{"id":22438,"date":"2017-07-30T00:19:56","date_gmt":"2017-07-30T03:19:56","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2017\/07\/30\/angela-davis-no-brasil\/"},"modified":"2024-01-30T17:42:28","modified_gmt":"2024-01-30T20:42:28","slug":"angela-davis-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/angela-davis-no-brasil\/22438","title":{"rendered":"Angela Davis no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Screen-Shot-2017-07-29-at-21.08.38.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-7542 size-full\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/Screen-Shot-2017-07-29-at-21.08.38.png\" alt=\"Screen Shot 2017-07-29 at 21.08.38\" width=\"516\" height=\"309\" \/><\/a><\/p>\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela Davis em evento realizado na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia 25 de julho de 2017 *<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho nem condi\u00e7\u00f5es de expressar a voc\u00eas o quanto estou emocionada por estar aqui nesta noite. Para mim, \u00e9 assim que deveria ser a apar\u00eancia da universidade. Quero agradecer \u00e0 \u00c2ngela Figueiredo, ao Odara. Quero agradecer tamb\u00e9m ao NEIM pelo convite para homenagear o dia 25 de julho. Essa \u00e9 minha quarta visita a Bahia e sexta ao Brasil.<\/p>\n<p>Neste momento, me sinto extremamente envergonhada por ainda n\u00e3o ter aprendido portugu\u00eas. Esse \u00e9 o meu pr\u00f3ximo projeto. Estou muito feliz por estar aqui celebrando com voc\u00eas o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Na Bahia, o Julho das Pretas. Estou muito entusiasmada por estar aqui no Brasil, especialmente porque tenho acompanhado os acontecimentos que v\u00eam se desenvolvendo dentro do movimento das mulheres negras.<\/p>\n<p>Me parece que, neste momento, o movimento das mulheres negras brasileiras representa o futuro do planeta. As mulheres negras brasileiras t\u00eam uma hist\u00f3ria extensa de envolvimento em lutas pela liberdade. Como tem sido simbolizado, por exemplo, pela Irmandade da Boa Morte. O conceito de Boa Morte nos convida a imaginar a imagem de um futuro melhor. Isso me leva a reconhecer as amplas contribui\u00e7\u00f5es das mulheres negras no Brasil e na Bahia no contexto da cultura religiosa.<\/p>\n<p>Durante a minha visita, fui honrada com a possibilidade de atender uma oficina oferecida na Irmandade e tamb\u00e9m de passar um tempo na Roda de Samba da Dona Dalva. Tive a oportunidade de aprender sobre o trabalho de Dona Dalva na preserva\u00e7\u00e3o do samba de roda. Recentemente ela recebeu um t\u00edtulo de doutora honoris causa pela Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo Baiano.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tive a oportunidade de me encontrar e conhecer a Ebomi Nice. Quero tamb\u00e9m ressaltar que h\u00e1 alguns anos fui honrada com um convite para conhecer o terreiro de M\u00e3e Stella de Ox\u00f3ssi e me encontrar com ela, que me disse sobre seus esfor\u00e7os a fim de preservar a cultura e a religiosidade dentro das tradi\u00e7\u00f5es baianas e que as mulheres negras est\u00e3o no centro dessas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como foi dito por Dulce Pereira, j\u00e1 venho ao Brasil desde 1997. Nunca vou me esquecer do encontro que ocorreu em outubro daquele ano, em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o. Tive a oportunidade de encontrar Luiza Bairros pela primeira vez. O esp\u00edrito de Luiza Bairros continua presente. Tamb\u00e9m encontrei pela primeira vez Vilma Reis e tantas outras mulheres negras maravilhosas, as quais continuo a me encontrar todas as vezes que venho ao Brasil.