{"id":22958,"date":"2020-07-16T20:59:42","date_gmt":"2020-07-16T23:59:42","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2020\/07\/16\/a-gestao-etico-politica-da-pandemia-de-covid-19-no-brasil-grupo-de-risco-e-normalizacao-da-catastrofe\/"},"modified":"2024-01-29T15:19:11","modified_gmt":"2024-01-29T18:19:11","slug":"a-gestao-etico-politica-da-pandemia-de-covid-19-no-brasil-grupo-de-risco-e-normalizacao-da-catastrofe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/artigos\/a-gestao-etico-politica-da-pandemia-de-covid-19-no-brasil-grupo-de-risco-e-normalizacao-da-catastrofe\/22958","title":{"rendered":"A Gest\u00e3o \u00c9tico-Pol\u00edtica da Pandemia de Covid-19 no Brasil: \u201cGrupo de Risco\u201d e Normaliza\u00e7\u00e3o da Cat\u00e1strofe"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_10852\" aria-describedby=\"caption-attachment-10852\" style=\"width: 398px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Keith-Haring-Untitled-1983-crop-X70882.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-10852\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Keith-Haring-Untitled-1983-crop-X70882.jpg\" alt=\"\" width=\"398\" height=\"295\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-10852\" class=\"wp-caption-text\"><sup><span style=\"color: #808080\">Untitled, 1983. Keith Haring.<\/span><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right\"><em>Por Rog\u00e9rio Diniz Junqueira (Inep) &amp; Marco Aur\u00e9lio M\u00e1ximo Prado (UFMG)*<\/em><\/p>\n<blockquote><p><sup><span style=\"color: #808080\"><strong>Resumo<\/strong><\/span><\/sup><\/p>\n<p><sup><span style=\"color: #808080\">Considerando que pandemias s\u00e3o alvo de gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica por parte de governos e sociedade, objetivamos aqui reconhecer correla\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre a pandemia do HIV\/aids e a atual da Covid-19 com vistas a sublinhar a heran\u00e7a de lutas sociais de grupos subalternizados e, desse modo, interpelar o uso da no\u00e7\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221;, fortemente criticada pelos movimentos de base comunit\u00e1rias desde a d\u00e9cada de 1990. Abordamos os sentidos dispersos desta no\u00e7\u00e3o e os efeitos de sua ado\u00e7\u00e3o, sobretudo, na gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica da pandemia da Covid-19. Por fim, buscamos caracterizar a resposta brasileira \u00e0 pandemia atual e seus nexos com a reativa\u00e7\u00e3o de uma no\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica que parecia ter sido abandonada.<\/span><\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>A mem\u00f3ria social e pol\u00edtica, particularmente aquela relacionada \u00e0s lutas de grupos subalternizados e\/ou estigmatizados, n\u00e3o figura entre os elementos mais valorizados em nossa sociedade. No entanto, vale enfatizar que, a partir dela, podemos relacionar aprendizados, acumular e potencializar redes e experi\u00eancias de solidariedade e, assim, incrementar reflex\u00f5es, refor\u00e7ar e reinventar lutas por conquistas de direitos, dignifica\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o da vida e do mundo.<\/p>\n<p>Em um quadro catastr\u00f3fico de pandemia, antecedido pela pior crise econ\u00f4mica em d\u00e9cadas, por retrocessos nas esferas pol\u00edticas e sociais, entre outras e, por um cen\u00e1rio ainda mais agravado por uma gest\u00e3o autocr\u00e1tica, desordenada, inconsistente e inconsequente da pandemia (Ventura, 2020), incentivar a participa\u00e7\u00e3o, relembrar debates e revalorizar saberes constru\u00eddos ao longo de batalhas coletivas pode ser n\u00e3o apenas necess\u00e1rio mas indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a, a desinforma\u00e7\u00e3o, a incerteza e a desesperan\u00e7a t\u00eam sido amplamente cultivadas, entretanto n\u00e3o s\u00e3o igualmente distribu\u00eddas na sociedade. Inclusive por isso, vincular temporalidades certamente requerer\u00e1 muito mais do que ir em busca de lembran\u00e7as afetivas, mas exigir\u00e1 sobretudo a revaloriza\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o conjunta de saberes partilhados, bem como o questionamento, a redefini\u00e7\u00e3o e o abandono de conceitos, disposi\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es de poder, classifica\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas geradoras de opress\u00e3o e sofrimento. Entre outras coisas, isso implica tensionar a administra\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica dos corpos, das enfermidades, das pandemias, dos territ\u00f3rios, e tamb\u00e9m envolve rever a nossa rela\u00e7\u00e3o com saberes biom\u00e9dicos, jur\u00eddicos e os poderes p\u00fablicos. Diante disso, parece-nos importante considerar que a gest\u00e3o \u00e9tica, social e pol\u00edtica da pandemia da Covid-19 possa ter em sua base alguns dos fundamentos coletivamente constru\u00eddos no \u00e2mbito do enfrentamento da pandemia do HIV\/aids (Fee, 2006) entre os anos de 1980 e 2000, no Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa articula\u00e7\u00e3o que queremos argumentar a poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre as pandemias, especificamente entre a pandemia do HIV\/aids e a atual da Covid-19<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. H\u00e1 v\u00e1rias dimens\u00f5es dessa rela\u00e7\u00e3o, todas complexas. Ativar essas mem\u00f3rias sociais e pol\u00edticas poder\u00e1, em certa medida, contribuir para incrementar o debate p\u00fablico n\u00e3o apenas em torno das condu\u00e7\u00f5es do enfrentamento da atual pandemia, mas tamb\u00e9m para imprimir-lhe novos rumos e, quem sabe, enriquecer e impulsionar uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es e lutas em um cen\u00e1rio de barb\u00e1rie, eros\u00e3o da cidadania e desmantelamento dos direitos fundamentais.