas contribui\u00e7\u00f5es de Washington e de outras pot\u00eancias ocidentais, muitos desejam que a ONU volte a ter uma fun\u00e7\u00e3o restrita, como era o caso no momento de sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Giancarlo Summa<br><a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/321-crisis-ONU-desorden-mundo\/\">Publicado originalmente no portal Nueva Sociedad<\/a><\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"867\" src=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2026\/02\/onu_nuso.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28949\" srcset=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2026\/02\/onu_nuso.jpg 1300w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2026\/02\/onu_nuso-800x534.jpg 800w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2026\/02\/onu_nuso-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1300px) 100vw, 1300px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Em 24 de outubro de 2025, completou-se 80 anos da entrada em vigor da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, cujos 111 artigos estabelecem os princ\u00edpios fundamentais e as principais normas de funcionamento da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU): algo como a Constitui\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o. Essa data \u00e9 tradicionalmente considerada como o nascimento da organiza\u00e7\u00e3o e, em um sentido mais amplo, do sistema multilateral contempor\u00e2neo. Trata-se de um marco not\u00e1vel, que quase nenhuma outra organiza\u00e7\u00e3o internacional conseguiu alcan\u00e7ar; a antecessora direta da ONU, a Sociedade das Na\u00e7\u00f5es, por exemplo, durou na pr\u00e1tica menos de 20 anos (de 1920 a 1939, embora s\u00f3 tenha sido oficialmente dissolvida em 1946). Mas, ao contr\u00e1rio dos anivers\u00e1rios anteriores de 50, 60 e 70 anos, desta vez o ambiente n\u00e3o foi festivo nem de comemora\u00e7\u00e3o. O secret\u00e1rio-geral da ONU, o portugu\u00eas Ant\u00f3nio Guterres, gravou uma mensagem de tom sombrio. \u201cH\u00e1 80 anos trabalhamos para construir a paz, combater a pobreza e a fome, promover os direitos humanos e construir um mundo mais sustent\u00e1vel\u201d, disse ele antes de acrescentar: \u201cOlhando para o futuro, enfrentamos desafios de magnitude impressionante: conflitos crescentes, caos clim\u00e1tico, tecnologias descontroladas e amea\u00e7as ao pr\u00f3prio tecido da nossa institui\u00e7\u00e3o\u201d<sup>1<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma semana antes, Guterres tinha sido ainda mais expl\u00edcito. Falando perante a Quinta Comiss\u00e3o da Assembleia Geral da ONU, que se ocupa da administra\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, ele havia alertado que esta se encontrava em uma \u201ccorrida para a fal\u00eancia\u201d<sup>2<\/sup>. Ele se referia a uma fal\u00eancia financeira. Ao longo de todo o ano de 2025, o congelamento das contribui\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, determinado ap\u00f3s o retorno de Donald Trump \u00e0 Casa Branca, e o atraso nos pagamentos por parte de outros grandes pa\u00edses, como China e R\u00fassia, criaram uma falta de fundos dram\u00e1tica e sem precedentes em todo o chamado Sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o conjunto de cerca de 50 ag\u00eancias, fundos, programas e escrit\u00f3rios especializados que ao longo das d\u00e9cadas surgiram em torno da Secretaria (a estrutura central, com sede em Nova York, que abriga o secret\u00e1rio-geral, a Assembleia Geral e seus \u00f3rg\u00e3os, o Conselho de Seguran\u00e7a e os v\u00e1rios departamentos respons\u00e1veis por assuntos pol\u00edticos e econ\u00f4micos, miss\u00f5es de paz, comunica\u00e7\u00e3o, etc.). No entanto, a crise mais grave da ONU \u00e9 sobretudo pol\u00edtica e, neste caso, a fal\u00eancia parece ser a de sua legitimidade, hoje abertamente questionada pelos EUA, a superpot\u00eancia mundial que h\u00e1 80 anos impulsionou com mais for\u00e7a sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os EUA come\u00e7aram a planejar uma nova organiza\u00e7\u00e3o internacional j\u00e1 no final de 1939, quando a Segunda Guerra Mundial havia acabado de come\u00e7ar e o pa\u00eds ainda estava longe de entrar no conflito. O presidente Franklin D. Roosevelt autorizou o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado, Cordell Hull, a iniciar estudos secretos dentro do Departamento de Estado, com o objetivo de projetar um novo sistema de seguran\u00e7a internacional ap\u00f3s o fim da guerra. Jornalista e economista nascido no antigo Imp\u00e9rio Russo em uma fam\u00edlia judia anticzarista que emigrou para os EUA no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Leo Pasvolsky foi o principal respons\u00e1vel pelo projeto secreto e quem redigiu o rascunho da Carta fundacional. O nascimento da ONU, em 1945, foi um \u201cato de cria\u00e7\u00e3o\u201d deliberado por parte de um pequeno grupo de pol\u00edticos americanos e aliados que aprenderam com o fracasso da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es e projetaram uma institui\u00e7\u00e3o que equilibrasse os privil\u00e9gios das pot\u00eancias vencedoras com uma participa\u00e7\u00e3o mais ampla e formalmente igualit\u00e1ria dos demais pa\u00edses<sup>3<\/sup>. A Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, aprovada na Confer\u00eancia de S\u00e3o Francisco (abril-junho de 1945), resultou assim de uma mistura de idealismo (\u201cpreservar as gera\u00e7\u00f5es futuras do flagelo da guerra\u201d, afirmar os \u201cdireitos humanos fundamentais\u201d e reconhecer a \u201cautodetermina\u00e7\u00e3o dos povos\u201d, o que facilitaria o caminho para os processos de descoloniza\u00e7\u00e3o) e realismo duro (principalmente, atrav\u00e9s do direito de veto garantido aos cinco membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a: EUA, Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Reino Unido, Fran\u00e7a e China).