<\/p>\n<p>A atual visita, organizada pela professora doutora \u00c2ngela Figueiredo, foi um encontro organizado em um contexto mais amplo, um curso em Cachoeira sobre o feminismo negro decolonial. Quero agradecer a \u00c2ngela \u2014 toda vez que algu\u00e9m chama por ela, eu tamb\u00e9m olho \u2014 por me convidar para voltar a Bahia v\u00e1rias vezes. As pessoas me perguntam se eu j\u00e1 fui ao Rio de Janeiro, a S\u00e3o Paulo. N\u00e3o, mas eu venho a Bahia de novo, de novo e de novo.<\/p>\n<p>Menciono essa escola porque ela reuniu estudantes negras do Brasil, Am\u00e9rica do Sul, \u00c1frica do Sul, Canad\u00e1, Estados Unidos e Porto Rico. Ao faz\u00ea-lo, produziu concep\u00e7\u00f5es importantes que poderiam n\u00e3o ter sido disponibilizadas se esse encontro n\u00e3o tivesse ocorrido. Todas n\u00f3s, que tivemos a oportunidade de estar aqui, vindouras de outras partes do mundo, temos muita sorte de estar aqui neste momento, onde o ativismo de mulheres negras est\u00e1 em um n\u00edvel elevado e pungente.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi dito e reiterado v\u00e1rias vezes, o movimento social liderado por mulheres negras \u00e9 o movimento social mais importante do Brasil. Ap\u00f3s o golpe antidemocr\u00e1tico que resultou na deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Roussef, as mulheres negras criaram a melhor esperan\u00e7a para este pa\u00eds. Muitas de n\u00f3s, nos Estados Unidos, estamos entusiasmadas acompanhando a Marcha das Mulheres Negras no Brasil desde novembro de 2015. N\u00f3s continuamos a sentir as reverbera\u00e7\u00f5es dessa Marcha. Agora estamos no Julho das Pretas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um momento dif\u00edcil para o nosso planeta por v\u00e1rios motivos, mas, sobretudo, por termos uma guinada \u00e0 direita na Europa, nos Estados Unidos, na Am\u00e9rica dos Sul e especialmente no Brasil. N\u00e3o tenho nem como come\u00e7ar a explicar para voc\u00eas qual \u00e9 o sentimento de morar nos Estados Unidos onde Donald Trump \u00e9 presidente. Mas n\u00e3o devemos nos esquecer que, um dia ap\u00f3s a posse de Trump, o movimento de mulheres levou para Washington tr\u00eas vezes mais pessoas que o n\u00famero que participou da cerim\u00f4nia de posse. Estima-se que mais de cinco milh\u00f5es de pessoas participaram da Marcha das Mulheres contra Trump no mundo, inclusive na Ant\u00e1rtida.<\/p>\n<p>A Marcha das Mulheres em Washington foi liderada por mulheres negras, latinas, asi\u00e1ticas, ind\u00edgenas, mu\u00e7ulmanas, e tamb\u00e9m mulheres brancas. Nos encontramos em Washington, por todo o mundo e todos os pa\u00edses, para dizer que n\u00f3s resistiremos. Todos os dias da presid\u00eancia de Trump, n\u00f3s resistiremos. N\u00f3s resistiremos ao racismo, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista, ao hetero patriarcado. N\u00f3s resistiremos ao preconceito contra o Isl\u00e3, ao preconceito contra as pessoas com defici\u00eancia. N\u00f3s defenderemos o meio ambiente contra os insistentes ataques predat\u00f3rios do capital. Aqui em Salvador, no dia 25 de julho, dedicado \u00e0s mulheres negras na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, afirmamos ainda de forma mais forte: com a for\u00e7a e o poder das mulheres negras dessa regi\u00e3o, n\u00f3s resistiremos.<\/p>\n<p>Sabemos que as transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sempre come\u00e7am com as pessoas. Essa \u00e9 a mensagem do movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter). Quando as vidas negras realmente come\u00e7arem a ter import\u00e2ncia, isso significar\u00e1 que todas as vidas t\u00eam import\u00e2ncia. E podemos tamb\u00e9m dizer especificamente que, quando as vidas das mulheres negras importam, ent\u00e3o o mundo ser\u00e1 transformado e teremos a certeza de que todas as vidas importam.