{"id":22616,"date":"2019-01-15T20:01:31","date_gmt":"2019-01-15T22:01:31","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2019\/01\/15\/aids-ainda-e-uma-grave-ameaca-no-brasil\/"},"modified":"2024-01-31T15:40:17","modified_gmt":"2024-01-31T18:40:17","slug":"aids-ainda-e-uma-grave-ameaca-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/aids-ainda-e-uma-grave-ameaca-no-brasil\/22616","title":{"rendered":"Aids ainda \u00e9 uma grave amea\u00e7a no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/aids-ainda-e-uma-grave-ameaca-no-brasil\/9062\/aids\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9068 aligncenter\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/aids.png\" alt=\"\" width=\"604\" height=\"487\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Laura Greenhalgh | Para o Valor, de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estat\u00edsticas traduzem fielmente a realidade quando apreciadas de maneira din\u00e2mica, e n\u00e3o como uma fotografia inerte na parede. Semanas atr\u00e1s, setores da sa\u00fade p\u00fablica no Brasil, entre hospitais, universidades, m\u00e9dicos, pesquisadores, ONGs e agentes comunit\u00e1rios estavam de olho na divulga\u00e7\u00e3o de um aguardado boletim epidemiol\u00f3gico do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, bem ao fim do mandato do ex-presidente Michel Temer (MDB). O interesse justificava-se no t\u00edtulo do documento: &#8220;HIV Aids 2018&#8221;. Como de costume, t\u00e9cnicos da Secretaria de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade do minist\u00e9rio vieram a p\u00fablico para revelar as mais recentes estat\u00edsticas de uma epidemia que alcan\u00e7a em torno de 40 mil pessoas por ano no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 2017, segundo o boletim, foram registrados 42.420 novos casos de HIV; 37.791 casos diagnosticados de aids e 11.463 mortes pela doen\u00e7a, num universo em que a subnotifica\u00e7\u00e3o ainda se mant\u00e9m alta. Afinal, quantas s\u00e3o as pessoas que n\u00e3o sabem estar infectadas ou que, mesmo sabendo, n\u00e3o fazem parte das estat\u00edsticas de sa\u00fade? Por que o tempo m\u00e9dio entre conhecer o diagn\u00f3stico e buscar tratamento tem sido algo pr\u00f3ximo a 1 ano no Brasil?<\/p>\n<p>Minutos ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o do documento em Bras\u00edlia, comemora-se: cai a mortalidade da aids no pa\u00eds! De fato, em 20 anos de aferi\u00e7\u00e3o, as taxas de mortalidade baixaram 16,5%. Boa not\u00edcia. Mas cabe tamb\u00e9m esta pergunta: era de se esperar o contr\u00e1rio, considerando a efici\u00eancia das drogas e profilaxias \u00e0s quais os brasileiros t\u00eam acesso pelo SUS? Certamente, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 que \u00e9 a primeira vez, em duas d\u00e9cadas, que se v\u00ea uma queda t\u00e3o expressiva&#8221;, diz a m\u00e9dica sanitarista Adele Schwartz Benzaken, at\u00e9 ent\u00e3o diretora de uma divis\u00e3o de nome muito longo, o Departamento de Vigil\u00e2ncia, Preven\u00e7\u00e3o e Controle de Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis, HIV\/Aids e Hepatites Virais, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. &#8220;A \u00faltima vez que tivemos uma queda forte foi nos anos 1990, quando o Brasil adotou a terapia tr\u00edplice, tamb\u00e9m conhecida como coquetel. Ali houve uma redu\u00e7\u00e3o da mortalidade em torno de 38%. Depois, as quedas voltaram a ser menos expressivas.