{"id":27261,"date":"2024-10-29T16:25:12","date_gmt":"2024-10-29T19:25:12","guid":{"rendered":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/?p=27261"},"modified":"2025-09-15T16:26:00","modified_gmt":"2025-09-15T19:26:00","slug":"serie-termos-ambiguos-1-ideologia-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/multimidia\/serie-termos-ambiguos-1-ideologia-de-genero\/27261","title":{"rendered":"S\u00e9rie Termos Amb\u00edguos \u2013 # 1 \u2013 Ideologia de G\u00eanero"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" src=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/IdeologiadeGenero-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27254\" srcset=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/IdeologiadeGenero-1.jpeg 1080w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/IdeologiadeGenero-1-800x800.jpeg 800w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/IdeologiadeGenero-1-500x500.jpeg 500w, https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/07\/IdeologiadeGenero-1-768x768.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong><a href=\"https:\/\/www.oxigenio.comciencia.br\/serie-termos-ambiguos-1-ideologia-de-genero\/\">Ou\u00e7a aqui<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea sabe o que significa o termo Ideologia de G\u00eanero? E Cristofobia, voc\u00ea sabe o que \u00e9? E de onde surgiu a ideia de Racismo Reverso? Pensando em esclarecer a origem e os usos de termos amb\u00edguos como esses que criamos o podcast Termos Amb\u00edguos, uma parceria do podcast Oxig\u00eanio e do Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica (SPW na sigla em ingl\u00eas). Os epis\u00f3dios foram criados a partir da publica\u00e7\u00e3o&nbsp;<a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/pequenodicionario\/uploads\/Pequeno%20Dicion%C3%A1rio.pdf\">Termos amb\u00edguos do debate pol\u00edtico atual: pequeno dicion\u00e1rio que voc\u00ea n\u00e3o sabia que existia<\/a>, uma realiza\u00e7\u00e3o: Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica (SPW) e Programa Interdisciplinar de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica Aplicada da UFRJ, coordenado pela pesquisadora Sonia Corr\u00eaa, ilustrado por Carol Ito e que contou com a participa\u00e7\u00e3o de uma grande equipe de pesquisadores na elabora\u00e7\u00e3o dos verbetes.<\/p>\n\n\n\n<p>Este primeiro epis\u00f3dio trata do termo Ideologia de G\u00eanero, mostrando o contexto de cria\u00e7\u00e3o ou apropria\u00e7\u00e3o do termo pela extrema direita em discursos que v\u00e3o na contram\u00e3o de pol\u00edticas e leis que visem promover direitos de g\u00eanero e \u00e9tnico-raciais. O epis\u00f3dio conta com entrevistas de Rodrigo Borba, do professor de ensino m\u00e9dio Marcos Ferreira e de Sonia Corr\u00eaa. O roteiro foi produzido por&nbsp;Irene do Planalto Chemin, Clarissa Reche, Simone Pallone e revisado por&nbsp;Clarissa Reche, Tatiane Amaral e Nana Soares. O tiktok do projeto foi produzido por Maiya Yantunde Cruz.&nbsp;A capa foi produzida por Marcelle Matias.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhos t\u00e9cnicos foram feitos por Daniel Faria, que tamb\u00e9m apresenta o podcast junto com Yvana Leit\u00e3o. A concep\u00e7\u00e3o do podcast \u00e9 de Daniel Faria, Sonia Corr\u00eaa e Simone Pallone e conta com o apoio do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo, da Unicamp e foi viabilizado pelo conv\u00eanio entre o Labjor e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids.<\/p>\n\n\n\n<p>Acompanhe mais essa s\u00e9rie associada ao podcast Oxig\u00eanio!<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Roteiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Nas elei\u00e7\u00f5es para presidente em 2018, um evento que pautou parte das campanhas foi a hist\u00f3ria do chamado Kit Gay. Voc\u00ea se lembra disso? O termo foi usado para desqualificar um material did\u00e1tico que integrava o programa Escola Sem Homofobia, do MEC, e cuja origem datava de 2010. \/\/ Foi impressionante como setores fundamentalistas religiosos e de extrema direita conseguiram financiar a produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias fake news para promover a ideia de que o programa Escola Sem Homofobia era \/ na verdade \/ parte de uma conspira\u00e7\u00e3o cujo objetivo era fazer com que crian\u00e7as virassem homossexuais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: \u00c9 importante frisar que o fen\u00f4meno n\u00e3o atinge apenas o ambiente escolar. Est\u00e1 inserido em debates como o de banheiros unissex em locais p\u00fablicos,\/ cotas para pessoas LGBT,\/ sem contar nos in\u00fameros casos de ofensas a pessoas n\u00e3o heterossexuais. S\u00e3o ataques f\u00edsicos e at\u00e9 assassinatos.