{"id":27269,"date":"2024-11-02T00:00:00","date_gmt":"2024-11-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/?p=27269"},"modified":"2025-07-17T11:22:23","modified_gmt":"2025-07-17T14:22:23","slug":"serie-termos-ambiguos-5-marxismo-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/multimidia\/serie-termos-ambiguos-5-marxismo-cultural\/27269","title":{"rendered":"S\u00e9rie Termos Amb\u00edguos \u2013 #5 Marxismo Cultural"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" src=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/capa-marxismo-cultural.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-27257\" srcset=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/capa-marxismo-cultural.png 1080w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/capa-marxismo-cultural-800x800.png 800w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/capa-marxismo-cultural-500x500.png 500w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/capa-marxismo-cultural-768x768.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong><a href=\"https:\/\/www.oxigenio.comciencia.br\/serie-termos-ambiguos-5-marxismo-cultural\/\">Ou\u00e7a aqui<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio 5 da S\u00e9rie Termos Amb\u00edguos trata da express\u00e3o Marxismo Cultural. A partir do verbete publicado no&nbsp;<em>Termos Amb\u00edguos do Debate Pol\u00edtico Atual, um pequeno dicion\u00e1rio que voc\u00ea n\u00e3o sabia que existia<\/em>.e de entrevistas realizadas com Sonia Corr\u00eaa, autora do verbete e dos professores Andr\u00e9 Kaysel e S\u00e1vio Cavalcante, do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, da Universidade Estadual de Campinas, o jornalista Val\u00e9rio Paiva explora o termo, desde sua origem, e como tem servido \u00e0 ultradireita no Brasil e em outros pa\u00edses. A apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 dividida com Tatiane Amaral e a edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de Daniel Farias.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta s\u00e9rie \u00e9 uma parceria entre o Observat\u00f3rio de Pol\u00edtica e Sexualidade, vinculado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids, e do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo, da Unicamp e este epis\u00f3dio fez parte do Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso de Val\u00e9rio Paiva, na Especializa\u00e7\u00e3o em Jornalismo Cient\u00edfico do Labjor, da Unicamp.<\/p>\n\n\n\n<p>______________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Roteiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio de Pablo Mar\u00e7al<\/strong>:&nbsp;<em>E a\u00ed, eles falaram que eles precisavam de 100 anos para fazer o marxismo cultural entrar em todas as esferas da sociedade. 1920, 2020, 100 anos. Voc\u00ea acredita? Os caras conseguiram.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eles decidiram entrar na cultura, eles decidiram entrar na parte acad\u00eamica. Eles criaram um mecanismo t\u00e3o absurdo para entrar na vida das pessoas que a cultura foi mudada por esses caras.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane Amaral<\/strong>:&nbsp;O trecho que voc\u00eas acabaram de ouvir \u00e9 de Pablo Mar\u00e7al, ex-candidato \u00e0 Prefeitura de S\u00e3o Paulo e autodenominado&nbsp;<em>coach<\/em>, que tenta definir o que \u00e9 marxismo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio de Pablo Mar\u00e7al:&nbsp;<\/strong><em>Tudo aquilo que representava a gl\u00f3ria de Deus, eles pegaram e desconfiguraram. Ent\u00e3o, por exemplo, o Belo, na arte, voc\u00ea vai l\u00e1 nas catedrais na Europa, voc\u00ea vai ver sempre o Belo representado. Eles descobriram que para desconfigurar o Belo no c\u00e9rebro humano \u00e9 s\u00f3 fazer o abstrato.&nbsp;Ent\u00e3o, hoje, as obras de arte mais poderosas da Terra s\u00e3o s\u00f3 abstratas. E a\u00ed desde 1920 est\u00e3o mudando isso.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio Paiva:&nbsp;<\/strong>Em suas entrevistas, declara\u00e7\u00f5es, palestras ou cursos, Pablo Mar\u00e7al geralmente n\u00e3o cita fontes espec\u00edficas ao abordar o conceito de marxismo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apresenta suas interpreta\u00e7\u00f5es com convic\u00e7\u00e3o, baseando-se na sua compreens\u00e3o pessoal do tema. Por exemplo, em seu livro&nbsp;<em>A Destrui\u00e7\u00e3o do Marxismo Cultural<\/em>, Pablo Mar\u00e7al discute como acredita que o marxismo cultural moldou culturas, afetou sistemas econ\u00f4micos, cren\u00e7as, religi\u00f5es e a individualidade humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio de Pablo Mar\u00e7al:<\/strong>&nbsp;Um, eu falo sobre a destrui\u00e7\u00e3o do marxismo cultural e \u00e9 uma bandeira minha, pessoal, enquanto eu estiver vivo, fazer todo mundo na Terra descobrir sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Pablo Mar\u00e7al frequentemente utiliza o conceito de marxismo cultural para promover seus cursos, livros e sua suposta miss\u00e3o pessoal, que est\u00e1 ligada a fazer as pessoas prosperarem e ele tamb\u00e9m, claro. Essa abordagem \u00e9 muito comum entre alguns membros da extrema direita, que empregam termos enraizados no imagin\u00e1rio pol\u00edtico coletivo, como marxismo cultural, para criticar mudan\u00e7as sociais e culturais que consideram prejudiciais aos valores tradicionais. No entanto, nem todos os integrantes desse espectro pol\u00edtico adotam explica\u00e7\u00f5es simplistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns apresentam an\u00e1lises mais elaboradas e sofisticadas sobre o tema. Por exemplo, o conceito de marxismo cultural tem sido discutido em ciclos acad\u00eamicos e pol\u00edticos, com interpreta\u00e7\u00f5es que variam desde teorias da conspira\u00e7\u00e3o at\u00e9 cr\u00edticas fundamentadas sobre a influ\u00eancia de ideologias marxistas na cultura ocidental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio Ricardo Gomes:&nbsp;<\/strong><em>Marx dizia que existe uma infraestrutura na sociedade que sustenta o resto do que n\u00f3s chamamos da cultura de uma sociedade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele dizia que as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas \u00e9 que determinavam a moral, determinavam as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o direito de uma sociedade, o seu modelo de fam\u00edlia, a religi\u00e3o, a est\u00e9tica com a arte, etc.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio:&nbsp;<\/strong>Quem fala agora de uma forma mais did\u00e1tica \u00e9 nada mais nada menos do que o vice-prefeito de Porto Alegre, Ricardo Gomes, apresentador e colaborador da Brasil Paralelo, uma produtora que produz v\u00eddeos sobre pol\u00edtica e hist\u00f3ria sob um vi\u00e9s conservador e de extrema direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ricardo Gomes:&nbsp;<\/strong><em>Marx dizia o seguinte, existe a classe dos capitalistas e a classe dos prolet\u00e1rios.