&#8221;<\/p>\n<p>Entre os bons n\u00fameros do boletim &#8211; como os da redu\u00e7\u00e3o em 43% da transmiss\u00e3o vertical do HIV (gestante-beb\u00ea) nos \u00faltimos dez anos &#8211; podem-se encontrar estat\u00edsticas que alimentam a preocupa\u00e7\u00e3o de muitos estudiosos. Isso ocorre quando se comparam os n\u00edveis de detec\u00e7\u00e3o de casos de aids por faixa et\u00e1ria, nos anos 2007 e 2017: nota-se o alastramento da epidemia entre jovens do sexo masculino, hoje. Na faixa de 15 a 24 anos, a detec\u00e7\u00e3o dobra. O que estaria ocorrendo com a gera\u00e7\u00e3o que inicia a vida sexual nesse momento, menosprezando um v\u00edrus que, s\u00f3 no ano passado, pode estar relacionado a 1 milh\u00e3o de mortes pelo mundo e para o qual n\u00e3o se tem, ap\u00f3s 35 anos de tentativas, uma vacina eficaz?<\/p>\n<p>Adele Benzaken seguiu contornando os n\u00fameros, em entrevista ao Valor: &#8220;Novas infec\u00e7\u00f5es crescem entre jovens homens que fazem sexo com homens. Por outro lado, decrescem entre mulheres de quase todas as faixas et\u00e1rias&#8221;. Pelo que se depreende do estudo, explica a m\u00e9dica, a epidemia brasileira parece apontar para nichos definidos, alguns mais significativos quantitativamente que outros &#8211; homens gays, pessoas trans, pessoas que atuam na prostitui\u00e7\u00e3o, usu\u00e1rios de \u00e1lcool e outras drogas, pessoas privadas de liberdade. A m\u00e9dica afirma que o preservativo tem sido deixado de lado cada vez mais. &#8220;Explicar por que isso ocorre n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. S\u00f3 em 2017, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade distribuiu gratuitamente 750 milh\u00f5es de preservativos.&#8221;<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 80, quando o mundo ainda n\u00e3o ouvira falar de um v\u00edrus misterioso que chegava a matar em quest\u00e3o de meses, jovens tamb\u00e9m eram jovens, interessados em sexo e drogas. N\u00e3o se protegiam porque simplesmente desconheciam a amea\u00e7a. E se infectaram \u00e0 larga. Pois a juventude de hoje, cujos pais j\u00e1 viveram sob o alerta permanente da aids, est\u00e1 se infectando na mesma, ou at\u00e9 em maior, velocidade do que a gera\u00e7\u00e3o dos desavisados.<\/p>\n<p>&#8220;Temos sinais claros do recrudescimento da epidemia em nosso pa\u00eds, o que \u00e9 preocupante. Em situa\u00e7\u00e3o de alta incid\u00eancia, aumentam as chances de transmiss\u00e3o, j\u00e1 que mais pessoas transam sem prote\u00e7\u00e3o, repassando o v\u00edrus na fase inicial da contamina\u00e7\u00e3o. Cria-se uma situa\u00e7\u00e3o prop\u00edcia para a intensifica\u00e7\u00e3o da epidemia&#8221;, afirma o cientista social Alexandre Grangeiro, especialista em sa\u00fade p\u00fablica que h\u00e1 d\u00e9cadas pesquisa a evolu\u00e7\u00e3o da aids no Brasil.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m ocorreu no passado, hoje vive-se uma (outra) revolu\u00e7\u00e3o sexual que vem moldando comportamentos entre adolescentes, jovens e adultos jovens, num campo de afirma\u00e7\u00e3o pessoal no qual convivem distintas identidades de g\u00eanero. Essa revolu\u00e7\u00e3o perpassa toda a sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que a\u00e7\u00f5es preventivas para conter a contamina\u00e7\u00e3o por HIV perdem espa\u00e7o. E mais: cresce uma esp\u00e9cie de grande interdi\u00e7\u00e3o moral em torno do debate sobre temas ligados \u00e0 sexualidade humana. &#8220;O resultado disso \u00e9 que estamos formando uma gera\u00e7\u00e3o totalmente incompetente para lidar com o HIV&#8221;, diz Grangeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem sido f\u00e1cil explicar essa interdi\u00e7\u00e3o. Segundo vis\u00f5es mais restritivas, sejam elas guiadas por cren\u00e7as religiosas, heran\u00e7as culturais ou interesses pol\u00edticos, s\u00f3 existem duas representa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de g\u00eanero &#8211; masculino e feminino. Supor algo al\u00e9m disso seria alimentar a &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221;, express\u00e3o muito em voga nos dias atuais.