{"id":22891,"date":"2020-04-06T22:16:56","date_gmt":"2020-04-07T01:16:56","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2020\/04\/06\/entrevista-barbara-sepulveda-estallido-chileno\/"},"modified":"2024-01-30T14:20:12","modified_gmt":"2024-01-30T17:20:12","slug":"entrevista-barbara-sepulveda-estallido-chileno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/entrevistas\/entrevista-barbara-sepulveda-estallido-chileno\/22891","title":{"rendered":"Entrevista B\u00e1rbara Sep\u00falveda: estallido chileno"},"content":{"rendered":"<p><strong><u>A atua\u00e7\u00e3o de uma rede de advogadas feministas chilenas<\/u><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/04\/B\u00e1rbaraSepulveda1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-10379 alignleft\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/BarbaraSepulveda1-300x300-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conte-nos mais sobre a ABOFEM? <\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: A ABOFEM tem uma esp\u00e9cie de pluralismo pol\u00edtico de esquerda. H\u00e1 um ambiente de conviv\u00eancia que n\u00e3o se reproduz, por exemplo, no campo partid\u00e1rio. E h\u00e1 tamb\u00e9m as independentes. Entre n\u00f3s foi gerada uma cumplicidade e tamb\u00e9m uma sororidade feminista que nos permite dialogar sem enfrentamentos. O espa\u00e7o que criamos era muito necess\u00e1rio, porque no Chile o Col\u00e9gio de Advogados \u00e9 altamente conservador, controlado por homens. At\u00e9 a \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, a maioria dos conselheiros eram homens, idosos, milion\u00e1rios e que defendem estes interesses, sem representa\u00e7\u00e3o feminina para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando criamos ABOFEM, em 2018, \u00e9ramos 3 mulheres, hoje somos mais de 400. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o hav\u00edamos nos dado conta da necessidade de um espa\u00e7o onde poder\u00edamos dialogar, disputar a ideia hegem\u00f4nica androc\u00eantrica do direito e pensar o direito em termos feministas. No Chile, isso era algo feito de forma isolada, com algumas acad\u00eamicas e litigantes, todas dispersas. Esse espa\u00e7o nos integrou. Temos discuss\u00f5es pol\u00edticas, votamos, temos ABOFEM em todas as regi\u00f5es, discutindo diversos temas, como fam\u00edlia, inf\u00e2ncia, direito penal, direitos humanos.<\/p>\n<p>Implementamos sistemas de vota\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o on line para abarcar advogadas que n\u00e3o podem comparecer \u00e0s reuni\u00f5es por causa do trabalho ou das tarefas dom\u00e9sticas. \u00c9 um desafio, para o nosso feminismo tamb\u00e9m, enfrentar a dupla jornada das mulheres, porque no Chile n\u00e3o h\u00e1 corresponsabilidade entre homens e mulheres com as tarefas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p><strong>Como as mulheres se integram \u00e0 ABOFEM?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> Normalmente nos contactam por redes sociais. Pedimos que subscrevam uma carta de compromisso e assistam a uma reuni\u00e3o aonde nos apresentamos e a\u00ed reafirmam o interesse em participar.<\/p>\n<p>Somos uma associa\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, com personalidade jur\u00eddica. \u00a0Agora vamos ter uma sede, um pequeno apartamento. Ser\u00e1 importante porque fazemos assessoria jur\u00eddica a mulheres e pessoas LGBTI. N\u00e3o assessoramos a homens cis, mas, por causa do <em>estallido<\/em>, pegamos algumas causas dos que foram violentados sexualmente. Assessoramos gratuitamente e para isso normalmente outras organiza\u00e7\u00f5es nos emprestavam espa\u00e7os. Nos \u00faltimos tempos, aumentou muito a procura. O <em>Estallido<\/em> e Lastesis geraram um efeito cat\u00e1rtico nas mulheres. Muitas se deram conta de toda a viol\u00eancia que haviam sofrido, ou sempre souberam e n\u00e3o fizeram nada. \u00c0s vezes nos procuram apenas para falar do que aconteceu e ter apoio, mesmo que j\u00e1 tenha prescrito. Precis\u00e1vamos de um espa\u00e7o mais reservado para estes atendimentos.<\/p>\n<p><strong>Como tem sido o desafio de assessor\u00e1-las?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: Lidamos com hist\u00f3rias cada vez mais dolorosas e complexas. Quando um policial viola sexualmente, h\u00e1 muitos delitos envolvidos: abuso de poder, delito sexual, tortura. Conhec\u00edamos casos isolados de manifesta\u00e7\u00f5es, principalmente no sul, com as ind\u00edgenas mapuche. Mas em Santiago a quantidade \u00e9 enorme. Ent\u00e3o, o efeito psicol\u00f3gico \u00e9 tanto para as mulheres violadas quanto para as advogadas. Por isso tivemos de nos conectar a uma rede de psic\u00f3logas feministas, e passamos a intervir com uma dupla psico-jur\u00eddica. Fazem tratamento para as mulheres violentadas e tamb\u00e9m para as advogadas.