<\/p>\n<p>As lutas das mulheres negras est\u00e3o conectadas com as lutas de pessoas oprimidas em todas as partes. Com aquees que dizem \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0s pol\u00edticas anti-imigrat\u00f3rias de Trump e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de seu muro. Com aqueles que dizem \u201cn\u00e3o\u201d ao apartheid e ao muro que separa Israel da ocupa\u00e7\u00e3o Palestina. Com aqueles que dizem \u201cn\u00e3o\u201d ao racismo e \u00e0 misoginia na Col\u00f4mbia. Com aqueles que dizem n\u00e3o ao sistema de castas na \u00cdndia. Estamos em solidariedade com as mulheres Dalits em suas comunidades. Com aquelas que dizem \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 viol\u00eancia cotidiana, dom\u00e9stica e \u00edntima, que incide sobre as mulheres negras e que, geralmente, s\u00e3o impostas a elas por homens negros.<\/p>\n<p>Finalmente as mulheres negras t\u00eam sido reconhecidas pelo trabalho em manter as chamas da liberdade acesas. N\u00e3o \u00e9 o tipo de lideran\u00e7a que visa dar visibilidade ou poder a indiv\u00edduos, baseada em carisma, o individualismo masculino carism\u00e1tico. Mas \u00e9 o tipo de lideran\u00e7a que enfatiza as interven\u00e7\u00f5es coletivas e apoia as comunidades que est\u00e3o em luta. A lideran\u00e7a feminista negra \u00e9 fundamentalmente coletiva.<\/p>\n<p>Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, reconhecemos a import\u00e2ncia de confrontar a viol\u00eancia de estado. Enquanto o racismo est\u00e1 saturando todas as institui\u00e7\u00f5es \u2014 nas quest\u00f5es da moradia, do emprego, da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o \u2014 e pode ser mais dramaticamente reconhecido nos sistemas policiais e punitivos. As mulheres negras t\u00eam liderado a\u00e7\u00f5es contra a viol\u00eancia do estado, a viol\u00eancia policial e o racismo dentro do sistema carcer\u00e1rio, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.<\/p>\n<p>Tenho falado sobre a lideran\u00e7a das mulheres negras, mas eu deveria estar me referindo, na verdade, \u00e0 lideran\u00e7a feminista negra. \u00c9 necess\u00e1rio enfatizar a condi\u00e7\u00e3o da mulher negra na perspectiva de g\u00eanero e de ra\u00e7a, reconhecendo que tamb\u00e9m est\u00e1 implicado nisso classe, sexualidade e g\u00eanero, para al\u00e9m da conven\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria. Nosso foco est\u00e1 nas mulheres negras empobrecidas, inclusive as que est\u00e3o encarceradas, as queer, as trans, as com defici\u00eancia. Mas tamb\u00e9m estamos conscientes que n\u00e3o focamos na mulher negra a partir de um arcabou\u00e7o separatista, porque as mulheres negras tamb\u00e9m est\u00e3o se engajando nas lutas de outros grupos. \u00c0s vezes ao ponto de elas serem exclu\u00eddas desses movimentos.<\/p>\n<p>As mulheres negras est\u00e3o entre os grupos mais ignorados, mais subjugados e tamb\u00e9m os mais atacados deste planeta. As mulheres negras est\u00e3o entre os grupos mais sem liberdade do mundo. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres negras t\u00eam um trajet\u00f3ria hist\u00f3rica que atravessa fronteiras geogr\u00e1ficas e nacionais de sempre manter a esperan\u00e7a da liberdade viva. As mulheres negras representam o que \u00e9 n\u00e3o ter liberdade sendo, ao mesmo tempo, as mais consistentes na tradi\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o foi rompida, da luta pela liberdade, desde os tempos da coloniza\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o at\u00e9 o presente.<\/p>\n<p>Lembremo-nos de Rosa Parks, que sempre enfatizou que queria ser lembrada como uma mulher poderia ser livre, de tal forma que todas as pessoas pudessem ser livres. Lembremo-nos de Lilian Ngoyi, l\u00edder do movimento anti-apartheid na \u00c1frica do Sul, que disse, em 1956, entre as suas irm\u00e3s: \u201cAgora que atingiram as mulheres, voc\u00eas acionaram um trator e ser\u00e3o esmagados\u201d.