{"id":22935,"date":"2020-06-12T17:43:44","date_gmt":"2020-06-12T20:43:44","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2020\/06\/12\/backlash-uma-narrativa-enganosa\/"},"modified":"2024-01-30T13:19:29","modified_gmt":"2024-01-30T16:19:29","slug":"backlash-uma-narrativa-enganosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/artigos\/backlash-uma-narrativa-enganosa\/22935","title":{"rendered":"Backlash: uma narrativa enganosa"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Paternotte_Slider.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-10755 aligncenter\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Paternotte_Slider.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>Por David Patternote (Universit\u00e9 libre de Bruxelles)*<\/strong><\/p>\n<p>No dia 13 de fevereiro de 2019, o Parlamento Europeu <a href=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/doceo\/document\/TA-8-2019-0111_EN.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">adotou uma resolu\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0sobre \u201co <em>backlash<\/em> contra os direitos das mulheres e a igualdade de g\u00eanero na Uni\u00e3o Europeia\u201d. Adotada em seguida \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio do Comit\u00ea dos Direitos das Mulheres e da Igualdade de G\u00eanero sobre a situa\u00e7\u00e3o na \u00c1ustria, Hungria, Pol\u00f4nia, Rom\u00eania e Eslov\u00e1quia, o texto define <em>backlash <\/em>como \u201cuma resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a social progressista, um retrocesso em direitos adquiridos ou manuten\u00e7\u00e3o de um <em>status quo<\/em> n\u00e3o-igualit\u00e1rio\u201d.\u00a0 Numa linha similar, o site o<em>penDemocracy<\/em> iniciou, em 2017, uma s\u00e9rie de artigos investigativos sobre os ataques aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTI no mundo, reunidos sob o t\u00edtulo \u201c<a href=\"https:\/\/www.opendemocracy.net\/en\/5050\/tracking-the-backlash\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rastreando o backlash<\/a><em>\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Em ambos os casos, o termo <em>backlash<\/em> oferece uma chave anal\u00edtica para a recente ofensiva conservadora na Europa e em outros pa\u00edses. Essa perspectiva tornou-se uma das narrativas mais comuns para compreender o que est\u00e1 atualmente em disputa em contextos muito diversos. Eu gostaria de alertar acad\u00eamicas\/os, comentaristas e profissionais de v\u00e1rias \u00e1reas sobre os riscos e limites dessa terminologia. Muito embora a atual ofensiva seja, indubitavelmente, uma resposta a conquistas dos anos 1990 e 2000, ela n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 dimens\u00e3o meramente reativa, isso porque ela \u00e9, tamb\u00e9m, intrinsecamente produtiva, tal como analisado por <a href=\"https:\/\/www.e-publicacoes.uerj.br\/index.php\/SexualidadSaludySociedad\/article\/view\/29849\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Serrano<\/a>\u00a0em rela\u00e7\u00e3o ao caso da Col\u00f4mbia. Neste artigo, argumento que <em>backlash<\/em> fornece uma narrativa enganosa, que \u00e9 conceitualmente insuficiente, empiricamente fraca e politicamente problem\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Insufici\u00eancia conceitual<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa do <em>backlash <\/em>normalmente refere-se a ataques conservadores contra avan\u00e7os progressistas e fundamenta-se na ideia de que \u201co imp\u00e9rio sempre contra-ataca\u201d. Conforme apontado por <a href=\"http:\/\/susanfaludi.com\/backlash.