<\/p>\n<p>Essa ideologia abriria uma perigosa trilha da aceita\u00e7\u00e3o do outro tal como ele \u00e9, ou como venha a se definir, escapando, portanto, da dualidade masculino\/feminino. Como a realidade sempre acaba superando modelos e interdi\u00e7\u00f5es, tem sido inevit\u00e1vel cruzar um imenso campo de tens\u00f5es quando se tenta entender por que, apesar de tantos avan\u00e7os, a aids ainda \u00e9 uma grave amea\u00e7a no Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase 30 anos a USP abriga uma entidade reconhecida nacional e internacionalmente, o N\u00facleo de Estudos para a Preven\u00e7\u00e3o da Aids (Nepaids). Trata-se de um instituto interdisciplinar que desenvolve an\u00e1lises, pesquisas de campo e tecnologias inovadoras para o combate ao HIV\/aids. Um de seus integrantes \u00e9 a psic\u00f3loga e educadora Vera Paiva, professora titular do Departamento de Psicologia Social da USP, que atualmente coordena um programa educativo de preven\u00e7\u00e3o em escolas p\u00fablicas de S\u00e3o Paulo e do Distrito Federal.<\/p>\n<p>O programa leva a alunos do ensino m\u00e9dio informa\u00e7\u00e3o abalizada sobre sexualidade e vida reprodutiva, numa perspectiva laica que conjuga n\u00e3o s\u00f3 o respeito a diferentes credos, mas o respeito a princ\u00edpios \u00e9ticos, valores democr\u00e1ticos e direitos humanos. Pois com todo esse aparato formal, ainda assim Vera admite: n\u00e3o tem sido nada f\u00e1cil informar e sensibilizar a juventude sobre os riscos de infec\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 tempos v\u00ednhamos percebendo uma mudan\u00e7a na sociedade brasileira, ligada \u00e0 religiosidade. O Brasil, que soube dar uma resposta de alto n\u00edvel \u00e0 epidemia da aids nos anos 1990, valendo-se da no\u00e7\u00e3o de acolhimento do outro e somando for\u00e7as com cat\u00f3licos, protestantes, evang\u00e9licos, judeus, praticantes de cultos afro e outros, a partir de 2008 come\u00e7ou a fazer uma inflex\u00e3o em sentido oposto&#8221;, afirma. &#8220;Em vez da abordagem do acolhimento, vimos emergir a abordagem da culpabiliza\u00e7\u00e3o do portador do v\u00edrus. H\u00e1 casos at\u00e9 de persegui\u00e7\u00e3o a essas pessoas. Para n\u00f3s, a religiosidade que ajuda na preven\u00e7\u00e3o \u00e9 a do acolhimento, da diversidade.&#8221;<\/p>\n<p>Essa &#8220;inflex\u00e3o&#8221; a que se refere a pesquisadora repercute no processo de forma\u00e7\u00e3o dos jovens. No Brasil, a m\u00e9dia de idade para o in\u00edcio da vida sexual se d\u00e1 entre 14 e 15 anos &#8211; e n\u00e3o \u00e9 muito diferente da encontrada na maioria dos pa\u00edses ocidentais. Ao fim do ensino m\u00e9dio, cerca de 90% dos estudantes brasileiros j\u00e1 tiveram rela\u00e7\u00f5es sexuais. &#8220;Mesmo que as religi\u00f5es queiram retardar esse in\u00edcio, uma vez que a vida sexual come\u00e7ou, ela segue&#8221;, diz Vera. Jovens ainda virgens nessa faixa et\u00e1ria, segundo relatos colhidos pelo n\u00facleo, tornam-se alvos de &#8220;bullying&#8221; dos colegas, porque s\u00e3o considerados fora da norma.<\/p>\n<p>Com uma crescente onda conservadora opondo obst\u00e1culos a que estudantes recebam informa\u00e7\u00e3o sobre sexualidade nas escolas, mais e mais acaba sobrando para a fam\u00edlia a responsabilidade de &#8220;educar&#8221; filhos em temas bem complexos &#8211; entre eles, a preven\u00e7\u00e3o da aids e outras tantas doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, os riscos da gravidez indesejada, a viol\u00eancia de g\u00eanero. Curiosamente, esses obst\u00e1culos aparecem tanto na rede p\u00fablica quanto na rede privada de ensino.