{"id":26551,"date":"2025-02-26T19:28:32","date_gmt":"2025-02-26T22:28:32","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/?p=26551"},"modified":"2025-04-25T12:18:22","modified_gmt":"2025-04-25T15:18:22","slug":"sonia-correa-em-seis-meses-milei-resumiu-trinta-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/entrevistas\/sonia-correa-em-seis-meses-milei-resumiu-trinta-anos\/26551","title":{"rendered":"Sonia Corr\u00eaa: &#8220;Em seis meses, Milei resumiu trinta anos&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Entrevista com S\u00f4nia Corr\u00eaa por Ver\u00f3nica Gago e Luci Cavallero<br><a href=\"https:\/\/www.eldiarioar.com\/sociedad\/sonia-correa-activista-e-investigadora-feminista-seis-meses-milei-resumio-treinta-anos_1_11765936.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Uma vers\u00e3o parcial dessa entrevista foi publicada originalmente em espanhol no jornal El Diario Ar<\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"635\" height=\"355\" src=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/02\/Captura-de-tela-2025-02-26-192149.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-26552\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, e \u00e9 deslumbrante, neste ca\u00f3tico momento global, encontrar algu\u00e9m com a capacidade de fazer mapas que conectem dimens\u00f5es hist\u00f3ricas, intelectuais e estrat\u00e9gicas do que hoje discutimos como extrema direita. \u00c9 isso que acontece quando se ouve a pesquisadora brasileira S\u00f4nia Corr\u00eaa, que faz isso com paix\u00e3o pol\u00edtica e curiosidade intelectual. Corr\u00eaa \u00e9 co-diretora, desde 2002, do Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica (SPW), um f\u00f3rum aberto de pesquisadores e ativistas dedicado a an\u00e1lises transnacionais da pol\u00edtica da sexualidade. Ela \u00e9 ativista feminista em quest\u00f5es de g\u00eanero, sexualidade e direitos humanos desde a d\u00e9cada de 1970. N\u00f3s a conhecemos em Quito (Equador), em um F\u00f3rum Feminista sobre Guerra e Neoliberalismo em nossa regi\u00e3o, organizado por colegas da FLACSO. Sua voz foi &#8211; e continua sendo &#8211; fundamental para entender o que aconteceu com Jair Bolsonaro, que, dados os resultados das elei\u00e7\u00f5es municipais no Brasil, n\u00e3o parece ser um fen\u00f4meno destinado a acabar. Seu interesse sobre o que o governo &#8220;anarco-libert\u00e1rio&#8221; de Milei significa para a Argentina a leva a relacionar nossos dois pa\u00edses em contrapontos. Mas, ainda mais, leva a uma an\u00e1lise de tr\u00e1s para frente, construindo genealogias, para investigar os processos pol\u00edticos e intelectuais que explicam as converg\u00eancias na ultradireita que Corr\u00eaa prop\u00f5e pensar sob a figura da &#8220;hidra&#8221;, como um ecossistema complexo e mutante no qual se movem for\u00e7as religiosas, seculares, empresariais, intelectuais e pol\u00edticas. Sob as categorias de &#8220;marxismo cultural&#8221;, &#8220;politicamente correto&#8221; e &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;, monta-se um &#8220;arsenal&#8221;, aponta Corr\u00eaa, que possibilita as &#8220;guerras pol\u00edticas&#8221; do presente. Acrescentemos que o que a ultradireita chama de &#8220;marxismo cultural&#8221; n\u00e3o negligencia a materialidade e, acima de tudo, a dimens\u00e3o econ\u00f4mica das lutas feministas, antirracistas e ecol\u00f3gicas em nossa regi\u00e3o. Em vez disso, ele enfatiza a dimens\u00e3o estrat\u00e9gica de atacar essas lutas e, ao mesmo tempo, confrontar os elementos disciplinadores sem os quais o capitalismo de riqueza ultraconcentrada n\u00e3o pode prosperar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para mapear a extrema direita atual, de que elementos precisamos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, precisamos deixar de lado o vi\u00e9s do nacionalismo metodol\u00f3gico, porque a an\u00e1lise da extrema direita exige uma abordagem de estudos globais, ou seja, reconhecer e examinar sua dimens\u00e3o transnacional. Um segundo aspecto a ser destacado \u00e9 que os estudos em ci\u00eancia, sociologia ou antropologia pol\u00edtica s\u00e3o muito focados em atores, institui\u00e7\u00f5es, interesses e suas rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que \u00e9 necess\u00e1rio fazer essa lista e entender os n\u00edveis hier\u00e1rquicos de conex\u00e3o, bem como as formas de financiamento, mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. Precisamos pensar em termos de uma ecologia pol\u00edtica, para entender melhor como a extrema direita est\u00e1 incorporada em for\u00e7as e atores seculares, religiosos, econ\u00f4micos e seculares misturados em um ecossistema complexo e mut\u00e1vel. \u00c9 por isso que o foco da pesquisa deve ser a identifica\u00e7\u00e3o dos contornos, da composi\u00e7\u00e3o mutante e da din\u00e2mica vertiginosa desse ambiente complexo, quais s\u00e3o seus principais polos, quem sai, quem entra e quem chega a qualquer momento. Esse ecossistema varia de pa\u00eds para pa\u00eds, sem d\u00favida, mas sempre h\u00e1 elementos comuns, como for\u00e7as religiosas ortodoxas, figuras e institui\u00e7\u00f5es ultraliberais, uma mistura complexa de grupos profissionais, e em alguns contextos, como Argentina, Brasil e Uruguai, setores militares. Por fim, uma nota de cautela: essa modelagem foi elaborada para examinar a din\u00e2mica em andamento nas Am\u00e9ricas e na Europa e n\u00e3o pode ser estendida a outros contextos regionais, por exemplo, o regime instalado por Modi na \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 um forte foco no financiamento como uma quest\u00e3o fundamental na pesquisa\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Percebo que h\u00e1 uma certa mitologia de que se deve investir mais na investiga\u00e7\u00e3o das fontes de financiamento da extrema direita. E, nesse registro, h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o distorcida de que esse dinheiro vem dos EUA. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que h\u00e1 muito dinheiro nos circuitos transnacionais da extrema direita. Mas \u00e9 muito simplista pensar nisso exclusivamente como, mais uma vez, um efeito do imperialismo dos EUA. Um excelente estudo sobre o financiamento de pol\u00edticas antig\u00eanero e antiaborto na Europa, realizado pelo F\u00f3rum Parlamentar para Direitos Sexuais e Reprodutivos, mostra que h\u00e1, de fato, recursos provenientes dos EUA, mas h\u00e1 muito dinheiro russo e, acima de tudo, dinheiro investido pelas elites econ\u00f4micas europeias. No Brasil, desde a d\u00e9cada de 1980, sem d\u00favida, h\u00e1 financiamento dos EUA para a\u00e7\u00f5es contra o aborto e, desde a d\u00e9cada de 2000, h\u00e1 financiamento para a cria\u00e7\u00e3o de institutos e forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas neoliberais. \u00c9 bem poss\u00edvel que Elon Musk esteja financiando grupos de extrema direita no pa\u00eds. Mas acho que a maior parte do apoio financeiro \u00e0 extrema direita vem da comunidade empresarial nacional. Especialmente do agroneg\u00f3cio, mas n\u00e3o s\u00f3. As investiga\u00e7\u00f5es sobre o 8 de janeiro (o assalto aos pr\u00e9dios do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e do Pal\u00e1cio Presidencial) identificaram empres\u00e1rios de outros setores e, muito recentemente, a Revista Piau\u00ed e o portal feminista Azmina provaram que Jorge Gerdau, dono da maior sider\u00fargica do pa\u00eds, financia o Brasil Paralelo, que \u00e9 a plataforma digital mais importante da ultradireita. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso levar em conta o dinheiro que circula por canais religiosos, especialmente as igrejas evang\u00e9licas, mas tamb\u00e9m na esfera cat\u00f3lica, seja na estrutura da pr\u00f3pria Igreja ou em redes ultracat\u00f3licas como a Opus Dei. Tamb\u00e9m \u00e9 importante, nos tempos atuais, que <em>os influenciadores <\/em>de ultradireita gerem dinheiro monetizando seus perfis nas redes sociais. Falar sobre dinheiro n\u00e3o \u00e9 apenas falar sobre quem financia a extrema direita, mas tamb\u00e9m analisar esses fluxos como parte da pr\u00f3pria economia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vamos passar para a quest\u00e3o hist\u00f3rica. Voc\u00ea fala de uma &#8220;virada gramsciana&#8221; da ultradireita que explicaria a import\u00e2ncia da &#8220;batalha cultural&#8221; como parte da estrat\u00e9gia deles<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo &#8220;guerra cultural&#8221; n\u00e3o foi inventado pela extrema direita e \u00e9 fundamental esclarecer isso. O termo foi lan\u00e7ado por James Davidson Hunter, um professor de sociologia da Universidade da Virg\u00ednia, em um livro de 1991 que analisava o que estava acontecendo nos Estados Unidos. A partir da\u00ed, essa terminologia se tornou uma esp\u00e9cie de l\u00edngua franca, usada por liberais, pela esquerda e pela extrema direita. Agora \u00e9 como um simples c\u00f3digo explicativo que elucidaria tudo, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. \u00c9 por isso que \u00e9 importante revisitar o longo percurso que gerou as chamadas &#8220;guerras culturais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A quest\u00e3o ent\u00e3o \u00e9: quando essa revolu\u00e7\u00e3o conservadora ganhar\u00e1 corpo tempor\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exatamente isso. A d\u00e9cada de 1990 certamente foi um ponto de virada. Mas seus antecedentes s\u00e3o muito distantes e complexos. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil reconstruir essa genealogia de forma completa porque ela ocorreu de forma dispersa, em diferentes regi\u00f5es e em ritmos diferentes. Vamos tentar. Na Europa, a trajet\u00f3ria inicial da reorganiza\u00e7\u00e3o e reconfigura\u00e7\u00e3o da extrema direita foi essencialmente uma iniciativa de intelectuais seculares franceses. A figura mais conhecida \u00e9 a de Alain de Benoit, criador do GRECE (Groupement de Recherche et d&#8217;\u00c9tudes pour la Civilisation Europ\u00e9enne), que se reuniu ap\u00f3s maio de 68 para reconstruir uma agenda conservadora e enfrentar o que eles &nbsp;viam como uma desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e institucional dessa &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;. Deve-se dizer que essa corrente n\u00e3o tinha conex\u00f5es com o campo religioso e criticava abertamente o imperialismo