<br>\u00c9 nesse caldo que o termo \u201cIdeologia de G\u00eanero\u201d foi ganhando destaque, criando um p\u00e2nico moral que se instaurou em uma parcela substancial da sociedade brasileira. O que aconteceu com o \u201ckit gay\u201d \u00e9 um bom exemplo sobre como o termo IDEOLOGIA DE G\u00caNERO foi instrumentalizado pela extrema direita no pa\u00eds, \/ ou estimulado por ela \/ e do quanto essas distor\u00e7\u00f5es podem ser nefastas para as pessoas. \/\/ Mas do que se trata exatamente esse termo? \/\/ Por que ele pode ser tratado como um termo amb\u00edguo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Bem-vindes ao primeiro epis\u00f3dio de \u201cTERMOS AMB\u00cdGUOS\u201d, o podcast que mergulha nas origens das express\u00f5es e conceitos que moldam nosso mundo. Eu sou o Daniel Faria, e esse podcast \u00e9 uma parceria entre o Oxig\u00eanio e o Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica, o SPW na sigla em ingl\u00eas. Aqui vamos explorar alguns termos amb\u00edguos que est\u00e3o muito presentes no nosso dia a dia, mas principalmente no debate pol\u00edtico atual. E por que s\u00e3o amb\u00edguos? Bem, esses termos s\u00e3o compostos por palavras simples e conhecidas, mas na forma que eles t\u00eam sido usados, carregam sentidos que n\u00e3o os representam como est\u00e3o nos dicion\u00e1rios.<br><br><strong>Yvana<\/strong>: Ol\u00e1! Eu sou a Yvana Leit\u00e3o, e vou apresentar este epis\u00f3dio com o Daniel. \/ Vamos contar pra voc\u00ea a fascinante hist\u00f3ria por tr\u00e1s da express\u00e3o \u201cIDEOLOGIA DE G\u00caNERO.\u201d Vamos tra\u00e7ar as ra\u00edzes desse termo e sua ascens\u00e3o ao protagonismo pol\u00edtico no Brasil e no mundo, e as diversas for\u00e7as que propagaram esse conceito. E eu vou come\u00e7ar contando um caso que ocorreu com o Marcos Ferreira, que \u00e9 professor de Sociologia em uma escola estadual de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. \/ Na verdade, quem vai contar \u00e9 ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Ferreira<\/strong>: eu sou professor h\u00e1 mais ou menos 11 anos, n\u00e9? E em sala de aula, eu observei que os meus alunos, eles t\u00eam uma certa dificuldade em entender essa coisa da rela\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, n\u00e9 da quest\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade de acordo com conte\u00fados b\u00e1sico comum, n\u00e9? De acordo com as normas e as regras de educa\u00e7\u00e3o aqui em Minas Gerais a gente tem que trazer esse tema pra sala de aula, n\u00e9, eu abordo ele eh um bimestre todo, ou seja, uma m\u00e9dia de mais ou menos dois meses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Aprender sobre g\u00eanero e sexualidade \u00e9 direito dos estudantes, deve integrar a forma\u00e7\u00e3o pessoal e social da escola. Esses conte\u00fados fazem parte da Base Nacional Comum Curricular a n\u00edvel nacional, mas ainda s\u00e3o muito mal vistos pelas camadas mais conservadoras da escola e da sociedade. Isso porque, de acordo com a religi\u00e3o e os valores dessas pessoas, a equidade entre homens e mulheres, a exist\u00eancia de gays, l\u00e9sbicas, trans ou o casamento entre homossexuais, poderiam levar ao fim dos valores da sociedade e da fam\u00edlia. Promover o debate sobre essas quest\u00f5es em sala de aula, leva os alunos a refletirem que existem outras forma\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia, que as sociedades mudam, que os valores mudam e que \u00e9 preciso respeitar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Retomando a experi\u00eancia do Marcos, ele contou que nas aulas iniciais sobre g\u00eanero e sexualidade, trabalha conceitos sobre o que \u00e9 \u201cser homem\u201d e o que \u00e9 \u201cser mulher\u201d, e tamb\u00e9m sobre identifica\u00e7\u00e3o heteronormativa, diversidade de g\u00eanero, classifica\u00e7\u00e3o sexual como Hetero, Bi, L\u00e9sbica, Gay, Trans, Assexualidade e outros. E em 2018, diferentemente de anos anteriores, ele prop\u00f4s que os alunos fizessem um trabalho de criar \u201cimagens\u201d sobre a tem\u00e1tica das aulas, at\u00e9 para evitar muitos embates em sala, o que gerava grande desgaste. Muitas vezes por quest\u00f5es religiosas e morais por parte dos alunos. E qual foi o resultado? O pr\u00f3prio Marcos vai te contar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Ferreira:<\/strong>&nbsp;Os alunos fizeram trabalhos maravilhosos. Usei todos os meus alunos, dez ou onze turmas, cada turma com uma m\u00e9dia de trinta alunos em sala de aula e a\u00ed movimentei esse povo todo s\u00f3 com imagem. Essas imagens foram espalhadas para a escola inteira, n\u00e9? Chamou aten\u00e7\u00e3o de todo o corpo docente, da dire\u00e7\u00e3o, da vice-dire\u00e7\u00e3o e o povo gostando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: O professor ficou bem satisfeito com o sucesso da sua proposta. Ele disse que identificou nos trabalhos dos alunos e das alunas formas de sofrimentos, de viol\u00eancia f\u00edsica, preconceitos, discrimina\u00e7\u00e3o, estigma e intoler\u00e2ncia \u00e0s mulheres e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o hetero. Percebeu um engajamento pol\u00edtico em alguns trabalhos com falas gravadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Apesar do sucesso do projeto, uma colega da escola de Marcos, professora de linguagens ficou, como ele disse,&nbsp;<strong>inquieta<\/strong>&nbsp;com as imagens espalhadas pela escola, especialmente com dois dos cartazes que, segundo ela, eram imagens&nbsp;<strong>pesadas<\/strong>&nbsp;para um espa\u00e7o onde tinha crian\u00e7as, e que iam contra sua cren\u00e7a religiosa. Uma era a imagem de uma pessoa com v\u00e1rias formas: homem, gay, trans e outras. A segunda era a representa\u00e7\u00e3o de um estupro, com uma mulher derramando sangue do \u00f3rg\u00e3o sexual e uma pessoa com a B\u00edblia direcionada para a vitima.