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Susan Faludi em seu livro<\/a> de 1991, \u201cum <em>backlash <\/em>contra os direitos das mulheres \u00e9 [&#8230;] um fen\u00f4meno recorrente: ele ressurge toda vez que as mulheres ganham em termos de igualdade, \u00e9 como um balde de \u00e1gua fria, aparentemente inevit\u00e1vel, no feminismo\u201d. Considerado intrinsicamente reacion\u00e1rio, o <em>backlash <\/em>seria motivado por um sentimento de vingan\u00e7a e pela vontade de manter o <em>status quo <\/em>e retroceder no tempo.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, v\u00e1rios autores inspiraram-se no livro seminal de Faludi para produzir um entendimento mais complexo do <em>backlash. <\/em>Por exemplo, em artigo de 2008, <a href=\"https:\/\/wappp.hks.harvard.edu\/publications\/toward-theory-backlash-dynamic-resistance-and-central-role-power\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jane Mansbridge e Shauna L. Shames<\/a>\u00a0ancoram sua defini\u00e7\u00e3o nas diferen\u00e7as de poder entre os atores: para elas, <em>backlash<\/em> designa a rea\u00e7\u00e3o de atores poderosos para assegurar ou retomar o poder. Mais recentemente, <a href=\"https:\/\/www.journals.uchicago.edu\/toc\/signs\/2020\/45\/2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jennifer M. Piscopo e Denise M. Walsh<\/a> editaram um simp\u00f3sio sobre \u201c<em>backlash<\/em> e o futuro do feminismo\u201d, no qual elas argumentam que \u201cindependentemente de como seja concebido, o <em>backlash <\/em>representa uma amea\u00e7a existencial aos direitos e bem-estar das mulheres, \u00e0s defensoras da justi\u00e7a de g\u00eanero e de quem \u00e9 oprimida\u201d (p. 276). Embora essa defini\u00e7\u00e3o seja surpreendente dada a diversidade de perspectivas e posi\u00e7\u00f5es inclu\u00eddas no dossi\u00ea especial, ela ilustra v\u00e1rios limites te\u00f3ricos da narrativa do <em>backlash<\/em>. Tr\u00eas deles s\u00e3o discutidos nos par\u00e1grafos que se seguem.<\/p>\n<p>Primeiro, a no\u00e7\u00e3o de <em>backlash <\/em>baseia-se num entendimento um tanto mec\u00e2nico da hist\u00f3ria, segundo o qual determinadas a\u00e7\u00f5es desencadeariam, quase automaticamente, uma contraofensiva. Este fen\u00f4meno se repetiria, ao longo da hist\u00f3ria, acontecendo todas as vezes em que as mulheres ou minorias sexuais tentassem incrementar sua situa\u00e7\u00e3o na sociedade. Contudo, historiadores j\u00e1 demonstraram amplamente que a hist\u00f3ria n\u00e3o deve ser lida como uma repeti\u00e7\u00e3o do passado e que deve-se evitar extrair mecanismos causais replic\u00e1veis do caos que \u00e9 a hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, essa perspectiva implica uma leitura em alguma medida simplista e homog\u00eanea do ativismo feminista e LGBTI, que necessariamente amea\u00e7aria privil\u00e9gios e, por isso, enfrentaria oposi\u00e7\u00e3o. No entanto, pesquisas recentes sobre a coopta\u00e7\u00e3o do feminismo e sua adapta\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo, \u00e0 homonormatividade ou ao homonacionalismo real\u00e7am os variados caminhos pelos quais o poder acomoda as lutas por igualdade de g\u00eanero e sexual.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as narrativas sobre <em>backlash<\/em> evocam uma no\u00e7\u00e3o de progresso, que tem sido <a href=\"https:\/\/www.journals.uchicago.edu\/doi\/abs\/10.1086\/705004?journalCode=signs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">amplamente criticada<\/a> por estar ancorada numa concep\u00e7\u00e3o linear e teleol\u00f3gica da hist\u00f3ria. Essa perspectiva geralmente considera a pol\u00edtica sexual uma grande marcha em dire\u00e7\u00e3o a um futuro glorioso e imagina o futuro como inevitavelmente progressista. Nesse sentido, os opositores seriam representantes de um passado sombrio, e o <em>backlash<\/em> \u00e9 encarado como resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a. Ao apagar a complexidade da hist\u00f3ria, tal leitura assume que a hist\u00f3ria tem uma dire\u00e7\u00e3o. Essa vis\u00e3o faz eco \u00e0 \u201cpol\u00edtica da inevitabilidade\u201d de Timothy Snyders, segundo a qual sociedades contempor\u00e2neas estariam no caminho incontorn\u00e1vel da democracia. Essa narrativa n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias. Como <a href=\"https:\/\/www.timothysnyder.org\/books\/the-road-to-unfreedom-tr\/the-road-to-unfreedom-el\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Snyders argumentou<\/a>, essa narrativa sup\u00f5e que os democratas est\u00e3o despreparados para perceber e reagir a atual expans\u00e3o do autoritarismo.