cultural e consumista americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos&nbsp; Estados&nbsp; Unidos&nbsp; e&nbsp; na&nbsp; Am\u00e9rica&nbsp; Latina,&nbsp; um componente&nbsp; importante&nbsp; dessa reconfigura\u00e7\u00e3o tem sido os atores ultracat\u00f3licos e os setores pol\u00edtico-religiosos que foram articulados anteriormente para combater o resultado do Conc\u00edlio Vaticano II, ou seja, a legitima\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a social como uma quest\u00e3o doutrin\u00e1ria do catolicismo. Esses setores se opunham ao que viam como uma posi\u00e7\u00e3o materialista inaceit\u00e1vel, contaminada por uma perspectiva marxista. No in\u00edcio, essa foi uma rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interna ao Vaticano. Mas rapidamente essas correntes cat\u00f3licas se juntaram a outras for\u00e7as e a setores mais amplos do ultraconservadorismo que, nos Estados Unidos, come\u00e7aram a se reorganizar para combater o que definiam como liberalismo excessivo e secularismo, tamb\u00e9m vistos&nbsp; como amea\u00e7as \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o americana e, de forma mais ampla, \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voltemos a Gramsci: qual \u00e9 o seu papel nessa leitura da direita?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De fato, para falar dessa virada, \u00e9 preciso considerar Gramsci e a cr\u00edtica cultural do capitalismo desenvolvida pela Escola de Frankfurt, porque cada uma dessas fontes tinha significados diferentes nos dois lados do Atl\u00e2ntico Norte. Os esfor\u00e7os feitos pelos europeus se concentraram em releituras de autores conservadores do passado, como Ren\u00e9 Gu\u00e9non, Jules Evola e, eventualmente, Herbert Spencer, que escreveram sobre a decad\u00eancia do Ocidente e a excessiva materialidade do capitalismo. Mas eles tamb\u00e9m revisitaram o chamado conservadorismo alem\u00e3o da d\u00e9cada de 1950, que retomou e revisitou a teoria pol\u00edtica de Carl Schmitt, o jurista do nazi-fascismo. Essa linha, \u00e9 preciso dizer, abre uma converg\u00eancia com o que estava acontecendo do outro lado do Atl\u00e2ntico, pois l\u00e1 o campo ultraconservador estava lendo Leo Strauss, tradutor e divulgador de Schmitt nos EUA. Mas, no GRECE, eles tamb\u00e9m leram v\u00e1rios autores de esquerda, como Che Guevara e Franz Fanon, e, acima de tudo, fizeram uma releitura conservadora de Gramsci em busca de maneiras de superar a centralidade da viol\u00eancia pol\u00edtica do fascismo hist\u00f3rico, que foi mantida viva na ideologia e na pr\u00e1tica da ultradireita europeia do p\u00f3s-guerra. Em Gramsci, eles encontraram a chave para propor um padr\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o ampla e profunda da cultura e da pol\u00edtica, que eles chamar\u00e3o de metapol\u00edtica. Ou seja, lutar pela &nbsp;imagina\u00e7\u00e3o, pelos esp\u00edritos, impulsionando uma concep\u00e7\u00e3o de mundo baseada nos valores da tradi\u00e7\u00e3o, uma tarefa que &#8211; como ensinou Gramsci &#8211; n\u00e3o se resume a uma cr\u00edtica da economia, nem mesmo da pol\u00edtica institucional, mas \u00e9 feita sem promover a viol\u00eancia, e \u00e9 feita em toda parte. Isso \u00e9 o que chamamos hoje de Virada Gramsciana da extrema direita. H\u00e1 alguns anos, isso parecia muito incomum, mas recentemente os intelectuais e l\u00edderes da extrema direita est\u00e3o falando abertamente sobre essa &#8220;descoberta&#8221; ou &#8220;inspira\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eles afirmam ser explicitamente de extrema direita?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva desenvolvida pelo GRECE teve um resultado incomum quando se considera que ela veio de uma releitura de Gramsci, j\u00e1 que uma de suas ambi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas era superar a dicotomia esquerda-direita. Isso decorre do fato de que seu principal ponto de partida para criticar a desestabiliza\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1960 foi revelar e contestar o que eles consideram ser as zonas de sombra da modernidade. Nessa estrutura, eles argumentam que as no\u00e7\u00f5es de direita e esquerda v\u00eam da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e devem ser superadas. Essa vis\u00e3o, \u00e9 preciso dizer, teve consequ\u00eancias pol\u00edticas no mundo real. Quando Marine Le Pen passou a liderar o Front National, ela adotou essa vis\u00e3o e hoje o Rassemblement National joga o jogo de estar al\u00e9m da divis\u00e3o entre esquerda e direita. Muito significativamente, isso \u00e9 o que Bukele tamb\u00e9m est\u00e1 dizendo: n\u00e3o h\u00e1 direita ou &nbsp;esquerda, apenas passado e futuro. No Brasil, neste momento, as porta-vozes dos coletivos feministas transexcludentes reagem \u00e0 cr\u00edtica de que t\u00eam conex\u00f5es com a extrema direita afirmando que &#8220;n\u00e3o somos nem de direita nem de esquerda, mas a favor dos direitos das mulheres e das crian\u00e7as&#8221;. A indefini\u00e7\u00e3o da distin\u00e7\u00e3o entre direita e esquerda \u00e9, portanto, um dos legados da reconfigura\u00e7\u00e3o da extrema-direita iniciada na d\u00e9cada de 1960, \u00e0 qual devemos