&nbsp;<\/em><em>N\u00f3s vamos promover o conflito entre eles e derrubando o modelo capitalista de produ\u00e7\u00e3o, cair\u00e1 toda a cultura ocidental, isso \u00e9, a moral burguesa, a arte burguesa e assim sucessivamente.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>:&nbsp;E para justificar as suas teorias, o vice-prefeito de Porto Alegre cita uma figura que aparecer\u00e1 aqui em outros momentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio Ricardo Gomes:&nbsp;<\/strong><em>No s\u00e9culo XX, um pensador chamado Ant\u00f4nio Gramsci entendeu que, na verdade, este tri\u00e2ngulo \u00e9 ao contr\u00e1rio.&nbsp;O que Marx entendia que era a superestrutura, na verdade, \u00e9 o que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 economia capitalista. Gramsci disse: \u201c\u00e9 a moral, \u00e9 a est\u00e9tica, \u00e9 o direito, \u00e9 a fam\u00edlia, \u00e9 a religi\u00e3o, \u00e9 a ci\u00eancia burguesas que sustentam o modelo de economia capitalista\u201d.&nbsp;Isso fez com que toda a esquerda moderna mudasse a sua estrat\u00e9gia e passasse a gerar conflitos, n\u00e3o entre agentes econ\u00f4micos, mas entre os agentes de cada um desses aspectos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um conflito na moral, no direito, na fam\u00edlia, na est\u00e9tica, um conflito religioso, um conflito cient\u00edfico e assim sucessivamente. E quando todo esse conflito no campo cultural estivesse pronto, isso derrubaria o modelo econ\u00f4mico capitalista.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>:&nbsp;Foi dif\u00edcil para voc\u00ea ouvir isso, n\u00e9? Para mim tamb\u00e9m foi. Mas diariamente, milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o influenciadas por pol\u00edticos, influenciadores e l\u00edderes religiosos extremistas, que tentam justificar suas ideias como uma defesa contra uma conspira\u00e7\u00e3o atribu\u00edda aos defensores do marxismo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa express\u00e3o ganhou espa\u00e7os no dia a dia da popula\u00e7\u00e3o, nas redes sociais, em conversas cotidianas e na ret\u00f3rica pol\u00edtica. Para muitos, se tornou um termo alarmante, associado a uma suposta amea\u00e7a \u00e0 cultura e aos valores tradicionais. Mas o que realmente est\u00e1 por tr\u00e1s disso? Eu sou Val\u00e9rio Paiva e esse \u00e9 o podcast sobre marxismo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Este epis\u00f3dio faz parte da s\u00e9rie Termos Amb\u00edguos, do podcast Oxig\u00eanio. Est\u00e1 sendo produzida a partir da obra&nbsp;<em>Termos Amb\u00edguos do Debate Pol\u00edtico Atual, um pequeno dicion\u00e1rio que voc\u00ea n\u00e3o sabia que existia<\/em>. Vamos analisar o que est\u00e1 por tr\u00e1s da express\u00e3o marxismo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>:&nbsp;E eu sou a Tatiane Amaral. E para come\u00e7armos essa reflex\u00e3o, \u00e9 importante entender de onde surgiu a express\u00e3o marxismo cultural. Esse termo n\u00e3o \u00e9 uma teoria ou uma an\u00e1lise acad\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele \u00e9, na verdade, uma constru\u00e7\u00e3o criada para gerar uma sensa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a. Ele aparece com frequ\u00eancia nos discursos da extrema direita, frequentemente associado \u00e0 ideia de uma invas\u00e3o ideol\u00f3gica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E a origem desse termo \u00e9 controversa. Muitos acreditam que ele tem ra\u00edzes em ideologia de esquerda, mas, na verdade, trata-se de uma cria\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria direita. A express\u00e3o foi estrategicamente introduzida para deslegitimar mudan\u00e7as culturais e pol\u00edticas que promovem igualdade e inclus\u00e3o. Ela funciona como uma acusa\u00e7\u00e3o que, ao mesmo tempo, simplifica e distorce as complexas e relevantes transforma\u00e7\u00f5es sociais que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ajudar a esclarecer como esse termo foi constru\u00eddo e com qual prop\u00f3sito, conversamos com S\u00f4nia Correia, pesquisadora sobre g\u00eanero, sexualidade pol\u00edtica do Observat\u00f3rio da Sexualidade Pol\u00edtica e autora do verbete Marxismo Cultural, do pequeno dicion\u00e1rio de termos amb\u00edguos do debate pol\u00edtico atual, obra da qual tamb\u00e9m \u00e9 organizadora. S\u00f4nia compartilha como come\u00e7ou a escrever sobre o termo, explicando sua inven\u00e7\u00e3o e como ele foi transformado em uma esp\u00e9cie de categoria acusat\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00f4nia Correa<\/strong>: Eu comecei a trabalhar sobre ele muito a partir dos estudos, das investiga\u00e7\u00f5es que eu estava fazendo naquele momento sobre a genealogia de longo curso da chamada nova direita, que eu sempre digo que \u00e9 a velha nova direita ou a nova velha direita.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, eu estava mergulhada exatamente nesse curso longo e nesse momento de reconfigura\u00e7\u00e3o da ultradireita&nbsp;que vai gestar,&nbsp;que vai produzir essa categoria, essa f\u00f3rmula, o dispositivo pol\u00edtico, que \u00e9 uma categoria acusat\u00f3ria, Marxismo Cultural. E eu comecei a escrever sobre o verbete e dei muitas voltas e fui, voltei, e foi muito interessante porque, quebrando a cabe\u00e7a de como tratar do verbete de uma maneira concisa, mas ao mesmo tempo precisa, sem perder de vista a complexidade da sua inven\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter multifac\u00e9tico da forma como o verbete \u00e9 aplicado e usado, eu me dei conta de que era imposs\u00edvel falar do verbete Marxismo Cultural sem antes tratar da quest\u00e3o da ideologia. Sobre a inven\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria dessa cria\u00e7\u00e3o da ultradireita, acho que h\u00e1 duas coisas muito importantes a remarcar.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira delas \u00e9 que, num certo sentido, o Marxismo Cultural \u00e9 uma categoria acusat\u00f3ria que germinou no processo de&nbsp;reconfigura\u00e7\u00e3o,&nbsp;reorganiza\u00e7\u00e3o e reconfigura\u00e7\u00e3o do ultraconservadorismo e da ultradireita, que se inicia nos anos 70. \u00c9 longo, complexo, disperso, \u00e9 muito dif\u00edcil reconstituir todos os processos que levaram a essa reconfigura\u00e7\u00e3o, mas essa reconfigura\u00e7\u00e3o tem um tra\u00e7o fundamental que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um reorganizar for\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um juntar peda\u00e7os, foi tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a muito substantiva no modo de acionar da ultradireita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>:&nbsp;Essa express\u00e3o foi concebida como uma ferramenta de ataque destinada a suscitar desconfian\u00e7a e divis\u00e3o, alimentando a sensa\u00e7\u00e3o de uma amea\u00e7a iminente \u00e0 ordem social.