{"id":23007,"date":"2020-09-21T21:52:30","date_gmt":"2020-09-22T00:52:30","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2020\/09\/21\/monstros-debaixo-da-cama\/"},"modified":"2024-01-29T14:10:49","modified_gmt":"2024-01-29T17:10:49","slug":"monstros-debaixo-da-cama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/artigos\/monstros-debaixo-da-cama\/23007","title":{"rendered":"Monstros debaixo da cama"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong style=\"color: #808080;text-align: center\"><em>Uma s\u00e9rie de memes e mensagens voltaram a circular na Am\u00e9rica Latina com o objetivo de alertar as pessoas para um suposto movimento que procurava normalizer pedofilia. O que est\u00e1 por tr\u00e1s desta estrat\u00e9gia? Como e de quem devemos proteger as crian\u00e7as?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Estrategia-de-los-sectores-antiderechos-1.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-11247 aligncenter\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Estrategia-de-los-sectores-antiderechos-1.png\" alt=\"\" width=\"513\" height=\"513\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Por Andrea Dominguez\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No grupo de WhatsApp entre vizinhos, todos s\u00e3o conhecidos, razo\u00e1veis e confi\u00e1veis. Ent\u00e3o se o advogado do 502 compartilha a &#8220;not\u00edcia&#8221; de que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade tem uma iniciativa para normalizar a pedofilia, deve ser verdade, certo?<\/p>\n<p>N\u00e3o, \u00e9 falso. T\u00e3o falso quanto a autoria de textos de autoajuda atribu\u00eddos a Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e Jorge Lu\u00eds Borges e tantas not\u00edcias falsas que circulam como v\u00edrus em nosso mundo pand\u00eamico.<\/p>\n<p>Com certa frequ\u00eancia, o tema da pedofilia ressurge nas redes sociais como um instrumento eficiente para gerar p\u00e2nico. E com raz\u00e3o, porque o que poderia ser mais assustador do que regularizar um comportamento que coloca crian\u00e7as em perigo? Especialmente ante \u00e0 realidade de um pa\u00eds como a Col\u00f4mbia, onde 64 crian\u00e7as s\u00e3o abusadas sexualmente todos os dias, sem contar com a subnotifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mais recente tour virtual da pedofilia como campanha de p\u00e2nico come\u00e7ou nas redes sociais da regi\u00e3o latinoamericana em meados de maio de 2020. Nesta ocasi\u00e3o, o objetivo da campanha foi vincular um suposto movimento ped\u00f3filo com a comunidade LGBT.<\/p>\n<p>De acordo com o que denunciava esses memes e mensagens, um suposto movimento ped\u00f3filo chamado MAP, \u201cMovimento Ativista Ped\u00f3filo\u201d, estaria buscando inser\u00e7\u00e3o na comunidade LGBT para posicionar a pedofilia como mais uma orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>As mensagens, que inicialmente circularam no Facebook e no Twitter e posteriormente em correntes no WhatsApp, utilizaram recursos ret\u00f3ricos e visuais para confundir os desprevenidos e para reafirmar as certezas daqueles que somente querem confirmer os seus enviesamentos.<\/p>\n<p>Dois dos principais recursos deste ataque \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o da comunidade LGBT foram a dissemina\u00e7\u00e3o de uma suposta bandeira ped\u00f3fila, suspeitamente semelhante \u00e0 Bandeira trans, e a celebra\u00e7\u00e3o do &#8220;dia do orgulho ped\u00f3filo&#8221; no 24 de junho, em perigosa proximidade ao Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, que \u00e9 comemorado 4 dias depois, no 28 de junho. Desta forma, o p\u00fablico pode fazer essas associa\u00e7\u00f5es quase automaticamente.