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Sem o apoio da dire\u00e7\u00e3o para tirar os cartazes, a professora convocou o colegiado, do qual fazem parte membros da comunidade onde a escola t\u00e1 inserida. A movimenta\u00e7\u00e3o da comunidade escolar acabou atraindo um pol\u00edtico da regi\u00e3o, que reuniu uma comitiva de assessores e foi pra escola, filmou os desenhos dos estudantes e postou nas redes sociais, em tom de rep\u00fadio \u00e0quele trabalho pedag\u00f3gico. E assim, a coisa foi crescendo. Esse pol\u00edtico era o deputado federal Lincoln Portela, do PL de Minas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos Ferreira<\/strong>: Nossa, parte pior veio depois dessas filmagens. Foram mais de 60 mil visualiza\u00e7\u00f5es, mais de 30 mil coment\u00e1rios, n\u00e9? \u201cEst\u00e3o doutrinando meus filhos\u201d! etc e tal. A dire\u00e7\u00e3o da escola, a\u00ed entrou a secretaria de educa\u00e7\u00e3o, na situa\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o dormi a noite, n\u00e9? Porque eu precisava ver todos os coment\u00e1rios, porque a minha vida tava em risco naquele momento, entendeu? Eu entrei em contato com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o [que disse], voc\u00ea n\u00e3o vai fazer nada, n\u00f3s vamos tomar conta da situa\u00e7\u00e3o e o senhor n\u00e3o vai se envolver em nada. A minha sorte foi que eu estava 100% dentro das normas da Secretaria de Estado de Educa\u00e7\u00e3o que tem como base, n\u00e9, a BNCC a n\u00edvel nacional e a\u00ed foi o argumento utilizado a todo tempo para o colegiado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Hist\u00f3rias como a que o Marcos contou foram pipocando em v\u00e1rios lugares: Patos de Minas, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo\u2026 V\u00e1rios deputados estaduais e federais e tamb\u00e9m vereadores ligados a partidos conservadores, passaram a contestar o ensino de conte\u00fados pedag\u00f3gicos que abordavam a diversidade de g\u00eanero e sexualidade. Houve tamb\u00e9m um forte apelo moral por parte dos fundamentalistas religiosos, evang\u00e9licos e cat\u00f3licos, alegando que trabalhar g\u00eanero e sexualidade na escola se tratava de reproduzir uma \u201cideologia de g\u00eanero\u201d que destr\u00f3i a fam\u00edlia e produz desordem social. Diante desse cen\u00e1rio de tens\u00e3o dentro e fora da escola, o professor Marcos optou por um novo caminho did\u00e1tico:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcos<\/strong>: 2019, novamente chegou a \u00e9poca de eu trazer a tem\u00e1tica pra sala de aula e agora, n\u00e9? Como fazer sem o enfrentamento, n\u00e9? Eh mudar novamente a estrat\u00e9gia, n\u00e9? a\u00ed a minha estrat\u00e9gia no ano seguinte foi trazer a religi\u00e3o pra sala de aula. Deu certo. eu fiz um estudo, n\u00e9? Como \u00e9 que que aquilo est\u00e1 posto l\u00e1, quest\u00e3o de da sexualidade eh na religi\u00e3o. E eu estudei um pouco e a\u00ed eu consigo dar um equil\u00edbrio. Mas um equil\u00edbrio obviamente no sentido de mostrar pra eles que n\u00e3o existe somente uma sexualidade, uma classifica\u00e7\u00e3o sexual, a heterossexual, existe in\u00fameras, centenas talvez, entendeu? E a\u00ed eu trouxe pra sala de aula mais de cem classifica\u00e7\u00f5es, e eles se identificavam com umas, n\u00e9? eu eu trago, eu eu uso uma linguagem muito pr\u00f3pria dos alunos, n\u00e9? E e o maior tabu \u00e9 a quest\u00e3o da religi\u00e3o. Todas as vezes que eu come\u00e7o abordar esse tema, alunos que eram meus amigos, viram meus inimigos, n\u00e9? E sempre tem uma porcentagenzinha de alunos. \u00c9 porque eles n\u00e3o aceitam, n\u00e9 a maioria geralmente s\u00e3o alunos evang\u00e9licos, entendeu? Existem alunos que se que ele que ele chega pro professor e diz n\u00e3o \u00e9 um professor legal gostei muito da sua aula n\u00e3o sabia dessas situa\u00e7\u00f5es. Tem aluno que se mostra muito curioso: \u201ce existe isso mesmo\u201d?