<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o original de Roosevelt, ap\u00f3s a vit\u00f3ria contra o nazifascismo, a paz seria garantida pela a\u00e7\u00e3o de \u201cquatro policiais\u201d globais, cada um dos quais manteria a ordem em sua respectiva zona de influ\u00eancia (o Reino Unido em suas col\u00f4nias e na Europa Ocidental, a URSS na Europa Oriental e na massa continental eurasiana central, a China na \u00c1sia Oriental e no Pac\u00edfico Ocidental, e os EUA no hemisf\u00e9rio ocidental). Mas quando o conflito mundial terminou (e Harry Truman assumiu a presid\u00eancia dos EUA ap\u00f3s a morte de Roosevelt, em abril de 1945), a realidade j\u00e1 era outra: anunciava-se a Guerra Fria entre os EUA e a URSS, o Reino Unido estava economicamente de joelhos e a China era sacudida pela guerra civil, que culminaria com a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o comunista<sup>4<\/sup>. Assim, em seus prim\u00f3rdios, a ONU era, na verdade, pouco mais do que uma ferramenta da pol\u00edtica externa de Washington. Dos 51 pa\u00edses fundadores (entre os quais havia 20 latino-americanos e caribenhos), 42 eram aliados dos EUA, que, por sua vez, garantiam pouco menos de 40% do financiamento da organiza\u00e7\u00e3o (a porcentagem caiu para 33% em 1955, para 25% em 1974 e, finalmente, para 22% a partir de 2001).<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mudou gradualmente com o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica e na \u00c1sia. Em 1965, os Estados-membros da ONU j\u00e1 eram 117 e a organiza\u00e7\u00e3o havia se tornado um campo de confronto geopol\u00edtico entre o bloco ocidental e seus aliados, o bloco sovi\u00e9tico e seus sat\u00e9lites, e um n\u00famero crescente de pa\u00edses n\u00e3o alinhados. A campanha contra o regime do apartheid na \u00c1frica do Sul, por exemplo, foi levada adiante pela Assembleia Geral da ONU desde a d\u00e9cada de 1960, apesar da prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o Reino Unido e os EUA ofereciam no Conselho de Seguran\u00e7a<sup>5<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o aumento constante do n\u00famero de pa\u00edses membros (que chegou a 193 em 2011), a din\u00e2mica de funcionamento da Assembleia Geral (na qual cada pa\u00eds tem um voto, independentemente de sua popula\u00e7\u00e3o e PIB) e a crescente influ\u00eancia da sociedade civil global, a ONU desenvolveu progressivamente uma relativa independ\u00eancia dos pa\u00edses individuais, incluindo os membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a (os chamados P5). O \u00e2mbito de interven\u00e7\u00e3o da ONU tem se ampliado gradualmente, passando de um mandato inicial focado exclusivamente na preven\u00e7\u00e3o de conflitos para uma agenda centrada no desenvolvimento sustent\u00e1vel, na prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, na luta contra a crise clim\u00e1tica e na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades econ\u00f4micas, sociais e de g\u00eanero. Trata-se de uma agenda essencialmente progressista e cosmopolita que tem colocado a ONU cada vez mais em confronto com os EUA e com todos os governos autorit\u00e1rios e de extrema direita<sup>6<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo do presidente Jimmy Carter (1977-1981) foi o \u00faltimo a pagar integralmente e dentro do prazo estabelecido as quotas de financiamento devidas \u00e0 ONU. O governo de Ronald Reagan (1981-1989), promotor da exporta\u00e7\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal em escala mundial, foi muito influenciado por think tanks conservadores como a Heritage Foundation, que considerava a ONU um bra\u00e7o propagand\u00edstico da URSS, hostil ao capitalismo e trampolim para o radicalismo do Terceiro Mundo. A Heritage Foundation prop\u00f4s que os EUA reafirmassem seu controle sobre a organiza\u00e7\u00e3o, condicionando o pagamento de suas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de certas \u201creformas\u201d em seu funcionamento, ou simplesmente recusando-se a pagar por programas que considerava question\u00e1veis<sup>7<\/sup>. No final do mandato de Reagan, Washington devia \u00e0 ONU contribui\u00e7\u00f5es atrasadas no valor total de 495 milh\u00f5es de d\u00f3lares, equivalentes a cerca de 1,2 bilh\u00e3o de d\u00f3lares atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de Reagan, nenhum governo americano, nem democrata nem republicano, pagou integralmente as quotas em atraso, e as rela\u00e7\u00f5es com a ONU continuam complicadas e tendencialmente conflituosas. Antes dos confrontos com Trump, um dos momentos de maior atrito ocorreu durante a presid\u00eancia do democrata Bill Clinton, que em 1996 determinou o veto \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o para um segundo mandato do ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral, o diplomata eg\u00edpcio Boutros Boutros-Ghali. Os funcion\u00e1rios americanos justificaram a decis\u00e3o alegando uma \u201cperda de confian\u00e7a\u201d na capacidade de Boutros-Ghali de reformar a ONU, apontando os desacordos sobre as miss\u00f5es dos Capacetes Azuis na B\u00f3snia, Som\u00e1lia e Ruanda, e sua press\u00e3o sobre Washington pelo pagamento de mais de US$ 1 bilh\u00e3o em contribui\u00e7\u00f5es atrasadas. Oito anos depois, em 2004, sob o mandato de George W. Bush, o presidente, o Congresso e a m\u00eddia conservadora dos EUA lan\u00e7aram uma violenta campanha de difama\u00e7\u00e3o contra o ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral, Kofi Annan, um dos chefes mais brilhantes e respeitados em toda a hist\u00f3ria da ONU, pedindo sua destitui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s acus\u00e1-lo de ter encobrido um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o no programa Petr\u00f3leo por Alimentos no Iraque. Na verdade, Annan pagou o pre\u00e7o por se opor \u00e0 invas\u00e3o americana do Iraque em 2003, definindo-a como ilegal por n\u00e3o ter sido aprovada pelo Conselho de Seguran\u00e7a da ONU.