<\/p>\n\n\n\n<p>Sonia Corr\u00eaa explica que, com o passar do tempo, a extrema direita passou por uma reconfigura\u00e7\u00e3o significativa. A ret\u00f3rica, antes focada apenas na defesa da ordem estabelecida, evoluiu para promover o que se pode chamar de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural conservadora. Essa mudan\u00e7a foi uma resposta estrat\u00e9gica da extrema direita para disputar um campo ideol\u00f3gico, influenciar o debate p\u00fablico e conquistar mais apoiadores, apelando diretamente para o lado emocional das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a direita deixa de se limitar \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de estruturas r\u00edgidas e tradicionais, adotando uma postura ativa de conquista cultural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia:<\/strong>&nbsp;O verbete marxismo cultural \u00e9 ic\u00f4nico do que significou essa reorganiza\u00e7\u00e3o, reconfigura\u00e7\u00e3o, no sentido de que as for\u00e7as de direita, de ultradireita, deixaram nessa reconfigura\u00e7\u00e3o, elas, por um lado, e isso \u00e9 muito mais o processo europeu que o processo norte-americano, elas abandonaram deliberadamente o recurso \u00e0 viol\u00eancia pol\u00edtica, como um m\u00e9todo leg\u00edtimo da pol\u00edtica que havia caracterizado o fascismo hist\u00f3rico e que havia se mantido vivo no contexto&nbsp;&nbsp;da ultradireita europeia dos anos 1950. E, no caso dos Estados Unidos, da ultradireita americana, essa reconfigura\u00e7\u00e3o implicou abandonar uma posi\u00e7\u00e3o classicamente reacion\u00e1ria. O que significa isso? uma posi\u00e7\u00e3o de defesa est\u00e1tica da ordem pol\u00edtica, Defender com unhas e dentes a ordem pol\u00edtica, e caminhar no sentido de engajar-se num processo de revolu\u00e7\u00e3o cultural conservadora, com vistas a capturar cora\u00e7\u00f5es e mentes, ou seja, uma disputa pol\u00edtico-ideol\u00f3gica por hegemonia, que \u00e9 muito diferente da defesa est\u00e1tica da ordem, que nos anos 60, 70, pensando na Am\u00e9rica Latina e outras partes do mundo, levou a ultradireita fundamentalmente a incitar golpes de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se tratava de ganhar cora\u00e7\u00f5es e mentes das popula\u00e7\u00f5es para ades\u00e3o \u00e0s suas ideias, tratava-se de interromper de forma radical, de forma brutal, com viol\u00eancia pol\u00edtica, de um momento para o outro, processos de transforma\u00e7\u00e3o social pautados, principalmente, por premissas e ideais de igualdade, inspirados pelos ideais de igualdade geralmente derivados do marxismo. Ent\u00e3o, a direita, essa reconfigura\u00e7\u00e3o que vai madurando at\u00e9 os anos 90, faz esse movimento de abandonar, de um lado, a viol\u00eancia pol\u00edtica como um m\u00e9todo leg\u00edtimo de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que \u00e9 herdado da tradi\u00e7\u00e3o fascista, uma tradi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi s\u00f3 europeia, porque o fascismo latino-americano tamb\u00e9m tinha uma ades\u00e3o forte \u00e0 viol\u00eancia como m\u00e9todo leg\u00edtimo de fazer pol\u00edtica, e, de outro lado, o abandono do reacionarismo no sentido cl\u00e1ssico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: As for\u00e7as conservadoras, especialmente a partir da rebeli\u00e3o estudantil de maio de 68 na Fran\u00e7a, passaram a estudar intelectuais e pensadores de esquerda como forma de criar uma resposta \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais que estavam ocorrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi nesse contexto que chegaram \u00e0 figura de Ant\u00f4nio Gramsci, um pensador fundamental das an\u00e1lises marxistas culturais. Gramsci, com suas ideias sobre hegemonia cultural, foi transformado pela direita em um s\u00edmbolo de amea\u00e7a. No Brasil, Olavo de Carvalho desempenhou um papel crucial nesse processo, popularizando o termo marxismo cultural e o associando diretamente a Gramsci.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa manobra ret\u00f3rica ajudou a consolidar o conceito como uma ferramenta de ataque \u00e0 esquerda e aos movimentos progressistas, distorcendo as ideias de Gramsci para us\u00e1-las como justificativa em uma guerra cultural. S\u00f4nia explica onde Gramsci entra nessa hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia:<\/strong>&nbsp;Mas, de qualquer maneira, nos dois casos, essas for\u00e7as fizeram exerc\u00edcios intelectuais sistem\u00e1ticos de leitura de pensadores de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 o pulo do gato, de entender o que aconteceu. Na Europa, a refer\u00eancia principal desse rearranjo, reformula\u00e7\u00e3o, \u00e9 o GREF, que \u00e9 o Grupo de Estudos da Civiliza\u00e7\u00e3o Europeia, que \u00e9 liderado por Alain de Brenois, um fil\u00f3sofo franc\u00eas. Esse grupo se inicia em 1968 como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 rebeli\u00e3o de 1968, considerada por essas vozes como uma desestabiliza\u00e7\u00e3o profunda que amea\u00e7ava os pilares da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o europeia, ou, se quisermos, da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. E o esfor\u00e7o que eles fazem \u00e9 de criar uma resposta filos\u00f3fico-pol\u00edtica pra essa din\u00e2mica de transforma\u00e7\u00e3o, o que eles chamavam de amea\u00e7a ou de desestabiliza\u00e7\u00e3o. E, ao fazer isso, eles v\u00e3o ler um n\u00famero grande de pensadores de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Che Guevara, Frantz Fanon, entre outros, estou dando alguns exemplos. Claro que eles leram tamb\u00e9m autores de direita, por exemplo, o chamado conservadorismo alem\u00e3o, que \u00e9 inspirado em Carl Schmitt, mas eles chegam \u00e0 Gramsci e \u00e9 a leitura de Gramsci que vai dar a eles, a chave, no sentido de inspir\u00e1-los a mudar o seu modo de pensar, e, sobretudo, de como agir politicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque no cora\u00e7\u00e3o do que Gramsci escreveu est\u00e1 justamente essa proposi\u00e7\u00e3o de que, \u00e0 diferen\u00e7a do que propunha o marxismo leninista ortodoxo, de que a transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3 se daria por uma revolu\u00e7\u00e3o radical e necessariamente violenta que destronasse a ordem econ\u00f4mica vigente. Estou simplificando muito, mas \u00e9 isso. Gramsci foi uma v\u00edtima do fascismo, um prisioneiro do fascismo, e porque viu o que aconteceu na It\u00e1lia, que o fascismo tinha uma vasta e ampla ades\u00e3o das camadas populares, ele produziu essa reflex\u00e3o riqu\u00edssima sobre formas de transforma\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que as sociedades, que as culturas n\u00e3o se transformam se n\u00e3o houver um investimento enorme de disputar os sentidos da ordem, da ordem social, da ordem econ\u00f4mica, n\u00e3o s\u00f3 nos parlamentos, n\u00e3o s\u00f3 na esfera