<\/p>\n<p>Terceiro, a narrativa do <em>backlash<\/em> tende a agrupar atores muito diferentes sob o mesmo guarda-chuva. Por essa raz\u00e3o, pode acarretar categoriza\u00e7\u00f5es precipitadas e bin\u00e1rias, que n\u00e3o permitem enxergar a diversidade e as tens\u00f5es nesses arranjo complexos de for\u00e7as e atores. Muitos deles, como cat\u00f3licos e evang\u00e9licos, ou comunidades russas ortodoxas e cat\u00f3licas \u2013s\u00e3o conhecidos por n\u00e3o terem rela\u00e7\u00f5es pac\u00edficas uns com os outros, na verdade colecionam disc\u00f3rdias hist\u00f3ricas. Da mesma forma, a direita \u00e9 uma <a href=\"https:\/\/www.cogitatiopress.com\/politicsandgovernance\/article\/view\/1557\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">complexa constela\u00e7\u00e3o de atores<\/a>, muitos dos quais n\u00e3o apoiam pol\u00edticas antig\u00eanero, enquanto, por outro lado, alguns indiv\u00edduos, geralmente situados \u00e0 esquerda do espectro pol\u00edtico, as apoiam abertamente. Portanto, precisamos compreender como esses<a href=\"http:\/\/politicalcritique.org\/long-read\/2017\/gender-as-symbolic-glue-how-gender-became-an-umbrella-term-for-the-rejection-of-the-neoliberal-order\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> arranjos complexos<\/a> de atores se sustentam e qual \u00e9 a \u201ccola\u201d que os agrega.\u00a0Ademais, esses binarismos est\u00e3o, geralmente,\u00a0 baseados em perspectivas normativas que agrupam atores em dois grupos: \u201cn\u00f3s\u201d <em>versus<\/em> \u201celes\u201d, ou \u201caqueles de quem gostamos\u201d <em>vs<\/em>. \u201caqueles de quem n\u00e3o gostamos\u201d. Essas defini\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas ignoram as tens\u00f5es e rivalidades que caracterizam e energizam cada campo. Contra as cr\u00edticas levantadas pelos acad\u00eamicos da interseccionalidade, elas tendem tamb\u00e9m a refor\u00e7ar uma fict\u00edcia unidade do ativismo feminista ou LGBTI. Todos sabemos, por exemplo, que temas como prostitui\u00e7\u00e3o, barriga de aluguel e direitos trans\u00a0 dividem,\u00a0 profundamente,\u00a0 as comunidades progressistas que atuam em g\u00eanero e sexualidade. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para assumir que conservadores s\u00e3o menos divididos, uma vez que as divis\u00f5es podem resultar de compromissos religiosos ou normativos concorrentes, rivalidades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lideran\u00e7a e defini\u00e7\u00e3o de pauta, competi\u00e7\u00e3o por financiamento ou diverg\u00eancias sobre estrat\u00e9gias, metas e resultados. Por fim, evitar a divis\u00e3o bin\u00e1ria dos atores e das ideias permite a constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as mais criativas que podem ajudar a superar os impasses atuais.