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Alguns alunos, principalmente evang\u00e9licos que, segundo Marcos, n\u00e3o recebem bem esse conte\u00fado, confrontam e questionam em que o professor se baseia pra dizer que existem in\u00fameras outras classifica\u00e7\u00f5es sexuais, al\u00e9m da heterossexualidade, e que isso n\u00e3o est\u00e1 na B\u00edblia. Mas a principal rea\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 de curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Depois de ouvir essa experi\u00eancia do Marcos, a gente vai mostrar como o termo \u201cideologia de g\u00eanero\u201d \u00e9 um termo usado para deslegitimar o campo de estudos de g\u00eanero e pol\u00edticas destinadas a alcan\u00e7ar a igualdade de g\u00eanero. A tal da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d serve como estrat\u00e9gia para desqualificar teorias, leis e pol\u00edticas p\u00fablicas que contestam desigualdades, exclus\u00f5es e viol\u00eancias, sejam elas entre mulheres e homens, sejam elas decorrentes das normas impostas pelo que se chama de cis-heterossexualidade. Quem vai falar sobre isso vai ser o Rodrigo Borba, professor de lingu\u00edstica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor do verbete Ideologia de G\u00eanero e um dos organizadores do dicion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rodrigo<\/strong>: A minha preocupa\u00e7\u00e3o especificamente ao escrever o verbete sobre ideologia de g\u00eanero tem a ver com o projeto mais amplo, o que nos motivou a produzir esses dicion\u00e1rios, ali\u00e1s os dois dicion\u00e1rios, n\u00e9?, o dicion\u00e1rio de termos amb\u00edguos do debate pol\u00edtico atual e tamb\u00e9m a sua vers\u00e3o para um p\u00fablico mais jovem, foi o fato de que, embora haja muitas pesquisas sobre extrema-direita, sobre o campo conservador, sobre o campo super conservadores e seu l\u00e9xico, suas palavras, as palavras que eles utilizam para mobilizar a popula\u00e7\u00e3o. Ou pelo menos parte da popula\u00e7\u00e3o de forma produzir certos medos contra um grupo que eles acabaram por inventar como inimigos, n\u00e9? como opositores. Ent\u00e3o o objetivo do projeto \u00e9 justamente transformar esse conhecimento que j\u00e1 est\u00e1 bastante s\u00f3lido na academia, para um p\u00fablico que, em geral, n\u00e3o tem acesso a esse conhecimento, porque esses textos s\u00e3o publicados em livros, em artigos cient\u00edficos que n\u00e3o circulam para um grande p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: T\u00e1, mas\u2026e como essa no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero foi apropriada pela extrema direita a ponto de ser chamada de \u201cideologia\u201d, usada para provocar medos e rejei\u00e7\u00e3o em torno dessas quest\u00f5es? Nada melhor que o Dicion\u00e1rio de termos amb\u00edguos pra nos ajudar a entender essa jornada. Ao abrirmos a p\u00e1gina 33 do Dicion\u00e1rio, a gente volta l\u00e1 pra 2003, quando, em 14 de julho daquele ano, o termo \u201cideologia de g\u00eanero\u201d surgiu pela primeira vez no Brasil. Em um discurso na C\u00e2mara, o deputado federal Elimar M\u00e1ximo Damasceno, do Partido da Reedifica\u00e7\u00e3o da Ordem Nacional (PRONA), um partido inspirado no movimento integralista, expressou suas preocupa\u00e7\u00f5es. Ou\u00e7a, na voz de Luiz Henrique Queiroz Leal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Luiz Henrique Leal<\/strong>&nbsp;\u2013 Abre aspas: \u201cA palavra \u2018g\u00eanero\u2019 sempre foi usada para designar o sexo. (\u2026) Agora, a express\u00e3o \u2018g\u00eanero\u2019 adquiriu outro significado, dentro de uma \u2018ideologia de g\u00eanero\u2019. G\u00eanero seria o papel desempenhado por um dos sexos, n\u00e3o importando se nasceu homem ou mulher (\u2026) Isso \u00e9 mais um eufemismo para encobrir desvios no comportamento sexual.\u201d Fecha aspas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: No dicion\u00e1rio, o Rodrigo nos mostra que o termo \u201cideologia de g\u00eanero\u201d se originou fora do Brasil bem antes e tem sido usado por for\u00e7as conservadoras desde os anos 1990 para se opor \u00e0 igualdade de g\u00eanero, aos direitos reprodutivos e sexuais e aos direitos LGBT+, embora o Vaticano j\u00e1 estivesse produzindo textos sobre o tema bem antes, ainda nos anos 1980. A conex\u00e3o entre \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, comunismo, marxismo cultural, globalismo, patriotismo e outros conceitos tem sido uma estrat\u00e9gia compartilhada por neoconservadores religiosos e a nova direita em v\u00e1rias regi\u00f5es, especialmente na Am\u00e9rica Latina e Europa. Rodrigo Borba nos fala sobre isso:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rodrigo:<\/strong>A f\u00f3rmula ideologia de g\u00eanero, embora nem sempre com essas mesmas palavras, ela \u00e9 muito antiga. As pesquisas mostram que a Igreja Cat\u00f3lica vem h\u00e1 muitas e muitas d\u00e9cadas investindo numa campanha contra mudan\u00e7as sociais provocadas pelo feminismo. E com isso a igreja vem reformulando seus dogmas de forma que eles pare\u00e7am menos excludentes. Ent\u00e3o tem gente, por exemplo, que diz que a hist\u00f3ria dessa no\u00e7\u00e3o de ideologia de g\u00eanero remonta ao Papa Pio XII. Por\u00e9m, de forma mais direta, de forma mais intensa, o Jo\u00e3o Paulo II teve uma atua\u00e7\u00e3o bastante importante nessa cruzada vaticana contra o feminismo e contra as mudan\u00e7as sociais provocadas pelo feminismo. E mais recentemente, claro, o Bento 16, o Ratzinger, que teve um papel crucial nessa hist\u00f3ria. Ent\u00e3o a ideologia de g\u00eanero tem uma hist\u00f3ria muito antiga e pontos de eclos\u00e3o muito difusos, ou seja, um fen\u00f4meno transnacional por excel\u00eancia, que quando quando ele aparece em contextos nacionais ele tanto repete coisas que j\u00e1 estavam bem estabelecidas no discurso religioso sobre ideologia de g\u00eanero, quanto se adapta aos sabores locais. O verbete conta parte dessa hist\u00f3ria, escolhe pontos nodais dessa hist\u00f3ria para que fa\u00e7a sentido para o Brasil, n\u00e9?