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, apesar dos conflitos e tens\u00f5es, durante um quarto de s\u00e9culo, entre o fim da Guerra Fria e meados da d\u00e9cada de 2010, os EUA e seus aliados europeus continuaram a considerar o sistema multilateral constru\u00eddo em torno da ONU como um instrumento \u00fatil para alcan\u00e7ar objetivos diplom\u00e1ticos globais. Em 2005, em uma c\u00fapula mundial convocada por ocasi\u00e3o do 60\u00ba anivers\u00e1rio da organiza\u00e7\u00e3o, a Assembleia Geral aprovou a hist\u00f3rica Resolu\u00e7\u00e3o 60\/01, que atualizou a miss\u00e3o da ONU em rela\u00e7\u00e3o ao seu mandato original, afirmando que \u201ca paz e a seguran\u00e7a, o desenvolvimento e os direitos humanos s\u00e3o os pilares do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas e os fundamentos da seguran\u00e7a coletiva e do bem-estar\u201d e que \u201co desenvolvimento, a paz e a seguran\u00e7a e os direitos humanos est\u00e3o inter-relacionados e se refor\u00e7am mutuamente\u201d. A resolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m criou o Conselho de Direitos Humanos e sancionou o princ\u00edpio da \u201cresponsabilidade de proteger as popula\u00e7\u00f5es do genoc\u00eddio, crimes de guerra, limpeza \u00e9tnica e crimes contra a humanidade\u201d\u2078.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez anos depois, no final de 2015, em seu 70\u00ba anivers\u00e1rio, a ONU conseguiu a aprova\u00e7\u00e3o un\u00e2nime de dois marcos hist\u00f3ricos: a Agenda 2030 (um plano global para orientar o desenvolvimento sustent\u00e1vel at\u00e9 2030 por meio de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel e 169 metas que integram as dimens\u00f5es econ\u00f4mica, social e ambiental, com o objetivo de erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir prosperidade e paz para todas as pessoas) e o Acordo de Paris, com o objetivo de tentar limitar as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e o consequente aquecimento global. Este foi, possivelmente, o canto do cisne do multilateralismo que surgiu da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, dois acontecimentos eleitorais \u2013 o referendo no Reino Unido que decidiu a sa\u00edda da Uni\u00e3o Europeia (Brexit) e a elei\u00e7\u00e3o de Trump \u2013 marcariam o in\u00edcio de uma fase hist\u00f3rica de \u201cinterregno\u201d, no sentido sugerido por Antonio Gramsci: a crise consiste no fato de que o velho morre e o novo ainda n\u00e3o pode nascer; nesse intervalo, ocorrem os mais variados fen\u00f4menos m\u00f3rbidos. Este foi tamb\u00e9m o ano do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff no Brasil, que abriu caminho para a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro dois anos depois e, de fato, encerrou a fase ascendente da \u201cmar\u00e9 rosa\u201d dos governos progressistas na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova fase hist\u00f3rica est\u00e1 sendo caracterizada pelo crescente peso da extrema direita no cen\u00e1rio mundial, pela crise das democracias liberais nos pa\u00edses ocidentais, pela degrada\u00e7\u00e3o generalizada dos direitos humanos, pelo colapso da globaliza\u00e7\u00e3o comercial, pela explos\u00e3o da desigualdade econ\u00f4mica e da influ\u00eancia pol\u00edtica dos multimilion\u00e1rios, pelo agravamento da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, o grande crescimento dos fluxos migrat\u00f3rios e a deteriora\u00e7\u00e3o progressiva da seguran\u00e7a internacional, com a multiplica\u00e7\u00e3o de conflitos e viola\u00e7\u00f5es constantes do direito internacional, muitas vezes por parte dos pr\u00f3prios membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. O uso (ou a amea\u00e7a de uso) da for\u00e7a bruta do poder militar voltou a ser o principal instrumento das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Do di\u00e1logo e da negocia\u00e7\u00e3o, ferramentas-chave do multilateralismo, voltou-se ao unilateralismo da a\u00e7\u00e3o militar<sup>9<\/sup>. N\u00e3o se trata apenas do sequestro do presidente venezuelano Nicol\u00e1s Maduro em uma a\u00e7\u00e3o militar dos EUA, da agress\u00e3o russa contra a Ucr\u00e2nia ou da aniquila\u00e7\u00e3o de Gaza e seus habitantes por parte de Israel, com a prote\u00e7\u00e3o e ajuda dos EUA e da Europa Ocidental, embora essas crises tenham evidenciado a marginaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ONU e a impot\u00eancia do Conselho de Seguran\u00e7a, paralisado pelos vetos cruzados dos pa\u00edses com direito a veto. De acordo com um estudo do Programa de Dados sobre Conflitos da Universidade de Uppsala (ucdp), em 2024 ocorreu o maior n\u00famero de conflitos com participa\u00e7\u00e3o de atores estatais desde 1946: foram registrados 61 conflitos, que afetaram 36 pa\u00edses diferentes<sup>10<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro governo de Trump (2017-2021) promoveu uma pol\u00edtica abertamente hostil \u00e0 ONU e ao multilateralismo. Rompeu com o Acordo de Paris sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e retirou-se do Conselho de Direitos Humanos, alegando parcialidade \u201canti-israelita\u201d e falta de reformas. Reduziu ou bloqueou fundos destinados a entidades como a Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Pr\u00f3ximo (UNRWA), respons\u00e1vel pela ajuda aos refugiados palestinos, e o Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA), especializado em direitos reprodutivos e sexuais, utilizando o financiamento como instrumento de press\u00e3o pol\u00edtica. Anunciou a retirada dos EUA da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) em pleno auge da pandemia da COVID-19, questionando a credibilidade do sistema multilateral de sa\u00fade. Retomou a linha dura hist\u00f3rica contra a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) e amplificou o discurso de que as organiza\u00e7\u00f5es internacionais corroem a soberania dos EUA. Na Assembleia Geral e no Conselho de Seguran\u00e7a, a ret\u00f3rica \u201cAmerica First\u201d [EUA primeiro] subordinou a coopera\u00e7\u00e3o multilateral a objetivos bilaterais transacionais. O resultado foi um aumento significativo dos atrasos financeiros dos EUA com a ONU e um enfraquecimento deliberado das normas e f\u00f3runs multilaterais, especialmente em direitos humanos, clima e migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o hiato de Joe Biden, o segundo mandato de Trump est\u00e1 sendo muito mais agressivo do que o primeiro em rela\u00e7\u00e3o ao sistema multilateral. Como na \u00e9poca de Reagan, o plano de ataque contra a ONU foi elaborado pela Heritage Foundation: neste caso, o Projeto de Transi\u00e7\u00e3o Presidencial 2025, um volume de mais de 800 p\u00e1ginas que exp\u00f5e planos detalhados para ampliar os poderes do Executivo em detrimento dos outros poderes, reestruturar e reduzir as ag\u00eancias federais e implementar uma agenda pol\u00edtica unilateralista