<\/p>\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que a maioria dos pais pede essa forma\u00e7\u00e3o, ainda que num curso optativo, como o que oferecemos, ao contr\u00e1rio do que acontece em pa\u00edses como a Alemanha, onde \u00e9 curso obrigat\u00f3rio&#8221;, afirma Vera. &#8220;A verdade \u00e9 uma s\u00f3: os pais sabem que n\u00e3o est\u00e3o preparados para abordar esses assuntos. Acham muito dif\u00edcil acessar a intimidade dos filhos e sentem-se angustiados com a dissemina\u00e7\u00e3o da pornografia, pedofilia e outras formas de abuso pela internet, sem poder controlar o acesso que os jovens t\u00eam a esse universo.&#8221;<\/p>\n<p>Pesquisadores do Nepaids n\u00e3o t\u00eam d\u00favida: hoje crian\u00e7as e adolescentes se &#8220;iniciam&#8221; na vida sexual guiados pelo que veem e descobrem em seus celulares e computadores. E, na maior parte das vezes, o que veem e descobrem passa longe de uma boa forma\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, Vera Paiva afirma que apenas cursos ministrados por profissionais capacitados far\u00e3o frente aos desafios atuais. &#8220;Aulas de biologia n\u00e3o d\u00e3o conta do recado. Idem para prega\u00e7\u00f5es religiosas&#8221;, afirma. Como constatou no projeto que coordena, em escolas que oferecem programas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 aids, o \u00edndice de gravidez indesejada na adolesc\u00eancia cai ao n\u00edvel zero. Por outro lado, hoje, por falta de informa\u00e7\u00e3o, meninas usam a p\u00edlula do dia seguinte para evitar a gravidez, mas se descuidam do uso do preservativo, para prevenir a contamina\u00e7\u00e3o por HIV.<\/p>\n<p>&#8220;Preven\u00e7\u00e3o \u00e9 trabalho complexo. N\u00e3o adianta martelar os ouvidos dos jovens dizendo &#8216;tem que usar camisinha, tem que usar camisinha&#8217;, porque isso n\u00e3o funciona&#8221;, afirma o antrop\u00f3logo americano Richard Parker, professor em\u00e9rito da Columbia University e presidente da Abia (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids). Ele foi autor do primeiro artigo antropol\u00f3gico sobre aids numa revista de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, &#8220;Medical Antropology Quartely&#8221;, em 1987. Enveredou por esse caminho quando muitos colegas seus eram marginalizados &#8211; falar de aids n\u00e3o era coisa s\u00e9ria no meio acad\u00eamico. Continua seguindo de perto os desdobramentos da epidemia no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Infelizmente, o pa\u00eds desmontou muitas das suas a\u00e7\u00f5es educativas no campo da preven\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos, preferindo investir no modelo biom\u00e9dico do tipo &#8216;testou, tratou&#8217;: se for soropositivo, coloca-se o indiv\u00edduo em tratamento para reduzir ao n\u00edvel m\u00ednimo a carga viral e assim inibir a transmiss\u00e3o. S\u00f3 que essa estrat\u00e9gia resolve uma parte do problema, n\u00e3o resolve tudo&#8221;, adverte Parker. A come\u00e7ar pelo fato de que, no plano individual, n\u00e3o se pode for\u00e7ar uma pessoa a se submeter a qualquer tratamento; e, no plano geral, a pol\u00edtica da testagem n\u00e3o desfaz a teia de vulnerabilidades sociais que envolve &#8211; e alimenta &#8211; a epidemia.<\/p>\n<p>Para a comunidade internacional de combate ao HIV\/aids, o Brasil foi durante longo tempo um modelo a ser seguido. Nos anos 90, quebrando patentes de laborat\u00f3rios, o pa\u00eds bancou a distribui\u00e7\u00e3o universal e gratuita das drogas retrovirais por meio do SUS. Formou-se ali um s\u00f3lido campo de a\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gicas, aliado a um ativismo social exuberante, gerando o que se convencionou chamar de &#8220;resposta brasileira \u00e0 epidemia&#8221; &#8211; interdisciplinar, plural, democr\u00e1tica, \u00e9tica.<\/p>\n<p>Uma resposta que nada tinha a ver com o preconceito disseminado em rela\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00f5es infectadas na \u00c1frica. Nem com o estere\u00f3tipo pejorativo de &#8220;peste gay&#8221;. A experi\u00eancia brasileira criou um standard: para combater a epidemia, seria fundamental entend\u00ea-la em todas as suas dimens\u00f5es, passando por representa\u00e7\u00f5es sociais, culturais, econ\u00f4micas e religiosas, encarando o fen\u00f4meno persistente da desigualdade e mantendo um olhar especial sobre os direitos humanos.