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Rodrigo relembra o caso do deputado do Prona, mas traz o caso para mais perto dos dias atuais, lembrando que um pouco antes de 2013, veio a hist\u00f3ria do kit gay e pra ele, o kit gay se acoplou \u00e0 essa fal\u00e1cia da ideologia de g\u00eanero. E a\u00ed ele, como autor, tinha um grande desafio de contar essa hist\u00f3ria toda em apenas 2.000 palavras, que era o tamanho combinado para os verbetes. E tinha que contar como o termo foi adquirindo diversos sentidos e como e como esses sentidos foram se transformando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rodrigo<\/strong>: A Sonia Corr\u00eaa, por exemplo, diz que a ideologia de g\u00eanero \u00e9 mais ou menos como uma hidra, n\u00e9? Um monstro de muitas cabe\u00e7as que se alimenta de muitas fontes diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: A Sonia Corr\u00eaa ainda n\u00e3o tinha aparecido aqui. Ela \u00e9 ativista e pesquisadora nos temas de g\u00eanero, sexualidade, sa\u00fade e direitos humanos. \u00c9 uma das coordenadoras do Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica, que \u00e9 um programa da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) e foi quem, ao lado do Rodrigo, organizou o dicion\u00e1rio, nas suas duas vers\u00f5es. A&nbsp; S\u00f4nia foi \u201ctestemunha ocular\u201d da eclos\u00e3o do problema de g\u00eanero do Vaticano em 1995, durante a prepara\u00e7\u00e3o para a Confer\u00eancia Mundial das Mulheres que aconteceu naquele ano em Pequim. Segundo&nbsp; ela, na verdade, o cardeal Ratzinger j\u00e1 tinha preocupa\u00e7\u00f5es com a teoria feminista da sexualidade pelo menos desde a metade dos anos 1980.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Na verdade, n\u00e3o s\u00f3 ele. Entre a Confer\u00eancia de Popula\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento do Cairo em 1994 e a Quarta Confer\u00eancia Mundial das Mulheres, realizada em Pequim, em 1995, assim que a terminologia de direitos sexuais e orienta\u00e7\u00e3o foi incorporada ao texto em negocia\u00e7\u00e3o, a Santa S\u00e9, apoiada por Sud\u00e3o, Malta e Honduras, solicitou que o termo g\u00eanero fosse revisto e exigiu do Secretariado uma defini\u00e7\u00e3o precisa do seu conte\u00fado. Em paralelo, g\u00eanero era virulentamente atacado nos espa\u00e7os em que se movimentavam as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil envolvidas com o processo que levaria a Pequim. E nos anos 2000, o Vaticano faz uma elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica sobre o tema. Em 2003 lan\u00e7a um dicion\u00e1rio intitulado O L\u00e9xico sobre os Termos Amb\u00edguos acerca da fam\u00edlia, em que h\u00e1 um verbete que trata da amea\u00e7a de g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Acho que voc\u00ea j\u00e1 percebeu de onde veio a inspira\u00e7\u00e3o do nome do dicion\u00e1rio que estamos divulgando neste podcast\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia<\/strong>: Eu cheguei nas Na\u00e7\u00f5es Unidas quando estava em crise a coisa do g\u00eanero. Nos processos das Na\u00e7\u00f5es Unidas, quando os estados est\u00e3o negociando voc\u00ea tem um texto e o texto vai sendo lido. Quando h\u00e1 desacordo em rela\u00e7\u00e3o a um termo, esse termo fica entre colchetes pra indicar que n\u00e3o h\u00e1 consenso. Depois esse termo vai continuar sendo discutido at\u00e9 se chegar a um consenso.<br>Eu cheguei l\u00e1 tava todo mundo em p\u00e2nico porque g\u00eanero estava entre colchetes. Pode n\u00e3o haver consenso em rela\u00e7\u00e3o a g\u00eanero, que era um termo que tinha sido adotado na confer\u00eancia anterior, na academia, n\u00e9? J\u00e1 tava super legitimado. O que aconteceu foi que as for\u00e7as religiosas conservadoras, americanas, as ONGs que estavam presentes ali no entorno do debate elas distribu\u00edram o panfleto que usava um texto de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da bi\u00f3loga feminista Anne Faust o-Sterling que \u00e9, uma bi\u00f3loga embriologista especialista em estudos de intersexualidade n\u00e9? E era um um texto de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de 92 em que a Fausto-Sterling tenta explicar que do ponto de vista da biologia molecular que ela estuda, entre o sexo masculino e sexo feminino h\u00e1 todo um