<\/p>\n<p><strong>HIV\/aids e Covid-19: correla\u00e7\u00f5es poss\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Aprendemos no caso do HIV\/aids e de outras enfermidades que o manejo \u00e9tico-pol\u00edtico de uma pandemia n\u00e3o pressup\u00f5e apenas pol\u00edticas e planos de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas efetivamente organizados para o seu enfrentamento e controle. Envolve, sabidamente, uma complexidade de atores sociais, sujeitos, institui\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es, percep\u00e7\u00f5es, interesses, concep\u00e7\u00f5es. Em tal caso, narrativas biom\u00e9dicas, tratos m\u00e9dicos, pedagogias, cren\u00e7as e conhecimentos h\u00edbridos podem incidir na modelagem de medidas preventivas e nas decis\u00f5es pol\u00edticas sobre as formas de enfrentamento das doen\u00e7as coletivas. Nesse sentido, coordena\u00e7\u00e3o de uma gest\u00e3o pode desvelar a nossa capacidade como sociedade de reconhecer as facetas das vulnerabilidades hist\u00f3ricas, valorizar as solidariedades constru\u00eddas e reafirmar a pol\u00edtica social como um direito.<\/p>\n<p>As formas err\u00e1ticas, mal articuladas, contradit\u00f3rias e inconsistentes de enfrentamento da pandemia da Covid-19 no Brasil t\u00eam nos conduzido a dados alarmantes de contamina\u00e7\u00e3o, letalidade e ocupa\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade p\u00fablico e privado. Isso sem mencionar a crise pol\u00edtica \u00e0 qual o governo federal parece dedicar-se com vistas a viabilizar um projeto autorit\u00e1rio e repressivo, aproveitando-se inclusive do contexto de distanciamento f\u00edsico. Nem sequer parece hesitar em disfar\u00e7ar sua avers\u00e3o a diretrizes fornecidas pela comunidade cient\u00edfica e seu empenho contra toda e qualquer a\u00e7\u00e3o voltada a garantir medidas efetivas de preven\u00e7\u00e3o ao avan\u00e7o da pandemia, tanto em termos sanit\u00e1rios como econ\u00f4micos (\u00c1pyus, 2020).<\/p>\n<p>Mesmo com taxas \u00ednfimas de testagens da popula\u00e7\u00e3o e reconhecidamente elevada subnotifica\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds lidera os registros de novos casos e de mortes no \u00faltimo m\u00eas, e \u00e9 um dos poucos que n\u00e3o faz rastreio de contatos (Gabriel, 2020; Santino, 2020; Tenente, 2020). Gestores estaduais e municipais, em geral, entre posturas negacionistas, anacr\u00f4nicas, c\u00ednicas, desinformadas e acovardadas, mostram-se desorientados e desprovidos de planos articulados e bem estruturados em termos conceituais, al\u00e9m de raramente respaldados em dados epidemiol\u00f3gicos consistentes e crit\u00e9rios que priorizem a defesa de todas as vidas. A maioria deles revela-se disposta a improvisar solu\u00e7\u00f5es, ao sabor da ilus\u00e3o de que podem promover uma &#8220;gradual&#8221; (mas, na verdade, acelerada) &#8220;reabertura inteligente das atividades&#8221; em pleno avan\u00e7o da pandemia.<\/p>\n<p>O desastre anunciado se materializa a cada nova semana, e a cat\u00e1strofe n\u00e3o parece ser grande o bastante para convencer a maioria dos dirigentes pol\u00edticos e os grupos econ\u00f4micos sobre a necessidade de reverem radicalmente suas posi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o por acaso, a resposta brasileira \u00e0 pandemia atual, muito diferentemente do que ocorreu no caso do HIV\/aids, tem sido alvo de grande preocupa\u00e7\u00e3o da comunidade internacional, que passou a ver o pa\u00eds como uma amea\u00e7a global (Chade, 2020). De modelo que \u00e9ramos, somos agora um claro exemplo a n\u00e3o ser seguido (Lodo\u00f1o, Andreoni &amp; Casado, 2020).<\/p>\n<p>Embora as duas situa\u00e7\u00f5es estejam marcadas por contextos pol\u00edticos e sanit\u00e1rios distintos, h\u00e1 correla\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a serem feitas que poder\u00e3o nos ajudar a construir melhores respostas para este momento. A pandemia do HIV\/aids recebeu por parte da sociedade brasileira respostas variadas ao longo do tempo. Entre as d\u00e9cadas de 1980 e 2000, segundo Richard Parker (2020), assistimos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de enfrentamento, fruto da mobiliza\u00e7\u00e3o social comunit\u00e1ria, balizadas por quatro princ\u00edpios \u00e9tico-pol\u00edticos: a solidariedade, o reconhecimento \u00e0 diversidade, cidadania e a sa\u00fade entendida como direito fundamental. Amalgamadas ao sabor de contextos sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos adversos (&#8220;abertura democr\u00e1tica&#8221;, crise econ\u00f4mica prolongada, intensas mobiliza\u00e7\u00f5es sociais), as respostas envolveram inclusive as pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o. Em 1996, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o incluiu a sexualidade como tema transversal nos Par\u00e2metros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental.<\/p>\n<p>O discurso institucional, no entanto, em vez de ensejar a amplia\u00e7\u00e3o do debate e abordagens mais cr\u00edticas e inovadoras, favoreceu uma associa\u00e7\u00e3o da sexualidade \u00e0s ideias de risco e amea\u00e7a, e foi por isso, ao longo de anos, alvo de cr\u00edticas crescentes. A t\u00f4nica alarmista caracterizou in\u00fameras campanhas promovidas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na segunda metade dos 1980, e sua mudan\u00e7a resultou das press\u00f5es dos movimentos sociais e outros atores sociais. Com efeito, a partir da d\u00e9cada seguinte, o discurso foi gradativamente trazido para o terreno da cidadania e dos direitos humanos, ainda que, muitas vezes, o foco tenha permanecido na preven\u00e7\u00e3o. Na esteira de embates e pol\u00eamicas que atravessaram todo esse per\u00edodo, logrou-se ressignificar, mais nitidamente a partir do in\u00edcio dos anos 1990, um dos pontos nodais das a\u00e7\u00f5es de enfrentamento ao HIV\/aids: a no\u00e7\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221;.<\/p>\n<p><strong>A no\u00e7\u00e3o de \u201cgrupo de risco\u201d, seu emprego e conota\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Essa nomenclatura, vaga e imprecisa, um significante com muitas interpreta\u00e7\u00f5es, foi utilizada no in\u00edcio da pandemia do HIV\/aids, no Brasil e em v\u00e1rios pa\u00edses. Seu emprego foi alvo de intensas cr\u00edticas por ensejar percep\u00e7\u00f5es equivocadas do alcance da pandemia, favorecer o enquadramento da discuss\u00e3o no terreno da moral sexual e contribuir para agravar o quadro de estigmatiza\u00e7\u00e3o das pessoas diretamente atingidas. Isso deixou rastros profundos, pois, apesar da identifica\u00e7\u00e3o do agente causador da s\u00edndrome e das v\u00e1rias formas de transmiss\u00e3o, ao longo dos anos de 1990 ainda era recorrente o acionamento dessa no\u00e7\u00e3o, n\u00e3o raro, acompanhado da culpabiliza\u00e7\u00e3o de &#8220;gays&#8221;, &#8220;prostitutas&#8221; e &#8220;usu\u00e1rios de drogas&#8221; pelo advento da aids. Mesmo perdendo for\u00e7a e espa\u00e7o, a no\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o ter sido de todo abandonada.