<\/p>\n<p>Carolina Maria de Jesus nos lembrou que a fome deveria nos levar a refletir sobre as crian\u00e7as e sobre o futuro muito antes de o conceito de interseccionalidade ser utilizado. L\u00e9lia Gonzales insistiu que n\u00e3o s\u00f3 dever\u00edamos compreender a complexa inter-rela\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero, mas que dever\u00edamos ter em mente as conex\u00f5es entre os povos ind\u00edgenas e os povos negros. Essa s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es que n\u00f3s dos Estados Unidos precisamos aprender com a hist\u00f3ria do feminismo negro no Brasil.<\/p>\n<p>O que me leva a levantar o pr\u00f3ximo ponto. Existe, geralmente, a pressuposi\u00e7\u00e3o de que a forma mais avan\u00e7ada de feminismo negro \u00e9 encontrada nos Estados Unidos. \u00c9 verdade que h\u00e1 muitas figuras norte-americanas reconhecidas pelo desenvolvimento do feminismo negro. Isso n\u00e3o deveria se dar pelo entendimento de que nos Estados Unidos estamos mais avan\u00e7ados. Essa \u00e9 uma vis\u00e3o colonialista e imperialista. Na verdade, isso ocorre porque as ideias, sejam elas conservadoras ou radicais, circulam com mais facilidade a partir dos Estados Unidos do que as ideias que emanam do Brasil. N\u00e3o posso me levar t\u00e3o a s\u00e9rio assim. A meu respeito, gosto sempre de ressaltar que ningu\u00e9m jamais conheceria meu nome se pessoas de todo o mundo, inclusive do Brasil, n\u00e3o tivessem se organizado para exigir minha liberdade, no princ\u00edpio dos anos 70.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que cada uma dessas viagens que fiz ao Brasil t\u00eam me trazido novas perspectivas. Desde a primeira confer\u00eancia de L\u00e9lia Gonzales, em 1997, no Maranh\u00e3o, at\u00e9 a escola do feminismo negro decolonial da qual participei agora. A partir disso, passo a questionar o meu papel em trazer o conhecimento feminista negro para o Brasil. Passei a perceber que n\u00f3s, nos Estados Unidos, somos aquelas que precisamos aprender com os conhecimentos e as perspectivas que s\u00e3o produzidas pela longa hist\u00f3ria de luta feminista negra brasileira.<\/p>\n<p>Precisamos aprender sobre o poder feminista negro preservado dentro da tradi\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9. Precisamos aprender sobre os movimentos organizados por mulheres negras trabalhadoras dom\u00e9sticas na Bahia e no Brasil. Tive o privil\u00e9gio de conhecer Marinalva Barbosa, que \u00e9 a presidente do sindicato de trabalhadoras dom\u00e9sticas da Bahia. Temos muito a aprender com a atividade dessas mulheres.<\/p>\n<p>N\u00f3s ainda n\u00e3o conseguimos nos organizar de uma maneira bem sucedida atrav\u00e9s de sindicatos dessa categoria nos Estados Unidos, apesar do fato de que mulheres negras, trabalhadoras da limpeza, terem organizado uma greve em 1881, em Atlanta, na Ge\u00f3rgia. Mesmo apesar do fato de que nos anos 20 e 50 tenham havido esfor\u00e7os, que n\u00e3o tiveram sucesso, de organizar sindicatos dessa categoria. N\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia que Alicia Garza seja uma das mulheres co-fundadoras do movimento Vidas Negras Importam. Mesmo assim, ainda n\u00e3o temos um sindicato de trabalhadoras dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Deixem-me compartilhar com voc\u00eas algumas palavras sobre o complexo industrial carcer\u00e1rio. O Brasil tem a quarta maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, estou correta? Sendo a primeira nos Estados Unidos e depois v\u00eam R\u00fassia e China. Os Estados Unidos est\u00e1 aprisionando um quarto da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria de todo o mundo. Se olharmos para a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina, um ter\u00e7o est\u00e1 encarcerada nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Se tiv\u00e9ssemos tempo esta noite, poder\u00edamos falar mais aprofundadamente sobre como essa popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria reflete o capitalismo global e como esse sistema negligencia as necessidades humanas. Essas