e de extrema direita. As institui\u00e7\u00f5es multilaterais s\u00e3o descritas como cen\u00e1rios em que atores \u201cautorit\u00e1rios\u201d e \u201cglobalistas\u201d se apropriam das normas e, por isso, a Heritage Foundation sugere que toda participa\u00e7\u00e3o dos EUA seja explicitamente transacional: o financiamento e a coopera\u00e7\u00e3o devem estar subordinados ao alinhamento com as prioridades de Washington, especialmente no que diz respeito a Israel, migra\u00e7\u00e3o, \u201csoberania\u201d e quest\u00f5es sociais<sup>11<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo dia da posse, em 20 de janeiro de 2025, Trump assinou 26 ordens executivas que, entre outras decis\u00f5es, determinavam novamente a retirada dos EUA do Acordo de Paris e da OMS, mas tamb\u00e9m um congelamento imediato e sem precedentes dos fundos de assist\u00eancia humanit\u00e1ria e coopera\u00e7\u00e3o internacional. Nas duas semanas seguintes, foi anunciado o desmantelamento da Ag\u00eancia para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a gigantesca estrutura de ajuda bilateral criada em 1961 pelo presidente John F. Kennedy \u2014 e que serviu com grande efic\u00e1cia ao soft power americano \u2014, bem como a sa\u00edda do pa\u00eds, pela segunda vez, da UNRWA, do Conselho de Direitos Humanos da ONU e, mais uma vez, da UNESCO. A Casa Branca tamb\u00e9m anunciou que imporia san\u00e7\u00f5es contra o Tribunal Penal Internacional, acusando-o de hostilidade contra os EUA e seus aliados, como Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra ordem executiva, emitida em 4 de fevereiro de 2025, acusava algumas ag\u00eancias e \u00f3rg\u00e3os da ONU de se afastarem de sua miss\u00e3o fundacional de paz e seguran\u00e7a, propagarem o antissemitismo e agirem \u201ccontra os interesses dos EUA\u201d. Nesse contexto, foi iniciada uma revis\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o e das contribui\u00e7\u00f5es dos EUA em todas as organiza\u00e7\u00f5es internacionais, com o objetivo de determinar se estavam alinhadas com os interesses nacionais. Com quatro meses de atraso, em 7 de janeiro de 2026, foi anunciado que, como resultado da revis\u00e3o, os EUA se retirariam de 35 organiza\u00e7\u00f5es e tratados internacionais e de 31 departamentos e organismos especializados da ONU<sup>12<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista pr\u00e1tico, o governo Trump suspendeu o pagamento das contribui\u00e7\u00f5es financeiras atrasadas de 2024 para a ONU e de todas as contribui\u00e7\u00f5es de 2025, al\u00e9m de interromper quase toda a ajuda humanit\u00e1ria. Incluindo todos os cap\u00edtulos de despesas (Secretaria, opera\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o da paz, tribunais internacionais), estima-se que, no final de 2025, a d\u00edvida dos EUA com a ONU totalize cerca de US$ 3 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral \u00e0 renovada ofensiva de Trump foi lan\u00e7ar, em mar\u00e7o de 2025, um plano de redu\u00e7\u00e3o generalizada de pessoal e atividades, batizado de ONU80, em refer\u00eancia \u00e0s oito d\u00e9cadas desde a cria\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Nos meses seguintes, todo o sistema da ONU come\u00e7ou a cortar seu quadro de funcion\u00e1rios e suas opera\u00e7\u00f5es no terreno. De acordo com algumas estimativas, o or\u00e7amento total do sistema da ONU deve ser reduzido em 25% at\u00e9 o final de 2026, ou seja, passar de US$ 66 bilh\u00f5es em 2024 para US$ 50 bilh\u00f5es em 2026<sup>13<\/sup>; descontada a infla\u00e7\u00e3o, trata-se de uma redu\u00e7\u00e3o real de cerca de 35% em rela\u00e7\u00e3o ao or\u00e7amento do sistema em 2016. Em rela\u00e7\u00e3o aos funcion\u00e1rios, a redu\u00e7\u00e3o deveria ser, em m\u00e9dia, entre 18% e 20% dos 131.000 postos contabilizados em 2024<sup>14<\/sup>: no total, entre 23.000 e 26.000 postos a menos, sem levar em conta o corte de milhares de contratos de consultores, volunt\u00e1rios, bolsistas e estagi\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de valores quase insignificantes em termos de or\u00e7amentos p\u00fablicos. S\u00f3 a cidade de Nova Iorque tinha, em 2024, 281.000 funcion\u00e1rios e um or\u00e7amento de 115.000 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Ainda assim, os EUA t\u00eam pressionado para reduzir os sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios da ONU. Enquanto isso, no Pal\u00e1cio das Na\u00e7\u00f5es, sede da ONU em Genebra, as escadas rolantes e os elevadores deixaram de ser utilizados, a temperatura do aquecimento no inverno foi reduzida e a limpeza dos banheiros \u00e9 feita apenas alguns dias por semana. Em Nova York, tamb\u00e9m foi anunciado que n\u00e3o haver\u00e1 mais toalhas de papel nos banheiros<sup>15<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>De todas as \u00e1reas de atividade da ONU, a assist\u00eancia humanit\u00e1ria foi especialmente afetada, o que aprofundou uma tend\u00eancia que, na verdade, havia come\u00e7ado antes da elei\u00e7\u00e3o de Trump. As contribui\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses para a assist\u00eancia humanit\u00e1ria ca\u00edram 53% em dois anos, passando de US$ 43,3 bilh\u00f5es em 2022 para US$ 20,3 bilh\u00f5es em 2025. Os EUA reduziram sua contribui\u00e7\u00e3o de US$ 14,1 bilh\u00f5es para US$ 3,06 bilh\u00f5es, e nenhum pa\u00eds ou bloco de doadores est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es ou disposto a suprir o que foi perdido. Para algumas ag\u00eancias especializadas, os cortes foram especialmente duros.