{"id":22757,"date":"2019-08-12T18:48:22","date_gmt":"2019-08-12T21:48:22","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2019\/08\/12\/bolsonarismo-e-maior-que-bolsonaro-projeto-punitivista-ameaca-democracia\/"},"modified":"2024-01-31T13:41:50","modified_gmt":"2024-01-31T16:41:50","slug":"bolsonarismo-e-maior-que-bolsonaro-projeto-punitivista-ameaca-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/bolsonarismo-e-maior-que-bolsonaro-projeto-punitivista-ameaca-democracia\/22757","title":{"rendered":"\u2018Bolsonarismo \u00e9 maior que Bolsonaro\u2019: projeto punitivista amea\u00e7a democracia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/?attachment_id=9570\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9570 aligncenter\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/20190726-img_8197.jpg\" alt=\"\" width=\"593\" height=\"395\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao eleger Jair Bolsonaro presidente da Rep\u00fablica uma parcela expressiva da sociedade brasileira decidiu apostar em um projeto punitivista para resolver os problemas do pa\u00eds, especialmente aqueles relacionados \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Junto com esse projeto de aumentar o encarceramento de pessoas e adotar medidas mais duras de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia, as pessoas passam a tolerar socialmente autoritarismos e viola\u00e7\u00f5es de direitos, a partir da ideia de que os direitos s\u00e3o seletivos e n\u00e3o se aplicam a todas as pessoas. Com isso, a viol\u00eancia e a viola\u00e7\u00e3o de direito v\u00e3o se banalizando e a sociedade passa a tolerar o que \u00e9 intoler\u00e1vel numa democracia. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 da antrop\u00f3loga Isabela Oliveira Kalil, coordenadora do N\u00facleo de Etnografia Urbana da Funda\u00e7\u00e3o Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo (FESPSP), que h\u00e1 seis anos v\u00eam pesquisando o crescimento de grupos e movimentos conservadores no Brasil.<\/p>\n<p>Em 2018, esse n\u00facleo realizou um estudo sobre quem s\u00e3o e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro. Essa pesquisa agrupou 16 tipos de apoiadores, eleitores e potenciais eleitores de Bolsonaro, segundo crit\u00e9rios de classe social, ra\u00e7a\/etnia, identidade de g\u00eanero, religi\u00e3o e outras formas de engajamento. O trabalho de campo apontou uma multiplicidade no padr\u00e3o de eleitores, o que est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 estrat\u00e9gia de campanha utilizada pelo candidato do PSL. \u201cAo segmentar o direcionamento de suas mensagens para grupos espec\u00edficos, a figura do \u2018mito\u2019 \u2013 como \u00e9 chamada por seus eleitores \u2013 consegue assumir diferentes formas, a partir das aspira\u00e7\u00f5es de seus apoiadores\u201d, diz a pesquisa que procura estudar essa multiplicidade.<\/p>\n<p>Isabela Kalil esteve em Porto Alegre na semana passada para participar da XIII Reuni\u00e3o de Antropologia do Mercosul, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em\u00a0entrevista ao Sul21, a antrop\u00f3loga fala sobre alguns dos resultados do trabalho de campo que vem realizando junto a grupos conservadores e sobre o perfil dos eleitores de Bolsonaro. Esses eleitores, destaca, decidiram apostar, entre outras coisas, em um projeto punitivista o que est\u00e1 trazendo uma grave amea\u00e7a \u00e0 democracia no Brasil. Ela alerta:<\/p>\n<p>\u201cQuando os discursos de intoler\u00e2ncia v\u00e3o para o espa\u00e7o p\u00fablico e v\u00e3o ganhando espa\u00e7o isso s\u00f3 tende a crescer. E chega uma hora em que esses discursos que eram inaceit\u00e1veis passam a ser aceit\u00e1veis. Isso \u00e9 um caminho sem volta. A sociedade como um todo passa a tolerar coisas que n\u00e3o deveriam ser toleradas em um estado de direito\u201d.