estar atentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a apar\u00eancia desse mapa de leituras fora da Europa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os norte-americanos fizeram um exerc\u00edcio intelectual semelhante, mas n\u00e3o voltaram exatamente a Gramsci, mas \u00e0 <strong>Escola de Frankfurt, pelo simples fato de que <\/strong>esses autores marxistas estavam exilados nos Estados Unidos desde antes da Segunda Guerra Mundial e eram fontes cruciais de inspira\u00e7\u00e3o para o pensamento cr\u00edtico na sociedade americana. A cr\u00edtica da cultura, como uma cr\u00edtica do capitalismo e da ordem burguesa, desenvolvida pelos frankfurtianos, assim como os escritos de Gramsci, distanciava-se do economicismo marxista. Com base em sua releitura desses textos, os americanos desenvolveram duas categorias acusat\u00f3rias muito eficazes: o &#8220;politicamente correto&#8221; e o &#8220;marxismo cultural&#8221;, que come\u00e7aram a tomar forma na d\u00e9cada de 1980. Deve-se dizer que essa germina\u00e7\u00e3o ocorreu em um terreno f\u00e9rtil de fil\u00f3sofos e estrategistas ultracat\u00f3licos, cientistas pol\u00edticos, especialistas no campo de estudos estrat\u00e9gicos, pol\u00edticos profissionais do Partido Republicano, intelectuais associados ao neoliberalismo do grupo Mont Pelerin ou ao libertarianismo de Ayn Rand, mas tamb\u00e9m a te\u00f3ricos da conspira\u00e7\u00e3o. Entre eles, muitos transitaram livremente entre a esquerda e a direita, como \u00e9 o caso do te\u00f3rico da conspira\u00e7\u00e3o Lyndon LaRouche e Rothbard, que, como se sabe, \u00e9 uma das leituras favoritas de Milei. De todo modo, de forma significativa, o livro mais conhecido sobre \u201cmarxismo cultural\u201d foi organizado por William Lind, um especialista em estudos estrat\u00e9gicos que, no final da d\u00e9cada de 1980, publicou um artigo sobre \u201cguerra de quarta gera\u00e7\u00e3o\u201d que se tornou leitura obrigat\u00f3ria para a ultradireita dos EUA e seus associados em outras regi\u00f5es, inclusive na Am\u00e9rica Latina. O que se segue \u00e9 a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, com a implos\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; em outras palavras, o principal inimigo da direita americana cai e abre caminho para a guerra por outros meios, ou seja, mobiliza\u00e7\u00f5es metapol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em outras palavras, eles est\u00e3o preparando o terreno para continuar a guerra por outros meios&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, surgiram novas din\u00e2micas e conflu\u00eancias que alimentaram a virada metapol\u00edtica. Nos EUA, teve in\u00edcio a propaga\u00e7\u00e3o mais sistem\u00e1tica das categorias acusat\u00f3rias &#8220;<strong>marxismo cultural&#8221; <\/strong>e &#8220;<strong>politicamente correto&#8221;, <\/strong>descritas por Lind como a fase dupla do mesmo problema<strong>. <\/strong>Um arsenal sem\u00e2ntico criado para atacar o feminismo, a luta contra o racismo e pelos direitos LGTBQIA+, pelos migrantes e contra a destrui\u00e7\u00e3o ambiental em uma base cultural e cotidiana. Enquanto isso, no Vaticano &#8211; sob a lideran\u00e7a ultraconservadora de Jo\u00e3o Paulo II e Ratzinger &#8211; outra categoria de espantalho estava sendo desenvolvida, a &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;, que, \u00e9 preciso dizer, desde o in\u00edcio foi associada ao neomarxismo, que \u00e9 uma paleo-vers\u00e3o do &#8220;marxismo cultural&#8221;. N\u00e3o menos importante, esse foi tamb\u00e9m o momento inaugural da Internet com sua nova l\u00f3gica de digitaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, que, como sabemos, seria muito bem explorada pela metapol\u00edtica da ultradireita. Naquela conflu\u00eancia, foi montado o aparato discursivo e operacional que gradualmente fomentaria os ciclones antig\u00eanero e as viradas ultradireitistas de nossos tempos. Esse aparato estava pronto para ser ativado com vigor quando a crise financeira de 2008 na Europa e nos EUA criou um ambiente social favor\u00e1vel \u00e0 ades\u00e3o social \u00e0s vis\u00f5es propagadas por essas for\u00e7as. Essa an\u00e1lise dos efeitos de 2008 n\u00e3o pode ser aplicada automaticamente \u00e0 Am\u00e9rica Latina, mas as ramifica\u00e7\u00f5es dessa reenergiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem d\u00favida nos afetaram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da categoria &#8220;marxismo cultural&#8221; hoje, 30 anos ap\u00f3s o fim da Guerra Fria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ela sempre serviu \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de chicotear e, se poss\u00edvel, erradicar as lutas emancipat\u00f3rias. De acordo com a narrativa produzida pela releitura ultraconservadora da Escola de Frankfurt, na d\u00e9cada de 1980 a esquerda havia abdicado da luta econ\u00f4mica e se dedicado \u00e0s lutas culturais pela hegemonia pol\u00edtica. Em outras palavras, uma &#8220;guerra de quarta gera\u00e7\u00e3o&#8221; promovida por feminismos, movimentos LGTBQIA+, lutas antirracistas, lutas ambientais e apoio aos direitos dos migrantes. Trinta anos depois, o &#8220;marxismo cultural&#8221; foi