<\/p>\n<p>Associamo-nos tamb\u00e9m a outros advogados de direitos humanos, com a Universidade de Chile, para encaminhar causas, assessorar, ir \u00e0s delegacias atr\u00e1s de quem est\u00e1 detido. Temos recurso de prote\u00e7\u00e3o contra os carabineiros, porque n\u00e3o nos queriam dar informa\u00e7\u00f5es. Come\u00e7aram a operar com uma intelig\u00eancia do tipo da ditadura, apagando registros e silenciando.<\/p>\n<p><strong>Como tem sido a rela\u00e7\u00e3o da ABOFEM com a sociedade civil, o Congresso, os \u00f3rg\u00e3os de justi\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: A imprensa confia muito em n\u00f3s, somos constantemente consultadas. O Congresso tamb\u00e9m, nos convidam quando se trata de projetos sobre mulheres, g\u00eanero, viol\u00eancia, sexualidade. Inclusive, fomos chamadas para a acusa\u00e7\u00e3o constitucional contra o presidente Pi\u00f1era.<\/p>\n<p>Temos levantado o problema publicamente. Por exemplo: achamos curioso como a Defensoria da Inf\u00e2ncia do Chile come\u00e7ou a divulgar informativos sobre crian\u00e7as vulnerabilizadas em seus direitos pelo Estado: apareciam crian\u00e7as detidas, golpeadas, feridas, torturadas. Aonde estavam as violentadas sexualmente que sab\u00edamos que existia? Comunicamos \u00e0 Defensoria da Inf\u00e2ncia. N\u00e3o apareceu no informativo. Por que? N\u00f3s queremos expor o tema da viol\u00eancia sexual estatal no Chile, da viol\u00eancia sexual policial. Houve a not\u00edcia de dois homens heterossexuais violados, mas centenas de mulheres, n\u00e3o. Tivemos que ir v\u00e1rias vezes ao Congresso comunicar. H\u00e1 uma responsabilidade estatal, e do governo em particular, que permite que isso aconte\u00e7a. \u00c9 uma viol\u00eancia espec\u00edfica. A Ministra da Mulher ficou em sil\u00eancio. Por qu\u00ea uma organiza\u00e7\u00e3o civil tem que assumir o trabalho do Estado, quando h\u00e1 um Minist\u00e9rio da Mulher, com todas as atribui\u00e7\u00f5es legais para fazer a representa\u00e7\u00e3o judicial, para defender as mulheres em tribunais? Evidentemente, \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica da ministra, que n\u00e3o tem respaldo nem legitimidade. Tem sido um minist\u00e9rio muito irrespons\u00e1vel em respeito aos programas implementados anteriormente.<\/p>\n<p><strong>No governo Bachelet?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: Bachelet criou o Plano Nacional contra a Viol\u00eancia. Sob Pi\u00f1era, no entanto, foram reduzindo os recursos para a preven\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o locais. \u00c9 necess\u00e1rio atuar nas popula\u00e7\u00f5es onde a viol\u00eancia est\u00e1 cristalizada, levando em conta quest\u00f5es de classe e ra\u00e7a. Intervir com gente preparada, capacitar. Bachelet fez isso. Mas, sob a atual ministra da Mulher, foram todos despedidos. Agora lamentam que os feminic\u00eddios seguem aumentando. A resposta \u00e9 \u00f3bvia: se n\u00e3o h\u00e1 preven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o e nem reabilita\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 como identificar o agressor nos casos de viol\u00eancia sexual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: Sim, em muitos casos. N\u00f3s podemos peticionar contra quem resulta respons\u00e1vel, porque, nas queixas e den\u00fancias levadas \u00e0s delegacias, havia os carabineiros do turno, isto \u00e9, o respons\u00e1vel na institui\u00e7\u00e3o naquele momento. Mas n\u00e3o deixa de ser complexo porque os carabineiros, durante o <em>Estallido<\/em>, deixaram de usar suas identifica\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 completamente ilegal. Al\u00e9m dos delitos penais, tamb\u00e9m h\u00e1 delitos administrativos.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 casos de aborto provocados por viol\u00eancia policial contra manifestantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> Isto aconteceu em mobiliza\u00e7\u00f5es de anos anteriores. O n\u00edvel de viol\u00eancia \u00e9 brutal. Al\u00e9m dos golpes e agress\u00f5es, temos o g\u00e1s lacrimog\u00eanio, que pode provocar aborto. Para as crian\u00e7as \u00e9 muito t\u00f3xico tamb\u00e9m. E os carabineiros lan\u00e7am indiscriminadamente.