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, toda uma s\u00e9rie de vers\u00f5es n\u00e3o oficiais complementou o tecido desta fal\u00e1cia, incluindo a inven\u00e7\u00e3o de que a OMS estaria procurando remover a pedofilia de sua lista de dist\u00farbios mentais, como teria feito com a homossexualidade em 1990. Novamente, estabelecia-se um elo pernicioso com a homossexualidade, tratando a pedofilia como a mesma coisa.<\/p>\n<p><strong>Confunda e reinar\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a desvendar esta confus\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar por esclarecer os seus termos. A pedofilia est\u00e1 listada na Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (ICD) como um dist\u00farbio de prefer\u00eancia sexual voltada para meninos e meninas em idade imp\u00fabere ou p\u00fabere recente.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso afirmar que nem a OMS est\u00e1 planejando desclassific\u00e1-la como um dist\u00farbio, nem existe qualquer liga\u00e7\u00e3o entre pedofilia e as v\u00e1rias orienta\u00e7\u00f5es sexuais. Por outro lado e em primeiro lugar, muitos pa\u00edses &#8211; incluindo a Col\u00f4mbia &#8211; n\u00e3o podem descriminalizar a pedofilia porque ela n\u00e3o \u00e9 criminalizada. O objeto do C\u00f3digo Penal colombiano \u00e9 o que chamamos de \u201cpederastia\u201d (abuso sexual de crian\u00e7as), ou seja, a pr\u00e1tica da pedofilia.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, n\u00e3o existe o tal \u201cMovimento Ativista Ped\u00f3filo\u201d. De fato, a sigla MAP tem sido amplamente utilizada pela comunidade cient\u00edfica e terap\u00eautica para se referir a condi\u00e7\u00e3o de \u201cPessoa Atra\u00edda por Menor\u201d, da qual a sigla MAP realmente deriva.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o americana B4UAct (equivale a &#8220;antes de voc\u00ea agir&#8221; em ingl\u00eas), oferece apoio terap\u00eautico \u00e0s pessoas que se sentem atra\u00eddas por crian\u00e7as. Como explica Allen Bishop, co-diretor cient\u00edfico da organiza\u00e7\u00e3o, MAP n\u00e3o \u00e9 o nome de nenhum movimento ped\u00f3filo.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 um termo usado por pessoas que s\u00e3o atra\u00eddas por crian\u00e7as, mas por pesquisadores e terapeutas que est\u00e3o trabalhando com essas pessoas. Uma revis\u00e3o da literatura cient\u00edfica contempor\u00e2nea mostra que este termo \u00e9 amplamente utilizado por duas raz\u00f5es: primeiro, porque abrange n\u00e3o apenas ped\u00f3filos (indiv\u00edduos atra\u00eddos por crian\u00e7as no est\u00e1gio imp\u00fabere), mas tamb\u00e9m heb\u00e9filos (indiv\u00edduos atra\u00eddos por crian\u00e7as no est\u00e1gio puberal); e segundo, porque a sigla MAP ajuda a diferenciar entre atra\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, enquanto a palavra &#8220;ped\u00f3filo&#8221; hoje \u00e9 tipicamente usada para se referir a algu\u00e9m que abusa de crian\u00e7as e n\u00e3o a algu\u00e9m que \u00e9 atra\u00eddo por elas&#8221;, explica Bishop.<\/p><\/blockquote>\n<p>A palavra pedofilia causa arrepios aos pais. Entretanto, o p\u00e2nico tende a se focar no conceito cl\u00ednico em vez de no fato espec\u00edfico de que o abuso sexual de crian\u00e7as \u00e9 cometido principalmente por homens que t\u00eam uma vida sexual adulta com mulheres e que n\u00e3o se identificam como ped\u00f3filos (no sentido de experimentar uma atra\u00e7\u00e3o sexual exclusiva por crian\u00e7as) e que pertencem em grande parte ao c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo de rela\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a abusada.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, de acordo com dados do Sistema Integrado de Informa\u00e7\u00e3o sobre Viol\u00eancia de G\u00eanero, SIVIGE &#8211; que \u00e9 operado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e da Prote\u00e7\u00e3o Social &#8211; 28.326 casos de viol\u00eancia sexual foram registrados em 2018, dos quais 23.635 correspondem a crian\u00e7as e adolescentes, ou seja, 83% do total de relatos.