<\/p>\n<p>Vale lembrar que &#8220;risco&#8221; \u00e9 uma categoria epidemiol\u00f3gica que indica as probabilidades de um corpo ou de um grupo com determinadas caracter\u00edsticas ser afetado por algum tipo de enfermidade em maior escala do que outros indiv\u00edduos ou grupos. Refere-se ao corpo frente a determinadas enfermidades ou comorbidades, embora sua utiliza\u00e7\u00e3o no discurso biom\u00e9dico seja bastante imprecisa (Ayres, 2011; Spink, 2001). A partir desse entendimento, &#8220;grupo de risco&#8221; indicaria corpos que, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, estariam mais expostos e vulner\u00e1veis do que outros, possuindo, assim, um risco maior de adoecimento do que outros. Naquele momento, um termo usado pelo discurso m\u00e9dico para significar &#8220;um corpo mais vulner\u00e1vel&#8221;, portanto, com maior risco de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 enfermidade, migrou rapidamente para outro terreno. Ou seja, em pouco tempo a no\u00e7\u00e3o passou a respaldar um discurso que acionava (e ainda aciona) uma compreens\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221; permeada pela moralidade sexual. Desde ent\u00e3o, a cada vez que emerge, ela parece quase invariavelmente ostentar o potencial de operar como um vetor de discrimina\u00e7\u00e3o e estigmatiza\u00e7\u00e3o de grupos sociais a que venha se referir, real\u00e7ando preconceitos e alimentando processos de classifica\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Novos estudos poder\u00e3o nos esclarecer, mas, at\u00e9 o momento, temos a impress\u00e3o de que a no\u00e7\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221; adotada no Brasil no caso da Covid-19 parece dever muito a um processo de internaliza\u00e7\u00e3o de um entendimento talvez aligeirado do que teria sido a experi\u00eancia europeia (especialmente a italiana) no enfrentamento \u00e0 pandemia (Harayama, 2020). Antes mesmo dos primeiros registros oficiais de casos no pa\u00eds, propagavam-se entre n\u00f3s representa\u00e7\u00f5es do idoso e do sujeito com comorbidade como integrantes por excel\u00eancia do &#8220;grupo de risco&#8221; da Covid-19. Pouco parecia contar o fato de que ainda carecemos de estudos aprofundados sobre as formas e as facilidades de transmiss\u00e3o do v\u00edrus e as poss\u00edveis manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas em uma sociedade com elevada concentra\u00e7\u00e3o de renda, altas taxas de desemprego e subemprego, acentuadas clivagens sociais, raciais e de g\u00eanero, enormes diferen\u00e7as territoriais, desigualdade no acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os p\u00fablicos em processo de acelerado desinvestimento, com consequente agravamento nas \u00e1reas da sa\u00fade p\u00fablica, assist\u00eancia social, educa\u00e7\u00e3o, na cultura e na oferta de moradia e de transporte p\u00fablico, entre outros.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds onde mais de um quarto dos mortos por Covid-19 est\u00e1 fora dos assim denominados &#8220;grupos de risco&#8221; (Souza, Prazeres, Magalh\u00e3es &amp; Grandelle, 2020) e 45% das interna\u00e7\u00f5es por coronav\u00edrus s\u00e3o de pessoas entre 20 e 59 anos (Manzano, 2020), um turbilh\u00e3o de discursos cacof\u00f4nicos cravejados de no\u00e7\u00f5es restritas e anacr\u00f4nicas faz com que as sinergias das vulnerabilidades que podem levar enormes contingentes sociais a serem afetados fiquem, no melhor dos casos, em segundo plano.<\/p>\n<p>V\u00e1rias vezes especialistas chamaram nossa aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, se, por um lado, poder\u00edamos admitir a exist\u00eancia de fatores que, por assim dizer, aumentam os &#8220;riscos&#8221; ou agravam as situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade; por outro, ter\u00edamos que suspender a no\u00e7\u00e3o de grupo de risco pois ela, entre outras coisas, favorece uma compreens\u00e3o dicot\u00f4mica a\u00e7odada de que os demais estariam, <em>grosso modo<\/em>, ao seguro, fora de perigo.<\/p>\n<p>Assim, deveria soar bastante paradoxal falar em &#8220;grupo de risco&#8221; diante de uma pandemia. Mais ainda diante de uma pandemia cuja etiologia deriva de um v\u00edrus altamente contagioso. Especialmente quando n\u00e3o h\u00e1 vacina nem medica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para combat\u00ea-lo, e os protocolos de tratamento dos sintomas das pessoas infectados s\u00e3o alvo de enormes pol\u00eamicas. E se, al\u00e9m da falta de testes, campanhas informativas e transpar\u00eancia na divulga\u00e7\u00e3o de dados, as discuss\u00f5es em torno das medidas de preven\u00e7\u00e3o e de distanciamento f\u00edsico s\u00e3o capturadas e polarizadas em virtude de meros interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Evidentemente, podemos convir que h\u00e1 fatores que aumentam sensivelmente os &#8220;riscos&#8221; frente a uma determinada dissemina\u00e7\u00e3o de um agente etiol\u00f3gico com alt\u00edssima capacidade de contamina\u00e7\u00e3o. No entanto, a quest\u00e3o \u00e9 saber se a distribui\u00e7\u00e3o desses riscos deve ficar dicotomicamente circunscrita a categorias definidas em bases essencialistas (&#8220;o idoso&#8221;, sim; &#8220;o jovem&#8221;, n\u00e3o) ou se, em vez disso, consideramos que grande parte desses fatores geradores de risco s\u00e3o, de todo modo, socialmente localizados e politicamente conotados. Uma pessoa idosa, um dos alvos da mira do ju\u00edzo cr\u00edtico durante essa pandemia, n\u00e3o \u00e9 simplesmente &#8220;mais velha&#8221;. Al\u00e9m de outros marcadores sociais, ela est\u00e1 sujeita a uma s\u00e9rie de fatores sociol\u00f3gicos associados a diferentes processos de pertencimento e atua\u00e7\u00e3o no mundo da vida. Nem mesmo a idade \u00e9 uma mera condi\u00e7\u00e3o ou constata\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, e seu ac\u00famulo pode possuir sentidos e representar possibilidades diferentes para pessoas de mesma faixa et\u00e1ria. A complexidade de fatores que concorrem nas din\u00e2micas de estrutura\u00e7\u00f5es sociais e nas distribui\u00e7\u00f5es desiguais dos fatores de &#8220;riscos&#8221; e na defini\u00e7\u00e3o das possibilidades de acesso a medidas preventivas ou ao tratamento, deveria nos levar a construir processos mais sofisticados e dialogados (participa\u00e7\u00e3o e controle social) de avalia\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios, com vistas a pensar em medidas de preven\u00e7\u00e3o e tratamento (e na viabiliza\u00e7\u00e3o de seu acesso) pautadas pela compreens\u00e3o da gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica mencionada anteriormente, e que contemplem a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas transversais e interseccionais para garantir a prote\u00e7\u00e3o de quem quer que necessite delas, considerando elementos comuns, espec\u00edficos e multiplicidades de condi\u00e7\u00f5es, circunst\u00e2ncias, din\u00e2micas.