{"id":22499,"date":"2018-01-26T17:11:12","date_gmt":"2018-01-26T19:11:12","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2018\/01\/26\/2017-o-ano-das-bruxas-em-acao\/"},"modified":"2024-02-07T11:50:27","modified_gmt":"2024-02-07T14:50:27","slug":"2017-o-ano-das-bruxas-em-acao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/2017-o-ano-das-bruxas-em-acao\/22499","title":{"rendered":"2017, o ano das bruxas em a\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Esse artigo foi originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o 126 do\u00a0<a href=\"http:\/\/diplomatique.org.br\/2017-o-ano-das-bruxas-em-acao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Le Monde Diplomatique Brasil<\/a> no dia 8 de janeiro de 2018.<\/em><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: right\"><em>por\u00a0Carla Rodrigues<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2018\/01\/lemonde.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-8006 alignleft\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/lemonde-277x300-1.png\" alt=\"lemonde\" width=\"247\" height=\"267\" \/><\/a>Era o dia seguinte ao 8 de Mar\u00e7o de 2017 e \u00e0 greve geral convocada pelas mulheres contra o atual governo, cuja crise institucional se arrasta desde a retirada da presidenta Dilma Rousseff da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Caminhava por uma cal\u00e7ada estreita no centro do Rio de Janeiro quando cruzaram comigo dois homens. De um deles ouvi, enquanto passava por mim: \u201cMas essas mulheres t\u00eam de sair da rua, essas mulheres est\u00e3o fazendo muito barulho\u201d. A adversativa com que a frase parecia come\u00e7ar indicava uma contrariedade, quase um desgosto. Agora, que aos homens que usurparam o poder parecia haver alguma chance de fazer as tais reformas exigidas pela abstrata entidade chamada mercado, enfim havia aparecido no radar pol\u00edtico daquele executivo a inc\u00f4moda categoria \u201cmulheres que protestam\u201d.<\/p>\n<p>De debacle em debacle, o governo Temer chega a 2018 \u2013 que legalmente deve ser seu \u00faltimo ano \u2013 sem ter come\u00e7ado, em que pesem os sucessivos golpes que se seguiram, seja na universidade, nas leis trabalhistas, na pol\u00edtica de sa\u00fade mental, nas artes e na cultura. Mas \u2013 e repito a adversativa como provoca\u00e7\u00e3o \u2013 a a\u00e7\u00e3o das mulheres na pol\u00edtica nunca esteve t\u00e3o em evid\u00eancia. Se fosse para escolher uma \u00fanica imagem para representar 2017, apontaria para a que mais parece nos ofender: uma bruxa sendo queimada, uma enorme boneca de pano mimetizando a fil\u00f3sofa feminista Judith Butler no tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 um Brasil que caminha c\u00e9lere para as trevas, \u00e9 ali mesmo onde h\u00e1 cinzas que, a cada vez, os movimentos feministas atuam, resistem, existem. \u00c9 nesse sentido que se pode tomar a pol\u00edtica feminista como a mais forte manifesta\u00e7\u00e3o ao contra-ataque conservador que tem varrido a pol\u00edtica brasileira. Em grande medida, porque as mulheres s\u00e3o o alvo mais fr\u00e1gil ao ataque, mas ali mesmo onde seria a nossa maior fraqueza estamos tamb\u00e9m na ponta mais forte de resist\u00eancia. Para isso, \u00e9 preciso pensar a pol\u00edtica como um jogo de for\u00e7as ativas e reativas, uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre avan\u00e7os e recuos, em que cada passo adiante amea\u00e7a e, portanto, provoca novas viol\u00eancias. Nesse ir e vir, no fluxo e no refluxo das for\u00e7as, justifica-se a contabilidade dos movimentos feministas em ondas.