<\/p>\n<p>Destes 23.635 casos de viol\u00eancia sexual contra menores na Col\u00f4mbia, 85% foram contra meninas e jovens mulheres menores de 18 anos, sendo as meninas entre 10 e 14 anos as mais vulner\u00e1veis, com 10.258 casos de um total de 23.635.<\/p>\n<p>Este mesmo relat\u00f3rio confirma que 76,56% destes abusos ocorreram na pr\u00f3pria casa da v\u00edtima e foram cometidos por pessoas que em 77,24% dos casos eram pr\u00f3ximas \u00e0 v\u00edtima por serem parentes (45,08%), conhecidos (23,06%) ou amigos da fam\u00edlia (9,10%). Os pais representavam 13,59% dos agressores e as m\u00e3es 2,32%.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se estamos perseguindo ped\u00f3filos embrulhados em bandeiras cor-de-rosa, pintados nas redes sociais como ativistas que sairiam irados a marchar por seus direitos, talvez estejamos perdendo de vista o elefante no quarto, o monstro debaixo da cama.<\/p>\n<p><strong>Na pr\u00f3pria casa<\/strong><\/p>\n<p>A psic\u00f3loga Isabel Cuadros, diretora da funda\u00e7\u00e3o Afecto, trabalha h\u00e1 d\u00e9cadas com crian\u00e7as e jovens v\u00edtimas de abuso sexual. Ela viu na sua experi\u00eancia cl\u00ednica o que estes n\u00fameros dizem somente representam: a maioria dos agressores sexuais s\u00e3o conhecidos da v\u00edtima. &#8220;H\u00e1 at\u00e9 estudos, como por exemplo o da pesquisadora Carla van Dam, que identificam a figura do padrasto como sendo de alt\u00edssimo risco, pois j\u00e1 foi categorizado um perfil de homem que se dedica exclusivamente a procurar mulheres com filhos para, enfim, vitimiz\u00e1-los; outras figuras de perigo s\u00e3o o pr\u00f3prio pai, parentes e amigos pr\u00f3ximos&#8221;.<\/p>\n<p>De fato, acrescenta a Dra. Cuadros, a proximidade da v\u00edtima ao perpetrador \u00e9 um dos aspectos mais dif\u00edceis de toda terapia. &#8220;No abuso sexual cometido por algu\u00e9m pr\u00f3ximo \u00e0 crian\u00e7a h\u00e1 um componente muito s\u00e9rio, que \u00e9 a trai\u00e7\u00e3o, este \u00e9 o mais traum\u00e1tico, porque com o passar do tempo a v\u00edtima percebe que seu vitimizador lhe mentiu, lhe disse que era seu namorado, que isto era normal, ou que os pais deveriam iniciar suas filhas na sexualidade e, ao perceberem o engano, sentem seus corpos invadidos, se sentem sujas, com seu projeto de vida destru\u00eddo&#8221;. Este \u00e9 o tipo de trauma com o qual a Dra. Cuadros tem que lidar diariamente com seus pacientes.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que n\u00e3o existam abusos sexuais violentos, que sejam cometidos por um complete estranho que rapta uma crian\u00e7a, a estupra e muitas vezes a assassina. S\u00e3o exemplos os colombianos Uribe Noguera e o ped\u00f3filo e assassino em s\u00e9rie Luis Garavito deste mundo. Mas esses n\u00fameros nos convocam a olhar para o interior da fam\u00edlia e da comunidade, onde as figuras de autoridade podem freq\u00fcentemente manter situa\u00e7\u00f5es de abuso sexual durante anos, revestidas por sua suposta respeitabilidade, como no caso de abuso sexual cometido por padres cat\u00f3licos, mas tamb\u00e9m por outras figuras de autoridade.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata apenas da Col\u00f4mbia, esta \u00e9 uma realidade internacional. O pediatra americano, Walter Lambert, especialista em abuso sexual infantil, explica que a grande maioria das pessoas que abusam sexualmente de crian\u00e7as \u00e9 heterossexual em sua vida sexual adulta.