<\/p>\n\n\n\n<p>O Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (ACNUR), por exemplo, recebeu em 2025 US$ 3,9 bilh\u00f5es em contribui\u00e7\u00f5es, ou seja, US$ 1,3 bilh\u00e3o a menos do que em 2024, e teve que demitir 30% de seu pessoal e reduzir suas opera\u00e7\u00f5es em escala mundial<sup>16<\/sup>. O ACNUR voltou assim ao n\u00edvel de financiamento de 2015, quando o n\u00famero total de refugiados, pessoas deslocadas \u00e0 for\u00e7a, requerentes de asilo e outras pessoas que precisavam de ajuda internacional era metade do atual: 60 milh\u00f5es em 2015 contra 118 milh\u00f5es em 2024. Sempre comedido em suas declara\u00e7\u00f5es, o italiano Filippo Grandi, um dos mais experientes altos funcion\u00e1rios da ONU, pouco antes de deixar o cargo de Alto Comiss\u00e1rio para os Refugiados, n\u00e3o escondeu sua frustra\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses ocidentais. \u201cQuantas vezes fui \u00e0 Bruxelas e outras capitais europeias para dizer: \u2018Somos muito dependentes do financiamento dos EUA. Voc\u00eas t\u00eam que nos ajudar\u2019. Meu erro foi n\u00e3o ter sido mais insistente. N\u00e3o fizemos o suficiente para sair dessa depend\u00eancia pela qual estamos pagando um pre\u00e7o alto agora\u201d, admitiu. \u201cMuitos pa\u00edses europeus que est\u00e3o cortando [ajuda humanit\u00e1ria] ou se retirando tamb\u00e9m dizem: \u2018Oh, temos refugiados demais\u2019. Claro! Voc\u00eas est\u00e3o cortando no Chade, no Sud\u00e3o, no Sahel. Por que est\u00e3o surpreendidos? N\u00e3o sejamos rid\u00edculos. Estou furioso com os europeus por causa desta quest\u00e3o\u201d.<sup>18<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Os pa\u00edses mais ricos tamb\u00e9m reduziram significativamente a ajuda bilateral aos pa\u00edses em desenvolvimento. De acordo com estimativas da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), que re\u00fane 38 dos principais pa\u00edses industrializados, a ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD) deve registrar uma queda total entre 9% e 17% em 2025, somando-se \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de 9% observada em 2024. A AOD inclui subs\u00eddios e empr\u00e9stimos concedidos por Estados, grandes ONGs internacionais e organismos multilaterais ao setor p\u00fablico de pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda ou em contextos de crise, e constitui uma fonte central de financiamento para essas economias. Essa queda se deve essencialmente \u00e0s redu\u00e7\u00f5es anunciadas pelos quatro maiores doadores mundiais: EUA, Alemanha, Fran\u00e7a e Reino Unido. \u00c9 a primeira vez em 30 anos que os quatro pa\u00edses reduzem simultaneamente sua AOD. Em 2025, os pa\u00edses mais pobres sofrer\u00e3o uma redu\u00e7\u00e3o entre 13% e 25% da AOD bilateral l\u00edquida. Essa redu\u00e7\u00e3o poder\u00e1 atingir entre 16% e 28% para os pa\u00edses da \u00c1frica Subsaariana, os mais pobres do mundo<sup>19<\/sup>. Um estudo do Instituto de Sa\u00fade Global de Barcelona estima que, se a redu\u00e7\u00e3o da AOD se mantiver at\u00e9 2030, a revers\u00e3o na redu\u00e7\u00e3o das mortes por HIV, mal\u00e1ria e outras doen\u00e7as tropicais poder\u00e1 causar mais de 22,6 milh\u00f5es de mortes adicionais<sup>20<\/sup>, o que equivale a quase metade da popula\u00e7\u00e3o da Argentina<sup>21<\/sup>. Se essa proje\u00e7\u00e3o se confirmar, o impacto letal seria tr\u00eas vezes superior ao da pandemia da COVID-19, que, segundo a OMS, foi respons\u00e1vel por cerca de 7,1 milh\u00f5es de mortes em todo o mundo. <sup>22<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras \u00e1reas muito afetadas pelos cortes de verbas foram os Direitos Humanos e as opera\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o da paz. No \u00e2mbito da iniciativa ONU80, foi proposta uma redu\u00e7\u00e3o de cerca de 15% no or\u00e7amento do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (OHCHR, na sigla em ingl\u00eas) a partir de 2026, que se soma ao congelamento de parte dos fundos alocados para 2025 e \u00e0 brusca diminui\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias. No total, o sistema de Direitos Humanos da ONU sofrer\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o de cerca de 27% dos seus recursos em rela\u00e7\u00e3o a 2023-2024. Como consequ\u00eancia, entre outras medidas, o \u00f3rg\u00e3o teve que cortar mais de um ter\u00e7o das miss\u00f5es no terreno, reduzir as equipes que investigam as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos (no Sud\u00e3o, Ucr\u00e2nia, Palestina, etc.) e diminuir o n\u00famero de sess\u00f5es do Conselho de Direitos Humanos. O ataque aos recursos financeiros do ACNUDH representa uma alian\u00e7a de fato entre os EUA de Trump, a R\u00fassia e a China. Enquanto os EUA suspenderam seus pagamentos, a R\u00fassia e a China v\u00eam atuando h\u00e1 anos para bloquear ou reduzir os fundos do Alto Comissariado nos \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela aloca\u00e7\u00e3o de recursos, como a Quinta Comiss\u00e3o da Assembleia Geral e o Comit\u00ea Consultivo para Assuntos Administrativos e Or\u00e7ament\u00e1rios (ACABQ, na sigla em ingl\u00eas)<sup>23<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0s miss\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o da paz, em outubro de 2025, Guterres anunciou que havia solicitado \u00e0s nove miss\u00f5es em curso uma redu\u00e7\u00e3o de 15% nas despesas e que, nos meses seguintes, seria repatriado \u201c25% do pessoal uniformizado e seu equipamento\u201d: o n\u00famero total de capacetes azuis que poderiam sofrer um corte \u00e9 de 13.000 a 14.000 efetivos. No in\u00edcio do ciclo or\u00e7ament\u00e1rio das opera\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o da paz, em 1\u00ba de julho de 2025, os atrasos nos pagamentos somavam US$ 2,1 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o cargo estrat\u00e9gico de embaixador na ONU, Trump nomeou em seu segundo mandato um congressista republicano da Fl\u00f3rida, o tenente-coronel (da reserva) das for\u00e7as especiais do ex\u00e9rcito Mike Waltz, conhecido por suas posi\u00e7\u00f5es ultraconservadoras na pol\u00edtica internacional e contra o direito ao aborto. Waltz assumiu o cargo no final de setembro de 2025 e, de forma reveladora, escolheu o site de not\u00edcias de extrema direita Breitbart para anunciar as prioridades do governo Trump em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ONU. Ele justificou a participa\u00e7\u00e3o dos EUA na organiza\u00e7\u00e3o em termos de interesses comerciais (\u201cQueremos usar a presen\u00e7a da ONU em todo o mundo para reduzir as barreiras de entrada para as empresas americanas\u201d); destacou o papel da ONU na defini\u00e7\u00e3o de normas globais para telecomunica\u00e7\u00f5es, espa\u00e7o e \u00f3rbitas de sat\u00e9lites, transporte mar\u00edtimo e a\u00e9reo (\u201cSe n\u00e3o estivermos presentes, a China, a R\u00fassia, os europeus e outros estar\u00e3o l\u00e1 estabelecendo essas normas que, ent\u00e3o, nos