\u00b9<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande controv\u00e9rsia sobre essa divis\u00e3o. Embora a estrat\u00e9gia esteja estabelecida como forma de marcar os momentos de maior intensidade das lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, o fato \u00e9 que, se tomarmos a onda como uma met\u00e1fora, correremos sempre o risco de estar come\u00e7ando de novo, porque as ondas varrem do solo as marcas do passado. Haveria ainda uma interpreta\u00e7\u00e3o pior: \u201cisso \u00e9 onda\u201d, forma jocosa de se referir \u00e0 pol\u00edtica feminista como aquilo que, por s\u00f3 interessar \u00e0s mulheres, n\u00e3o teria nenhuma import\u00e2ncia no cen\u00e1rio de disputa de poder nacional e internacional. Minha hip\u00f3tese \u00e9 oposta e parte do princ\u00edpio de que fazer pol\u00edtica feminista tem sido, em todas essas ondas hist\u00f3ricas, trazer ao debate p\u00fablico os temas mais candentes para a sociedade. E justamente por isso as for\u00e7as conservadoras insistem em nos dizer que \u201cestamos fazendo muito barulho\u201d, porque estamos afirmando que os problemas de g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o meras quest\u00f5es regionais, muito ao contr\u00e1rio, s\u00e3o o ponto central a partir do qual se pode colocar em pauta o interesse comum.<\/p>\n<p>A cada reivindica\u00e7\u00e3o dos feminismos, em geral empurrada para escanteio como uma demanda espec\u00edfica, equivale uma pauta global, o que me permite defender que a luta contra a opress\u00e3o das mulheres \u00e9 a pr\u00f3pria luta contra a opress\u00e3o. Tomo em defesa da minha hip\u00f3tese a expans\u00e3o dos feminismos negros como o melhor exemplo: a estrutura racista do Estado brasileiro \u00e9 fundante na desigualdade entre pessoas brancas e pessoas negras, ent\u00e3o \u00e9 fundamental denunciar, confrontar e enfrentar o racismo presente nas rela\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o \u00e9 outra coisa o que as mulheres negras est\u00e3o fazendo nas ruas, nas marchas nacionais, na Marcha do Orgulho Crespo, exibindo seus cabelos rebeldes aos processos de embranquecimento que s\u00e3o marca da viol\u00eancia hist\u00f3rica do Estado brasileiro contra o corpo das pessoas negras.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Michel Foucault afirma que o Estado s\u00f3 consegue garantir sua fun\u00e7\u00e3o de assassino se funcionar, \u201cno modo do biopoder, pelo racismo\u201d. O que ele definiu como biopoder \u00e9 forma pol\u00edtica de controle sobre os corpos, controle que, do meu ponto de vista, se d\u00e1 preferencialmente sobre os corpos marcados pela subalternidade, ou, para falar como Michelle Perrot, sobre os exclu\u00eddos da hist\u00f3ria: oper\u00e1rios, mulheres e prisioneiros. Por isso, faz sentido pensar que o corpo das mulheres \u00e9 o alvo preferencial do biopoder, do constrangimento de suas a\u00e7\u00f5es e liberdade. Se \u00e9 verdade que as mulheres s\u00e3o o primeiro alvo do biopoder, pode ser verdade tamb\u00e9m que os feminismos s\u00e3o a constitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da resist\u00eancia a esse controle estatal sobre os corpos. Nas quatro grandes ondas da hist\u00f3ria dos movimentos feministas, a liberdade do corpo contra a opress\u00e3o do Estado \u00e9 centro da disputa.<\/p>\n<p>Foi assim na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, quando as mulheres denunciaram que o corpo feminino estava exclu\u00eddo da concep\u00e7\u00e3o de universalidade; foi assim quando as sufragistas lutaram para ter seu corpo contado como eleitoras e, com isso, aprimoraram os sistemas de representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica; tem sido assim desde a segunda metade do s\u00e9culo XX, quando a segunda onda feminista se levantou contra a viol\u00eancia exercida sobre o corpo das mulheres e a terceira onda permitiu perceber que a viol\u00eancia \u00e9 contra todo corpo que carregue a marca da feminilidade, sobremarcada por ra\u00e7a, classe, religi\u00e3o, lugar de moradia e\/ou nascimento, idade, sexualidade, idioma e uma infinidade de indicadores que refor\u00e7am as estrat\u00e9gias do biopoder e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Para falar da quarta onda feminista, retomo a primeira Marcha das Vadias, realizada em 2011 no Canad\u00e1 e em diversos outros pa\u00edses que imediatamente aderiram, inclusive o Brasil.