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A maioria deles s\u00e3o homens que querem ter sexo, ponto final. Eles s\u00e3o oportunistas e tomam o que querem. O menino ou a menina \u00e9 um alvo f\u00e1cil; o abusador v\u00ea que pode facilmente manipul\u00e1-los para conseguir o que quer e recorre a eles. Normalmente, ele n\u00e3o vai querer assust\u00e1-los ou machuc\u00e1-los fisicamente, mas vai querer que a crian\u00e7a coopere com eles neste chamado &#8220;jogo&#8221; para que ele possa repeti-lo e, para faz\u00ea-lo, ele vai usar a sua autoridade e fazer a crian\u00e7a acreditar que o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 normal. \u00c9 verdade que h\u00e1 pessoas com uma prefer\u00eancia sexual exclusiva por crian\u00e7as desta ou daquela idade, ou com certas caracter\u00edsticas, mas a grande maioria dos abusos sexuais \u00e9 cometida por este perfil de homem heterossexual pr\u00f3ximo ao ambiente familiar&#8221;, explica Lambert.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O mito do homossexual<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, muitos abusadores s\u00e3o homens que vivem vidas heterossexuais em relacionamentos adultos e que abusam de crian\u00e7as simplesmente porque podem, sem realmente se importarem.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Lambert rejeita a acusa\u00e7\u00e3o generalizada neste tipo de campanha de que os abusadores de crian\u00e7as s\u00e3o, em sua maioria, homossexuais. &#8220;Como j\u00e1 disse, muitos abusadores s\u00e3o homens que t\u00eam uma vida heterossexual em seus relacionamentos adultos e que abusam de crian\u00e7as simplesmente porque podem, sem realmente se importar se a v\u00edtima \u00e9 um menino ou uma menina, mas porque s\u00e3o uma pessoa vulner\u00e1vel, de quem podem obter o que querem. \u00c9 por isso que vejo que neste esfor\u00e7o de ligar pedofilia e homossexualidade h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o deliberada de falar mal do movimento LGBT, talvez para fins pol\u00edticos e em parte para dizer \u00e0 sociedade &#8216;os bandidos s\u00e3o os outros, n\u00e3o n\u00f3s&#8217;, os abusadores s\u00e3o os homossexuais, n\u00e3o n\u00f3s, os heterossexuais&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Mas o especialista acrescenta que \u00e9 precisamente por causa de uma mudan\u00e7a nesta percep\u00e7\u00e3o que as taxas de abuso sexual nos Estados Unidos foram reduzidas durante os \u00faltimos 20 anos. &#8220;Costum\u00e1vamos dizer \u00e0 crian\u00e7a, tenha cuidado com estranhos e realmente \u00e9 necess\u00e1rio ter cuidado com estranhos&#8221;. Mas vimos, pelo esc\u00e2ndalo de abuso sexual da Igreja descoberto nos anos 2000, que os americanos entenderam que o abuso realmente ocorre no ambiente mais pr\u00f3ximo, em par\u00f3quias ricas e pobres; o abusador provavelmente ser\u00e1 um membro da comunidade ou da pr\u00f3pria fam\u00edlia; temos que acreditar nas crian\u00e7as quando elas nos dizem e \u00e9 nosso dever como adultos proteg\u00ea-las dessas pessoas\u201d.<\/p>\n<p>De fato, v\u00e1rios estudos descartaram a liga\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica que muitos sugerem entre pedofilia e homossexualidade. Um desses estudos foi realizado em 1989 por Kurt Freund, do Instituto Clarke de Psiquiatria do Canad\u00e1, no qual cientistas mostraram fotos de meninos e meninas a homens gays e heterossexuais para medir sua excita\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A descoberta foi que os gays n\u00e3o reagiram mais fortemente \u00e0s fotos de meninos do que os heterossexuais \u00e0s fotos de meninas. Uma meta-an\u00e1lise de Gregory Herek, professor em\u00e9rito de psicologia da Universidade da Calif\u00f3rnia e uma autoridade reconhecida internacionalmente sobre quest\u00f5es de minorias sexuais, incluindo estigma, preconceito e viol\u00eancia com base na orienta\u00e7\u00e3o sexual, diz que as evid\u00eancias n\u00e3o mostram que os gays ou bissexuais s\u00e3o mais propensos do que os heterossexuais a abusar de crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>O abuso naturalizado<\/strong><\/p>\n<p>Para mergulhar nesta atitude generalizada da sociedade de procurar a quest\u00e3o do abuso sexual em lugares onde n\u00e3o est\u00e1, vale \u00e0 pena falar sobre casamento infantil e casamento precoce.