<\/p>\n<p><strong>Fragilidade emp\u00edrica<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa do <em>backlash <\/em>n\u00e3o \u00e9 apenas teoricamente problem\u00e1tica, mas tamb\u00e9m est\u00e1 na contram\u00e3o de alguns dados emp\u00edricos cruciais. De fato, <a href=\"https:\/\/www.rowmaninternational.com\/book\/antigender_campaigns_in_europe\/3-156-7734fc12-00e3-47fc-8478-05897740ac19\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudos comparativos<\/a> mostraram que campanhas antig\u00eanero, que compartilham reivindica\u00e7\u00f5es, argumentos e modos de a\u00e7\u00e3o comuns, assim como estrat\u00e9gias transnacionais, podem ter motiva\u00e7\u00f5es radicalmente diferentes. Em termos concretos, cinco conjuntos de alvos dessas campanhas foram identificados na Europa: os direitos sexuais e reprodutivos, os direitos LGBTQI, os direitos da inf\u00e2ncia (incluindo educa\u00e7\u00e3o sexual), \u201cg\u00eanero\u201d (viol\u00eancia, estudos, integra\u00e7\u00e3o etc), prote\u00e7\u00e3o contra discursos de \u00f3dio e discriminat\u00f3rios. Por essa raz\u00e3o \u00e9 perigoso deduzir qualquer rela\u00e7\u00e3o causal entre reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, reformas legais e formas de oposi\u00e7\u00e3o, conforme ilustram os casos da Bulg\u00e1ria e da Rom\u00eania. Em ambos pa\u00edses, as mobiliza\u00e7\u00f5es antig\u00eanero podem se dizer retardadas, porque n\u00e3o se consolidaram antes de 2018. Entretanto, se as duas campanhas aconteceram simultaneamente e foram parecidas, seus alvos eram distintos: na Bulg\u00e1ria, a Conven\u00e7\u00e3o de Istambul sobre a viol\u00eancia contra a mulher na Bulg\u00e1ria e, na Rom\u00eania, a defini\u00e7\u00e3o constitucional de casamento. Essa observa\u00e7\u00e3o sugere que a rea\u00e7\u00e3o estava pronta muito antes de qualquer a\u00e7\u00e3o, com intera\u00e7\u00f5es complexas entre fatores locais e elementos de difus\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Tal observa\u00e7\u00e3o deve nos inspirar a reconsiderar a premissa segundo a qual a\u00e7\u00f5es progressistas sempre precedem rea\u00e7\u00f5es conservadoras, uma ideia que usualmente sustenta a no\u00e7\u00e3o de <em>backlash<\/em>. Na verdade, em v\u00e1rios pa\u00edses, campanhas antig\u00eanero s\u00e3o lan\u00e7adas como a\u00e7\u00f5es profil\u00e1ticas destinadas a prevenir o futuro desenvolvimento de reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e reformas legais. Essas campanhas tamb\u00e9m podem usar o poder simb\u00f3lico de g\u00eanero e sexualidade para alcan\u00e7ar outros objetivos, como vit\u00f3ria eleitoral ou consolida\u00e7\u00e3o de poder no Estado, conforme <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_issuetoc&amp;pid=1984-648720170003&amp;lng=en&amp;nrm=iso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aconteceu na Pol\u00f4nia com \u201cas zonas livres de LGBTIs\u201d<\/a>\u00a0ou na Col\u00f4mbia durante o referendo do acordo de paz. Esses dados n\u00e3o s\u00e3o novos mas se apoiam numa vasta literatura. Por exemplo, no seu trabalho sobre homofobia pol\u00edtica, <a href=\"https:\/\/www.press.uillinois.edu\/books\/catalog\/63dfq3dd9780252037726.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Michael Bosia e Meredith Weiss<\/a> enfatizaram como a promo\u00e7\u00e3o da homofobia pelo Estado pode servir de estrat\u00e9gia para consolidar o controle do aparato estatal. <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/14742837.2017.1319265\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ashley Currier e Joelle M. Cruz\u00a0<\/a>tamb\u00e9m usaram a no\u00e7\u00e3o de \u201c<a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/37401384\/The_Politics_of_Preemption_Mobilization_against_LGBT_Rights_in_Liberia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edtica de prefer\u00eancia<\/a>\u201d\u00a0para destacar como atores promotores de homofobia na \u00c1frica se mobilizam para impedir o desenvolvimento de outros movimentos sociais. Em suma, \u201cideologia de g\u00eanero\u201d deve ser considerada como uma ideologia Frankenstein. Tal qual o monstro Frankenstein, ela s\u00e3o surgiu como um fruto da ignor\u00e2ncia e, agora, emancipou-se de seu criador para ter vida pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><strong>Tens\u00f5es pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, pelo