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m das mulheres, como a repress\u00e3o atingiu outras minorias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> Temos um caso de uma jovem l\u00e9sbica tratada como homem que foi obrigada a dormir no calabou\u00e7o com homens. Uma amea\u00e7a direta \u00e0 sua integridade f\u00edsica, sexual, psicol\u00f3gica. H\u00e1 muita discrimina\u00e7\u00e3o, homofobia, lesbofobia, transfobia. Um menino trans de 16 anos foi obrigado a tirar a roupa enquanto o chamavam pelo nome de registro. Ele ainda n\u00e3o havia feito sua mudan\u00e7a de sexo e de nome, e o chamavam todo o tempo pelo seu nome de mulher. S\u00e3o in\u00fameros os relatos de agress\u00f5es, humilha\u00e7\u00f5es e insultos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a forma de atuar das carabineiras mulheres e dos homens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> Os carabineiros podem violar-te, e isso \u00e9 diferente. As carabineiras tamb\u00e9m abusaram sexualmente, tocando nos genitais, nos seios. Mas os homens t\u00eam uma brutalidade muito maior, o que tamb\u00e9m n\u00e3o significa que n\u00e3o haja carabineiras terr\u00edveis.<\/p>\n<p>A tortura psicol\u00f3gica \u00e9 muito comum. H\u00e1 tantos casos no pa\u00eds inteiro, repetem as mesmas t\u00e9cnicas. H\u00e1, evidentemente, aqueles que n\u00e3o o fazem. Mas h\u00e1 um aprendizado. Isso \u00e9 muito mais preocupante. Que classe de educa\u00e7\u00e3o recebem os policiais e os militares no Chile? As mesmas coisas da ditadura. N\u00e3o aprendemos nada em 40 anos. Estas institui\u00e7\u00f5es seguem sendo as mesmas, com a mesma forma\u00e7\u00e3o. O Estado do Chile se comprometeu a reeducar as for\u00e7as policiais e militares em mat\u00e9ria de direitos humanos, mas na pr\u00e1tica n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/04\/B\u00e1rbaraSepulveda2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-10381 aligncenter\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/BarbaraSepulveda2-300x225-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a>A militariza\u00e7\u00e3o em si precisaria ser enfrentada, ent\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: Mais do que a desmilitariza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso antes de tudo eliminar toda a refer\u00eancia \u00e0 doutrina de seguran\u00e7a nacional contida na Constitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 a forma militar que se aplicou em toda a regi\u00e3o latinoamericana na opera\u00e7\u00e3o Condor. O pensamento de que o povo \u00e9 um potencial inimigo, um inimigo interno: o comunista, a feminista, os ind\u00edgenas, a pobreza aparecem como alvos. Isso instalou-se juridicamente no Estado e tem que ser eliminado pela raiz.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 mulheres presas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: Sim.<\/p>\n<p>As mulheres, acostumadas a serem vulnerabilizadas, pensavam que o que era feito nas delegacias era parte do procedimento. N\u00e3o, n\u00e3o te podem fazer desnudar, inspecionar vaginas etc. Temos que explicar o mais b\u00e1sico da integridade, da dignidade humana. O Estado chileno \u00e9 t\u00e3o repressivo, t\u00e3o castigado do ponto de vista social, que as pessoas naturalizam essas condutas.<\/p>\n<p>Outras organiza\u00e7\u00f5es feministas tamb\u00e9m cumpriram o papel informativo e o de recolher relatos de viol\u00eancia. \u00a0Houve um momento que era tanta deten\u00e7\u00e3o que havia pessoas desaparecidas por dias. N\u00e3o apareciam em nenhum registro, nem estavam nas delegacia. Quando havia toque de recolher, sa\u00edamos com um salvo conduto para ir \u00e0s delegacias, como advogadas de direitos humanos, e t\u00ednhamos que ser autorizadas por raz\u00f5es profissionais. E assim pod\u00edamos sair a monitorar pelas noites, porque com o toque de recolher eles faziam o que queriam nas delegacias.<\/p>\n<p><strong>Como foi esta est\u00f3ria dos saques?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> H\u00e1 um discurso muito forte contra os saques. Muitos foram orquestrados. Houve um momento que a mobiliza\u00e7\u00e3o social era t\u00e3o grande que o discurso do governo era de que tudo era vandalismo. As not\u00edcias refor\u00e7avam isso. Eu entrevistei pessoas detidas por saques e me contavam a mesma hist\u00f3ria, de situa\u00e7\u00f5es que foram armadas. Quem d\u00e1 a ordem aos carabineiros? Por que isso fazem com popula\u00e7\u00f5es com elevados n\u00edveis de pobreza? Quando perguntava o que levaram do supermercado, a resposta n\u00e3o era televis\u00e3o, mas fraldas, leite, coisas muito caras e necess\u00e1rias. Abusam da situa\u00e7\u00e3o de pobreza e de desabastecimento. Em muitas partes foram saques orquestrados, incentivados por falsas not\u00edcias, em outras n\u00e3o. Isso porque necessitavam ter pessoas detidas por roubo, para refor\u00e7ar o discurso do governo de que era delinqu\u00eancia e n\u00e3o demanda ou protesto social.