<\/p>\n<p>Ao lado disso, \u00e9 no m\u00ednimo curioso observar essa tentativa de revestir de laivos de generosa preocupa\u00e7\u00e3o com o cuidado e a prote\u00e7\u00e3o uma no\u00e7\u00e3o reconhecidamente dotada de carga preconceituosa e estigmatizante. Os efeitos perversos podem ser muitos, podendo chegar a uma situa\u00e7\u00e3o em que o sujeito foco da aten\u00e7\u00e3o e do cuidado \u00e9 preterido, desamparado, abandonado. Vale mencionar o que sinalizam Luiz Mello e Jean Baptista (2020) no caso de situa\u00e7\u00f5es (nada hipot\u00e9ticas) em que os profissionais de sa\u00fade devem decidir qual paciente acudir:<\/p>\n<blockquote><p>Em face da inevitabilidade da Escolha de Sofia (&#8230;), os integrantes de grupos de risco\/vulner\u00e1veis perdem o lugar de prioridade que supostamente seria seu. A aten\u00e7\u00e3o e os cuidados passam a ter como alvo os mais jovens, os bem nutridos, os sem hist\u00f3rico de doen\u00e7as graves, por possu\u00edrem condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias que ampliam as chances de sobreviv\u00eancia (&#8230;). Nesse sentido, a partir de um crit\u00e9rio de elegibilidade cl\u00ednica, a express\u00e3o \u201cgrupo de risco\u201d ou \u201cgrupo vulner\u00e1vel\u201d passa a fragilizar ainda mais quem em tese deveria proteger (Mello &amp; Baptista, 2020).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica catastr\u00f3fica e o &#8220;novo normal&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Com base nesses argumentos, poder\u00edamos elencar os efeitos delet\u00e9rios da utiliza\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o &#8220;grupo de risco&#8221; para instrumentalizar uma gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica catastr\u00f3fica da pandemia no Brasil. Dentre tantos poss\u00edveis exemplos, um merece destaque: o da administra\u00e7\u00e3o interessada em realizar, o mais rapidamente poss\u00edvel, a &#8220;abertura inteligente das escolas&#8221;. De quebra, defende-se tamb\u00e9m a manuten\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio das universidades e das avalia\u00e7\u00f5es em larga escala, afinal, como dizia uma recente pe\u00e7a publicit\u00e1ria do governo federal, de car\u00e1ter alegadamente motivacional: &#8220;E se uma gera\u00e7\u00e3o de novos profissionais fosse perdida? M\u00e9dicos, enfermeiros, engenheiros, professores. Seria o melhor para o nosso pa\u00eds? A vida n\u00e3o pode parar. \u00c9 preciso ir \u00e0 luta, se reinventar, superar\u201d (Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, 2020).<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o parecem ser poucos os atores pol\u00edticos desejosos de se valer tanto das difusas incompreens\u00f5es acerca da pandemia, quanto dos equ\u00edvocos que no\u00e7\u00f5es como a de &#8220;grupo de risco&#8221; potencialmente implicam. Em tais casos, associar uma no\u00e7\u00e3o de f\u00e1cil consumo (como a de que h\u00e1 &#8220;grupos de risco&#8221; com determinadas caracter\u00edsticas fixadas e evidentes) a outras ideias supostamente t\u00e9cnicas pode contribuir para conferir f\u00e9 c\u00eanica aos personagens e encarecer a narrativa sanit\u00e1ria que tentam promover. Considera\u00e7\u00f5es pretensamente t\u00e9cnicas munir-se-\u00e3o de termos criados para conferir espessura e validade a argumentos fict\u00edcios. O repentino surgimento de termos alheios aos estudos epidemiol\u00f3gicos, como os de &#8220;isolamento vertical&#8221;, \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p>Contrariando as recomenda\u00e7\u00f5es dos organismos internacionais (Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia [Unicef], Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade [OMS] &amp; Federa\u00e7\u00e3o Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho [IFRC], 2020), Bolsonaro fez in\u00fameras declara\u00e7\u00f5es defendendo o retorno imediato \u00e0s aulas presenciais, valendo-se, n\u00e3o por acaso, das no\u00e7\u00f5es de &#8220;grupo de risco&#8221; e &#8220;isolamento vertical&#8221;.<\/p>\n<blockquote><p>Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibi\u00e7\u00e3o de transportes, o fechamento de com\u00e9rcio e o confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco \u00e9 o das pessoas acima de 60 anos. Ent\u00e3o, por que fechar escolas? (Brasil. Jair Messias Bolsonaro, 2020)<sup><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/sup><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Tem que enfrentar a chuva, p\u00f4. Tem que enfrentar o v\u00edrus. N\u00e3o adianta se acovardar, ficar dentro de casa. N\u00f3s sabemos que a vida \u00e9 uma s\u00f3. Sabemos dos pais que est\u00e3o preocupados com os filhos voltarem \u00e0 escola. Mas tem que voltar \u00e0 escola, n\u00f3s n\u00e3o temos nenhuma not\u00edcia de algu\u00e9m abaixo de 10 anos de idade que contraiu o v\u00edrus e foi a \u00f3bito ou foi para a UTI. (Brasil. Jair Messias Bolsonaro, 2020)<sup><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/sup><\/p>\n<p>O governo federal, se depender de n\u00f3s, est\u00e1 tudo aberto com isolamento vertical e ponto final. (Brasil. Jair Messias Bolsonaro, 2020)<sup><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Dentre o muito j\u00e1 dito para esclarecer e evitar os danos que os cultivados equ\u00edvocos e o desd\u00e9m que tais declara\u00e7\u00f5es expressam, vale sucintamente lembrar uma an\u00e1lise de Ana Estela de Sousa