<\/p>\n<p>Estas pr\u00e1ticas s\u00e3o outra forma de abuso ao qual a sociedade geralmente n\u00e3o se escandaliza tanto, embora em muitos casos envolva a explora\u00e7\u00e3o sexual e laboral de meninas. A psic\u00f3loga e sex\u00f3loga Maryi Rinc\u00f3n trabalha h\u00e1 anos com v\u00edtimas de abuso sexual em cidades e regi\u00f5es rurais da Col\u00f4mbia e chama a aten\u00e7\u00e3o para o caso das rela\u00e7\u00f5es entre meninas e adolescentes com homens muito mais velhos do que eles, uni\u00f5es consentidas por suas pr\u00f3prias fam\u00edlias.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;No campo e nas cidades da Col\u00f4mbia \u00e9 comum encontrar meninas de 14 anos em uni\u00f5es livres com homens de 36 ou 40 anos. Estes fatos s\u00e3o baseados no fato de que a idade legal de consentimento \u00e9 14 anos, mas na realidade o que estamos vendo \u00e9 um abuso de poder, por parte de um adulto na frente de uma mulher jovem que ainda n\u00e3o est\u00e1 madura f\u00edsica, cognitiva ou psicologicamente&#8221;, diz Rinc\u00f3n.<\/p><\/blockquote>\n<p>Somente em um contexto cultural como este \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a explicar casos como o do locutor de r\u00e1dio Fabio Zuleta, que negociou com um porta-voz comunit\u00e1rio, com total descaramento e em tom jocoso, durante uma transmiss\u00e3o nas redes sociais, a compra de jovens ind\u00edgenas Way\u00fau.<\/p>\n<p>De acordo com Eugenia Lopez, da organiza\u00e7\u00e3o Ni\u00f1as No Esposas, h\u00e1 uma preval\u00eancia de 25% de casamentos infantis no continente, ou seja, 25% das meninas no continente s\u00e3o casadas antes de seu 18\u00ba anivers\u00e1rio. Na Col\u00f4mbia, a preval\u00eancia \u00e9 de 23%.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatores influenciam esta situa\u00e7\u00e3o: a pobreza, a falta de escolaridade dos adolescentes, a concep\u00e7\u00e3o familiar de que a filha \u00e9 um &#8220;fardo&#8221; e que, casando-a ou fazendo com que ela forme casal com um homem que a sustente, eles resolver\u00e3o este &#8220;fardo&#8221;, etc.<\/p>\n<p>Tudo isso tem a ver com uma concep\u00e7\u00e3o cultural profundamente enraizada do suposto valor menor atribu\u00eddo \u00e0s meninas em rela\u00e7\u00e3o aos meninos e \u00e9, como Lopez explica, uma conseq\u00fc\u00eancia da desigualdade de g\u00eanero. &#8220;As mulheres s\u00e3o educadas para serem m\u00e3es e esposas e, assim, o pensamento das pessoas nessas circunst\u00e2ncias \u00e9 &#8220;bem, por que atrasar esse destino?&#8221;. Isto traz uma s\u00e9rie de conseq\u00fc\u00eancias como, por exemplo, o fato de que o n\u00famero de casamentos precoces para meninas com 15 anos de idade dobra&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Quem quer confundir?<\/strong><\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses do continente americano, a quest\u00e3o da pedofilia como gatilho para ativar certas discuss\u00f5es retorna ciclicamente ao debate p\u00fablico. Nesta ocasi\u00e3o foi utilizado para ligar os ped\u00f3filos \u00e0 comunidade LGBT.<\/p>\n<p>Em 2017, 2018 e 2020, a plataforma de verifica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias Snopes identificou v\u00e1rias dessas campanhas que parecem ter inspirado aquelas que posteriormente circularam em nosso pa\u00eds e em outras na\u00e7\u00f5es vizinhas.<\/p>\n<p>Uma dessas campanhas procurou fazer as pessoas acreditarem que quando a sigla LGBT+ \u00e9 apresentada com o s\u00edmbolo (+) mais no final, ela est\u00e1 comunicando que est\u00e1 se preparando para adicionar o &#8220;P&#8221; de pedofilia. Outra dessas iniciativas divulgou recentemente que o movimento MAP &#8211; sim, o que n\u00e3o existe &#8211; visa estabelecer o conceito de &#8220;idade fluida&#8221; em uma clara alus\u00e3o a orienta\u00e7\u00f5es sexuais fluidas, s\u00f3 que, neste caso, os ped\u00f3filos estariam tentando convencer o mundo de que a idade \u00e9 um conceito arbitr\u00e1rio e que se um adulto de 40 anos se sente como uma crian\u00e7a de 12 anos, ent\u00e3o ele \u00e9 livre para ser um.