<\/p>\n<p>O outro problema \u00e9 que essas pessoas que roubaram foram \u00e0 primeira audi\u00eancia de controle de deten\u00e7\u00e3o e o minist\u00e9rio p\u00fablico pediu para todos pris\u00e3o preventiva e medidas cautelares. N\u00e3o tinha por qu\u00ea. Enquanto por outro lado h\u00e1 violadores que n\u00e3o t\u00eam pris\u00e3o preventiva. Um punitivismo muito duro contra a popula\u00e7\u00e3o para dar um sinal de que tudo vai ser muito castigado. Mas isso n\u00e3o dissuadiu a cidadania. Ent\u00e3o, come\u00e7aram a aplicar a Lei se Seguran\u00e7a Interna do Estado, uma lei para perseguir o inimigo pol\u00edtico interno.<\/p>\n<p>Est\u00e3o operando como numa ditadura, a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o houve um golpe de Estado. Mas o presidente \u00e9 um d\u00e9spota que est\u00e1 utilizando todas as ferramentas poss\u00edveis e, entre essas, t\u00e9cnicas ditatoriais.<\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea a participa\u00e7\u00e3o feminista neste processo das manifesta\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: As organiza\u00e7\u00f5es feministas s\u00e3o parte do <em>Estallido<\/em> desde o primeiro momento. Quando o protesto estava se diluindo um pouco, a interven\u00e7\u00e3o de Lastesis revitalizou o movimento. Nesta segunda parte da mobiliza\u00e7\u00e3o as feministas temos tido um papel mais protagonista. Temos atuado, inclusive, com o pa\u00f1uelo verde (campanha pelo aborto legal).<\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea as institui\u00e7\u00f5es no futuro pr\u00f3ximo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> O cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel da disputa pol\u00edtica \u00e9 se teremos ou n\u00e3o uma nova constitui\u00e7\u00e3o. O governo Pi\u00f1era parece ter acabado, apesar de ainda faltarem 2 anos. A for\u00e7a e a condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica hoje est\u00e1 no Congresso. O pa\u00eds se parlamentarizou de fato. O presidente n\u00e3o pesa. Hoje em dia s\u00e3o os l\u00edderes dos partidos de direita &#8211; os partidos do governo &#8211; que definem a pauta pol\u00edtica para seus militantes.<\/p>\n<p><strong>Qual a perspectiva da uma nova Constitui\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara<\/strong>: Se ganhamos o processo da Constituinte, isso pode gerar um desdobramento pol\u00edtico muito interessante, porque a d\u00edvida hist\u00f3rica dos governos que administraram o neoliberalismo no Chile \u00e9 t\u00e3o grande que me parece muito dif\u00edcil que os direitos sociais n\u00e3o estejam garantidos pela nova constitui\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 uma das necessidades: o teto neoliberal da constitui\u00e7\u00e3o tem que ser destru\u00eddo. Ter uma nova constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma de dar sa\u00edda institucional democr\u00e1tica a este conflito.<\/p>\n<p><strong>Como a ABOFEM est\u00e1 se posicionando no processo da Constituinte?<\/strong><\/p>\n<p><strong>B\u00e1rbara:<\/strong> Somos feministas a favor de criar uma nova constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente porque conhecemos muito bem a atual &#8211; somos advogadas \u2013 mas tamb\u00e9m porque vislumbramos como uma sa\u00edda ao conflito que pode beneficiar a cidadania. Pequenas mudan\u00e7as \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o servir\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos uma constitui\u00e7\u00e3o blindada, n\u00e3o \u00e9 comum no mundo, feita na ditadura, imposta a sangue e fogo, criada pelos ide\u00f3logos da ultra-direita conservadora. \u00c9 preciso criar uma inst\u00e2ncia institucional de di\u00e1logo entre os pol\u00edticos, as organiza\u00e7\u00f5es sociais e a cidadania, que seja igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00f3s queremos uma nova constitui\u00e7\u00e3o no Chile, queremos incorporar os direitos das mulheres que n\u00e3o existem na constitui\u00e7\u00e3o atual. Ela \u00e9 androc\u00eantrica, ditatorial, r\u00edgida, hier\u00e1rquica, hiper-presidencialista, neoliberal. Neste sentido, acredito que \u00e9 um erro n\u00e3o participar do processo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atua\u00e7\u00e3o de uma rede de advogadas feministas chilenas &nbsp; Conte-nos mais sobre a ABOFEM? 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