repaginado, sua nova vers\u00e3o \u00e9 &#8220;woke&#8221; (ou wokismo). A palavra woke foi criada na d\u00e9cada de 1930 por intelectuais americanos e ativistas antirracistas para denotar a consci\u00eancia da desigualdade e da discrimina\u00e7\u00e3o racial. Mas, a partir dos anos 2000, ela se popularizou e ganhou muita for\u00e7a com os epis\u00f3dios de viol\u00eancia policial que deflagrou os protestos do Black Lives Matter. Naquele momento, o termo foi capturado e desfigurado pela extrema direita como uma nova categoria guarda-chuva para todas as &#8220;coisas ruins&#8221; que j\u00e1 estavam sob o &#8220;marxismo cultural&#8221;, al\u00e9m de coisas como a teoria racial cr\u00edtica, a interseccionalidade e a teoria decolonial. Essa virada, \u00e9 preciso dizer, ilumina fortemente o racismo visceral da ultradireita americana e \u00e9 muito significativo que essa palavra seja usada hoje muito al\u00e9m das fronteiras dos EUA, como pode ser ilustrado por Milei. Trinta anos se passaram desde a inven\u00e7\u00e3o do &#8220;Marxismo Cultural&#8221; e sua repagina\u00e7\u00e3o como &#8220;Wokismo&#8221;. Mas Milei se moveu muito mais r\u00e1pido. Em janeiro, no F\u00f3rum de Davos, ele atacou o &#8220;marxismo cultural&#8221;, mas em setembro, nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, seu alvo j\u00e1 era o &#8220;wokismo&#8221;. Ele resumiu trinta anos em seis meses, porque d\u00e1 para perceber que ele \u00e9 muito acelerado (risos).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nos Estados Unidos, parece ter sido inventado um padr\u00e3o mais claramente pol\u00edtico de organiza\u00e7\u00e3o dessas for\u00e7as: como isso funcionou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, diferentemente da Europa, a reorganiza\u00e7\u00e3o da extrema direita foi marcada, acima de tudo, por uma oposi\u00e7\u00e3o feroz ao comunismo e \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Isso significa que a quest\u00e3o do &#8220;marxismo&#8221; sempre foi muito mais carregada l\u00e1. Essas for\u00e7as tamb\u00e9m ficaram furiosas com maio de 1968, mas como uma express\u00e3o interna de protesto contra a supremacia americana. Os primeiros movimentos fortes tomaram forma ap\u00f3s a derrota no Vietn\u00e3, que foi seguida pela ren\u00fancia de Nixon. Nesse contexto, figuras do partido republicano tra\u00e7aram uma estrat\u00e9gia religiosa de mobiliza\u00e7\u00e3o social contra o liberalismo &#8220;excessivo&#8221; e o secularismo da sociedade, a fim de resgatar a legitimidade do partido. O Moral Majority Movement (Movimento da Maioria Moral) foi liderado por Jerry Falwell, um pastor evang\u00e9lico, mas que agregou ultra-cat\u00f3licos, protestantes de outras denomina\u00e7\u00f5es e for\u00e7as seculares mistas. Em muitos aspectos, esse grupo deve ser lido como um modelo da morfologia da hidra que uso para descrever as forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas antig\u00eanero dos dias atuais. N\u00e3o menos importante, o primeiro alvo dessa reconfigura\u00e7\u00e3o do ultraconservadorismo e da ultradireita foi a decis\u00e3o Roe v Wade de 1973, que reconheceu a constitucionalidade do direito ao aborto nos EUA. Al\u00e9m disso, os personagens e as institui\u00e7\u00f5es criadas naquela \u00e9poca ainda est\u00e3o vivos e ativos. O filho de Falwell \u00e9 consultor de campanha e trabalhou no primeiro governo Trump. E as plataformas criadas na atmosfera da d\u00e9cada de 1970, como a Conservative Political Action Conference (CPAC) e a Heritage Foundation, continuam sendo pontos cruciais da articula\u00e7\u00e3o transnacional da extrema direita. Entre fevereiro e agosto de 2024, houve quatro CPACs, em Washington, em Budapeste, em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa, no Brasil e na Cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 d\u00e9cada de 1970, tamb\u00e9m \u00e9 importante ressaltar que, nos Estados Unidos, apesar do dom\u00ednio religioso protestante e evang\u00e9lico, o papel das for\u00e7as ultracat\u00f3licas foi crucial na reorganiza\u00e7\u00e3o da direita. Um exemplo \u00e9 Paul Weyrich, um intelectual ultracat\u00f3lico que, ao rejeitar a reforma do Conc\u00edlio Vaticano II, converteu-se \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica Ortodoxa Grega. Ele foi um dos fundadores da Heritage Foundation, mas tamb\u00e9m do International Policy Forum, um aparato que reunia atores do campo religioso e defensores da economia de mercado e da hegemonia dos EUA, o que tem sido muito importante na transnacionaliza\u00e7\u00e3o dessa agenda &#8220;renovada&#8221; da ultradireita, particularmente em suas conex\u00f5es com a Am\u00e9rica Latina. Weyrich trabalhou em estreita colabora\u00e7\u00e3o com Plinio Correia de Oliveira, fundador da rede brasileira Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade, transnacionalizada desde os anos 1960, e tamb\u00e9m com William Lind.