<\/p>\n<p>Foi com esse arcabou\u00e7o que o Brasil se fez ouvir: no ano 2000, no Congresso Mundial de Aids em Durban, na \u00c1frica do Sul, o pa\u00eds foi protagonista n\u00e3o s\u00f3 pelo n\u00famero de participantes, mas pela alta qualidade das interven\u00e7\u00f5es. J\u00e1 em 2018, no mesmo congresso em Amsterd\u00e3, na Holanda, o Brasil deu ares de grande ausente. E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8220;Eu diria que, ao longo do processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 os governos Lula, tivemos d\u00e9cadas de avan\u00e7o continuado. Com a presidente Dilma Rousseff, o que vimos foi a aids virar moeda de troca para bancadas religiosas no parlamento&#8221;, avalia Richard Parker, ressalvando que o governo Temer at\u00e9 recuperou um pouco do terreno perdido.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o tem sido compartilhada por parte da comunidade cient\u00edfica e entidades que atuam nesse campo: nos anos Dilma, para aprovar mat\u00e9rias de interesse do Executivo em troca de uma governabilidade que ao fim se provou insustent\u00e1vel, acordos teriam sido fechados na tentativa de salvaguardar interesses oficiais e, ao mesmo tempo, atender a interesses religiosos. Tais acordos resultaram em censura a campanhas de informa\u00e7\u00e3o, interdi\u00e7\u00e3o de materiais pedag\u00f3gicos para preven\u00e7\u00e3o, interrup\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es educativas e redu\u00e7\u00e3o de verbas para pesquisas.<\/p>\n<p>Como refor\u00e7a a antrop\u00f3loga Sonia Corr\u00eaa em artigo para a colet\u00e2nea &#8220;Aids, Mitos e Verdades&#8221;, publicada pela Abia, esse ativismo pol\u00edtico-religioso se fez notar, alto e bom som, nos in\u00fameros votos em nome de Deus e da fam\u00edlia de parlamentares a favor do impeachment de Dilma. Sobre a din\u00e2mica que torna o Executivo ref\u00e9m de negocia\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis com esses legisladores, Sonia acrescenta: &#8220;(&#8230;) tem impactado negativamente as pol\u00edticas p\u00fablicas de v\u00e1rios campos moralmente sens\u00edveis, como sa\u00fade e direitos reprodutivos, HIV e aids, educa\u00e7\u00e3o em sexualidade&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2011, o Executivo suspendeu a distribui\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos criados para combater a homofobia. Foram apelidados de &#8220;kit gay&#8221; e deram combust\u00e3o a discursos conservadores. No ano seguinte, houve censura do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade \u00e0 campanha de preven\u00e7\u00e3o ao HIV para o Carnaval. Em 2013, nova censura para campanha dirigida a prostitutas, determina\u00e7\u00e3o que teria levado o ent\u00e3o diretor do Departamento de HIV, Aids e Hepatites Virais a pedir exonera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda observando a guinada conservadora, calcula-se que o n\u00famero de evang\u00e9licos no Brasil hoje beire 43 milh\u00f5es de pessoas. Considerando o ritmo com que se multiplicam, poder\u00e3o vir a constituir a maioria religiosa no pa\u00eds &#8211; que ainda \u00e9 a grande na\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica do mundo &#8211; antes de 2030. Nesse vasto universo de pastores e buscadores da f\u00e9, h\u00e1 igrejas hegem\u00f4nicas como a Assembleia de Deus, com mais de 12 milh\u00f5es de fi\u00e9is, fincando posturas r\u00edgidas no campo da sexualidade. A homossexualidade, por exemplo, \u00e9 transferida para o terreno do pecado, da transgress\u00e3o. Portadores do HIV precisariam ser &#8220;regenerados&#8221; &#8211; f\u00edsica e espiritualmente.