\u00b2 Foi puxada por jovens estudantes canadenses que, diante da reivindica\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o policial contra os estupros ocorridos em torno do campus da universidade, ouviram do chefe de pol\u00edcia: \u201cSe n\u00e3o querem ser estupradas, n\u00e3o saiam na rua vestidas como vadias\u201d. As mulheres se mobilizaram valendo-se da estrat\u00e9gia que o movimento\u00a0<em>queer<\/em>\u00a0j\u00e1 havia adotado: subverter o termo \u201cvadia\u201d de sua conota\u00e7\u00e3o negativa para us\u00e1-lo de forma debochada contra a viol\u00eancia que ele pretende perpetrar. A participa\u00e7\u00e3o do movimento de legaliza\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o foi importante para refor\u00e7ar a pauta da descriminaliza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o, numa din\u00e2mica muito pr\u00f3pria dos feminismos brasileiros: a articula\u00e7\u00e3o entre as reivindica\u00e7\u00f5es globais e os itens do debate local.<\/p>\n<p>A resposta do policial de Toronto \u00e9 apenas a face mais evidente da opress\u00e3o sobre o corpo da mulher, que deve ser mantido sob controle, enquanto o do homem pode e deve gozar do imperativo da liberdade absoluta. Contra essa forma estrutural de viol\u00eancia, manifesta em diferentes fen\u00f4menos, uma nova gera\u00e7\u00e3o de mulheres come\u00e7ou a retomar as ruas, in\u00fameros coletivos de jovens feministas se organizaram, inclusive nas universidades e escolas p\u00fablicas de ensino m\u00e9dio, como t\u00e3o bem mostra o document\u00e1rio Primavera das mulheres, de Antonia Pellegrino.\u00b3<\/p>\n<p>Era setembro de 2015 quando manifesta\u00e7\u00f5es ocuparam ruas, pra\u00e7as e redes sociais para pedir, no grito de #ForaCunha, a queda do presidente da C\u00e2mara que, naquele momento, al\u00e9m de autor do Projeto de Lei n. 5.069 \u2013 que volta a exigir boletim de ocorr\u00eancia para o atendimento, na rede p\u00fablica, das mulheres v\u00edtimas de estupro que desejem realizar o aborto legal \u2013, era um dos mentores do golpe que viria a derrubar, poucos meses depois, a presidenta Dilma.<\/p>\n<p>O PL de Cunha era apenas um sinal de como os retrocessos na pol\u00edtica apontavam para o corpo das mulheres em primeiro lugar. Em dezembro de 2017, foi a vez da PEC 181, cujo objetivo original era ampliar o direito \u00e0 licen\u00e7a maternidade em casos de nascimento de beb\u00eas prematuros. Depois, foi transformada num projeto que visa \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do aborto em casos j\u00e1 autorizados por lei, como estupro, anencefalia fetal e risco de morte para a m\u00e3e. Na contraofensiva, um grupo de organiza\u00e7\u00f5es feministas organizou um manifesto p\u00fablico no qual 270 mulheres, inclusive eu, declararam j\u00e1 ter realizado aborto e apoiaram a decis\u00e3o da jovem Rebeca Mendes, cujo recurso ao STF pedindo autoriza\u00e7\u00e3o para interrup\u00e7\u00e3o de gravidez foi negado.<\/p>\n<p>Se a imagem de uma bruxa sendo queimada na porta do Sesc Pompeia \u00e9 exemplar de um ano poderoso, vale evocar tamb\u00e9m a publica\u00e7\u00e3o de Calib\u00e3 e a bruxa \u2013 Mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva, livro da feminista italiana Silvia Federici que conta a hist\u00f3ria do capitalismo como uma hist\u00f3ria de guerra contra as mulheres e a hist\u00f3ria da resist\u00eancia das mulheres nas Am\u00e9ricas como as \u201cprincipais inimigas do dom\u00ednio colonial\u201d. N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o que as teorias feministas no Brasil se colocam, h\u00e1 tempos, o problema da importa\u00e7\u00e3o da bibliografia feminista e a import\u00e2ncia de afirmar nossos saberes localizados, para falar como Donna Haraway.