p\u00fablica, pol\u00edtica, convencional, mas em todos os lugares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: O professor Andr\u00e9 Kaysel, do Laborat\u00f3rio de Pensamento Pol\u00edtico e membro do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp, destaca que a figura de Ant\u00f4nio Gramsci desempenhou um papel central na reconfigura\u00e7\u00e3o da extrema-direita, especialmente nas Am\u00e9ricas. Cr\u00edticas impulsionadas por figuras como Olavo de Carvalho, mas tamb\u00e9m por pensadores militares, transformaram Gramsci em um s\u00edmbolo de amea\u00e7a ideol\u00f3gica. Essa estrat\u00e9gia foi usada para ampliar o impacto cultural e pol\u00edtico da extrema-direita, com o termo marxismo cultural, servindo como justificativa para atacar e conter movimentos sociais progressistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9<\/strong>: No caso do Brasil e da Am\u00e9rica Latina, a figura que os setores reacion\u00e1rios costumam identificar como principal representante do marxismo cultural seria Ant\u00f4nio Gramsci, porque em pa\u00edses como o Brasil e a Argentina, em especial, ele teve influ\u00eancia marcante nos meios de esquerda durante os processos de redemocratiza\u00e7\u00e3o, justamente na d\u00e9cada de 1980. No caso do Brasil, a figura-chave \u00e9 Olavo de Carvalho, mas \u00e9 bom lembrar, como fazem Daniela Mussi e \u00c1lvaro Bianchi em um artigo recente, de 2022, essas ideias antigramxistas, como eles chamam, t\u00eam uma circula\u00e7\u00e3o mais ampla, que envolve setores cat\u00f3licos de direita na It\u00e1lia e no Cone Sul, de onde Olavo, nesse circuito justamente da direita cat\u00f3lica, que Olavo de Carvalho tirou os principais temas dos seus ataques a Gramsci como representante dessa tentativa de promover a revolu\u00e7\u00e3o pela cultura. E tamb\u00e9m, via Olavo de Carvalho, isso chegou aos meios militares brasileiros. A\u00ed a figura principal \u00e9 o general S\u00e9rgio Avelar Coutinho, num livro de 2002, ano sintom\u00e1tico, que o PT ganhou pela primeira vez as elei\u00e7\u00f5es, em que o general Coutinho procura fazer um estudo das ideias de Gramsci, baseado sobretudo numa fonte de segunda m\u00e3o, que era outro Coutinho, no caso o Carlos Nelson, no livro dele sobre Gramsci. E nesse sentido, talvez tenha uma fonte mais fidedigna do que o pr\u00f3prio Olavo, que n\u00e3o se preocupa muito, inclusive, em apoiar suas afirma\u00e7\u00f5es em qualquer fonte, mas ele, a partir desse estudo, procura fazer eco \u00e0s teses olavistas sobre essa amea\u00e7a \u00e0 ordem que representaria o pensamento que ele chama de gramsxista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio Donald Trump<\/strong>:&nbsp;<em>Democrats and everyone else, they actually went to court in an effort to stop me.&nbsp;Now they realize I was right and changed their tune. Sadly, I\u2019ve been right about everything.&nbsp;<\/em><em>And you know what? The Democrats know it, the radical left knows it.&nbsp;(0:19)&nbsp;The communists and the Marxists within our own country know it.&nbsp;(0:23)&nbsp;They want to turn our country into a communist country, Marxist country.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>They want to turn our country into something that we\u2019re not going to let them have.&nbsp;(0:33)&nbsp;We\u2019re not going to let them do it.&nbsp;(0:36)&nbsp;But we\u2019re right on so many fronts.&nbsp;And we\u2019re going to be right again because we\u2019re going to make America great again.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>[Tradu\u00e7\u00e3o: Os democratas e todos os outros Eles, na verdade, foram \u00e0 procura em um esfor\u00e7o para me impedir.&nbsp;Agora eles perceberam que eu estava certo e mudaram isso para que, infelizmente, eu tinha sido certo sobre tudo. E voc\u00ea sabe o que? Os democratas sabem, a esquerda radica sabe. Os comunistas e os marxistas dentro do nosso pr\u00f3prio pa\u00eds sabem.<br>Eles querem transformar nosso pa\u00eds em um pa\u00eds comunista, marxista. Eles querem transformar nosso pa\u00eds em algo que n\u00f3s n\u00e3o vamos deixar eles terem. N\u00f3s n\u00e3o vamos deixar eles fazerem.&nbsp;Mas n\u00f3s estamos certo em tantas fronteiras. E n\u00f3s vamos ser certos de novo porque n\u00f3s vamos fazer a Am\u00e9rica grande de novo]&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Esse \u00e1udio que voc\u00ea acabou de ouvir \u00e9 do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reeleito ano passado, em que ele est\u00e1 acusando membros do Partido Democrata de serem comunistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a campanha eleitoral de 2024, Trump e seus apoiadores frequentemente retrataram Kamala Harris, ent\u00e3o candidata a vice-presidente do Partido Democrata, como uma figura comunista. Essa associa\u00e7\u00e3o pode parecer muito absurda \u00e0 primeira vista, mas ela faz parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla de antimarxismo que busca mobilizar eleitores ao criar uma sensa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a iminente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio:&nbsp;<\/strong>Para entender essa ret\u00f3rica, \u00e9 preciso olhar para o contexto hist\u00f3rico e pol\u00edtico dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O anticomunismo sempre foi uma ferramenta poderosa na pol\u00edtica norte-americana, especialmente durante a Guerra Fria. Trump e sua base aproveitaram esse legado, atualizando-a para o s\u00e9culo XXI, ao associar advers\u00e1rios pol\u00edticos e a ideologias supostamente radicais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia<\/strong>: O anticomunismo da ultra direita norte-americana \u00e9 muito mais visceral do que na Europa. Quer dizer, o tra\u00e7o marcante da direita norte-americana, sobretudo no p\u00f3s-guerra, com a Guerra Fria, no contexto da Guerra Fria, era a derrota do comunismo, era a amea\u00e7a do comunismo, a derrota do comunismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o racional, n\u00e3o s\u00f3 da pol\u00edtica norte-americana como um todo, mas, sobretudo, da outra direita. Todas as guerras de domin\u00f3 dos anos 60, 70, elas s\u00e3o marcadas nesse registro de ganhar posi\u00e7\u00f5es, uma guerra de posi\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o ao inimigo principal, que era a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: A declara\u00e7\u00e3o de Javier Milei, atual presidente da Argentina, acusando o aquecimento global de ser uma inven\u00e7\u00e3o do marxismo cultural, social, exemplifica como esse conceito \u00e9 utilizado para deslegitimar causas essenciais como o enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c1udio de Javier Milei, presidente da Argentina:&nbsp;<\/strong><em>El calentamiento global es otra de las mentiras del socialismo, como digamos, o sea, hay una agenda de marxismo cultural y parte de esa agenda es, a ver, hace 10, 15 a\u00f1os se discut\u00eda que el planeta se iba a congelar, ahora discuten que se calienta. O sea, dale loco, o sea, aquellos que conozcan c\u00f3mo se hacen esas simulaciones van a ver que las funciones&nbsp; est\u00e1n sobresaturadas en determinados par\u00e1metros, a prop\u00f3sito, para generar miedo.