pessoas n\u00e3o tem acesso a moradia, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade ou qualquer outro servi\u00e7o que seja necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia. A rede carcer\u00e1ria mundial constitui um vasto dep\u00f3sito onde pessoas consideradas desimportantes s\u00e3o descartadas como lixo. Aquelas tidas como as menos importantes s\u00e3o as pessoas negras, do sul global, mu\u00e7ulmanos e mu\u00e7ulmanas, ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Quando n\u00f3s trabalhamos e lutamos contra a viol\u00eancia do estado manifestada atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas policiais e de encarceramento, afirmamos que as vidas negras importam, que as vidas ind\u00edgenas importam. A professora Denise Carrascosa, aqui da UFBA, tem liderado um projeto de mulheres dentro do sistema carcer\u00e1rio chamado \u201cCorpos ind\u00f3ceis e mentes livres\u201d, um projeto entusiasmante que reune mulheres encarceradas de tal forma que elas possam dramatizar as suas realidades, as suas vidas.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os tipos de projeto inovadores que produzem conhecimentos feministas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a liberdade e a falta de liberdade. Acabei de ser informada que a professora Carrascosa tem sido impedida de entrar no complexo penintenci\u00e1rio feminino porque ela se juntou a outras encarceradas para protestar contra o tratamento punitivo aplicado a uma mulher que foi trancafiada, sendo-lhe negado o uso de medicamentos p\u00f3s-operat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o da professora Carrascosa ter levantado a sua voz, seu projeto, que j\u00e1 dura sete anos, foi barrado. O que voc\u00eas far\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a essa situa\u00e7\u00e3o? Quero sugerir que voc\u00eas pe\u00e7am a cada uma das pessoas aqui presentes para assinar uma peti\u00e7\u00e3o exigindo que esse projeto seja reincorporado. Sabemos que nos \u00faltimos dez anos houve um aumento de 500% na taxa de encarceramento de mulheres e que dois ter\u00e7os de todas as mulheres que est\u00e3o encarceradas no Brasil s\u00e3o negras.<\/p>\n<p>Isso me leva aos meus \u00faltimos dois pontos. Um deles \u00e9 a quest\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. N\u00f3s n\u00e3o podemos excluir a viol\u00eancia dom\u00e9stica e \u00edntima das nossas teorias sobre a viol\u00eancia do estado e institucional. Frequentemente, agimos como se uma n\u00e3o tivesse rela\u00e7\u00e3o com a outra e que, se as mulheres negras s\u00e3o v\u00edtimas dessa viol\u00eancia cotidiana praticada por seus maridos e namorados, isso significa que os homens e garotos negros s\u00e3o violentos. Como podemos refletir sobre isso?<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos nos perguntar qual \u00e9 a fonte dessa viol\u00eancia que prejudica e fere tantas mulheres negras. Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o dessa viol\u00eancia com a viol\u00eancia policial e do sistema carcer\u00e1rio? Se essa viol\u00eancia do indiv\u00edduo est\u00e1 conectada com a viol\u00eancia institucional e do estado, isso significa que n\u00e3o conseguiremos erradicar a viol\u00eancia dom\u00e9stica enviando aqueles que a praticam ao sistema carcer\u00e1rio. Se desejamos erradicar as formas mais end\u00eamicas de viol\u00eancia do indiv\u00edduo da face da Terra, ent\u00e3o devemos eliminar tamb\u00e9m as fontes institucionais de viol\u00eancia. Este \u00e9 o chamado para a aboli\u00e7\u00e3o do encarceramento como a forma dominante de puni\u00e7\u00e3o para pensarmos novas formas de abordagem para aqueles que s\u00e3o violentados. Este \u00e9 o chamado do feminismo negro para formas de justi\u00e7a decoloniais.