afetar\u00e3o\u201d); reivindicou o m\u00e9rito dos cortes previstos no plano ONU80 (\u201c\u00c9 a primeira vez que um secret\u00e1rio-geral prop\u00f5e, a nosso pedido, reduzir este lugar\u201d); e prometeu tornar a organiza\u00e7\u00e3o mais eficiente, removendo \u201cburocratas e funcion\u00e1rios do caminho\u201d e reduzindo o n\u00famero de ag\u00eancias, possivelmente com a ajuda da China (\u201c[os chineses] est\u00e3o analisando a burocracia aqui e, de fato, trabalhando conosco para reduzi-la um pouco\u201d). Para Waltz, \u201cMake the UN Great Again\u201d significa voltar ao conceito inicial da ONU de 1945, ou seja, concentrar-se exclusivamente em quest\u00f5es de paz e seguran\u00e7a (\u201cvoltar \u00e0 vis\u00e3o original p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial\u201d), ignorando os outros pilares estabelecidos na resolu\u00e7\u00e3o 60\/1 20 anos antes. Na longa entrevista, Waltz n\u00e3o fez nenhuma refer\u00eancia ao trabalho da ONU em mat\u00e9ria de assist\u00eancia humanit\u00e1ria, direitos humanos ou desenvolvimento sustent\u00e1vel. No entanto, ele afirmou: \u201cVamos tratar a ONU com rigor. Acredito que vamos salv\u00e1-la de si mesma\u201d<sup>24<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o de Waltz reflete a dualidade expressa pelo pr\u00f3prio Trump, que costuma atacar a ONU, mas tamb\u00e9m afirmou que a apoia \u201ctotalmente\u201d \u201cporque o potencial para a paz desta institui\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme\u201d<sup>25<\/sup>. Os EUA parecem dispostos a manter um certo n\u00edvel de compromisso com as Na\u00e7\u00f5es Unidas, mas apenas na medida em que esta organiza\u00e7\u00e3o seja funcional ou instrumental aos seus interesses unilaterais. Nos f\u00f3runs multilaterais que n\u00e3o podem controlar, os EUA de Trump preferem simplesmente n\u00e3o participar. Foi o caso tanto da COP30, a c\u00fapula anual da ONU sobre a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, realizada em Bel\u00e9m do Par\u00e1 (Brasil) de 10 a 21 de novembro de 2025, quanto da C\u00fapula Presidencial do G-20, o grupo de pa\u00edses mais industrializados, que se reuniu nos dias 22 e 23 de novembro de 2025 na cidade sul-africana de Joanesburgo. Pela primeira vez na hist\u00f3ria da COP e do G-20, o governo dos EUA n\u00e3o enviou nenhum representante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o multilateralismo do governo Trump \u00e9 declaradamente \u00e0 la carte: um instrumento que \u00e9 utilizado quando considerado \u00fatil, mas nunca um m\u00e9todo que possa impor algum limite ao isolacionismo reacion\u00e1rio que caracteriza a vis\u00e3o de mundo Maga. Como afirmou o pr\u00f3prio Trump no documento Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA, divulgado no in\u00edcio de dezembro de 2025: \u201cEm tudo o que fazemos, estamos colocando os EUA em primeiro lugar\u201d. O texto deixa claro que a hostilidade n\u00e3o se limita \u00e0 ONU, mas se estende \u00e0 \u201cUni\u00e3o Europeia e outros organismos transnacionais que minam a liberdade pol\u00edtica e a soberania\u201d, atrav\u00e9s de \u201cpol\u00edticas migrat\u00f3rias que (&#8230;) criam conflitos, censuram a liberdade de express\u00e3o e reprimem a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, provocam uma queda acentuada nas taxas de natalidade e a perda das identidades nacionais e da autoconfian\u00e7a\u201d<sup>26<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>A ONU do s\u00e9culo XXI \u00e9 muito diferente da organiza\u00e7\u00e3o dominada por um grupo restrito de pot\u00eancias que Roosevelt, Hull e Pasvolsky conceberam com as melhores inten\u00e7\u00f5es. Apesar de todos os problemas e disfuncionalidades, a Assembleia Geral, com sua cacofonia de l\u00ednguas, trajes tradicionais, demandas, contradi\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas f\u00edsicas dos habitantes dos 193 diferentes pa\u00edses membros, finalmente se assemelha ao \u201cparlamento da humanidade\u201d evocado em um poema de Alfred Tennyson h\u00e1 quase 200 anos. Os EUA est\u00e3o quase sempre em extrema minoria nas vota\u00e7\u00f5es da Assembleia Geral sobre temas politicamente sens\u00edveis, como Gaza, o Tribunal Penal Internacional ou o embargo contra Cuba: Washington conta apenas com o apoio sistem\u00e1tico de um pequeno grupo de pa\u00edses aliados (principalmente Israel, Hungria, Fiji, Micron\u00e9sia, Palau, Papua Nova Guin\u00e9, Nauru e Maced\u00f4nia do Norte). Na Am\u00e9rica Latina, hoje os aliados incondicionais de Trump s\u00e3o Argentina, Paraguai e El Salvador; ainda n\u00e3o est\u00e1 claro qual ser\u00e1 a atitude do Chile ap\u00f3s a posse de Jos\u00e9 Antonio Kast.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema do interregno gramsciano \u00e9 que a alta burocracia da ONU e as chancelarias dos pa\u00edses ocidentais ainda n\u00e3o parecem capazes de imaginar um sistema multilateral que, para o bem ou para o mal, deixe de girar em torno de Washington. A quest\u00e3o central para o futuro, antes mesmo das dificuldades financeiras, \u00e9 imaginar qual pode ser o papel da ONU em um mundo que se tornou efetivamente multipolar, onde a China disputa palmo a palmo a hegemonia econ\u00f4mica e diplom\u00e1tica (embora ainda n\u00e3o no plano militar) com os EUA, a Europa est\u00e1 se tornando politicamente marginal e o Sul global n\u00e3o pode mais ser ignorado<sup>27<\/sup>. Desde 2000, a China vem aumentando sua contribui\u00e7\u00e3o para o or\u00e7amento da Secretaria-Geral da ONU, passando de 1% para 20% do total; como os EUA congelaram seus pagamentos, Pequim \u00e9 hoje o principal financiador. No mesmo per\u00edodo, a Fran\u00e7a reduziu sua contribui\u00e7\u00e3o de 6,5% para 3,8% e o Reino Unido, de 5% para 3,9%. Mesmo assim, o peso pol\u00edtico das antigas pot\u00eancias coloniais europeias na ONU continua sendo superior ao da China e da R\u00fassia ou de qualquer pa\u00eds do Sul global. No entanto, o plano ONU80 proposto por Guterres n\u00e3o aborda nenhuma quest\u00e3o estrutural, limitando-se a uma lista de cortes que responde \u00e0s exig\u00eancias dos EUA e de outros pa\u00edses ocidentais, que decidiram retirar recursos do sistema multilateral para aumentar os gastos militares. O secret\u00e1rio-geral, que em suas interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas parece cada vez mais cansado e abatido, j\u00e1 n\u00e3o tem capital pol\u00edtico para gastar. Seu mandato terminar\u00e1 no final de 2026 e o processo de sele\u00e7\u00e3o de seu sucessor \u2013 ou sucessora \u2013 j\u00e1 est\u00e1 em andamento.