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>[<strong>Tradu\u00e7\u00e3o<\/strong><em>: O aquecimento global \u00e9 outra das mentiras do socialismo, como digamos, ou seja, h\u00e1 uma agenda de marxismo cultural e parte dessa agenda \u00e9, vamos ver, h\u00e1 10, 15 anos se discutia que o planeta ia congelar, agora discutem que se aquece. Ou seja, vai nessa, ou seja, aqueles que conhecem como se fazem essas simula\u00e7\u00f5es v\u00e3o ver que as fun\u00e7\u00f5es est\u00e3o sobresaturadas em determinados par\u00e2metros, de prop\u00f3sito, para gerar medo<\/em>]<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>:&nbsp;Narrativas como essa n\u00e3o apenas ignoram a urg\u00eancia dessas quest\u00f5es, mas tamb\u00e9m as associam a uma falsa conspira\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, alimentando desinforma\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o social. Essa estrat\u00e9gia de deslegitima\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m, atingindo outras \u00e1reas cruciais da justi\u00e7a social. Pautas progressistas como o combate ao machismo, ao racismo, \u00e0 defesa do meio ambiente e dos imigrantes e dos refugiados, s\u00e3o transformadas em alvos de desconfian\u00e7a e rejei\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando divis\u00f5es e combatendo avan\u00e7os nessas agendas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como avalia Andr\u00e9 Kaysel, o uso do anticomunismo como ret\u00f3rica n\u00e3o \u00e9 apenas uma tentativa de barrar mudan\u00e7as sociais. Na pr\u00e1tica, serve tamb\u00e9m para atacar valores democr\u00e1ticos, enfraquecendo o espa\u00e7o para o di\u00e1logo e a pluralidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9 Kaysel:<\/strong>&nbsp;No caso do feminismo em particular tende a ser um advers\u00e1rio privilegiado, nesse sentido, a no\u00e7\u00e3o de marxismo cultural se combina com outra no\u00e7\u00e3o h\u00e9mica do campo da direita, que \u00e9 a ideologia de g\u00eanero, que \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da igreja cat\u00f3lica, dos setores cat\u00f3licos conservadores, em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s confer\u00eancias da ONU Mulheres nos anos 90 e o alguns avan\u00e7os, na \u00e9poca, nas pautas de direitos reprodutivos.<\/p>\n\n\n\n<p>E esses dois termos, marxismo cultural e ideologia de g\u00eanero, tendem a se misturar muito em movimentos como Escola Sem Partido ou na propaganda de produtores de conte\u00fado como Brasil Paralelo, entre uma mir\u00edade de youtubers, influencers, conservadores, reacion\u00e1rios, cat\u00f3licos, evang\u00e9licos, militares, civis, etc. E nesse sentido, todos eles, de alguma maneira, bebem numa antiga tradi\u00e7\u00e3o discursiva do s\u00e9culo XX, que foi o anticomunismo, que tem um enraizamento muito profundo em sociedades como a brasileira, onde ele foi martelado por d\u00e9cadas por aparelhos como a Igreja Cat\u00f3lica, pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, pelos militares mesmo, pelo pr\u00f3prio aparelho de Estado. O anticomunismo acaba sendo um outro nome do \u00f3dio \u00e0 democracia para a extrema direita, \u00e9 que \u00e9 um nome conveniente, voc\u00ea se dizer antidemocr\u00e1tico n\u00e3o pega muito bem, voc\u00ea se dizer anticomunista, identificando o comunismo como totalitarismo, um perigo meio vago, mas enorme, pode pegar bem, pra muita gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio:<\/strong>&nbsp;Sonia Corr\u00eaa tamb\u00e9m observa que o marxismo cultural e outros r\u00f3tulos criados pela extrema direita, como WOKE e ideologia de g\u00eanero, podem ser descritos como categorias fantasmag\u00f3ricas, projetadas para evocar respostas emocionais de medo e inseguran\u00e7a. Essas constru\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas s\u00e3o deliberadamente usadas para dividir a sociedade, especialmente em momentos de crise ou transforma\u00e7\u00e3o social, amplificando a polariza\u00e7\u00e3o e o sentimento de amea\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia<\/strong>: Categorias fantasmag\u00f3ricas porque elas incitam afetos, \u00e9 muito interessante, elas s\u00e3o criadas, s\u00e3o categorias discursivas, muito bem elaboradas no sentido de mexer, estimular os afetos, afetos de medo, afetos de incerteza, sentimentos de temor. Elas s\u00e3o desenhadas para isso, raiva, no limite o \u00f3dio, no limite elas podem levar o discurso do \u00f3dio, as a\u00e7\u00f5es e atos do \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Ao manipular as emo\u00e7\u00f5es das pessoas com o uso desses termos alarmistas, a extrema direita justifica direcionar rea\u00e7\u00f5es p\u00fablicas contra as mudan\u00e7as culturais e pol\u00edticas. Para o soci\u00f3logo S\u00e1vio Cavalcante, diretor do Centro de Estudos Marxistas e professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp, o crescimento do discurso da extrema direita brasileira est\u00e1 diretamente relacionado aos processos de transforma\u00e7\u00e3o que ocorreram no pa\u00eds. Essas mudan\u00e7as culturais e pol\u00edticas deram voz e protagonismo a setores historicamente oprimidos, provocando rea\u00e7\u00f5es intensas daqueles que se sentem amea\u00e7ados por essas novas configura\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e1vio<\/strong>: Esse sistema de agita\u00e7\u00e3o e propaganda do bolsonarismo, ele vem h\u00e1 muitos anos investindo diretamente contra a legitimidade das institui\u00e7\u00f5es de Estado, principalmente o Supremo Tribunal Federal, em que voc\u00ea tem um conjunto de atores que est\u00e3o fomentando a vis\u00e3o de que o pa\u00eds \u00e9 uma ditadura que \u00e9 controlada pelo STF, principalmente pelo ministro Alexandre de Moraes. Uma ditadura que frauda as elei\u00e7\u00f5es, principalmente, ali no caso, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022, e que nesse diagn\u00f3stico que \u00e9 feito por essas lideran\u00e7as, o principal efeito \u00e9 ter uma base mais radicalizada de bolsonaristas que veem a viol\u00eancia como uma arma leg\u00edtima de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eles ficam cada vez mais motivados por um sentimento de que o pa\u00eds est\u00e1 vivendo uma degenera\u00e7\u00e3o moral, pol\u00edtica, com o predom\u00ednio de comunistas, petistas, liga\u00e7\u00f5es com o crime organizado, e que, nesse sentido, as a\u00e7\u00f5es que se valem da viol\u00eancia, s\u00e3o vistas como adequadas e pertinentes, ou pelo menos justific\u00e1veis, dada a situa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds vive. Isso ultrapassa essa pr\u00f3pria base mais radicalizada bolsonarista, quando a gente percebe a normaliza\u00e7\u00e3o dos ataques que foram feitos no dia 8 de janeiro de 2023, a normaliza\u00e7\u00e3o dos efeitos dessa insurrei\u00e7\u00e3o golpista, que eles veem como algo injusto, a forma pela qual o poder judici\u00e1rio tem lidado com as pessoas que foram presas naquele dia, que passaram por processos judiciais, s\u00e3o vistas como injusti\u00e7ados por esse sistema de justi\u00e7a, degenerado, deturpado.