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Como nasceu o teu interesse em pesquisar o perfil dos eleitores de Bolsonaro e, de modo mais geral, dos grupos conservadores de direita e de extrema-direita que vem crescendo em v\u00e1rios pa\u00edses?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: O meu doutorado foi ligado \u00e0 antropologia urbana. Quando estava fazendo o doutorado, fui pesquisadora visitante na Universidade Columbia, em Nova York, durante 2011 e 2012. No per\u00edodo em que eu estava l\u00e1, surgiu o movimento Occupy Wall Street. Eu me engajei no movimento e comecei a ficar interessada por esse tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o de rua. Quando voltei ao Brasil, presenciei o in\u00edcio das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 na cidade de S\u00e3o Paulo. O meu interesse, basicamente, tinha a ver com mobiliza\u00e7\u00f5es e protestos de rua no espa\u00e7o p\u00fablico urbano. Quando passei a olhar para as mobiliza\u00e7\u00f5es de 2013, comecei a ver o aparecimento de discursos mais conservadores e de direita. Eu era professora nesta \u00e9poca me chamou a aten\u00e7\u00e3o ver meus alunos, jovens, debatendo esses lugares da direita e da esquerda nas mobiliza\u00e7\u00f5es de rua.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, comecei a acompanhar as movimenta\u00e7\u00f5es de rua como pauta de pesquisa. Em 2014, continuei acompanhando essas mobiliza\u00e7\u00f5es dada a for\u00e7a que esse fen\u00f4meno havia adquirido no Brasil. Queria acompanhar os desdobramentos desse processo, principalmente a partir da cidade de S\u00e3o Paulo, onde fa\u00e7o etnografia (trabalho de campo). Em 2014 e 2015 acompanhei os protestos do movimento anti-corrup\u00e7\u00e3o e os grupos que estavam surgindo a partir desse movimento. Acompanhei tamb\u00e9m as manifesta\u00e7\u00f5es e protestos ao longo do processo do impeachment de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Neste momento, ficou claro pra mim que, para continuar a pesquisa, ela precisaria passar a ser feita de maneira coletiva. Esses protestos e mobiliza\u00e7\u00f5es de rua exigiam, metodologicamente, um outro esfor\u00e7o anal\u00edtico, para que a gente desse conta de acompanhar o que estava acontecendo e coletar dados. Formei uma equipe e criei o N\u00facleo de Etnografia Urbana e Audiovisual. Paralelamente a isso, eu tinha na universidade a atribui\u00e7\u00e3o de ensinar antropologia urbana e m\u00e9todos de pesquisa em antropologia e etnografia. Acabei usando a cidade de S\u00e3o Paulo e essas movimenta\u00e7\u00f5es como parte do processo de doc\u00eancia e de pesquisa. Os alunos que estavam interessados, para al\u00e9m da sala de aula, come\u00e7aram a me acompanhar em campo.<\/p>\n<p>O primeiro trabalho de f\u00f4lego que a gente fez foi uma etnografia de alguns meses num acampamento que aconteceu na Avenida Paulista, em frente a FIESP. Ao acompanhar esse acampamento percebemos uma mudan\u00e7a de posicionamento das pessoas na rua, no per\u00edodo entre o in\u00edcio desse movimento e o final dele, j\u00e1 com a Dilma Rousseff afastada. Essa foi a nossa primeira pesquisa de f\u00f4lego j\u00e1 incorporando uma metodologia de trabalho coletivo e colaborativo.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da pesquisa, a ideia n\u00e3o era trabalhar com grupos de direita ou de ultra-direita, mas sim trabalhar com os protestos e mobiliza\u00e7\u00f5es de rua. O que acabei vendo em campo, e isso se tornou objeto de pesquisa, foi o surgimento de grupos de direita, pequenos no come\u00e7o, que nem se definiam dessa forma. Alguns se definiam como movimento anti-corrup\u00e7\u00e3o. Esses grupos foram fazendo das ruas uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio de a\u00e7\u00e3o, testando ferramentas, possibilidades de engajamento de p\u00fablico e pautas de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Aos poucos esses grupos foram se colocando como de direita e at\u00e9 de extrema-direita.