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que existe um interesse consistente em atacar a comunidade LGBT. O que n\u00e3o est\u00e1 claro, no ataque mais recente, \u00e9 quem exatamente raptou a sigla MAP de seu contexto terap\u00eautico e a introduziu em uma campanha de mensagem para ligar a pedofilia ao universo LGBT. Este \u00e9 um caso muito comum nas redes sociais, mas n\u00e3o menos perigoso.<\/p>\n<p>A pesquisadora de dados e redes Cristina V\u00e9lez, de Linterna Verde, pesquisou fen\u00f4menos como estes, sempre enfrentando as mesmas dificuldades: devido \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da privacidade dos usu\u00e1rios, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel determinar com certeza se as contas que originaram as mensagens pertencem \u00e0 pessoa a quem dizem pertencer e se est\u00e3o no lugar geogr\u00e1fico que afirmam estar. Muito menos se pode ter certeza da veracidade de seu conte\u00fado.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;As redes sociais s\u00e3o intermedi\u00e1rios da internet, semelhantes ao que acontece com plataformas como Uber. As redes se apresentam n\u00e3o como um espa\u00e7o real, mas como um tubo atrav\u00e9s do qual a informa\u00e7\u00e3o passa e se apresentam como facilitadores do fluxo de informa\u00e7\u00e3o. Seu trabalho n\u00e3o \u00e9 proteger os direitos de ningu\u00e9m, eles n\u00e3o s\u00e3o uma entidade p\u00fablica, e argumentam que saber onde as pessoas est\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o das plataformas&#8221;, diz V\u00e9lez.<\/p><\/blockquote>\n<p>De acordo com o pesquisador digital, a menos que seja uma investiga\u00e7\u00e3o judicial bastante sofisticada e cara, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel estabelecer quem \u00e9 a pessoa real por tr\u00e1s de uma determinada conta em uma rede social, conhecer sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e at\u00e9 mesmo saber se o perfil \u00e9 real e se a editora realmente pensa como ele diz que pensa. &#8220;H\u00e1 muitas maneiras de enganar o algoritmo, voc\u00ea muda o manipulador &#8211; nome do tweeter &#8211; voc\u00ea muda o IP, voc\u00ea muda o quadro, ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil estabelecer de onde estes ataques est\u00e3o vindo. O que podemos estudar, e o que fazemos, \u00e9 ver quais contas amplificam uma certa mensagem&#8221;, explica ele.<\/p>\n<p>O paradoxo, de acordo com o especialista, \u00e9 que em &#8220;quest\u00f5es de truque&#8221;, se a parte atacada &#8211; neste caso a comunidade LGBT &#8211; reage e nega a acusa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 necessariamente amplificando uma narrativa se \u00e9 para contradiz\u00ea-la e como nas redes, o que importa muitas vezes n\u00e3o \u00e9 o que \u00e9 dito, mas que se fa\u00e7a barulho, a comunidade LGBT estaria dando mais voz \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es contra eles. Mas, por outro lado, se n\u00e3o se manifestar contra uma mensagem falsa que a envolva, estaria caindo em um sil\u00eancio que tamb\u00e9m pode ser usado contra ela.<\/p>\n<p>Isto explica porque muitos dos amplificadores destes memes e mensagens caluniosas que ligam a comunidade LGBT e a pedofilia t\u00eam sido pessoas que pertencem a este coletivo, j\u00e1 que muitos s\u00e3o r\u00e1pidos em condenar a liga\u00e7\u00e3o com a pedofilia.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que nos anos 90 houve uma aproxima\u00e7\u00e3o entre a NAMLA, North American Man Boy Love Associaton &#8211; uma organiza\u00e7\u00e3o que defendia ativamente a pedofilia &#8211; e uma organiza\u00e7\u00e3o chamada ILGA, International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association, mas esta aproxima\u00e7\u00e3o foi definitivamente quebrada pouco tempo depois. Entretanto, este precedente tem sido repetidamente reciclado para argumentar falsamente que a comunidade LGBT endossa a pedofilia.