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, a responsabilidade desses agentes tem tanto a ver com esse ataque \u00e0 legitimidade das institui\u00e7\u00f5es, que faz com que as pessoas entendam que elas est\u00e3o vivendo um regime pol\u00edtico ileg\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: No dia 13 de novembro de 2024, um homem lan\u00e7ou duas bombas no pr\u00e9dio do STF em Bras\u00edlia. A primeira bomba n\u00e3o explodiu e a segunda&nbsp;detonou e espalhou fragmentos de metal expelidos por um dispositivo de p\u00f3lvora em um tubo de PVC.&nbsp;Uma terceira,&nbsp;foi acesa, o homem se deitou sobre ela, morrendo com a explos\u00e3o.&nbsp;Os bolsonaristas tentaram novamente normalizar o ato, dizendo que se tratava de uma pessoa com algum desequil\u00edbrio psicol\u00f3gico, sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o com Bolsonaro ou os ataques do 8 de janeiro. Mas, para o nosso entrevistado S\u00e1vio Cavalcante ambos ataques s\u00e3o resultado do mesmo movimento extremista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e1vio<\/strong>: Talvez n\u00e3o tenha, muito provavelmente, n\u00e3o tenha havido algum n\u00edvel de planejamento maior acima desse indiv\u00edduo, tenha sido, de fato, um caso pensado por ele pr\u00f3prio, mas que demonstra o quanto essa agita\u00e7\u00e3o e essa propaganda fomentam esse tipo de radicalismo e eles pr\u00f3prios perdem o controle sobre essa base em alguns momentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o podemos esquecer que eventos com tra\u00e7os de terrorismo, eles foram, sim, planejados de uma forma mais coletiva nos \u00faltimos anos, seja nos bloqueios de estradas, seja na tentativa de colocar uma bomba no aeroporto de Bras\u00edlia, seja nos eventos de ataque ali \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, no dia da diploma\u00e7\u00e3o de Lula em Bras\u00edlia, ou seja, esse tipo de uso da viol\u00eancia contra as institui\u00e7\u00f5es do Estado, contra a ordem vigente, \u00e9 uma parte&nbsp;fundamental do tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o promovida pelo bolsonarismo e que tem sido normalizado por uma maior parte da sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: Com a internet, o discurso promovido por grupos extremistas ganhou uma nova dimens\u00e3o. Termos preexistentes como patriotismo e fam\u00edlia, passaram a ser ressignificados, enquanto categorias inventadas, como marxismo cultural e ideologia de g\u00eanero, foram criadas para incitar o \u00f3dio e o medo, muitas vezes esvaziando seus significados originais. As redes sociais amplificaram a dissemina\u00e7\u00e3o dessas narrativas, facilitando a propaga\u00e7\u00e3o de teorias conspirat\u00f3rias e intensificando a polariza\u00e7\u00e3o. Bolhas digitais surgiram, fortalecendo essas constru\u00e7\u00f5es e ampliando seu alcance na sociedade. Andr\u00e9 Kaysel analisa como a internet se tornou uma ferramenta poderosa para a propaga\u00e7\u00e3o dessas categorias acusat\u00f3rias, contribuindo para gerar desconfian\u00e7a e resist\u00eancia ao di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9:&nbsp;<\/strong>A internet, no primeiro momento, e as redes sociais no segundo. O Olavo de Carvalho foi muito pioneiro ao perceber o potencial das redes, e passou da grande imprensa, onde tinha uma certa inicia\u00e7\u00e3o no final dos anos 1990, foi escanteado por ser muito extremista, e ele vai para a internet no come\u00e7o dos 2000, com o site M\u00eddia Sem M\u00e1scaras, por exemplo, e depois para a partir de 2009, 2010, o advento das redes sociais e a sua populariza\u00e7\u00e3o, porque ela surgiu um pouco antes, esse popularismo foi ativado antes dessa \u00e9poca, potencializa o alcance das teorias conspirat\u00f3rias como o woke ou o marxismo cultural, que est\u00e3o associados, como eu falei, voc\u00ea pode fazer uma s\u00e9rie de associa\u00e7\u00f5es nesse imagin\u00e1rio da extrema direita, entre as associa\u00e7\u00f5es do marxismo cultural, esquerda-woke, ideologia de g\u00eanero, e assim por diante, que conformam esse universo, essa vis\u00e3o de mundo, que tem se difundido muito, que pelas redes sociais, Facebook no primeiro momento, Twitter, Youtube, Instagram, enfim, para n\u00e3o falar, Telegram, ou at\u00e9 outros universos mais obscuros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Sonia Corr\u00eaa destaca que a extrema direita, em especial a norte-americana, demonstrou grande habilidade no uso da internet para disseminar suas ideias. Combinando discursos simples, emocionais e polarizadores com as din\u00e2micas das redes sociais, como algoritmos que priorizam conte\u00fados de alta intera\u00e7\u00e3o, esse grupo conseguiu expandir rapidamente suas narrativas. Essa estrat\u00e9gia n\u00e3o apenas amplificou suas mensagens, mas tamb\u00e9m consolidou sua influ\u00eancia, tanto no debate p\u00fablico quanto em movimentos pol\u00edticos globais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia<\/strong>: As figuras do campo da outra direita americana que gestaram tudo isso, uma boa parte deles era do campo dos estudos estrat\u00e9gicos. E nunca \u00e9 demais lembrar que a internet \u00e9, originalmente, um produto das For\u00e7as Armadas americanas. Tamb\u00e9m foi gestada nesse ambiente. Depois ela se tornou uma coisa da sociedade civil. Mas ela foi, originalmente, gestada como um aparato militar. Foi nesse lugar. Ent\u00e3o, tem converg\u00eancias a\u00ed que s\u00e3o pouco estudadas, mas que a gente tem que\u2026 N\u00e3o estou dizendo que isso \u00e9 uma coisa conspirat\u00f3ria, que foi inventada no mundo militar, depois foi transportada da sociedade, para\u2026 N\u00e3o \u00e9 isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tem elementos da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o da internet. O campo da ultradireita norte-americana, principalmente, tem muitas habilidades, desde sempre, para lidar com esse instrumento. Tem uma proximidade, uma intimidade com o instrumento que foi gestado de alguma maneira no mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>E a ultradireita fez uso da internet, politicamente, desde muito cedo, e com uma efic\u00e1cia que \u00e9 imbat\u00edvel. Imbat\u00edvel at\u00e9 hoje. Todas essas medidas, o que acontece no Twitter, eles adquiriram a infraestrutura epist\u00eamica da ultradireita para manejo da internet. \u00c9 uma coisa incr\u00edvel, como eles fizeram isso desde muito cedo. A habilidade de transmitir esse conhecimento, de replicar esse conhecimento \u00e0 medida que vai se expandindo. E, claro, eu tenho quase certeza de que o sucesso dessa reconfigura\u00e7\u00e3o da ultradireita n\u00e3o houvera sido o mesmo se n\u00e3o fosse a exist\u00eancia da internet.