<\/p>\n<p>Depois do impeachment, a partir de 2017 principalmente, come\u00e7amos a ver tamb\u00e9m jovens que sa\u00edam da periferia e iam para o centro de S\u00e3o Paulo, envolvendo-se em embates entre grupos de extrema-direita e grupos anti-fascistas. Embora a gente tenha pesquisado mais os grupos de extrema-direita, \u00e9 preciso dizer que h\u00e1 uma resist\u00eancia anti-fascista tamb\u00e9m nas ruas da cidade de S\u00e3o Paulo, cujos grupos foram se tornando mais numerosos. No per\u00edodo eleitoral, seguimos acompanhando esses grupos e movimentos e continuamos fazendo isso at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Existe uma pol\u00eamica at\u00e9 hoje sobre o significado do que aconteceu em 2013 no Brasil. A evolu\u00e7\u00e3o da tua pesquisa, tanto do ponto de vista do objeto quanto da metodologia, indicam de alguma forma que a direita acabou capturando politicamente o resultado final desse processo de mobiliza\u00e7\u00f5es? Como v\u00ea essa quest\u00e3o sobre o sentido de 2013?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: Eu acho que vai demorar algum tempo ainda para a gente conseguir entender o sentido de 2013. Acho que temos sentidos m\u00faltiplos a\u00ed. Qualquer narrativa sobre 2013 que aponte uma dire\u00e7\u00e3o apenas \u00e9 problem\u00e1tica. Foi uma mobiliza\u00e7\u00e3o muito grande do ponto vista num\u00e9rico, envolvendo sentidos muito diferentes. Eu acompanhei essas mobiliza\u00e7\u00f5es no centro da cidade, onde dou aula. Nosso cotidiano foi diretamente atravessado pelas mobiliza\u00e7\u00f5es. Na \u00e9poca, eu vi que, em determinado momento, os jovens que estavam a frente das manifesta\u00e7\u00f5es passaram a ser apontados como respons\u00e1veis pelo nascimento de uma direita. Eu n\u00e3o acho isso justo. \u00c9 um fen\u00f4meno bem mais complexo.<\/p>\n<p>2013, de alguma forma, colocou na rua um conjunto de insatisfa\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas que iam desde o pre\u00e7o da tarifa do \u00f4nibus, passando pela situa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, e chegando at\u00e9 o tema da Copa do Mundo. Algumas pessoas que entrevistei disseram: quando a gente estava na rua em 2013 a gente n\u00e3o achava que era nem de direita nem de esquerda. Depois acabaram se constituindo como de direita. A pauta da anti-corrup\u00e7\u00e3o foi um aglutinador importante para esses grupos. Os grupos de rua mais progressistas demoraram um tempo para conseguir compreender a import\u00e2ncia desse debate sobre a corrup\u00e7\u00e3o. Ao final da disputa, esse tema acabou ficando mesmo com a direita. N\u00e3o acho justo atribuir a determinadores atores e movimentos sociais a responsabilidade pelo nascimento desses grupos, mas, de certa forma, houve um descompasso na atua\u00e7\u00e3o dos movimentos mais progressistas, que perderam a oportunidade de assumir tamb\u00e9m a pauta da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0O fen\u00f4meno do crescimento de grupos de direita e de extrema-direita n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade brasileira, repetindo-se tamb\u00e9m em v\u00e1rios outros pa\u00edses do mundo. Na tua avalia\u00e7\u00e3o, h\u00e1 algo de comum entre esses diferentes casos que ajude a entender essa esp\u00e9cie de convers\u00e3o conservadora planet\u00e1ria?