Pinto (2020) acerca das evid\u00eancias que t\u00eam sido repetidas por especialistas em conten\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as transmiss\u00edveis em todo o mundo:<\/p>\n<blockquote><p>Jovens s\u00e3o t\u00e3o suscet\u00edveis a contrair o v\u00edrus quanto os mais velhos (&#8230;) a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a nos mais jovens \u00e9 mais branda que entre os mais velhos, mas o novo coronav\u00edrus pode matar at\u00e9 mesmo crian\u00e7as, com uma probabilidade maior que a da gripe comum (&#8230;) quanto mais jovens contaminados, maior o risco para os mais velhos e doentes (&#8230;) Entre os mais jovens, a transmiss\u00e3o \u00e9 mais intensa (&#8230;) a velocidade de transmiss\u00e3o depende da intensidade de contato entre as pessoas. Nas escolas, essa taxa de intera\u00e7\u00e3o \u00e9 o dobro da verificada nas empresas ou no cotidiano das cidades, (&#8230;) [cientistas do <em>Imperial College<\/em> estimam que] um ter\u00e7o das transmiss\u00f5es do novo coronav\u00edrus aconte\u00e7a nas escolas. (&#8230;) O sistema de sa\u00fade precisa ser protegido: sem medidas mais dr\u00e1sticas que reduzam a velocidade de cont\u00e1gio, os hospitais entram em colapso mesmo nos pa\u00edses mais ricos.(&#8230;) \u00c9 preciso planejamento (&#8230;). (Pinto, 2020)<\/p><\/blockquote>\n<p>Por sua vez, Naomar Almeida Filho (2020), em seu breve coment\u00e1rio geneal\u00f3gico sobre a no\u00e7\u00e3o de &#8220;isolamento vertical&#8221;, n\u00e3o hesita em denunci\u00e1-la como uma fraude pseudocient\u00edfica e aponta os mesmos efeitos danosos anteriormente mencionados:<\/p>\n<blockquote><p>Do ponto de vista epidemiol\u00f3gico, n\u00e3o faz qualquer sentido usar uma quarentena invertida, aplicada somente a vulner\u00e1veis e n\u00e3o a infectados, sem contar que grande parcela da nossa gente vive em condi\u00e7\u00f5es que <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-04-12\/margareth-dalcolmo-o-isolamento-social-severo-e-o-sus-sao-as-grandes-armas-do-brasil-contra-a-pandemia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dificilmente ou jamais pode isolar algu\u00e9m<\/a> em casa. A livre circula\u00e7\u00e3o dos sujeitos contaminantes, sintom\u00e1ticos ou n\u00e3o, facilita o cont\u00e1gio e a pandemia foge a qualquer controle, podendo tornar-se end\u00eamica. Al\u00e9m de cientificamente inv\u00e1lida, essa estrat\u00e9gia \u00e9 problem\u00e1tica tamb\u00e9m do ponto de vista da \u00e9tica m\u00e9dica, na medida em que implica um gerontoc\u00eddio anunciado, dada a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2020-03-24\/por-que-o-coronavirus-e-mais-perigoso-para-os-idosos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">maior virul\u00eancia e letalidade<\/a> da covid-19 entre idosos. Em suma, por esses e outros motivos, a esquisita no\u00e7\u00e3o de \u201cisolamento vertical\u201d n\u00e3o se sustenta nos campos cient\u00edficos da medicina e da sa\u00fade coletiva. (Almeida Filho, 2020)<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora n\u00e3o seja uma novidade, \u00e9 inquietante notar que, quando se disp\u00f5e de meios e encontram-se converg\u00eancias de interesses ou setores propensos a se deixar capturar, pode ser f\u00e1cil fazer concep\u00e7\u00f5es anacr\u00f4nicas e narrativas enganosas ganharem cada vez maior espa\u00e7o na arena p\u00fablica. Cabe, por\u00e9m, observar que, por tr\u00e1s daquilo que aparenta ser uma mera e proverbial manifesta\u00e7\u00e3o de falta de razoabilidade ou de conhecimento de causa, pode ser mais uma estrat\u00e9gia ardilosa.<\/p>\n<p>Um gestor pol\u00edtico desdenhoso da sa\u00fade coletiva, indiferente \u00e0 ang\u00fastia e ao tormento a que submete a popula\u00e7\u00e3o, pode apostar em medidas ardilosas com vistas a construir ou refor\u00e7ar a sua imagem de gestor determinado, cheio de convic\u00e7\u00f5es, corajoso &#8220;defensor da vida, da fam\u00edlia e das crian\u00e7as&#8221;. Nesse momento, sofisticadas estrat\u00e9gias ret\u00f3ricas podem ser ativadas, inclusive, em &#8220;defesa dos direitos humanos e dos direitos fundamentais&#8221; em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles gestores empenhados em implementar medidas de distanciamento f\u00edsico e diminui\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nos centros urbanos.<\/p>\n<p>Ao lado disso, entre atores de diferentes campos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos, vemos emergir uma invoca\u00e7\u00e3o a um &#8220;novo normal&#8221;. Uma ideia supostamente generosa, que, no entanto, expressa uma \u00e2nsia normalizadora. Intrinsecamente enredada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221; e ao que ela implica, essa fabula\u00e7\u00e3o reitera e atualiza processos de marginaliza\u00e7\u00e3o e estigmatiza\u00e7\u00e3o. Um artif\u00edcio ret\u00f3rico despolitizante que contribui para preservar, sem ser interpeladas nem tensionadas, boa parte das condi\u00e7\u00f5es materiais, pol\u00edticas e simb\u00f3licas que, at\u00e9 aqui, possibilitaram uma gest\u00e3o da pandemia respons\u00e1vel por conduzir n\u00fameros crescentes de pessoas ao sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Esse acionamento da no\u00e7\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221;, em um cen\u00e1rio de desempenho sofr\u00edvel do Estado na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais, contribui para deslocar a responsabilidade relativa \u00e0 gest\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o, do cuidado e da seguran\u00e7a sanit\u00e1ria para as fam\u00edlias e os indiv\u00edduos, sobretudo as mulheres. &#8220;Tome todos os cuidados&#8221;, &#8220;lave bem as m\u00e3os&#8221;, &#8220;use \u00e1lcool em gel&#8221;, &#8220;use m\u00e1scara&#8221;, &#8220;mantenha o distanciamento social&#8221;, &#8220;isole as pessoas do grupo de risco&#8221;. Deixa-se, assim, toda a gest\u00e3o nas m\u00e3os individuais, sem coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, relegando \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a decis\u00e3o sobre como agir. Mais uma vez, obliterando toda e qualquer discuss\u00e3o que considere fatores como classe social, condi\u00e7\u00f5es sociais de exist\u00eancia, rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e outras hierarquiza\u00e7\u00f5es e processos de marginaliza\u00e7\u00e3o, a no\u00e7\u00e3o de &#8220;grupo de risco&#8221;, associada a um discurso apoiado em no\u00e7\u00f5es individualistas, reitera um discurso de cuidado especial que deporta o sujeito \u00e0 pr\u00f3pria sorte &#8211; um &#8220;salve-se quem puder&#8221; em que cada indiv\u00edduo age conforme suas possibilidades e posi\u00e7\u00f5es na estrutura social, obrigando a maioria a um gerenciamento de risco incalcul\u00e1vel e inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>A ideia de &#8220;grupo de risco&#8221; opera como fator de naturaliza\u00e7\u00e3o e banaliza\u00e7\u00e3o das mortes. E at\u00e9 de um certo negacionismo da pr\u00f3pria exist\u00eancia da pandemia. &#8220;Morreu porque era de risco&#8221;. &#8220;Morreria de qualquer maneira&#8221;. &#8220;Morreu de covid-19 ou com covid-19?