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: Hoje podemos observar que o termo marxismo cultural, ap\u00f3s d\u00e9cadas de intensa utiliza\u00e7\u00e3o pela extrema direita para consolidar sua ret\u00f3rica e mobiliza\u00e7\u00e3o, est\u00e1 come\u00e7ando a ser substitu\u00eddo pelo termo&nbsp;<em>woke<\/em>, em especial nos Estados Unidos, onde se tornou uma nova linguagem franca das for\u00e7as conservadoras. Apesar do seu car\u00e1ter enigm\u00e1tico e origem na&nbsp;l\u00edngua inglesa, o termo&nbsp;<em>woke<\/em>&nbsp;ganhou popularidade e tamb\u00e9m reflete, em menor medida, entre extremistas do Brasil e de outros pa\u00edses. Assim como o marxismo cultural, o&nbsp;<em>woke<\/em>&nbsp;se tornou uma esp\u00e9cie de grande cesta, onde cabem todas as cr\u00edticas direcionadas a movimentos progressistas, abrangendo desde ambientalistas e feministas at\u00e9 ativistas&nbsp;antirracistas e defensores da teoria cr\u00edtica racial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Esse deslocamento \u00e9 marcante, que adiciona um n\u00edvel de sofistica\u00e7\u00e3o \u00e0s narrativas conservadoras. Enquanto o marxismo cultural se concentrava em categorias de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o termo&nbsp;<em>woke<\/em>&nbsp;e sua apropria\u00e7\u00e3o incluem tamb\u00e9m categorias intelectuais e te\u00f3ricas, como a interseccionalidade e a teoria decolonial. Nos Estados Unidos, o&nbsp;<em>woke<\/em>, que nasceu no movimento negro americano nos anos 1930 como uma express\u00e3o de tomada de&nbsp;consci\u00eancia, foi desfigurado e instrumentalizado pela direita como uma arma ret\u00f3rica. Essa apropria\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 come\u00e7a a ressoar globalmente, reflete-se tamb\u00e9m, embora em menor escala, nos discursos da extrema-direita brasileira e de outros pa\u00edses. Sobre esse fen\u00f4meno e suas implica\u00e7\u00f5es, ouvimos o professor Andr\u00e9 Kaysel, que analisa o impacto dessas narrativas no cen\u00e1rio global contempor\u00e2neo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9<\/strong>: Com certeza. Eu n\u00e3o fiz um estudo da difus\u00e3o da express\u00e3o woke em chave negativa pela extrema-direita, embora isso daria uma bela pesquisa, se \u00e9 que algu\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o a fez, \u00e9 algo que surge nos Estados Unidos como, um ataque \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de reconhecimento de determinados grupos oprimidos sobretudo grupos&nbsp; socializados, mulheres, LGBTQIA+, etc. E que acaba sendo uma arma de disputa no que poder\u00edamos chamar de um campo da pol\u00edtica das identidades. E eu prefiro chamar de pol\u00edtica das identidades do que identitarismo, porque identitarismo j\u00e1 \u00e9 um termo pejorativo e que sugere a exist\u00eancia de uma ideologia que faz apelo \u00e0s identidades ou \u00e0 diferen\u00e7a, o que n\u00e3o \u00e9 bem o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que me parece mais um terreno de disputa entre determinados setores de esquerda, que, diferentemente de uma esquerda mais tradicional, fazem mais apelo \u00e0 diferen\u00e7a do que \u00e0 igualdade num polo e no outro polo \u00e0 extrema-direita que associa a diferen\u00e7a \u00e0 desigualdade, que positiva a diferen\u00e7a pela desigualdade. Ent\u00e3o, esse \u00e9 um campo cinzento,&nbsp;&nbsp;aonde os termos podem ser apropriados e reapropriados de um lado e de outro. Acho que me parece ser o que aconteceu com o termo Woke, que justamente tem sido muito usado pela extrema-direita associada ao movimento MAGA \u2013 Make America Great Again, Trump, e adjac\u00eancias n\u00e3o apenas ao trumpismo, mas em setores do conservadorismo americano, de&nbsp;uma maneira mais geral, e aqui no Brasil tem chegado tamb\u00e9m em setores associados ao bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: Determinados setores sociais, como as classes m\u00e9dias e a pequena burguesia, s\u00e3o especialmente suscet\u00edveis ao discurso da extrema-direita radicalizada. Essas narrativas frequentemente extrapolam o medo da perda de privil\u00e9gios econ\u00f4micos e culturais, atribuindo as transforma\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas a uma suposta conspira\u00e7\u00e3o ligada ao marxismo cultural. Esse discurso ressoa particularmente em contextos de instabilidade e&nbsp;mudan\u00e7as r\u00e1pidas, onde a ret\u00f3rica conservadora se apresenta como uma defesa dos valores tradicionais. Sobre esse fen\u00f4meno, o soci\u00f3logo S\u00e1vio Cavalcante analisa como esses grupos s\u00e3o mobilizados por sentimentos de medo e ressentimento, alimentado por discursos que buscam fomentar o \u00f3dio e a divis\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e1vio<\/strong>: Bom, a rela\u00e7\u00e3o entre extrema-direita e classe m\u00e9dia, embora esse seja um tema que se desdobra em dimens\u00f5es variadas, eu vejo como uma das caracter\u00edsticas centrais da explica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a da extrema-direita contempor\u00e2nea. O primeiro ponto que a gente precisaria notar, e aqui tem uma associa\u00e7\u00e3o bastante forte dessa extrema-direita contempor\u00e2nea com as experi\u00eancias do fascismo hist\u00f3rico no s\u00e9culo XX, \u00e9 que sim, sua base mais org\u00e2nica, mais radicalizada e mais ideologicamente coesa, ela \u00e9 composta por indiv\u00edduos que v\u00eam de camadas intermedi\u00e1rias da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Assalariados de classe m\u00e9dia, principalmente baixa classe m\u00e9dia assalariada, pequenos propriet\u00e1rios, aquilo que enfim a teoria social designa como pequena e m\u00e9dia burguesia.&nbsp;Isso n\u00e3o significa que a extrema-direita n\u00e3o tenha um apoio mais amplo, que atravessa as classes sociais em termos eleitorais. Por\u00e9m, do ponto de vista das bases mais radicalizadas, que mant\u00eam uma politiza\u00e7\u00e3o permanente para al\u00e9m dos contextos eleitorais, voc\u00ea percebe uma sobrerepresenta\u00e7\u00e3o de fato de setores das camadas intermedi\u00e1rias da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>E por que isso acontece? A extrema-direita, tal como o fascismo hist\u00f3rico, \u00e9 um movimento reacion\u00e1rio. Ele reage em cada contexto hist\u00f3rico a for\u00e7as distintas, mas \u00e9 um tipo de rea\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7as pelas quais a sociedade passa e que, no caso atual, vamos focar aqui no Brasil, n\u00f3s estamos falando de um conjunto de mudan\u00e7as nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI em que houve uma politiza\u00e7\u00e3o progressista das desigualdades, das diferen\u00e7as, que se transformou principalmente no ciclo dos governos petistas de 2003 a 2016 em reformas ou tentativas de combater a desigualdade e a opress\u00e3o. Pol\u00edticas p\u00fablicas, ent\u00e3o, que v\u00e3o mudar ou afetar essas rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e a forma da desigualdade no Brasil e que v\u00e3o buscar o combate ao racismo, ao machismo, \u00e0 homofobia.