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: H\u00e1 alguns autores que fornecem elementos que considero importantes para pensarmos esse fen\u00f4meno que, como voc\u00ea colocou, \u00e9 transnacional. Da mesma forma como temos movimentos sociais progressistas se tornando transnacionais e presentes em diferentes contextos, temos tamb\u00e9m movimentos de direita que assumiram esse car\u00e1ter transnacional. Do ponto de vista dos temas que acompanho mais de perto, h\u00e1 muitas disputas que aconteceram em reuni\u00f5es da ONU. A perspectiva de pensar as reuni\u00f5es da ONU como um campo de disputa, por exemplo, na \u00e1rea de direitos reprodutivos, n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o novo assim. H\u00e1 autores que mostram que, desde os anos 90, ocorrem essas disputas em reuni\u00f5es da ONU.<\/p>\n<p>Uma autora que nos ajudou muito com subs\u00eddios te\u00f3ricos para a nossa pesquisa \u00e9 Wendy Brown. Ao falar dos Estados Unidos p\u00f3s-11 de setembro, ela aponta a configura\u00e7\u00e3o de uma uni\u00e3o entre o neoliberalismo e o neoconservadorismo. A uni\u00e3o entre essas duas for\u00e7as que, aparentemente, s\u00e3o antag\u00f4nicas entre si, foi muito bem sucedida. Lo\u00efc Wacquant, outro autor com o qual trabalhamos, tamb\u00e9m tem perspectivas cr\u00edticas muito interessantes para pensar esse projeto bem sucedido que articula neoliberalismo e neoconservadorismo. A mobiliza\u00e7\u00e3o de pautas relacionadas a g\u00eanero e sexualidade, as chamadas pautas morais, controle dos corpos, tudo isso tem um apelo e uma possibilidade de aglutinar diferentes formas de mobiliza\u00e7\u00e3o. E isso tem funcionado em diferentes contextos.<\/p>\n<p>Nas nossas pesquisas aparecem pautas e formas de mobiliza\u00e7\u00e3o que s\u00e3o transnacionais, especialmente relacionadas a quest\u00f5es anti-g\u00eanero. Isso \u00e9 algo que nasce na Europa e depois se dissemina na Am\u00e9rica Latina. As principais fake news est\u00e3o relacionadas a quest\u00f5es de g\u00eanero e de sexualidade, como \u00e9 o caso da mamadeira er\u00f3tica e do chamado kit gay. N\u00e3o \u00e9 a toa isso seja assim. Esses temas t\u00eam um forte apelo de mobiliza\u00e7\u00e3o de pessoas que, inclusive, n\u00e3o est\u00e3o ligadas \u00e0 pol\u00edtica e que n\u00e3o se conectam com o universo pol\u00edtico partid\u00e1rio. Essas quest\u00f5es envolvem o universo privado, da fam\u00edlia. Neste contexto, para boa da parte da popula\u00e7\u00e3o, o que est\u00e1 em jogo neste caso n\u00e3o mais quest\u00f5es pol\u00edticas partid\u00e1rias, mas sim quest\u00f5es da fam\u00edlia, da defesa da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro, essas for\u00e7as acabam jogando tamb\u00e9m com o medo. Uma coisa que tamb\u00e9m apareceu na nossa pesquisa \u2013 e que \u00e9 muito razo\u00e1vel \u2013 surgiu em conversas com m\u00e3es que tinham medo e receio de uma s\u00e9rie de coisas que nunca tinham acontecido do ponto de vista de pol\u00edticas p\u00fablicas e que n\u00e3o estavam em pauta. Mas elas tinham receio pelos seus filhos. Parece muito razo\u00e1vel que uma m\u00e3e queira proteger seus filhos. Isso \u00e9 aproveitado, de alguma maneira, para criar essa base que faz essa jun\u00e7\u00e3o entre neoconservadorismo e um projeto neoliberal.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Por essa descri\u00e7\u00e3o, no caso brasileiro, seria uma esp\u00e9cie de alian\u00e7a entre o Ita\u00fa, o Bradesco, a Assembleia de Deus, a Igreja Universal e outros grupos. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma hegemonia pol\u00edtica da agenda neoliberal nesta alian\u00e7a que assumiria a pauta neoconservadora de um modo instrumental para atingir seus objetivos?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: Talvez dizer \u201cinstrumental\u201d seja simplificar muito. Acho que, de fato, h\u00e1 uma uni\u00e3o. H\u00e1 grupos conservadores que t\u00eam interesse na manuten\u00e7\u00e3o e avan\u00e7o de determinadas pol\u00edticas e pautas e no desmonte de outras. Creio que h\u00e1, de fato, uma alian\u00e7a entre essas pautas e interesses neoliberais e neoconservadores.