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a regra informal de rota\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, caberia que o pr\u00f3ximo secret\u00e1rio-geral fosse latino-americano<sup>28<\/sup>. Pela primeira vez na hist\u00f3ria da ONU, poderia ser uma mulher. As candidaturas oficiais s\u00e3o as de Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e atual secret\u00e1ria-geral da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em ingl\u00eas), e Michelle Bachelet, duas vezes presidente do Chile e ex-alta comiss\u00e1ria das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos. Outra candidatura considerada forte nos corredores da ONU \u00e9 a do argentino Rafael Grossi, atual diretor-geral da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA), \u00f3rg\u00e3o da ONU respons\u00e1vel por prevenir a prolifera\u00e7\u00e3o de armas nucleares. Outras candidaturas poder\u00e3o ser lan\u00e7adas. Seja quem for o eleito ou a eleita, evitando vetos cruzados dos membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a, herdar\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o extremamente dif\u00edcil, com fundos e pessoal insuficientes dentro da organiza\u00e7\u00e3o e um panorama pol\u00edtico global em r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano ONU80 ignora totalmente as demandas do Sul global para reduzir as assimetrias de poder no funcionamento da ONU. Segundo o cientista pol\u00edtico alem\u00e3o Ronny Patz, que h\u00e1 meses analisa minuciosamente os debates or\u00e7ament\u00e1rios da organiza\u00e7\u00e3o, \u201cessa reforma \u00e9 a \u00faltima grande batalha travada pelos EUA para moldar a organiza\u00e7\u00e3o de acordo com seus interesses, antes que os interesses da China ganhem maior import\u00e2ncia e, com o auge chin\u00eas, o Sul global possa se tornar uma verdadeira pot\u00eancia na pol\u00edtica mundial\u201d. O pr\u00f3ximo secret\u00e1rio-geral ter\u00e1 a dif\u00edcil tarefa de guiar a ONU para o novo mundo p\u00f3s-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>_________________________<\/p>\n\n\n\n<p>1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMensagem do Secret\u00e1rio-Geral por ocasi\u00e3o do Dia das Na\u00e7\u00f5es Unidas\u201d, declara\u00e7\u00e3o, 24\/10\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>2.<\/p>\n\n\n\n<p>Vibhu Mishra: \u201cONU enfrenta \u2018corrida \u00e0 fal\u00eancia\u2019 com Guterres revelando or\u00e7amento drasticamente reduzido para 2026\u201d, em ONU Not\u00edcias, 17\/10\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>3.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma excelente reconstru\u00e7\u00e3o do processo de nascimento das Na\u00e7\u00f5es Unidas pode ser encontrada no livro de Stephen C. Schlesinger: Act of Creation: The Founding of the United Nations, Westview Press, Boulder, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>4.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1949, com a vit\u00f3ria do Partido Comunista e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular da China, o governo nacionalista retirou-se para Taiwan. O lugar da China no Conselho de Seguran\u00e7a s\u00f3 foi transferido para a Rep\u00fablica Popular em 1971, com uma vota\u00e7\u00e3o da Assembleia Geral, quando, no \u00e2mbito da pol\u00edtica de abertura promovida pelo governo de Richard Nixon, os EUA deixaram de bloquear o acesso de Pequim.<\/p>\n\n\n\n<p>5.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1965, o n\u00famero de membros n\u00e3o permanentes (e sem direito a veto) do Conselho de Seguran\u00e7a foi ampliado de seis para dez, a \u00fanica reforma desse tipo aprovada nos 80 anos de funcionamento da ONU.<\/p>\n\n\n\n<p>6.<\/p>\n\n\n\n<p>Monica Herz e G. Summa: \u201cA extrema direita como amea\u00e7a \u00e0 governan\u00e7a mundial\u201d em Nueva Sociedad n.\u00ba 315, 1-2\/2025, dispon\u00edvel em nuso.org.<\/p>\n\n\n\n<p><br>7.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1983, o governo Reagan anunciou a retirada dos EUA da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco). Um dos principais motivos para a ruptura foi o relat\u00f3rio \u201cMany Voices, One World\u201d [Muitas vozes, um s\u00f3 mundo] da Comiss\u00e3o MacBride (1980), que propunha uma nova ordem mundial da informa\u00e7\u00e3o, criticava o dom\u00ednio da m\u00eddia ocidental e exigia normas para reequilibrar os fluxos globais de informa\u00e7\u00e3o. A agenda da \u201cNova Ordem Mundial da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o\u201d (NWICO, na sigla em ingl\u00eas) tornou-se um dos s\u00edmbolos da \u201cagenda antiocidental\u201d atribu\u00edda \u00e0 Unesco. Os EUA retornaram em 2003, durante a presid\u00eancia de George W. Bush. Em 2011, o governo de Barack Obama suspendeu o pagamento de suas contribui\u00e7\u00f5es, para manifestar sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 admiss\u00e3o da Palestina como membro da organiza\u00e7\u00e3o. Durante a primeira presid\u00eancia de Trump, foi anunciada novamente a sa\u00edda dos EUA da UNESCO em 2017. Em 2023, o pa\u00eds voltou a aderir formalmente sob a presid\u00eancia de Joe Biden e pagou uma parte substancial das quotas em atraso. Ap\u00f3s o regresso de Trump \u00e0 Casa Branca, Washington anunciou uma nova retirada (a terceira), que entrar\u00e1 em vigor no final de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>8.<\/p>\n\n\n\n<p>Na\u00e7\u00f5es Unidas: \u201cResolu\u00e7\u00e3o aprovada pela Assembleia Geral em 16 de setembro de 2005 [sem remessa pr\u00e9via a uma Comiss\u00e3o Principal (A\/60\/L.1)] 60\/1. Documento Final da C\u00fapula Mundial de 2005\u201d, 24\/10\/2005.<\/p>\n\n\n\n<p>9.<\/p>\n\n\n\n<p>M. Herz e G. Summa: \u201cAm\u00e9rica Latina e a caixa de Pandora do unilateralismo das grandes pot\u00eancias\u201d, em Nueva Sociedad n.\u00ba 305, 5-6\/2023, dispon\u00edvel em nuso.org.<\/p>\n\n\n\n<p>10.<\/p>\n\n\n\n<p>Siri Aas Rustad: \u201cConflict Trends: A Global Overview, 1946\u20132024\u201d, PRIO, Oslo, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>11.