menos tr\u00eas raz\u00f5es fazem com que a narrativa do <em>backlash<\/em> seja politicamente problem\u00e1tica. Primeiro, o recurso \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>backlash<\/em> para compreender as campanhas antig\u00eanero isola, excessivamente, g\u00eanero e sexualidade do resto da sociedade e pode ter um impacto decisivo nas estrat\u00e9gias de enfrentamento. De fato, <a href=\"https:\/\/www.opendemocracy.net\/en\/can-europe-make-it\/matteo-salvini-renaturalizing-racial-and-sexual-boundaries-of-dem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00e1rios autores apontaram<\/a> que campanhas antig\u00eanero n\u00e3o podem, muitas vezes, ser dissociadas de ansiedades culturais e raciais relacionadas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o, pureza do corpo nacional ou o futuro da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o europeia\u201d. De forma similar, <a href=\"https:\/\/www.aaup.org\/article\/gender-studies-and-dismantling-critical-knowledge-europe#.XndH_y17TGI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ataques aos estudos de g\u00eanero<\/a> n\u00e3o est\u00e3o apenas confinados \u00e0s campanhas antig\u00eanero, mas fazem parte do arco mais amplo de ataques \u00e0 liberdade acad\u00eamica e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o foco estreito e limitado em g\u00eanero e sexualidade pode dificultar no campo progressista a constru\u00e7\u00e3o de redes de solidariedade e coaliz\u00f5es fundamentais em torno de m\u00faltiplas quest\u00f5es que est\u00e3o tanto dentro quanto fora do campo do g\u00eanero e sexualidade. Por exemplo, na Europa, algumas feministas sugeriram substituir o termo \u201cg\u00eanero\u201d por \u201cmulheres\u201d numa tentativa de responder ou superar a oposi\u00e7\u00e3o antig\u00eanero. Essa proposta nos diz que muitas atrizes e atores n\u00e3o entenderam ainda o que est\u00e1 em jogo nas pol\u00edticas antig\u00eanero e revela um forte preconceito contra grupos espec\u00edficos, como as pessoas trans. O debate sobre direitos trans, de fato, foi cuidadosamente escolhido pelos oponentes do g\u00eanero como tema que semeia divis\u00e3o em comunidades progressistas, e o rep\u00fadio aos direitos trans deve ser lido, sobretudo, como epis\u00f3dio local de campanhas antig\u00eanero, a mesma coisa acontecendo em alguns lugares com rela\u00e7\u00e3o a \u201cbarrigas de aluguel\u201d.\u00a0 A narrativa do <em>backlash <\/em>pode tamb\u00e9m impedir coaliz\u00f5es intersetoriais mais amplas. Por exemplo, pesquisas indicam que campanhas antig\u00eanero e negacionistas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam os mesmos financiadores, um dado que deveria inspirar coaliza\u00e7\u00f5es mais amplas entre atores progressistas nesses dois campos. Em terceiro lugar, se levada ao extremo, a narrativa do <em>backlash<\/em>\u00a0 poderia levar a autocensura. Isso porque se consideramos que a rea\u00e7\u00e3o conservadora resulta de a\u00e7\u00f5es progressistas, uma estrat\u00e9gia razo\u00e1vel de resposta seria abandonar algumas de nossas reivindica\u00e7\u00f5es mais controvertidas, para apaziguar essas for\u00e7as, o que equivaleria a censurar a n\u00f3s mesmos, na esperan\u00e7a de que isso reduza a probabilidade de um <em>backlash<\/em>.