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0A pesquisa que voc\u00eas realizaram em 2018 agrupou 16 tipos de apoiadores de Jair Bolsonaro. O que articula essa diversidade de apoiadores e eleitores e em que medida ela constitui uma base social consistente para um projeto pol\u00edtico de mais longo prazo?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: H\u00e1 um elemento novo que apareceu nestas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es relacionada \u00e0 forma de comunica\u00e7\u00e3o. Ainda que se possa dizer que o projeto de Bolsonaro lida com velhos interesses, a forma, do ponto de vista comunicacional, \u00e9 nova. Diferentes analistas n\u00e3o acreditavam numa poss\u00edvel vit\u00f3ria de Bolsonaro porque ele n\u00e3o tinha tempo de propaganda eleitoral na televis\u00e3o, o que tradicionalmente explicava o resultado de elei\u00e7\u00f5es anteriores. Tamb\u00e9m diziam que n\u00e3o participar dos debates seria um problema para ele. O que surpreendeu foi que n\u00e3o participar dos debates gerou mais benef\u00edcios para Bolsonaro do que se imaginava. N\u00e3o ter tempo de televis\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o foi um problema, Bolsonaro conseguiu dar uma volta nisso, desacreditando a m\u00eddia, dizendo que ela era tendenciosa com ele.<\/p>\n<p>A campanha de Bolsonaro operou baseada em uma estrat\u00e9gia de segmenta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Diferentes eleitores tinham imagens diferentes do candidato. Uma parte das informa\u00e7\u00f5es que as pessoas estavam recebendo eram recortadas e contextualizadas a partir, por exemplo, do Whatsapp ou das suas redes n\u00e3o s\u00f3 on-line, mas de suas redes de pessoas conhecidas. Na pesquisa n\u00f3s trabalhamos com a ideia de que essa estrat\u00e9gia criou uma esp\u00e9cie de caleidosc\u00f3pio, onde diferentes perfis de eleitores viam projetos diferentes. Esses diferentes perfis estavam mobilizados a partir de expectativas e receios diferentes. Por que isso \u00e9 importante? A base eleitoral do Bolsonaro, na pr\u00e9-campanha, come\u00e7a tendo um maior apelo entre os homens. O maior desafio deles, durante a campanha eleitoral, era conseguir abarcar um p\u00fablico para al\u00e9m desse e conseguir tamb\u00e9m a confian\u00e7a das mulheres.<\/p>\n<p>Esse objetivo foi atingido. Um dos elementos que contribuiu para isso foi a exist\u00eancia de v\u00e1rias candidatas mulheres apoiando Bolsonaro, passando para determinados grupos a imagem de que estava na sua agenda, prioritariamente, o combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher, a prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, a melhoria da escola p\u00fablica. A quest\u00e3o da seguran\u00e7a tamb\u00e9m me parece fundamental. Como falei antes em rela\u00e7\u00e3o aos protestos de 2013, n\u00e3o acho justo responsabilizar os movimentos sociais que estavam nas ruas, mas, de uma certa forma, o campo progressista como um todo, inclusive o que n\u00e3o estava nas ruas, ignorou durante muito tempo a pauta da seguran\u00e7a, assim como ocorreu com o tema da corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. A pauta da seguran\u00e7a n\u00e3o foi assumida, de fato, pelo discurso que estava sendo disseminado pela esquerda. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o importante para as pessoas. Elas querem e precisam de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ficou uma esp\u00e9cie de v\u00e1cuo onde foi mais f\u00e1cil entrar. Muitas pessoas diziam que estavam cansadas de ser assaltadas, que estavam inseguras em suas casas e que apostaram em um projeto punitivista. Ainda que a gente tenha uma s\u00e9rie de dados que mostrem que o endurecimento de penas e outras pol\u00edticas punitivistas n\u00e3o melhoram a seguran\u00e7a p\u00fablica, o discurso de Bolsonaro deu \u00e0s pessoas a expectativa de que seria poss\u00edvel, a partir de medidas mais punitivas, fazer com que o cotidiano da sociedade se tornasse mais seguro. Isso tem um apelo, principalmente nas grandes cidades. Ainda que eu tenha v\u00e1rios problemas com esse modelo punitivista, \u00e9 preciso reconhecer que ele representou uma sa\u00edda que, para muitas pessoas, fazia sentido.