gradiente de posi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis n\u00e3o \u00e9? Dependendo do dos n\u00edveis hormonais, das g\u00f4nadas, outras caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Quer dizer, j\u00e1 no come\u00e7o dos anos oitenta essas for\u00e7as conservadoras tavam escavando os textos da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, da produ\u00e7\u00e3o feminista, da produ\u00e7\u00e3o do campo progressista pra identificar categorias, defini\u00e7\u00f5es e argumentos que poderiam ser usados nessa mobiliza\u00e7\u00e3o do chamado \u201crenascimento conservador\u201d. E \u00e9 incr\u00edvel como se usa a ci\u00eancia estrategicamente para criar desinforma\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Essa rede dissemina\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o foi sustentada n\u00e3o somente pelas regras frouxas de distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado online, mas tamb\u00e9m foi encarnada no discurso de grandes l\u00edderes populares, pol\u00edticos e religiosos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Mas a\u00ed, seguindo o Dicion\u00e1rio dos termos amb\u00edguos, a gente entende que foi durante os debates sobre o atual Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, que o termo ganhou ainda mais destaque no Brasil. A inclus\u00e3o da igualdade de g\u00eanero e diversidade sexual nas escolas enfrentou ataques incans\u00e1veis de um grupo crist\u00e3o conservador associado ao Movimento Escola sem Partido. Essas ofensivas contra o conceito de g\u00eanero tiveram efeitos duradouros. Professoras e professores, especialmente do ensino fundamental e do ensino m\u00e9dio, passaram a ser atacados por acusa\u00e7\u00f5es de promover ideologia de g\u00eanero. Essa foi a popula\u00e7\u00e3o que mais sentiu sua atividade profissional cerceada. Qualquer coisa que fizesse em sala de aula poderia ser interpretada como uma promo\u00e7\u00e3o de ideologia de g\u00eanero. A deputada estadual de Santa Catarina, ultraconservadora, Ana Caroline Campagnolo, chegou a abrir um canal para receber den\u00fancias de pais e estudantes. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 ela, como lembra Rodrigo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rodrigo<\/strong>: Um pouco mais tarde, como uma uma pesquisa da SPW mostrou, at\u00e9 mesmo o Disque 100, que \u00e9 o n\u00famero que se pode ligar, n\u00e9, o n\u00famero do Governo Federal de defesa dos Direitos Humanos quando o minist\u00e9rio dos Direitos Humanos estava sob o comando da Damares Alves, incluiu-se a categoria e ideologia de g\u00eanero como uma uma categoria que podia ser denunciada, n\u00e9? Ou seja, as pessoas poderiam ligar pro Disque 100 e dizer: \u201colha a minha professora est\u00e1 promovendo ideologia de g\u00eanero em sala de aula\u201d. Ent\u00e3o, esse foi um dos principais grupos que sofreram acusa\u00e7\u00f5es de estarem promovendo ideologia de g\u00eanero, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Essa situa\u00e7\u00e3o fez com que Rodrigo pensasse muito nesse p\u00fablico escolar para escrever sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trecho de Voz<\/strong>&nbsp;\u2013 Jair Bolsonaro (Portugu\u00eas): \u201cKit gay! Kit gay! Kit gay!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Em 2011, Jair Bolsonaro, ent\u00e3o deputado, foi o primeiro pol\u00edtico a usar o termo \u201ckit gay\u201d para atacar v\u00eddeos educacionais produzidos pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) para distribui\u00e7\u00e3o nas escolas. Bolsonaro usou o \u201ckit gay\u201d durante sua campanha presidencial em 2018 para acusar seu oponente Fernando Haddad de promover a \u201cideologia de g\u00eanero.\u201d Uma vez eleito, Bolsonaro declarou que essa \u201cideologia\u201d seria combatida em seu governo, e desde 2019, essa oposi\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de g\u00eanero tem sido traduzida em sucateamento e abandono de pol\u00edticas p\u00fablicas. E a\u00ed, vale a pena ouvir um trecho da fala da Erika Hilton, deputada federal pelo estado de S\u00e3o Paulo, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em setembro de 2021:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Erika Hilton<\/strong>: Eu acho lament\u00e1vel que isso tenha partido do Vaticano com o Papa Bento XVI na constru\u00e7\u00e3o do que seria a ideologia de g\u00eanero que foi se desdobrando ao kit gay, a mamadeira de piroca e a todos esses absurdos que n\u00f3s vimos fam\u00edlias inteiras acreditando. E \u00e9 muito triste ver que isso partiu de um espa\u00e7o religioso, de um espa\u00e7o de f\u00e9. Fundamentalismo que se utiliza da f\u00e9 das pessoas pra gerar um p\u00e2nico moral, pra gerar um medo e gerar um caos, n\u00e9?