&#8221; (Sakamoto, 2020). Desassocia-se a morte de sua causa etiol\u00f3gica ou responsabiliza-se a v\u00edtima. Aquilo que deveria ser indicador de cuidado vira predicado moral e opera como argumento, como se uma doen\u00e7a pr\u00e9-existente ou a faixa et\u00e1ria representassem um passe-livre para a morte (Harayama, 2020; Spautz, 2020). O fato de ser presumivelmente pertencente ao imagin\u00e1rio &#8220;grupo de risco&#8221; torna a <em>causa mortis<\/em> certificada pela perda de tantas vidas, invisibilizando a responsabilidade de uma coordena\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica por parte dos \u00f3rg\u00e3os e poderes governamentais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se defende aqui um relaxamento da prote\u00e7\u00e3o e do cuidado de pessoas idosas ou com outras condi\u00e7\u00f5es de maior ou menor vulnerabilidade. Pelo contr\u00e1rio. Ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar os enormes desafios de se enfrentar uma pandemia que, dia ap\u00f3s dia, recrudesce nas periferias (Mathias &amp; Torres, 2020) e se interioriza sem freios, em um pa\u00eds onde a gest\u00e3o da crise humanit\u00e1ria se d\u00e1, principalmente, ao sabor de uma deriva classista, autorit\u00e1ria, racista, xenof\u00f3bica, sexista, capacitista e anti-ambiental, com doses de obscurantismo e fortemente orientada a atender interesses imediatistas, sobretudo econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, valeria favorecer abordagens que considerem fazer da escola um epicentro de conflu\u00eancias cr\u00edticas e democr\u00e1ticas, capazes de tamb\u00e9m nos vincular \u00e0 mem\u00f3ria social das mobiliza\u00e7\u00f5es e lutas pol\u00edticas de outras temporalidades para produzir subjetividades n\u00e3o subordinadas \u00e0 verticalidade de uma gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica do desastre e da morte. Uma escola engajada em favor das experi\u00eancias coletivas e que n\u00e3o apenas evite, mas contraste a promo\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de desinforma\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, silenciamentos, pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias, humilha\u00e7\u00f5es, preconceitos, marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um tempo em que o di\u00e1logo democr\u00e1tico, a reflex\u00e3o e o conhecimento cient\u00edfico encontram pouco apre\u00e7o entre governantes e seus ac\u00f3litos, e em que parte expressiva da m\u00eddia mostra-se disposta a deixar-se capturar pelo discurso governamental e a reverberar a <em>doxa<\/em> ultraliberal<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> das funda\u00e7\u00f5es empresariais autoproclamadas &#8220;amigas da escola&#8221;, parece-nos imprescind\u00edvel politizar criticamente o debate sobre a pandemia e, nesse \u00ednterim, reafirmar a escola p\u00fablica no cerne de um conjunto de conflu\u00eancias e variadas disputas. Um espa\u00e7o onde os ac\u00famulos de experi\u00eancias e saberes constru\u00eddos ao longo de distintas temporalidades ajudem a fazer pulsar as lutas democr\u00e1ticas em defesa de todas as vidas, da exist\u00eancia plural, da dignidade, em torno daquilo que inquieta e apaixona.<\/p>\n<p><em>*Esse texto, em vers\u00e3o anterior, foi publicado no s\u00edtio da internet da Campanha Nacional pelo<\/em><br \/>\n<em>Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Almeida Filho, N. de (2020, 05 maio). <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-05-20\/o-isolamento-vertical-defendido-por-bolsonaro-e-uma-fraude-pseudocientifica.html?fbclid=IwAR0vB0dZt8spQxvP5Voy7F-3XAh1GqSnUNFIAv6HM1U30NlyFLhDY2u6LX4?event=fa&amp;o=cerrbr?event_log=oklogin&amp;o=cerrbr&amp;prod=REGCRARTBR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O isolamento vertical defendido por Bolsonaro \u00e9 uma fraude pseudocient\u00edfica<\/a>. <em>El Pa\u00eds &#8211; Brasil<\/em>, Tribuna. Pandemia de Coronav\u00edrus. Acesso em 20 de maio de 2020.<\/p>\n<p>\u00c1pyus, M. (2020. 22 junho). <a href=\"https:\/\/www.jornalismo.art\/jair-bolsonaro-sabotagem-novo-coronavirus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Como Jair Bolsonaro tentou sabotar o combate ao novo coronav\u00edrus<\/a>. <em>Jornalismo Arte<\/em> \u2013 N\u00e3o existe pa\u00eds decente sem imprensa livre. Acesso em 24 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Ayres, J. R.C. M. (2011) <a href=\"http:\/\/10.1590\/S0102-311X2011000700006\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Desenvolvimento hist\u00f3rico-epistemol\u00f3gico da Epidemiologia e do conceito de risco<\/a>. <em>Caderno Sa\u00fade P\u00fablica<\/em>, 27(7), 1301-1311.<\/p>\n<p>Behnke, E. 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(2020, 09 mar\u00e7o). <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-03-09\/a-necropolitica-das-epidemias.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A necropol\u00edtica das epidemias<\/a>. <em>El Pa\u00eds \u2013 Brasil. <\/em>Acesso em 12 de mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p>Fee, E. (2006, setembro) <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-03-09\/a-necropolitica-das-epidemias.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The WHO response to the HIV\/AIDS pandemic<\/a>. Trabalho apresentado em <em>World Health Organization Seminars<\/em>. Geneva: World Health Organization. Acesso em 15 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Fernandes, R. C. (2020, 07 maio). <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/05\/07\/mundo\/noticia\/covid19-taxa-mortalidade-profissionais-saude-brasil-altas-mundo-1915569\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Covid-19: taxa de letalidade entre profissionais de sa\u00fade no Brasil \u00e9 das mais altas do mundo<\/a>. <em>P\u00fablico<\/em>.