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Esse \u201cfazer sentido\u201d de pautas como essa teve um certo recorte geogr\u00e1fico, n\u00e3o? Na regi\u00e3o Nordeste, por exemplo, n\u00e3o funcionou como nas regi\u00f5es Sul e Sudeste.<\/p>\n<p>Isabela Kalil:\u00a0Eu poso dizer muito pouco sobre os eleitores que n\u00e3o est\u00e3o no contexto que estudei. \u00c9 importante dizer uma coisa aqui. A pesquisa n\u00e3o pretende apresentar um perfil dos eleitores no Brasil, mas sim um perfil em um contexto importante como o de S\u00e3o Paulo, que \u00e9 estrat\u00e9gico e onde havia uma disputa inclusive envolvendo a hist\u00f3ria do PT na regi\u00e3o do ABC. Ent\u00e3o, do ponto de vista da pesquisa que fizemos, n\u00e3o consigo arriscar muitas hip\u00f3teses neste sentido.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0O fator tecnol\u00f3gico e comunicacional envolvendo o uso de redes sociais e de ferramentas como o Whatsapp teve grande peso no processo eleitoral de 2018. A esquerda e o campo progressista de modo geral foram pegos de surpresa pela estrat\u00e9gia adotada pela campanha de Bolsonaro. Hoje, dentro desse campo progressista, h\u00e1 quem ache que \u00e9 fundamental se apropriar dessa tecnologia e dessa estrat\u00e9gia, utilizando-a com um sinal trocado, do ponto de vista da agenda pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. \u00c9 por a\u00ed, na sua opini\u00e3o?<\/p>\n<p>Isabela Kalil:\u00a0Acho que essa quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 primordial para a gente entender esse processo envolvendo as elei\u00e7\u00f5es e seus resultados. Essa imagem caleidosc\u00f3pica do Bolsonaro, que permite construir diferentes faces dessa ideia do \u201cmito\u201d e segmentar isso em diferentes perfis foi facilitada por essas novas formas de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou dizendo que tudo isso aconteceu num espa\u00e7o online virtual, mas, de uma certa forma, a gente tem vivenciado formas de ver o mundo que nos colocam em contato com ideias muito parecidas, o que os especialistas chamam de bolha. A gente vai perdendo o contato com a diversidade de ideias e esses grupos v\u00e3o reiterando a mesma perspectiva. Isso possibilita a cria\u00e7\u00e3o de c\u00edrculos e as imagens e mensagens veiculadas ali s\u00e3o, frequentemente, muito diferentes das que transitam em outros c\u00edrculos, \u00e0s vezes envolvendo pessoas da mesma cidade, da mesma faixa et\u00e1ria e da mesma classe social.<\/p>\n<p>A gente ainda precisa entender melhor essa quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, pensar pesquisas que consigam fazer uma conex\u00e3o entre esse universo online e o offline. Nas mobiliza\u00e7\u00f5es de rua, isso era muito presente. Havia pessoas que estavam mobilizadas na rua mas que tamb\u00e9m estavam fazendo uma transmiss\u00e3o ao vivo desse protesto e estavam se comunicando pela internet com pessoas que estavam fora do Estado e que estavam apoiando a mobiliza\u00e7\u00e3o. Ou seja, se a gente olha s\u00f3 pra rua, n\u00e3o consegue entender esse fen\u00f4meno, mas se olha s\u00f3 para a internet tamb\u00e9m n\u00e3o consegue entender. \u00c9 preciso olhar para o imbricamento dessas duas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao que fazer, a estrat\u00e9gia do \u201cvira voto\u201d no final das elei\u00e7\u00f5es