<br>Eu acho que ter sido eleita como uma mulher, como a mulher mais bem votada do pa\u00eds, mostrando o que eu tenho namorado, que eu tenho irm\u00e3s, que eu tenho m\u00e3e, que eu sou filha, que eu sou neta, que eu sou v\u00e1rias coisas, vai desmistificando essa ideia de que LGBTs, de que pessoas trans querem destruir a fam\u00edlia, de que pessoas trans querem contaminar as escolas e as pessoas com uma ideia pornogr\u00e1fica, com uma ideia de desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida. E n\u00f3s s\u00f3 conseguiremos construir um di\u00e1logo com as pessoas que est\u00e3o do outro lado, olhando pra pauta de g\u00eanero, pra pauta da sexualidade como uma coisa demon\u00edaca, como uma coisa que vai desestruturar a sociedade, como se n\u00f3s n\u00e3o fiz\u00e9ssemos parte da sociedade quando n\u00f3s partirmos do campo, da did\u00e1tica, da pedagogia. \u00c9 uma coisa Paulo Freiriana que precisa estar incorporada no nosso discurso ativista, no nosso discurso militante pra que n\u00f3s come\u00e7amos a nos est\u00e1 com as pessoas que a igreja consegue conectar. E a gente precisa encontrar um um uma palavra, encontrar uma did\u00e1tica que n\u00f3s possamos primeiro mostrar que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com n\u00f3s que n\u00f3s n\u00e3o temos a pretens\u00e3o de acabar com a fam\u00edlia. N\u00f3s s\u00f3 queremos que a que na fam\u00edlia tamb\u00e9m possa haver democracia. Que a fam\u00edlia possa ser representada por v\u00e1rias vertentes de v\u00e1rias formas e que n\u00f3s tamb\u00e9m temos fam\u00edlia. Que n\u00f3s tamb\u00e9m fazemos parte de uma fam\u00edlia e que n\u00f3s n\u00e3o queremos impor nada a ningu\u00e9m. A nossa inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fazer com que ningu\u00e9m seja gay, l\u00e9sbica ou trans muito pelo contr\u00e1rio \u00e9 pra que as pessoas que \u00e9 sem un\u00e7\u00e3o possam ter a liberdade de existir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Rodrigo refor\u00e7a essa quest\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rodrigo<\/strong>: Um dos desafios desse verbete \u00e9 contar essa hist\u00f3ria que \u00e9 bastante complexa, n\u00e9? \u00c9&nbsp; mostrar que a quest\u00e3o do g\u00eanero n\u00e3o tem nada a ver com o que se fala sobre ideologia de g\u00eanero, \u00e9 o conceito de g\u00eanero, \u00e9 a ideia de g\u00eanero tem como principal objetivo mostrar que a sociedade produz hierarquias, diferencia\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres e que essas hierarquias e diferencia\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam nada de natural ou seja, elas s\u00e3o socialmente constru\u00eddas. Ou seja ent\u00e3o, ao se falar de g\u00eanero falar de g\u00eanero \u00e9 problematizar como essas hierarquiza\u00e7\u00f5es, essas diferen\u00e7as s\u00e3o inventadas, n\u00e3o s\u00e3o inerentes a homens e mulheres n\u00e3o se nasce assim quando se fala em g\u00eanero o que se o que se est\u00e1 o que est\u00e1 em jogo na verdade \u00e9 pensar em possibilidades de construir uma sociedade mais igualit\u00e1ria e n\u00e3o tem nada a ver com doutrina\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a, com transformar crian\u00e7a em homossexuais, homossexualizar crian\u00e7a, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Mas o combate contra for\u00e7as conservadoras \u00e9 dif\u00edcil. Em recente artigo na Folha de S. Paulo, a jornalista Dani Avelar diz que h\u00e1 uma ofensiva legislativa contra pessoas trans no Brasil. E, segundo levantamento da Folha, ao menos 69 projetos de lei antitrans foram apresentados nas esferas federal, estadual ou municipal at\u00e9 mar\u00e7o de 2023. A maior parte desses projetos s\u00e3o da esfera estadual e o Partido Liberal sai disparado na frente em n\u00famero de projetos, com 37 propostas. Em segundo lugar, o Uni\u00e3o Brasil apresentou 8. Vamos deixar o link para a coluna da Dani no site.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: E voc\u00ea deve estar se perguntando quais s\u00e3o os temas desses projetos, e s\u00e3o v\u00e1rios: tem projetos nas \u00e1reas de linguagem, sa\u00fade, esporte, educa\u00e7\u00e3o\u2026 alguns visam a proibi\u00e7\u00e3o do uso de linguagem neutra em escolas e na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica; outros querem impedir o acesso de crian\u00e7as e adolescentes trans a procedimentos como uso de bloqueadores de puberdade e horm\u00f4nios; nos esportes querem estabelecer apenas o sexo biol\u00f3gico como crit\u00e9rio para determinar g\u00eanero em competi\u00e7\u00f5es; alguns insistem em impedir a implementa\u00e7\u00e3o do projeto Escola sem Partido, justificando ser ideologia de g\u00eanero. Tem uma proposta de prender adultos que apoiem menores de idade na transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e, claro, um dos projetos que t\u00eam provocado grande euforia, e que foi tema bastante falado nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o de banheiros unissex em estabelecimentos p\u00fablicos e privados. S\u00e3o projetos que visam cercear os direitos das pessoas trans.