\u00a0Acesso em 29 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Gabriel, J. (2020, 23 junho) <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2020\/06\/brasil-lidera-em-registros-novos-casos-de-coronavirus-desde-maio.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brasil lidera em registros novos casos de coronav\u00edrus desde maio<\/a> [Vers\u00e3o Eletr\u00f4nica]. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, Equil\u00edbrio e Sa\u00fade.\u00a0Acesso em 24 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es, L. (2020, 20 mar\u00e7o). <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-51983987\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Coronav\u00edrus: profissionais de sa\u00fade relatam hostilidade em transporte p\u00fablico<\/a>. <em>BBC<\/em>. Acesso em 28 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Gullino, D. (2020, 24 mar\u00e7o). <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/em-pronunciamento-na-tv-bolsonaro-pede-reabertura-de-comercio-escolas-fim-do-confinamento-24326199\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Em pronunciamento na TV, Bolsonaro pede reabertura de com\u00e9rcio e escolas e fim do &#8216;confinamento&#8217;<\/a>. <em>O Globo<\/em>. Acesso em 25 de mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p>Harayama, R. M. [Rui Massato] (2020,15 mar\u00e7o). <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo.php?fbid=10158018215944354&amp;set=a.10158133051144354&amp;type=3&amp;theater\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Coronav\u00edrus, cultura, medicaliza\u00e7\u00e3o e necropol\u00edtica. Uma das coisas mais complexas desse 2020 (e olha que a concorr\u00eancia \u00e9 grande) \u00e9 dar uma visitada no desenrolar do coronav\u00edrus no mundo, a partir do Brasil.<\/a> [Atualiza\u00e7\u00e3o de status no Facebook]. Acesso em 20 de mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p>Londo\u00f1o, E., Andreoni, M. &amp; Casado, L. (2020, 18 junho). <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/05\/16\/world\/americas\/virus-brazil-deaths.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brazil, once a leader, struggles to contain virus amid political turmoil.<\/a> <em>The New York Times.<\/em>\u00a0Acesso em 20 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Manzano, F. (2020, 05 maio). <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/bemestar\/coronavirus\/noticia\/2020\/05\/05\/a-cada-10-internacoes-por-covid-19-nos-brasil-4-sao-de-jovens-e-adultos-aponta-levantamento.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A cada 10 interna\u00e7\u00f5es por Covid-19 no Brasil, 4 s\u00e3o de jovens adultos, aponta levantamento<\/a>. <em>O Globo<\/em>.\u00a0Acesso em 25 de maio de 2020.<\/p>\n<p>Mathias, M., Torres, R. (2020, 29 junho). <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasaude\/meio-milhao-de-mortes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pandemia recrudesce ao atingir em cheio as periferias<\/a>. <em>Outra Sa\u00fade<\/em>.\u00a0Acesso em 30 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Mello, L. &amp; Baptista, J. (2020, 07 abril). <a href=\"https:\/\/memoriaslgbt.com\/2020\/04\/07\/somostodasvelhos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">#SomosTodasVelhos: notas sobre grupo de risco em tempos de pandemia<\/a>. <em>Mem\u00f3rias LGBT<\/em>. Acesso em 25 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. (2020, 04 maio). <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=apufjiGlIY0&amp;feature=emb_title\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>O Brasil n\u00e3o pode parar! Enem 2020 &#8211; inscri\u00e7\u00f5es<\/em><\/a>. [YouTube].\u00a0Acesso em 06 de maio de 2020.<\/p>\n<p>Parker, R. (2020) <a href=\"http:\/\/10.1093\/acrefore\/9780199366439.013.865\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brazil and the AIDS Crisis<\/a>. <em>Oxford Research Encyclopedia of Latin American History<\/em>. New York: Oxford University Press.<\/p>\n<p>Pinto, A. E. de S. (2020, 25 mar\u00e7o). <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2020\/03\/entenda-por-que-quase-todos-os-paises-fecharam-escolas.shtml?origin=folha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Entenda por que quase todos os pa\u00edses fecharam escolas<\/a>. <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>.\u00a0Acesso em 20 de abril de 2020.<\/p>\n<p>Sakamoto, L. (2020, 19 junho). <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/leonardo-sakamoto\/2020\/06\/19\/covid-brasil-chega-a-1-milhao-de-casos-com-bolsonaro-tirando-o-corpo-fora.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Covid: Brasil chega a 1 milh\u00e3o de casos com Bolsonaro tirando o corpo fora<\/a>. <em>UOL<\/em>.\u00a0Acesso em 25 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Santino, R. (2020, 13 junho). <a href=\"https:\/\/olhardigital.com.br\/coronavirus\/noticia\/tres-meses-apos-chegada-da-covid-19-brasil-ainda-nao-discute-app-para-rastrear-infectados\/102109\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tr\u00eas meses ap\u00f3s chegada da Covid-19, Brasil ainda n\u00e3o discute app para rastrear infectados<\/a>. <em>Olhar Digital<\/em>. Acesso em 24 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Schuch, M. (2020, 16 abril). <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/contrariando-recomendacoes-da-oms-bolsonaro-volta-defender-reabertura-de-escolas-24376739\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Contrariando recomenda\u00e7\u00f5es da OMS, Bolsonaro volta a defender reabertura de escolas<\/a>. <em>O Globo.<\/em>\u00a0Acesso em 20 de maio de 2020.<\/p>\n<p>Souza, A. de, Prazeres, L., Magalh\u00e3es &amp; L. E., Grandelle, R. (2020, 13 abril). <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/coronavirus\/no-brasil-um-quarto-dos-mortos-por-coronavirus-esta-fora-dos-grupos-de-risco-1-24367017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">No Brasil, um quarto dos mortos por coronav\u00edrus est\u00e1 fora dos grupos de riscos<\/a>. <em>O Globo. <\/em>Acesso em 20 de maio de 2020.