me pareceu muito criativa e interessante ainda que ela tenha sido algo que apareceu bem no final da campanha. Foi algo importante. Era uma presen\u00e7a f\u00edsica das pessoas. Sim, a gente talvez tenha que pensar em estrat\u00e9gias para usar essas tecnologias no mundo virtual, mas tamb\u00e9m precisamos pensar estrat\u00e9gias para o mundo offline, digamos assim. \u00c9 preciso pensar em formas de estar, de participar, de recuperar o universo do p\u00fablico, o universo de espa\u00e7os em que voc\u00ea possa ter diversidade de pessoas, discuss\u00e3o de ideias, possibilidade de estar com as pessoas. Isso talvez seja mais importante at\u00e9 do que apenas pensar estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o nas redes sociais.<\/p>\n<p>Por outro lado, a direita ganha muito espa\u00e7o quando diz coisas muito complexas de uma maneira muito simples. Claro que isso envolve mensagens que s\u00e3o completamente falsas, simplificando coisas que s\u00e3o muito complexas. Mas isso deve nos fazer refletir tamb\u00e9m. Precisamos pensar sobre possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1ticas e sobre como tornar o discurso mais acess\u00edvel para que a gente n\u00e3o fique repetindo discursos que s\u00e3o inintelig\u00edveis para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Qual o peso, na tua opini\u00e3o, das igrejas evang\u00e9licas e pentecostais no crescimento do conservadorismo e da direita pol\u00edtica no pa\u00eds?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: Em primeiro lugar, acho que precisamos desenvolver formas mais refinadas de pensar os espa\u00e7os da religi\u00e3o. Quando falamos da figura dos evang\u00e9lico, estamos falando, na verdade, de coisas que s\u00e3o muito plurais. Essa figura do evang\u00e9lico como um grupo \u00fanico \u00e9 um pouco caricatural. \u00c9 preciso lembrar que alguns l\u00edderes religiosos chegaram a apoiar o PT em determinado momento e mais tarde passaram a apoiar o Bolsonaro. \u00c9 preciso olhar de maneira contextualizada a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o das igrejas. Agora, \u00e9 claro, dentro disso que estamos chamando de neoconservadorismo elas t\u00eam um papel importante, mas esse peso precisa ser pensado para al\u00e9m da religi\u00e3o. H\u00e1 determinados grupos, por exemplo, que concentram empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Esse imbricamento entre m\u00eddia e religi\u00e3o precisa ser olhado com mais cuidado. Numa campanha eleitoral isso \u00e9 important\u00edssimo.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Ap\u00f3s sete meses de governo, pesquisas j\u00e1 come\u00e7am a apontar uma eros\u00e3o da popularidade de Bolsonaro junto \u00e0 sua base de apoio. Aquela figura do caleidosc\u00f3pio e das m\u00faltiplas faces que funcionou na campanha pode ficar mais fr\u00e1gil com as dificuldades do governo?<\/p>\n<p>Isabela Kalil: Acho que sim, pois s\u00e3o universos muito diferentes. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea estar no contexto eleitoral fazendo cr\u00edticas a determinadas figuras e partidos. Outra, completamente diferente, \u00e9 voc\u00ea estar no governo e ter que atuar executando projetos. Por outro lado, alguns setores j\u00e1 acham que Bolsonaro n\u00e3o est\u00e1 entregando aquilo que prometeu na campanha. Isso pode estar associado \u00e0 ideia de que existe uma velha pol\u00edtica e que ele est\u00e1 impossibilitado de governar. Assim, est\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o pode estar associada mais ao governo do que propriamente \u00e0 figura dele. Bolsonaro criou uma estrat\u00e9gia por meio da qual procura construir uma blindagem em torno dele, passando a responsabilidade pelos problemas para outras pessoas.