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Na nossa imers\u00e3o, fica evidente que o termo \u201cideologia de g\u00eanero\u201d opera como um espantalho ideol\u00f3gico, reunindo for\u00e7as distintas em torno de \u201cinimigos comuns\u201d: a diversidade de g\u00eanero, feministas e direitos LGBT+. Compreender o contexto hist\u00f3rico desse termo nos permite entender como o conceito de g\u00eanero, um conceito elaborado a partir da critica feminista, p\u00f4de ser instrumentalizado para fins antidemocr\u00e1ticos. No pr\u00f3prio Dicion\u00e1rio de termos amb\u00edguos, existem outros termos que podem nos ajudar a entender como se constroem e se modificam, historicamente, palavras e seus sentidos. O termo \u201cideologia\u201d, o termo \u201ccristofobia\u201d, mostram a articula\u00e7\u00e3o de narrativas pra gerar discurso de \u00f3dio, rep\u00fadio, medo e desordem social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonia<\/strong>: ideologia de g\u00eanero, patriotismo, cristofobia, n\u00e9 esperando que as pessoas ao lerem n\u00e9 eh o verbete, os verbetes, compartilhem e que isso possa de fato contribuir pra n\u00e3o serem t\u00e3o facilmente capturadas por esses ciclones discursivos, n\u00e9? Compreenderem que eles tem uma hist\u00f3ria, que eles tem um objetivo, saberem argumentar frente a quem traz essas ideias e e faz essas acusa\u00e7\u00f5es, n\u00e9?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: Hoje pudemos conhecer e repensar o termo \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, adentrando juntes nos termos e vocabul\u00e1rios que fazem parte de um repert\u00f3rio de extrema direita e transnacional. As palavras que vamos conhecer nesta s\u00e9rie s\u00e3o dispositivos muito importantes, capazes de agregar afetos e produzir sentimentos, temores e medos nas pessoas. Voc\u00ea j\u00e1 t\u00e1 curiose pra conhecer os pr\u00f3ximos termos? Acesse o Dicion\u00e1rio de termos amb\u00edguos no site do podcast Oxig\u00eanio e junte-se a n\u00f3s no pr\u00f3ximo epis\u00f3dio de \u201cTermos Amb\u00edguos\u201d enquanto continuamos a desvendar as origens dos termos que moldam nosso mundo. Agrade\u00e7o por nos ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Este foi o primeiro epis\u00f3dio da s\u00e9rie Termos Amb\u00edguos, um podcast realizado em parceria com o Oxig\u00eanio, a partir do material do Termos Amb\u00edguos do debate pol\u00edtico atual: Pequeno Dicion\u00e1rio que voc\u00ea n\u00e3o sabia que existia, coordenado pela Sonia Corr\u00eaa. \u00c9 um projeto do Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica (SPW) e do Programa Interdisciplinar de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica Aplicada da UFRJ e contou com v\u00e1rios autores na produ\u00e7\u00e3o dos verbetes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel<\/strong>: A apresenta\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio foi feita pela Yvana Leit\u00e3o e por mim, que tamb\u00e9m sou o produtor e editor de \u00e1udio. O roteiro foi escrito pela Simone Pallone, pesquisadora do Labjor e coordenadora do Oxig\u00eanio e pela&nbsp;<a href=\"mailto:irenedoplanalto@gmail.com\">Irene do Planalto Chemin<\/a>,&nbsp;estudante de Antropologia e Ci\u00eancias Sociais e membro do podcast Mundar\u00e9u.&nbsp;A revis\u00e3o do roteiro foi feita pela Clarissa Reche, tamb\u00e9m do Mundar\u00e9u, pela Nana Soares, jornalista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids e pela&nbsp;<a href=\"mailto:tatianem.amaral@gmail.com\">Tatiane Amaral<\/a>,&nbsp;mestranda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC \u2013 Rio) e pesquisadora do SPW.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Yvana<\/strong>: Segue a gente pra conhecer os pr\u00f3ximos verbetes. E se quiser, mande seus coment\u00e1rios para&nbsp; observatoriospw@gmail.com.<\/p>\n\n\n\n<p>O Oxig\u00eanio \u00e9 um podcast de jornalismo cient\u00edfico produzido por estudantes e colaboradores do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo da Unicamp. Estamos em todas as plataformas de podcast e nas redes sociais.&nbsp;Basta procurar por Oxig\u00eanio Podcast.&nbsp;Se voc\u00ea gostou deste conte\u00fado, compartilhe com seus amigues.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SONS UTILIZADOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Music by: Bensound<br>License code: GZAKZDHLMSF45IQO<br><em>Music I use: https:\/\/www.bensound.com<br><\/em><em>License code: HLKOXKEOH9130FUA<br><\/em><em>Music by Bensound.com\/free-music-for-videos<br><\/em><em>License code: 0FMZLBJPUFMVKJEZ<br><\/em>Music: Bensound<br>License code: OMSDTCLG6HC0I6NI<br>Music I use: https:\/\/www.bensound.com<br>License code: BHEP3KSARRSYCMHV<br>Music by: Bensound.com\/free-music-for-videos<br>License code: 3AT4OFSH0RK3MZCO<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.oxigenio.comciencia.br\/serie-termos-ambiguos-1-ideologia-de-genero\/\">Oxig\u00eanio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ou\u00e7a aqui Voc\u00ea sabe o que significa o termo Ideologia de G\u00eanero? 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