<\/p>\n<p>&#8220;As consequ\u00eancias desse tipo de discurso s\u00e3o vis\u00edveis. Temos hoje mais homofobia, mais estigmatiza\u00e7\u00e3o, mais preconceito, e, o que \u00e9 dram\u00e1tico, menos preven\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Grangeiro, relembrando a declara\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidenci\u00e1vel Jair Bolsonaro de que n\u00e3o corria o risco de ter um filho gay por ter educado bem os seus. &#8220;Ao contr\u00e1rio do que se diz por a\u00ed, hoje precisamos de muito mais esclarecimento sobre como combater a transmiss\u00e3o do v\u00edrus. E estamos perdendo aquele momento em que os programas de preven\u00e7\u00e3o ainda respondem bem.&#8221;<\/p>\n<p>Por dogm\u00e1ticas que possam ser, religi\u00f5es n\u00e3o impedem o aparecimento de discursos alternativos a seus c\u00e2nones. Hoje j\u00e1 se estuda o fen\u00f4meno do &#8220;pentecostalismo inclusivo&#8221;. S\u00e3o igrejas dissonantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prega\u00e7\u00e3o de muitas evang\u00e9licas. Nesses templos, como a Igreja da Comunidade Metropolitana de S\u00e3o Paulo ou a Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea do Rio, acolhe-se o &#8220;crist\u00e3o gay&#8221; sem conden\u00e1-lo aos por\u00f5es do inferno.<\/p>\n<p>Em trabalho acad\u00eamico bastante original, o cientista social Marcelo Tavares Natividade, da Universidade Federal do Cear\u00e1, estuda como o homossexual que \u00e9 fiel das igrejas inclusivas pode vivenciar a passagem da criatura deformada para a criatura transformada, em ambiente em que o respeito \u00e0 diferen\u00e7a consegue ser mantido. Ser gay faz parte do humano e do divino, conclui o pesquisador em seu estudo.<\/p>\n<p>J\u00e1 a tem\u00e1tica da sexualidade, na hierarquia cat\u00f3lica, continua a esbarrar numa conhecida muralha de resist\u00eancias &#8211; entre elas, o veto aos programas de distribui\u00e7\u00e3o de camisinhas. Mesmo o papa Francisco, t\u00e3o firme no combate \u00e0 pedofilia dentro da igreja e que perguntou publicamente &#8220;quem sou eu para julgar os gays?&#8221;, emite sinais contradit\u00f3rios ao falar para pais de crian\u00e7as e jovens com tend\u00eancia homossexual &#8211; numa recente visita \u00e0 Irlanda, recomendou que fam\u00edlias procurem a ajuda de psiquiatras.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que, passadas quase quatro d\u00e9cadas de conviv\u00eancia com o v\u00edrus, parece imposs\u00edvel tentar enfrent\u00e1-lo tratando a homossexualidade como doen\u00e7a ou pecado. Defensor das pol\u00edticas estruturadas de preven\u00e7\u00e3o, dom Paulo Evaristo Arns, cardeal e arcebispo em\u00e9rito de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o titubeou a se pronunciar logo nos primeiros tempos da epidemia: &#8220;Entre o preservativo e a vida, sou pela vida&#8221;. E, em 2000, l\u00e1 estava ele, inaugurando o primeiro semin\u00e1rio &#8220;Aids e os Desafios para a Igreja no Brasil&#8221;, ao lado do ent\u00e3o ministro da Sa\u00fade, Jos\u00e9 Serra, e do sanitarista Paulo Teixeira. Sua postura respaldou a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Pastoral DST-Aids, que passou a atuar de forma ecum\u00eanica.<\/p>\n<p>Mas nem todas as tens\u00f5es ocorrem no terreno da f\u00e9. Muitos estudiosos sinalizam a necessidade de buscar novas abordagens para conter a transmiss\u00e3o do v\u00edrus, em tempos de drogas e tratamentos eficazes, por\u00e9m, de baixa preven\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio da epidemia, era poss\u00edvel colher dados de vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica simplesmente a partir do n\u00famero de casos diagnosticados &#8211; at\u00e9 porque eles acabavam levando a \u00f3bito. Hoje isso n\u00e3o ocorre: a expectativa de vida de um soropositivo que se trata corretamente pode ser muito parecida com a de um soronegativo. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a epidemia est\u00e1 sob controle.<\/p>\n<p>No Brasil, cerca de 90% das pessoas em tratamento, mesmo as que t\u00eam planos privados de sa\u00fade, procuram o SUS para obter os retrovirais &#8211; \u00e9 um processo mais simples e menos oneroso do que importar medicamentos, por exemplo. Tamb\u00e9m s\u00e3o oferecidas na rede de sa\u00fade duas metodologias de preven\u00e7\u00e3o que se revelam bem eficientes &#8211; a Profilaxia P\u00f3s-Exposi\u00e7\u00e3o ao HIV (PEP) e a Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o ao HIV (PrEP).<\/p>\n<p>A primeira consiste em tomar a droga retroviral em at\u00e9 72 horas ap\u00f3s a rela\u00e7\u00e3o, por 28 dias. A segunda, de uso cont\u00ednuo, \u00e9 indicada para pessoas que n\u00e3o conseguem se adaptar ao preservativo ou para casais onde um parceiro \u00e9 soropositivo. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que esses retrovirais revolucionaram a resposta ao HIV&#8221;, afirma Grangeiro. &#8220;Quem faz uso deles de forma orientada n\u00e3o adoece e nem transmite, al\u00e9m de ter uma qualidade de vida satisfat\u00f3ria. Mas os m\u00e9dicos ainda t\u00eam receio de dar esse tipo de informa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>As raz\u00f5es desse receio t\u00eam suas justificativas &#8211; os medicamentos dispon\u00edveis chegam a zerar a carga viral, mas n\u00e3o curam; vacinas t\u00eam sido testadas, mas todas com resultados relativos; o tratamento com retrovirais precisa ser muito controlado, o que demanda um tipo de acompanhamento cl\u00ednico ao qual a grande maioria dos brasileiros n\u00e3o tem acesso; as metodologias preventivas exigem, cada vez mais, profissionais habilitados, portanto, falta investir em forma\u00e7\u00e3o; por fim, n\u00e3o d\u00e1 mesmo para imaginar que est\u00e1 tudo resolvido.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos longe do fim. N\u00e3o adianta pensar que abordagens biom\u00e9dicas v\u00e3o dar conta de tudo. Nem supor que essa onda conservadora vai vencer a epidemia. Precisamos urgentemente de mais informa\u00e7\u00e3o, pesquisa, respeito \u00e0 diversidade, compromisso com direitos e, sobretudo, mais mobiliza\u00e7\u00e3o social&#8221;, afirma Richard Parker. Desse grande mix, imagina o antrop\u00f3logo, podem sair novos modelos de preven\u00e7\u00e3o combinada, onde a ci\u00eancia e a cl\u00ednica m\u00e9dica caminhar\u00e3o lado a lado com uma sociedade mais esclarecida, mais mobilizada, mais democr\u00e1tica. Essa parece ser a conversa da vez para quem quer falar s\u00e9rio de aids no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nota Reda\u00e7\u00e3o: na vers\u00e3o impressa, este texto foi publicado com o t\u00edtulo Banaliza\u00e7\u00e3o do mal<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.valor.com.br\/cultura\/6059653\/aids-ainda-e-uma-grave-ameaca-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Valor Econ\u00f4mico<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Laura Greenhalgh | Para o Valor, de S\u00e3o Paulo &nbsp; Estat\u00edsticas traduzem fielmente a realidade quando apreciadas de maneira din\u00e2mica, e n\u00e3o como<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":17384,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[60,317,107,147,155,320,246,323,328],"class_list":{"0":"post-22616","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-noticias-e-analises","8":"tag-brasil","9":"tag-conservadorismos","10":"tag-direitos-sexuais","11":"tag-genero","12":"tag-hivaids","13":"tag-lgbtqia","14":"tag-saude","15":"tag-sexualidades","16":"tag-trabalho-sexual-prostituicao"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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