<\/p>\n<p>Concluindo, a narrativa do <em>backlash<\/em> induz, de forma excessiva, as e os acad\u00eamicas\/os, comentaristas e outras pessoas interessadas a focalizar o que est\u00e1 sob ataque, impedindo as\/os de enxergar que o ataque aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTI faz parte de um projeto mais amplo, empenhado em instaurar uma nova ordem pol\u00edtica menos liberal e menos democr\u00e1tica. Esse projeto n\u00e3o \u00e9, fundamentalmente, apenas uma tentativa de devolver as mulheres aos papeis tradicionais do lar ou recolocar gays e l\u00e9sbicas no arm\u00e1rio, mas sim transformar as quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade tanto em campos de batalha cruciais como em s\u00edmbolos poderosos do que pretende alcan\u00e7ar. Por essa raz\u00e3o, campanhas antig\u00eanero devem ser urgentemente lidas \u00e0 luz dos atuais processos de desdemocratiza\u00e7\u00e3o, e nossas perspectivas n\u00e3o devem ser confundidas por um foco estreito que se limita a examinar o que est\u00e1 sendo destru\u00eddo. Estudos contempor\u00e2neos sobre liberdade acad\u00eamica mostram que a extrema-direita e atores populistas n\u00e3o apenas buscam desmantelar institui\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento como tamb\u00e9m est\u00e3o promovendo novos crit\u00e9rios sobre o que torna o conhecimento v\u00e1lido e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o que vale como verdade. Do mesmo modo, <em>backlash<\/em> no campo dos direitos das mulheres e LGBTI n\u00e3o deve ser entendido como o objetivo ou a base dos ataques correntes, mas sim como uma de suas consequ\u00eancias mais espetaculares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\"><strong>*David Paternotte <\/strong>\u00e9 professor associado de Sociologia na Universidade Livre de Bruxelas. Seus campos de conhecimento s\u00e3o g\u00eanero, sexualidade e movimentos sociais. Depois de anos de pesquisa sobre ativismo feministas e LGBT, ele investiga campanhas antig\u00eanero na Europa e no mundo. \u00c9 coeditor, com Roman Kuhar (University of Ljubljana), do livro <em>Anti-Gender Campaigns in Europe: Mobilizing against Equality\u00a0<\/em>(Rowman &amp; Littlefield 2017). Sobre o assunto, ele tamb\u00e9m coeditou a edi\u00e7\u00e3o especial The Feminist Project under Threat in Europe\u201d,\u00a0<em>Politics &amp; Governance\u00a0<\/em>6(3) (2018), com Mieke Verloo (Radboud University), \u201cHabemus Gender! The Catholic Church and \u2018Gender Ideology\u2019\u201d,<em>\u00a0Religion &amp; Gender<\/em>, 6 (2016), com Sarah Bracke (Universiteit van Amsterdam) e \u201cHabemus Gender: D\u00e9construction d\u2019une riposte religieuse\u201d,\u00a0<em>Sextant<\/em>, 31 (2015), com Sophie van der Dussen e Val\u00e9rie Piette (Universit\u00e9 libre de Bruxelles).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\">O SPW optou por n\u00e3o traduzir <em>backlash <\/em>\u2013 no portugu\u00eas, o equivalente seria \u201crea\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201ccontraofensiva\u201d \u2013, porque o termo original em ingl\u00eas define mais precisamente a moldura que tem sido usada para interpretar as pol\u00edticas antig\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\">Agrade\u00e7o a Alex Cosials, Sonia Corr\u00eaa, Neil Datta, Koen Slootmaeckers e Mieke Verloo pelos coment\u00e1rios nos rascunhos do artigo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\">A vers\u00e3o original deste artigo foi publicada no <a style=\"color: #808080\" href=\"https:\/\/blogs.lse.ac.uk\/gender\/2020\/03\/30\/backlash-a-misleading-narrative\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">blog Engenderings da LSE.<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por David Patternote (Universit\u00e9 libre de Bruxelles)* No dia 13 de fevereiro de 2019, o Parlamento Europeu adotou uma resolu\u00e7\u00e3o\u00a0sobre \u201co backlash contra os direitos<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":19912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[283],"tags":[43,65,317,106,107,335],"class_list":{"0":"post-22935","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-artigos","8":"tag-antigenero","9":"tag-catolicismo","10":"tag-conservadorismos","11":"tag-direitos-reprodutivos","12":"tag-direitos-sexuais","13":"tag-evangelismo"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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