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando esses movimentos que buscam combater a desigualdade&nbsp;come\u00e7am a ter um efeito mais concreto,&nbsp;voc\u00ea percebe um conjunto de efeitos nas pr\u00e1ticas sociais mais amplas e mesmo nas pr\u00e1ticas interpessoais, nas rela\u00e7\u00f5es afetivas, familiares. Voc\u00ea percebe o quanto esses movimentos afetam o poder de certos grupos que tradicionalmente baseiam a sua domina\u00e7\u00e3o em formas que buscam naturalizar a opress\u00e3o e a desigualdade de g\u00eanero, de ra\u00e7as, desigualdades sociais e econ\u00f4micas. Enfim, existem mudan\u00e7as concretas e reais que afetam a din\u00e2mica da desigualdade e da domina\u00e7\u00e3o na sociedade e que s\u00e3o as causas desse movimento reacion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, por que isso afeta mais diretamente e produz sintomas mais radicais nessas camadas intermedi\u00e1rias? Porque dentro delas existem aqueles grupos que s\u00e3o os menos capazes, em termos de renda, de capital cultural, ou de condi\u00e7\u00f5es materiais ideol\u00f3gicas de manter o lugar superior que essas pessoas tradicionalmente exerciam nas suas fam\u00edlias, nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, no trabalho, na sociedade como um todo.&nbsp;O que eu estou querendo dizer com isso?&nbsp;\u00c9 claro que voc\u00ea consegue encontrar fra\u00e7\u00f5es da classe dominante, do grande capital, que v\u00e3o se associar \u00e0 extrema direita, talvez por raz\u00f5es mais instrumentais, mais oportunistas. Mas essas classes dominantes, essas fra\u00e7\u00f5es da grande burguesia, elas t\u00eam recursos ideol\u00f3gicos e econ\u00f4micos de manter o poder e a domina\u00e7\u00e3o sem necessariamente usar esse tipo de estrat\u00e9gia mais radicalizada da extrema direita.&nbsp;S\u00e3o nas camadas intermedi\u00e1rias da sociedade, principalmente baixa classe m\u00e9dia, pequena burguesia, em que esse&nbsp;ressentimento em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos da mudan\u00e7a social&nbsp;que v\u00e3o produzir comportamentos mais radicais que naturalizam mais a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Um aspecto central nesse debate \u00e9 o impacto das acusa\u00e7\u00f5es de marxismo cultural nas universidades e centros de pesquisa, particularmente nas \u00e1reas de ci\u00eancias humanas e sociais. Essas narrativas buscam deslegitimar o saber acad\u00eamico, colocando em d\u00favida sua relev\u00e2ncia e promovendo a ideia de que as universidades seriam espa\u00e7os de doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Esse discurso criou um ambiente muito hostil ao pensamento cr\u00edtico, dificultando debates essenciais sobre inclus\u00e3o, diversidade e justi\u00e7a social. Al\u00e9m disso, contribui para persegui\u00e7\u00f5es contra professores e pesquisadores, amea\u00e7ando n\u00e3o apenas a liberdade acad\u00eamica, mas tamb\u00e9m o avan\u00e7o de discuss\u00f5es fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria, como avalia o professor Andr\u00e9 Kaysel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9<\/strong>: O anti-intelectualismo \u00e9 um lugar comum na direita n\u00e3o \u00e9 de hoje. Tem um livro cl\u00e1ssico de um historiador norte-americano, Richard Hofstadter, \u201cThe Paranoid Style in American Politics\u201d&nbsp;O estilo paran\u00f3ide da pol\u00edtica americana, escrito justamente na esteira do macartismo. Ou seja, no Brasil, a coisa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente, ou pelo menos nos \u00faltimos anos, na \u00faltima d\u00e9cada, tem se aproximado muito.<\/p>\n\n\n\n<p>As universidades s\u00e3o alvo privilegiado da ideia de discurso de subvers\u00e3o nas ideias de justifica\u00e7\u00e3o, especialmente as humanidades. Podemos chamar de uma investida macartista. Mas como voc\u00ea lembrou bem, n\u00e3o somos s\u00f3 n\u00f3s. Os nossos colegas da \u00e1rea de sa\u00fade descobriram amargamente durante a pandemia que eles tamb\u00e9m eram alvos do discurso anticient\u00edfico e anti-intelectual. E poder\u00edamos acrescentar at\u00e9 nas Exatas. Por exemplo, impreca\u00e7\u00f5es do Olavo de Carvalho contra a matem\u00e1tica moderna, contra a regra de Kant, enfim, contra a l\u00f3gica contempor\u00e2nea, n\u00e3o Aristot\u00e9lica, enfim. Chegando \u00e0s raias da loucura, dentro do terraplanismo, que n\u00e3o chegou a endossar, mas n\u00e3o chegou a ocupar e ficou um espa\u00e7o importante nessa extrema-direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: Termos como marxismo cultural n\u00e3o surgem por acaso. S\u00e3o constru\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas concebidas para dividir e polarizar, mobilizando a sociedade contra transforma\u00e7\u00f5es sociais e culturais. Ao se popularizar em discursos conservadores, essa express\u00e3o tornou-se uma arma ret\u00f3rica usada para explorar o medo de mudan\u00e7as e justificar agendas autorit\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tatiane<\/strong>: Essa estrat\u00e9gia simplifica quest\u00f5es complexas, transformando pautas como direitos humanos, igualdades e justi\u00e7a social em amea\u00e7as imagin\u00e1rias. Ao criar essa narrativa, movimentos conservadores n\u00e3o apenas distorcem a realidade, mas tamb\u00e9m refor\u00e7am divis\u00f5es e tratam mudan\u00e7as progressistas como perigos \u00e0 ordem tradicional. O marxismo cultural opera como um r\u00f3tulo que valida a censura em escolas, universidades e meios de comunica\u00e7\u00e3o, dificultando debates cr\u00edticos e fortalecendo uma vis\u00e3o de mundo que prop\u00f5e os chamados valores conservadores contra transforma\u00e7\u00f5es sociais que buscam a inclus\u00e3o. Esse discurso limita o di\u00e1logo e fomenta desconfian\u00e7as, comprometendo avan\u00e7os sociais e projetos sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Val\u00e9rio<\/strong>: Esperamos que esse epis\u00f3dio tenha contribu\u00eddo para lan\u00e7ar luz sobre as origens e os impactos dessas narrativas, ajudando a desmentificar seu uso estrat\u00e9gico. A constru\u00e7\u00e3o de categorias acusat\u00f3rias \u00e9 uma ferramenta poderosa para manipular percep\u00e7\u00f5es, mas compreendem sua l\u00f3gica, \u00e9 o primeiro passo para super\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>As trilhas sonoras usadas s\u00e3o do&nbsp;Youtube Audio Library.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ou\u00e7a aqui O epis\u00f3dio 5 da S\u00e9rie Termos Amb\u00edguos trata da express\u00e3o Marxismo Cultural. 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