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hoje, esse papel pol\u00edtico intelectual da ultradireita parece ter crescido&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como tenho dito desde meados da d\u00e9cada de 1990, a digitaliza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica &#8211; em outras palavras, a quest\u00e3o das plataformas digitais &#8211; deu \u00e0 ultradireita, transformada pela virada gramsciana, uma nova infraestrutura com ampla possibilidade de multiplicar suas articula\u00e7\u00f5es. Como uma pequena ilustra\u00e7\u00e3o, em 1994, Olavo de Carvalho, o dito guru do bolsonarismo, publicou no Brasil um livro sobre Marxismo Cultural, cujo conte\u00fado foi amplamente divulgado na rede social Orkut a partir de 2004. Isso implica reconhecer que a presen\u00e7a de figuras de ultradireita no Vale do Sil\u00edcio, como Peter Thiel, um disc\u00edpulo devotado de Leo Strauss (ou seja, Carl Schmitt), ou Elon Musk, que, em seus prim\u00f3rdios, foi parceiro de Thiel, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma coincid\u00eancia. Passando para a d\u00e9cada de 2000, nos EUA, vem a era Bush que, curiosamente, foi um pouco esquecida ap\u00f3s a avalanche trumpista de 2016. Assim como Reagan, Bush foi eleito com amplo apoio da ultradireita renovada pela virada gramsciana. Mas, em seu caso, esse apoio foi ainda mais org\u00e2nico, pois ele era um crist\u00e3o nascido de novo com v\u00ednculos diretos com os c\u00edrculos b\u00edblicos do Texas. Seis meses ap\u00f3s sua posse, foi declarada a chamada Guerra ao Terror, que, como \u00e9 amplamente aceito, alimentou a desdemocratiza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estava sendo promovida pela ultradireita e que teria amplas e isso profundas repercuss\u00f5es internacionais. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante considerar que as pol\u00edticas dom\u00e9sticas e internacionais do governo Bush no campo de g\u00eanero, sexualidade e aborto foram extremamente regressivas, sendo um exemplo o restabelecimento da chamada regra da morda\u00e7a. Elas tiveram um forte impacto nas Na\u00e7\u00f5es Unidas e financiaram milhares de projetos contra o aborto e de promo\u00e7\u00e3o da abstin\u00eancia no sul global. Esse ambiente coincide com a chamada onda rosa latino- americana. Na regi\u00e3o, h\u00e1 uma presen\u00e7a maior do conservadorismo religioso evang\u00e9lico norte-americano ou, pelo menos, de sua influ\u00eancia por meio de redes globais que soam seculares, como a Alliance Defending Freedom. H\u00e1 tamb\u00e9m uma prolifera\u00e7\u00e3o sem precedentes de institutos e outras iniciativas que promovem o neoliberalismo, especialmente sob a influ\u00eancia da Atlas Foundation &#8211; que era presidida pelo argentino Alejandro Chaufen, hoje diretor do Acton Institute. Desde sua cria\u00e7\u00e3o em 1981, a Atlas tem fortes conex\u00f5es com a reconfigura\u00e7\u00e3o mais ampla da ultradireita americana, em especial a Heritage Foundation. N\u00e3o menos importante, em meados da d\u00e9cada de 2000, a Igreja Cat\u00f3lica, sob o comando de Bento 16, declarou sua campanha regional contra a &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;, que se mobilizou com vigor n\u00e3o apenas a hierarquia, mas tamb\u00e9m as chamadas redes seculares, como as metas ligadas \u00e0 antiga TFP e, mais especialmente, \u00e0 Opus Dei, que na regi\u00e3o tem enorme influ\u00eancia pol\u00edtica e institucional e uma vasta infraestrutura acad\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel de Agust\u00edn Laje como intelectual &#8220;org\u00e2nico&#8221; nessa trama?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do meu ponto de vista, Laje incorpora muitos dos caminhos sinuosos da reconfigura\u00e7\u00e3o da ultradireita. Sua forma\u00e7\u00e3o intelectual original ocorreu na gera\u00e7\u00e3o mais antiga do ultra-catolicismo. Em seguida, ele fez sua p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de estudos estrat\u00e9gicos nos Estados Unidos e imagino que l\u00e1 ele tenha absorvido outras perspectivas, especialmente as constru\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas do neoliberalismo puro-sangue, ao qual ele aderiu vigorosamente. Digo isso porque essa ades\u00e3o n\u00e3o \u00e9 palp\u00e1vel em outros autores latinos do campo ultra-cat\u00f3lico que escreveram sobre &#8220;g\u00eanero&#8221;, como Alejandro Ord\u00f3\u00f1ez ou Jorge Scala. Mas n\u00e3o est\u00e1 exclu\u00eddo que essa influ\u00eancia intelectual tenha vindo do pr\u00f3prio campo ultra-cat\u00f3lico. Aqui temos que voltar no tempo mais uma vez. As for\u00e7as cat\u00f3licas ortodoxas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, na Europa e tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina, tinham conex\u00f5es org\u00e2nicas com o fascismo, que se opunha ferozmente ao liberalismo pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m aos efeitos da economia capitalista sobre a ordem cultural e institucional tradicional, especialmente a fam\u00edlia e o lugar das mulheres. Mas essa vis\u00e3o mudaria com o tempo. Como observa Gabriela Arguedas, desde a d\u00e9cada de 1950, o Opus Dei desenvolveu uma concep\u00e7\u00e3o de economia capitalista cat\u00f3lica neointegrista, assim como a TFP, que, n\u00e3o por coincid\u00eancia, tem &#8220;Propriedade&#8221; em seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma obsess\u00e3o particular com o &#8220;fantasma do g\u00eanero&#8221;&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agust\u00edn