<\/p>\n<p>O campo acad\u00eamico feminista come\u00e7ou a se constituir no Brasil no final do s\u00e9culo XIX gra\u00e7as a uma dupla estrat\u00e9gia: a valida\u00e7\u00e3o dos argumentos pela emancipa\u00e7\u00e3o da mulher com base na importa\u00e7\u00e3o de pensadoras europeias \u2013 com destaque para o trabalho da educadora N\u00edsia da Floresta, tradutora da inglesa Mary Woolstonecraft no Brasil \u2013 e a inclus\u00e3o de pautas locais, como o fim da proibi\u00e7\u00e3o do ensino para mulheres. Essa disjuntiva permanece estrat\u00e9gica at\u00e9 hoje. Receber a fil\u00f3sofa Judith Butler no Brasil foi uma oportunidade de dimensionar a import\u00e2ncia que tem hoje o pensamento pol\u00edtico feminista, amea\u00e7ador a ponto de mobilizar tantas for\u00e7as reacion\u00e1rias ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Nos anos 1980, a norte-americana Susan Faludi identificou os discursos conservadores que insistiam na tese de que as feministas j\u00e1 teriam conseguido todas as conquistas de que precisavam e, pior, estavam infelizes com o ponto aonde haviam chegado. Segundo eles, estava na hora de recuar. Dentro dos movimentos feministas, no entanto, a quest\u00e3o era oposta: como ampliar as lutas? O sopro de vigor e resist\u00eancia veio com a publica\u00e7\u00e3o, em 1989, de Gender Trouble [Problemas de g\u00eanero], livro que marca a entrada de Butler no campo da teoria feminista. Inspirada principalmente pelos trabalhos das feministas Gayle Rubin e Monique Wittig, Butler trava\u00a0liga\u00e7\u00e3o entre um corpo de f\u00eamea e a constru\u00e7\u00e3o de uma pessoa do g\u00eanero feminino?<\/p>\n<p>Nesse momento, a terceira onda feminista se dobrou sobre si mesma, seguindo a proposta de Butler de que o feminismo deixasse de ser feito apenas em nome do sujeito mulher, e de sua provoca\u00e7\u00e3o surgiram novos sujeitos e a oportunidade de amplia\u00e7\u00e3o dos feminismos para al\u00e9m dos direitos das mulheres, mais uma vez sobrepondo a luta contra a opress\u00e3o das mulheres \u00e0 luta contra toda forma de opress\u00e3o. Universal e particular ao mesmo tempo, paradoxal como provoca\u00e7\u00e3o, agon\u00edstica como m\u00e9todo.<\/p>\n<p>Foi mais ou menos assim que as mulheres voltaram a ser as bruxas da hist\u00f3ria, aquelas que n\u00e3o se calam diante das opress\u00f5es e injusti\u00e7as, as que s\u00e3o queimadas e mortas \u2013 seja como met\u00e1fora, seja no alto \u00edndice de feminic\u00eddios no pa\u00eds \u2013 por denunciarem que, sem nem mesmo termos chegado a algo que pud\u00e9ssemos chamar de Estado de bem estar social, j\u00e1 estamos em furioso processo de desmonte do pouco que hav\u00edamos alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*Carla Rodrigues \u00e9 fil\u00f3sofa, professora de Filosofia (UFRJ) e pesquisadora (PPGF\/Faperj).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse artigo foi originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o 126 do\u00a0Le Monde Diplomatique Brasil no dia 8 de janeiro de 2018. por\u00a0Carla Rodrigues Era o dia seguinte<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":16851,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[60,106,139,147,164,353,238],"class_list":{"0":"post-22499","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-noticias-e-analises","8":"tag-brasil","9":"tag-direitos-reprodutivos","10":"tag-feminismos","11":"tag-genero","12":"tag-igualdade-de-genero","13":"tag-raca-etnia","14":"tag-racismo"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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