<\/p>\n<p>Spautz, D. (2020, 29 junho) <a href=\"https:\/\/www.nsctotal.com.br\/colunistas\/dagmara-spautz\/comorbidade-virou-sinonimo-de-passe-livre-para-a-morte\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&#8220;Comorbidade&#8221; virou sin\u00f4nimo de passe livre para a morte<\/a>. <em>NSC Total. <\/em>Acesso em 30 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Spink, M. J. P. (2001). <a href=\"http:\/\/10.1590\/S0102-311X2001000600002\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tr\u00f3picos do discurso sobre risco: risco-aventura como met\u00e1fora na modernidade tardia<\/a>. <em>Cadernos de Sa\u00fade P\u00fablica<\/em>, 17(6), 1277-1311.<\/p>\n<p>Tenente, L. (2020, 12 junho). <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/bemestar\/coronavirus\/noticia\/2020\/06\/12\/numeros-mostram-que-brasil-ainda-faz-brutalmente-menos-testes-para-coronavirus-do-que-deveria-estamos-no-escuro-diz-especialista.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">N\u00fameros mostram que Brasil ainda faz \u2018brutalmente\u2019 menos testes para coronav\u00edrus do que deveria; \u2018estamos no escuro\u2019, diz especialista<\/a>. <em>O Globo<\/em>. Acesso em 25 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia [UNICEF], Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade [OMS] &amp; Federa\u00e7\u00e3o Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho [IFRC]. (2020). <a href=\"https:\/\/www.who.int\/docs\/default-source\/coronaviruse\/key-messages-and-actions-for-covid-19-prevention-and-control-in-schools-march-2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Key messages and actions for Covid-19 prevention and control in schools<\/em>.<\/a> New York: Unicef.\u00a0Acesso em 28 de junho de 2020.<\/p>\n<p>Ventura, D. (2020, 01 julho). <a href=\"http:\/\/www.rfi.fr\/br\/brasil\/20200701-brasil-falhou-em-todos-os-aspectos-na-resposta-%C3%A0-pandemia-diz-especialista-da-usp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cBrasil falhou em todos os aspectos na resposta \u00e0 pandemia\u201d, diz especialista da USP<\/a>. <em>RFI &#8211; convida<\/em>. Acesso em 01 de julho de 2020<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Importante sublinhar que paralelos podem tamb\u00e9m ser tra\u00e7ados com temporalidades e contextos de outras pandemias, considerando suas especificidades, mem\u00f3rias, seus saberes e ac\u00famulos constru\u00eddos, como nos casos da &#8220;gripe espanhola&#8221; e da epidemia de zika (BBC, 2020; Diniz &amp; Carino, 2020).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Processos de estigmatiza\u00e7\u00e3o operam no contexto da Covid-19 produzindo hostilidades que envolvem inclusive profissionais da sa\u00fade (Guimar\u00e3es, 2020), percebidos n\u00e3o apenas como representantes de um &#8220;grupo de risco&#8221;, mas sobretudo como vetores de transmiss\u00e3o e cont\u00e1gio. Desse modo, desconsidera-se a precariedade das condi\u00e7\u00f5es de trabalho respons\u00e1veis por fazer com que a taxa de letalidade entre tais profissionais seja, nessa pandemia, uma das mais altas do mundo (Fernandes, 2020).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/em-pronunciamento-na-tv-bolsonaro-pede-reabertura-de-comercio-escolas-fim-do-confinamento-24326199\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pronunciamento do presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil<\/a>, Jair Messias Bolsonaro, noticiado em 24 de mar\u00e7o de 2020, por Daniel Gullino, via O Globo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/contrariando-recomendacoes-da-oms-bolsonaro-volta-defender-reabertura-de-escolas-24376739\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pronunciamento do presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil<\/a>, Jair Messias Bolsonaro, noticiado em 16 de abril de 2020, por Matheus Schuch, via O Globo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/agencia-estado\/2020\/05\/14\/bolsonaro-volta-a-defender-isolamento-vertical-em-videoconferencia-na-fiesp.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pronunciamento do presidente da Rep\u00fablica Federativa do Brasil<\/a>, Jair Messias Bolsonaro, noticiado em 14 de maio de 2020 por Emilly Behnke, via UOL \u2013 conte\u00fado Estad\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> A Campanha Nacional pelo Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o, com o apoio de dezenas de entidades e volunt\u00e1rios, tem produzido guias com informa\u00e7\u00f5es checadas, dados sobre pesquisas, experi\u00eancias e recomenda\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais, e an\u00e1lises sobre os impactos da pandemia no mundo da educa\u00e7\u00e3o. Materiais indispens\u00e1veis para orientar docentes, gestores, estudantes, familiares e quem mais se interesse em atuar com seguran\u00e7a e de maneira colaborativa na prote\u00e7\u00e3o das pessoas, bem como em cobrar e garantir os direitos de crian\u00e7as e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade ou emerg\u00eancia. Ver: <a href=\"https:\/\/campanha.org.br\/covid-19\/\">https:\/\/campanha.org.br\/covid-19<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> No Brasil, a gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica da pandemia Covid-19 investiu no ataque aos direitos trabalhistas de profissionais da educa\u00e7\u00e3o e na estigmatiza\u00e7\u00e3o da escola p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rog\u00e9rio Diniz Junqueira (Inep) &amp; Marco Aur\u00e9lio M\u00e1ximo Prado (UFMG)* Resumo Considerando que pandemias s\u00e3o alvo de gest\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica por parte de governos e<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":19946,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[283],"tags":[60,83,107,155,246,323],"class_list":{"0":"post-22958","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos","8":"tag-brasil","9":"tag-covid-19","10":"tag-direitos-sexuais","11":"tag-hivaids","12":"tag-saude","13":"tag-sexualidades"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Gest\u00e3o \u00c9tico-Pol\u00edtica da Pandemia de Covid-19 no Brasil: \u201cGrupo de Risco\u201d e Normaliza\u00e7\u00e3o da Cat\u00e1strofe - Sexuality Policy 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