Laje e Nicolas Marques, em <em>El Libro Negro de la Nueva Izquierda, <\/em>fazem uma esp\u00e9cie de s\u00edntese popular dessas v\u00e1rias vertentes. O livro projeta a ideia de que o &#8220;g\u00eanero&#8221; \u00e9 a nova face do antigo &#8220;inimigo comunista&#8221;, o que \u00e9 diferente de afirmar, como Dale O&#8217;Leary e Shooyans fizeram anteriormente, que o &#8220;feminismo de g\u00eanero&#8221; \u00e9 tribut\u00e1rio do marxismo. Ele tamb\u00e9m difere da modelagem cl\u00e1ssica do &#8220;marxismo cultural&#8221; que, como vimos, acusa v\u00e1rios movimentos como agentes da &#8220;guerra de quarta gera\u00e7\u00e3o&#8221;. Em outras palavras, o &#8220;inimigo feminista&#8221; \u00e9 muito mais central para a fantasmagoria projetada pelo <em>El Libro Negro de la Nueva Izquierda<\/em>. Isso pode muito bem estar relacionado ao ambiente na Argentina, ou seja, o vigor de seus feminismos desde a d\u00e9cada de 2010. Mas tamb\u00e9m \u00e9 significativo que Laje e Marques ataquem visceralmente Laclau e Mouffe e, acima de tudo, que eles ancorem sua posi\u00e7\u00e3o contra a &#8220;teoria feminista de g\u00eanero&#8221; n\u00e3o mais nos par\u00e2metros da doutrina cat\u00f3lica, mas na argumenta\u00e7\u00e3o antifeminista seminal de Ludwig Von Mises, segundo a qual: &#8220;Se&#8230; o movimento feminista acredita que deve combater as institui\u00e7\u00f5es da vida social na esperan\u00e7a de remover, por esse meio, certas limita\u00e7\u00f5es que a natureza imp\u00f4s ao destino humano, ent\u00e3o ele j\u00e1 \u00e9 um filho espiritual do socialismo. Pois \u00e9 caracter\u00edstico do socialismo buscar nas institui\u00e7\u00f5es sociais as ra\u00edzes das condi\u00e7\u00f5es dadas pela natureza e, portanto, removidas da a\u00e7\u00e3o do homem, e pretender, ao reform\u00e1-las, reformar a pr\u00f3pria natureza&#8221; (de Von Mises, Ludwig em <em>Socialismo, An\u00e1lisis Econ\u00f3mico y sociol\u00f3gico, <\/em>107-108).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea disse que a &#8220;quest\u00e3o trans&#8221; \u00e9 hoje a nova trincheira da pol\u00edtica antig\u00eanero, por que isso ?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma muta\u00e7\u00e3o nas ofensivas antig\u00eanero desde seu surgimento como pol\u00edtica aberta por volta de 2013. Naquela \u00e9poca, na Europa e na Am\u00e9rica Latina, essa ofensiva se baseava em ataques ao casamento igualit\u00e1rio, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade, aos direitos LGBTQIA+ em um sentido amplo e tamb\u00e9m aos estudos de g\u00eanero. Naquela \u00e9poca, os direitos trans n\u00e3o tinham tido maior visibilidade. Hoje, em v\u00e1rios contextos, os direitos trans est\u00e3o decididamente no olho do furac\u00e3o, isso est\u00e1 acontecendo nos EUA, no Reino Unido, na Espanha, no Canad\u00e1, na Austr\u00e1lia, na R\u00fassia, mas tamb\u00e9m no Brasil, e h\u00e1 fortes sinais de que o mesmo pode acontecer no Chile e na Col\u00f4mbia. Mesmo que esse seja o caso, persiste a percep\u00e7\u00e3o em muitos setores de que a atual f\u00faria antitrans \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o &#8220;tardia&#8221; (e &#8220;menos importante&#8221;) do rep\u00fadio dos ultraconservadores, especialmente os religiosos, \u00e0 igualdade de g\u00eanero (em seu sentido bin\u00e1rio) e ao direito ao aborto. H\u00e1 at\u00e9 quem interprete essa f\u00faria como &#8220;diversionismo&#8221; possivelmente provocado pelos &#8220;excessos do movimento trans&#8221;. Essa percep\u00e7\u00e3o deve ser radicalmente desafiada. A fantasmagoria gestada no Vaticano na d\u00e9cada de 1990 sempre teve a teoria de g\u00eanero na mira, de modo a bloquear, doutrin\u00e1ria e politicamente, a plasticidade de sexo-g\u00eanero que o conceito anuncia. Ou, nos termos da Carta aos Bispos de 2004 sobre o Lugar do Homem e da Mulher no Mundo e na Igreja, repudiar o &#8220;polimorfismo sexual&#8221;. Al\u00e9m disso, como Mary Anne Case mostra em sua exegese de lucubra\u00e7\u00f5es anteriores, desde a d\u00e9cada de 1980, o Cardeal Ratzinger expressou grande preocupa\u00e7\u00e3o com as teorias feministas da sexualidade &#8211; porque elas amea\u00e7avam a nova antropologia teol\u00f3gica da complementaridade dos sexos &#8211; mas tamb\u00e9m com a possibilidade de reconhecimento legal mudan\u00e7a de sexo\/g\u00eanero concedida por uma decis\u00e3o do Tribunal Constitucional Alem\u00e3o no final da d\u00e9cada de 1970. Em outras palavras, a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 transgeneridade sempre esteve inscrita nas estruturas da ideologia antig\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da\u00ed sua alian\u00e7a com a ultradireita&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Tamb\u00e9m \u00e9 importante mencionar que, na maioria dos contextos nacionais mencionados acima, as correntes feministas trans-excludentes s\u00e3o hiperativas no ecossistema que hoje mobiliza o extremismo antitrans. Em alguns pa\u00edses, especialmente no Reino Unido e na Espanha, mas tamb\u00e9m no M\u00e9xico, essas correntes t\u00eam, por um lado, fortes \u00e2ncoras pol\u00edticas acad\u00eamicas e institucionais. Mas, por outro lado, elas tamb\u00e9m