<\/p>\n<p>O que vejo mais s\u00e3o pessoas ficando decepcionadas ou cobrando outros pol\u00edticos do PSL para que elas prestem contas e tenham uma posi\u00e7\u00e3o mais combativa. De certa maneira, a figura do Bolsonaro, ainda que tenha pessoas que o apoiaram insatisfeitas, ainda tem uma boa faixa de eleitores. Eles n\u00e3o conseguem dizer o que ele j\u00e1 fez, mas ainda est\u00e3o num compasso de espera na expectativa de que ele fa\u00e7a algo. Ainda \u00e9 cedo para conclus\u00f5es mais definitivas sobre essa insatisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ver como isso vai se desdobrar.<\/p>\n<p>Sul21:\u00a0Considerando a conjuntura atual que vive o pa\u00eds, em que medida voc\u00ea acha que a democracia brasileira est\u00e1 sob amea\u00e7a?<\/p>\n<p>Isabela Kalil:\u00a0A democracia n\u00e3o \u00e9 uma coisa est\u00e1tica, mas algo que a gente constr\u00f3i todos os dias e exige um esfor\u00e7o de manuten\u00e7\u00e3o. O que chama a aten\u00e7\u00e3o no caso brasileiro \u00e9 o apoio dado a esse projeto punitivista de encarcerar as pessoas, de ter medidas mais duras no enfrentamento da viol\u00eancia. Isso \u00e9 um risco e um problema muito grave. Isso faz com que a gente possa tolerar socialmente autoritarismos e viola\u00e7\u00f5es de direitos. Essa posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada na ideia de que os direitos s\u00e3o seletivos. Isso foi uma coisa que apareceu muito na nossa pesquisa. Determinados grupos n\u00e3o eram exatamente contra os direitos humanos, mas eram contra a ideia de que os direitos humanos deveriam ser universais. Apenas uma parcela da popula\u00e7\u00e3o seria merecedora desses direitos. Aquela m\u00e1xima de direitos humanos para humanos direitos sintetiza essa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 muito preocupante. O que temos chamado de bolsonarismo \u00e9 maior do que o Bolsonaro. A sociedade brasileira, \u00e0 medida que vai tolerando determinadas viola\u00e7\u00f5es de direitos, vai de certa forma ampliando o espa\u00e7o para que essas viola\u00e7\u00f5es aconte\u00e7am. Elas s\u00e3o reiteradas e recebem apoio da sociedade. A ideia \u00e9 que, para resolver os problemas, \u00e9 preciso ter um Estado que puna as pessoas. Inclusive, alguns desses grupos acreditam que n\u00e3o \u00e9 preciso sequer haver institui\u00e7\u00f5es para fazer isso e as pessoas deveriam poder fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Acho que essa \u00e9 uma grande amea\u00e7a para a democracia. N\u00e3o h\u00e1 como ter democracia sem um esfor\u00e7o cotidiano para manter e ampliar o acesso a direitos.<\/p>\n<p>Levando em conta o que a gente viu em campo, em 2014, 2015, 2016 e 2018, outra coisa que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que a viol\u00eancia foi se banalizando, mesmo a viol\u00eancia impl\u00edcita. Assim, certos discursos e a\u00e7\u00f5es que causavam desconforto e estranheza e que eram intoler\u00e1veis no espa\u00e7o p\u00fablico, em determinado momento foram sendo relativizados e se tornando aceit\u00e1veis. Hoje, vemos no espa\u00e7o p\u00fablico coisas que eram inaceit\u00e1veis at\u00e9 um tempo atr\u00e1s. Quando os discursos de intoler\u00e2ncia v\u00e3o para o espa\u00e7o p\u00fablico e v\u00e3o ganhando espa\u00e7o isso s\u00f3 tende a crescer. E chega uma hora em que esses discursos que eram inaceit\u00e1veis passam a ser aceit\u00e1veis. Isso \u00e9 um caminho sem volta. A sociedade como um todo passa a tolerar coisas que n\u00e3o deveriam ser toleradas em um estado de direito.<\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado em <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/areazero\/2019\/07\/o-bolsonarismo-e-maior-que-bolsonaro-projeto-punitivista-admite-o-intoleravel-e-ameaca-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sul 21. 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