<\/p>\n<p>Outro exemplo da instrumentaliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o da pedofilia contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT foi apresentado quando a quest\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o por casais do mesmo sexo foi discutida. Alejandro Ruiz Caicedo, advogado especialista em direitos da crian\u00e7a e do adolescente, especialista em direito de fam\u00edlia e professor da Universidade Nacional da Col\u00f4mbia, estudou a quest\u00e3o de perto.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;H\u00e1 ignor\u00e2ncia sobre a quest\u00e3o e uma assimila\u00e7\u00e3o recorrente da pedofilia na comunidade LGBT; no fundo \u00e9 um argumento usado para discriminar por causa da orienta\u00e7\u00e3o sexual. A verdade \u00e9 que v\u00e1rios estudos demonstraram que as crian\u00e7as criadas por fam\u00edlias homossexuais n\u00e3o apresentam a menor evid\u00eancia de discrimina\u00e7\u00e3o com base na orienta\u00e7\u00e3o sexual. De acordo com a Academia Americana de Pediatria, a literatura dispon\u00edvel em mais de 30 anos de pesquisa indica que n\u00e3o h\u00e1 efeitos na sa\u00fade e bem-estar das crian\u00e7as resultantes da orienta\u00e7\u00e3o sexual de seus pais e que o bem-estar das crian\u00e7as adotadas \u00e9 mais afetado por aspectos como a aus\u00eancia de apoio social e econ\u00f4mico na fam\u00edlia&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Um fen\u00f4meno continental com tons pol\u00edticos graves<\/strong><\/p>\n<p>Os memes e mensagens que nasceram em perfis atualmente desativados foram retomados por outras pessoas at\u00e9 que fizeram carreira na rede e acabaram em certos meios convencionais do continente. Jornais como El Mostrador no Chile, El Heraldo no M\u00e9xico e El Pa\u00eds em Honduras captaram os rumores e reproduziram a not\u00edcia de que um movimento chamado MAP estaria buscando a normaliza\u00e7\u00e3o da pedofilia na sociedade.<\/p>\n<p>No Brasil, a quest\u00e3o n\u00e3o tem circulado pelos mesmos atores. Em outras palavras, n\u00e3o se tem falado do movimento MAP como promotor da pedofilia ou de suas supostas liga\u00e7\u00f5es com a comunidade LGBT, mas sim de membros de partidos de oposi\u00e7\u00e3o e cr\u00edticos do governo t\u00eam sido acusados em redes sociais de defesa da pedofilia.<\/p>\n<p>A pesquisadora brasileira Sonia C\u00f4rrea, estudiosa de quest\u00f5es de g\u00eanero e co-diretora do Sexuality Policy Watch (SPW) &#8211; um f\u00f3rum global dedicado \u00e0 pesquisa de tend\u00eancias globais em quest\u00f5es de sexualidade relacionadas \u00e0 pol\u00edtica e pol\u00edticas de Estado &#8211; observa que a quest\u00e3o da pedofilia ressurgiu recentemente no Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quando esta onda de viraliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o da APM come\u00e7a nos Estados Unidos e em outras partes do continente, a quest\u00e3o da pedofilia come\u00e7a a se mobilizar no Brasil, mas com a diferen\u00e7a de que aqui ela emerge do pr\u00f3prio governo. O pr\u00f3prio Bolsonaro, filho de Bolsonaro que \u00e9 congressista, o Ministro da Fam\u00edlia, da Mulher e dos Direitos Humanos, e recentemente o novo Ministro da Justi\u00e7a, colocaram a quest\u00e3o da pedofilia como prioridade na agenda do governo&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p><\/blockquote>\n<p>A ret\u00f3rica oficial \u00e9 que a esquerda quer normalizar a pedofilia no pa\u00eds, mas que o governo Bolsonaro, em especial a empreitada liderada pela Ministra da Fam\u00edlia, a pastora evang\u00e9lica Damares Alves, est\u00e1 cuidando desse problema.