<\/p>\n\n\n\n<p>Paul Dans e Steven Groves (eds.): Mandate for Leadership: The Conservative Promise, The Heritage Foundation, Washington, DC, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>12.<\/p>\n\n\n\n<p>A lista inclui ag\u00eancias especializadas (como o Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas [UNFPA] e a ONU Mulheres), mas tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de departamentos e organismos que s\u00e3o componentes estatut\u00e1rios da organiza\u00e7\u00e3o, estabelecidos pela Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas ou por decis\u00e3o da Assembleia Geral, como, entre outros, a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL), o Departamento de Assuntos Econ\u00f4micos e Sociais (DESA) da Secretaria da ONU (n\u00e3o por acaso, dirigido por um diplomata de carreira chin\u00eas, Li Junhua), o Conselho Econ\u00f4mico e Social da Assembleia Geral (ECOSOC) e a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (UNCTAD). O an\u00fancio parece mais simb\u00f3lico do que pr\u00e1tico, porque seria imposs\u00edvel para os EUA sair desses organismos sem deixar a ONU como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>13.<\/p>\n\n\n\n<p>Guy Ryder, subsecret\u00e1rio-geral de Pol\u00edticas da ONU e presidente do Grupo de Trabalho ONU80, apresentou essa estimativa em uma sess\u00e3o informativa informal para os pa\u00edses membros em 14 de novembro de 2025. O v\u00eddeo da sess\u00e3o informativa est\u00e1 dispon\u00edvel em https:\/\/webtv.un.org\/en\/asset\/k1j\/k1jax5ye21.<\/p>\n\n\n\n<p>14.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados sobre o quadro de funcion\u00e1rios do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas est\u00e3o dispon\u00edveis em https:\/\/unsceb.org\/hr-organization.<\/p>\n\n\n\n<p>15.<\/p>\n\n\n\n<p>Damilola Banjo: \u201cNo More Paper Towels for Some UNHQ Restrooms in Latest Austerity Step\u201d em PassBlue, 11\/12\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>16.<\/p>\n\n\n\n<p>Thomas Byrnes: \u201cGrandi\u2019s Final Briefing: The Numbers that Confirm System Collapse\u201d, documento de trabalho, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>17.<\/p>\n\n\n\n<p>ACNUR: \u201cTend\u00eancias globais: Pessoas deslocadas \u00e0 for\u00e7a no mundo (2015-2024)\u201d, 6\/2025, dispon\u00edvel em No More Paper Towels for Some unhq Restrooms in Latest Austerity Step.<\/p>\n\n\n\n<p>18.<\/p>\n\n\n\n<p>Lola Hierro: \u201cFilippo Grandi, alto comiss\u00e1rio do ACNUR: \u2018Escreva assim: estou furioso com os europeus por cortarem a ajuda aos refugiados e depois exigirem resultados\u2019\u201d em El Pa\u00eds, 10\/12\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>19.<\/p>\n\n\n\n<p>OCDE: \u201cRedu\u00e7\u00f5es da ajuda p\u00fablica ao desenvolvimento. Proje\u00e7\u00f5es da OCDE para 2025 e a curto prazo\u201d, nota de s\u00edntese, OCDE, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>20.<\/p>\n\n\n\n<p>Andr\u00e9a Ferreira da Silva e Rodrigo Volmir Anderle: \u201cO impacto de duas d\u00e9cadas de assist\u00eancia humanit\u00e1ria e ao desenvolvimento e as consequ\u00eancias projetadas para a mortalidade do atual corte de financiamento at\u00e9 2030: Avalia\u00e7\u00e3o Retrospectiva e An\u00e1lise de Previs\u00e3o\u201d, Universidade Federal da Bahia, 2025, dispon\u00edvel em https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/papers.cfm?abstract_id=5765121.<\/p>\n\n\n\n<p>21.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das medidas de reorganiza\u00e7\u00e3o previstas no plano ONU80 \u00e9 o fim da UNAIDS, a ag\u00eancia especializada na preven\u00e7\u00e3o da propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus HIV e na assist\u00eancia \u00e0s pessoas portadoras do v\u00edrus, que foi gravemente afetada pelos cortes nas contribui\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias dos EUA. As fun\u00e7\u00f5es da UNAIDS ser\u00e3o assumidas por outras entidades da ONU, mas v\u00e1rios especialistas alertaram que o fim da ag\u00eancia pode piorar ainda mais as condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia de milh\u00f5es de portadores do HIV nos pa\u00edses mais pobres da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>22.<\/p>\n\n\n\n<p>V. dados na OMS: \u201cWHO covid-19 Dashboard\u201d, dispon\u00edvel em https:\/\/data.who.int\/dashboards\/covid19\/deaths.<\/p>\n\n\n\n<p>23.<\/p>\n\n\n\n<p>Angeli Datt: Budget Battles at the UN: How States Try to Defund Human Rights, International Service for Human Rights, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>24.<\/p>\n\n\n\n<p>Matthew Boyle: \u201c\u2018MUNGA\u2019: Ambassador Waltz Unveils Trump\u2019s Plan to \u2018Make the un Great Again\u2019\u201d em Breitbart, 3\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>25.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTrump Tells Guterres He Supports un despite Disagreements\u201d em PBS, 23\/9\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>26.<\/p>\n\n\n\n<p>Casa Branca: Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional dos Estados Unidos da Am\u00e9rica 2025, 11\/2025, dispon\u00edvel em www.whitehouse.gov\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2025-National-Security-Strategy.pdf.<\/p>\n\n\n\n<p>27.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com dados do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) de 2024, 10 das 20 economias mais importantes do mundo s\u00e3o pa\u00edses do Sul global. Em ordem decrescente de PIB, os pa\u00edses s\u00e3o: China, \u00cdndia, Brasil, R\u00fassia, Coreia do Sul, M\u00e9xico, Indon\u00e9sia, Ar\u00e1bia Saudita, Turquia e Argentina. Juntos, representam cerca de 40% do PIB mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>28.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, a ONU teve nove secret\u00e1rios-gerais: quatro europeus, dois africanos, dois asi\u00e1ticos e apenas um latino-americano, o peruano Javier P\u00e9rez de Cu\u00e9llar (1982-1991).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) completou 80 anos \u2013 e se prepara para eleger um novo Secret\u00e1rio-Geral \u2013 em meio a uma crise do multilateralismo agravada pelo segundo governo de Donald Trump. 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