est\u00e3o em di\u00e1logo e colabora\u00e7\u00e3o com a extrema direita. Na Espanha, Lydia Falc\u00f3n esteve em um debate contra a Lei Trans com um representante da Vox. Nos EUA, a WOLF estabeleceu uma <em>parceria <\/em>com a Heritage Foundation e h\u00e1 ind\u00edcios de que o mesmo aconte\u00e7a no Brasil. Al\u00e9m disso, a a\u00e7\u00e3o dessas correntes est\u00e1 agora articulada transnacionalmente. Em 2019, foi lan\u00e7ado um manifesto pelos direitos das mulheres com base no sexo, em 16 idiomas, que est\u00e1 na origem da rede Women Declaration International (WDI), que conta com dezenas de cap\u00edtulos nacionais, inclusive na Am\u00e9rica Latina. Ainda mais preocupante \u00e9 que esse am\u00e1lgama de for\u00e7as agora tem aliados no sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, pois a Relatora sobre Viol\u00eancia contra a Mulher, Reem Alsalem, se op\u00f4s in\u00fameras vezes ao direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o da identidade de g\u00eanero desde 2020 e recentemente publicou um relat\u00f3rio tem\u00e1tico sobre viol\u00eancia contra a mulher no mundo do esporte no qual repudia veementemente a participa\u00e7\u00e3o de mulheres trans nas categorias femininas. Desde ent\u00e3o, Alsalem tem tido o apoio expl\u00edcito de atores institucionais nodais da ultradireita religiosa, como a Alliance Defending Freedom e a Focus on the Family. Diante desse cen\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que ataques virulentos contra os direitos trans tenham se proliferado nas recentes elei\u00e7\u00f5es municipais brasileiras, que, infelizmente, demonstraram que a ultradireita est\u00e1 consolidada no tecido social. Nesse contexto, um candidato do partido de Bolsonaro que propagou mensagens transf\u00f3bicas muito virulentas foi o candidato mais votado em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que diferen\u00e7as voc\u00ea destacaria entre Bolsonaro e Milei?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, s\u00e3o gera\u00e7\u00f5es e biografias muito diferentes. Bolsonaro tem quase 70 anos e vem de uma fam\u00edlia cat\u00f3lica de origem italiana. Seu catolicismo n\u00e3o era rigoroso, mas sua terceira esposa \u00e9 evang\u00e9lica praticante e fundamentalista e sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9 conservadora. Em um momento crucial da guinada para a direita, ap\u00f3s o <em>impeachment <\/em>de Dilma, ele foi a Israel para ser batizado como evang\u00e9lico, retornando como uma esp\u00e9cie de encarna\u00e7\u00e3o das duas grandes religi\u00f5es crist\u00e3s. Milei \u00e9 muito mais jovem e suas trajet\u00f3rias de forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o radicalmente diferentes, assim como suas caracter\u00edsticas \u201creligiosa-espiritual&#8221;. Al\u00e9m disso, antes da campanha de 2018, Bolsonaro n\u00e3o era um defensor do ultra-neoliberalismo, tendo sido formado no contexto da ditadura com seu modelo de Estado forte, inclusive no controle da economia. Ele nunca teve a f\u00faria antiestatal de Milei.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essas diferen\u00e7as em mente, \u00e9 essencial reconhecer que as for\u00e7as do ultraconservadorismo religioso &#8211; sejam elas ultra-cat\u00f3licas ou evang\u00e9licas fundamentalistas&nbsp;&#8211; tamb\u00e9m s\u00e3o parte intr\u00ednseca do ecossistema que levou Milei ao poder e o sustenta politicamente. Para retomar minha breve incurs\u00e3o na virada econ\u00f4mica do neointegrismo, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o Ministro do Capital Humano respons\u00e1vel pelo corte radical nas pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o social venha exatamente do campo do Opus Dei. N\u00e3o menos importante, Bolsonaro e Milei compartilham um masculinismo extravagante, ilustrado pelo pr\u00eamio \u201cI,I,I\u201d concedido a Milei em Cambori\u00fa. Mas eles tamb\u00e9m s\u00e3o movidos por um impulso predat\u00f3rio que, no caso de Bolsonaro, acaba se estendendo ao econ\u00f4mico, como pode ser visto na forma como seu governo lidou com a Amaz\u00f4nia e o meio ambiente de forma mais geral. A met\u00e1fora para isso foi a declara\u00e7\u00e3o de seu ministro do meio ambiente de que &#8220;as porteiras devem ser abertas de par em par para deixar os bois passarem&#8221;. Suspeito que essa linha comum seja mais profundamente colonial do que um reflexo de uma posi\u00e7\u00e3o estritamente neoliberal ou libert\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com S\u00f4nia Corr\u00eaa por Ver\u00f3nica Gago e Luci CavalleroUma vers\u00e3o parcial dessa entrevista foi publicada originalmente em espanhol no jornal El Diario Ar N\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":26745,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[284,297],"tags":[43,45,317,139,329,323,319],"class_list":{"0":"post-26551","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entrevistas","8":"category-ultimas","9":"tag-antigenero","10":"tag-argentina","11":"tag-conservadorismos","12":"tag-feminismos","13":"tag-religioes","14":"tag-sexualidades","15":"tag-ultradireita"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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