<\/p>\n<p>A empresa de an\u00e1lise de dados Maquina Solu\u00e7\u00f5es fez um relat\u00f3rio sobre o assunto e concluiu que a viraliza\u00e7\u00e3o das mensagens sobre pedofilia se devia \u00e0 necessidade do governo de criar um problema &#8211; a amea\u00e7a ped\u00f3fila &#8211; e depois oferecer uma solu\u00e7\u00e3o, o governo Bolsonaro e suas pol\u00edticas de endurecer a luta contra o crime. O objetivo seria desviar a aten\u00e7\u00e3o do alarmante n\u00famero de mortes da COVID-19 .<\/p>\n<p>Em uma ampla an\u00e1lise deste fen\u00f4meno, Corr\u00eaa coloca a pedofilia como mais um recurso sob o guarda-chuva da chamada &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;, que ela chama de espantalho porque \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o, um significante vazio dentro do qual todos os tipos de assuntos s\u00e3o trazidos para o debate p\u00fablico no momento apropriado para uma determinada agenda.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Casamento gay, educa\u00e7\u00e3o sexual para crian\u00e7as e jovens, pedofilia s\u00e3o esses tipos de quest\u00f5es que s\u00e3o usados alternadamente para gerar p\u00e2nico moral e para gerar apoio maci\u00e7o para certas a\u00e7\u00f5es. Isto foi usado no passado, como quando se dizia que havia um kit gay destinado a homossexualizar crian\u00e7as nas escolas ou mais recentemente quando o Ministro Alves lan\u00e7ou sua campanha contra a pedofilia&#8221;, explica Corr\u00eaa.<\/p><\/blockquote>\n<p>Este fen\u00f4meno tem semelhan\u00e7as com o que est\u00e1 acontecendo atualmente nos Estados Unidos com o grupo conhecido como QAnon (para Q, que \u00e9 a sigla com a qual seu criador \u00e9 identificado e para &#8220;anon&#8221; como uma abrevia\u00e7\u00e3o de an\u00f4nimo).<\/p>\n<p>Este grupo se dedica a divulgar falsas not\u00edcias que apoiam a teoria da conspira\u00e7\u00e3o que um grupo de adoradores de Satan\u00e1s, muitos deles do Partido Democrata, est\u00e3o orquestrando uma rede internacional de abuso sexual infantil cujo objetivo imediato \u00e9 derrotar o presidente Donald Trump, que estaria combatendo-os e a pedofilia que eles promovem.<\/p>\n<p>Corr\u00eaa chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que QAnon n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica teoria de conspira\u00e7\u00e3o espalhada pelas redes sociais. A Aliance for Defending Fredom (AdF) \u00e9 outra organiza\u00e7\u00e3o, aparentemente mais moderada, que tem conex\u00f5es com a Am\u00e9rica Latina e tem sido muito ativa na cria\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os como a pr\u00f3pria Anajure, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Advogados Evang\u00e9licos, criada em 2013 no Brasil.<\/p>\n<p>Portanto, a quest\u00e3o est\u00e1 longe de ter terminado. Os memes e as not\u00edcias falsas voltar\u00e3o. Com as elei\u00e7\u00f5es presidenciais nos Estados Unidos, h\u00e1 muito que estar\u00e1 circulando sobre o tema da pedofilia e, como sempre, pode-se esperar que estas mensagens virulentas se espalhem para o resto do continente, assim como os usu\u00e1rios da rede pensam cada vez menos antes de clicar em &#8220;enviar&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\">*Irene Alonso contribuiu para a pesquisa para este artigo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma s\u00e9rie de memes e mensagens voltaram a circular na Am\u00e9rica Latina com o objetivo de alertar as pessoas para um suposto movimento que procurava<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":20032,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[283],"tags":[60,65,317,313,335,319,275],"class_list":{"0":"post-23007","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos","8":"tag-brasil","9":"tag-catolicismo","10":"tag-conservadorismos","11":"tag-direito-ao-aborto","12":"tag-evangelismo","13":"tag-ultradireita","14":"tag-violencia-sexual"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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