<\/p>\n<p>Meu \u00faltimo ponto diz respeito aos contantes esfor\u00e7os para conter nossa resist\u00eancia. Quando n\u00f3s resistimos, as institui\u00e7\u00f5es dominantes e, sobretudo, o estado, tentam conter a nossa resist\u00eancia. Querem transformar as nossas lutas, em estrat\u00e9gias de consolida\u00e7\u00e3o do estado. O movimento pelos direitos civis \u00e9 agora \u00e9 reivindicado pelo estado como central em suas narrativas sobre a democracia. Mas o movimento Vidas Negras Importam, principalmente na era Trump, \u00e9 considerado um insulto.<\/p>\n<p>No Brasil, agora que o mito da democracia racial foi totalmente exposto, a pergunta que se apresenta \u00e9 se o movimento de resist\u00eancia das mulheres negras pode ser apropriado. Afirmamos que, na medida em que nos levantamos contra o racismo, n\u00f3s n\u00e3o reivindicamos ser inclusas numa sociedade racista. Se dizemos n\u00e3o ao hetero-patriarcado, n\u00f3s n\u00e3o desejamos ser inclu\u00eddas em uma sociedade que \u00e9 profundamente mis\u00f3gina e hetero-patriarcal. Se dizemos n\u00e3o \u00e0 pobreza, n\u00f3s n\u00e3o queremos ser inseridas dentro de uma estrutura capitalista que valoriza mais o lucro que seres humanos.<\/p>\n<p>Se reconhecermos que aqueles que queriam resolver a quest\u00e3o da escravid\u00e3o buscavam formas mais humanas de escraviza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s estaremos utilizando a l\u00f3gica do racismo. Reconhecemos que a reivindica\u00e7\u00e3o da reforma do sistema policial e da reforma do sistema carcer\u00e1rio apenas mant\u00eam as estruturas racistas ao mesmo tempo em que finge se importar com as quest\u00f5es raciais.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que dizemos n\u00e3o ao feminismo carcer\u00e1rio e sim ao feminismo abolicionista. \u00c9 por isso que n\u00f3s convocamos essa solidariedade para al\u00e9m das fronteiras nacionais e ressaltamos que o feminismo radical negro decolonial reconhece as nossas profundas conex\u00f5es, mesmo a medida em que reconhecemos tamb\u00e9m nossas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A luta pelo acesso \u00e0 agua no Quilombo Rio dos Macacos vem sendo rotulada como \u201cterrorista\u201d. Tenho aqui em minhas m\u00e3os um apelo que v\u00eam do Quilombo Rio dos Macacos relacionada aos seus direitos humanos de acesso \u00e0 terra e \u00e0 \u00e1gua que lerei ap\u00f3s o evento. Mas o que eu quero dizer \u00e9 que as lutas que acontecem dentro dessa comunidade est\u00e3o conectadas \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es para a prote\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas contra o veneno trazido pelos dutos de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Essas lutas est\u00e3o conectadas tamb\u00e9m aos esfor\u00e7os que ocorrem em Flynn, Michigan, em expor o envenenamento das \u00e1guas nas comunidades negras. Essas lutas tamb\u00e9m est\u00e3o conectadas com as das comunidades palestinas, engajadas em defender as suas reservas de \u00e1gua, alvo constante das for\u00e7as militares de Israel. Somente atrav\u00e9s da solidariedade e da luta, n\u00f3s poderemos preservar o nosso acesso a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Quilombolas, presente!<\/p>\n<p>Finalmente, quero salientar a minha alegria em estar aqui com voc\u00eas no Brasil, Bahia, Salvador, celebrando o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Mulheres negras representam o futuro. Porque mulheres negras representam uma possibilidade real de esperan\u00e7a na liberdade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0* <\/strong>Texto que foi generosamente compartilhado por Al\u00e9xia Bretas<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transcri\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela Davis em evento realizado na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia 25 de julho de 2017 * Eu<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":16691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[84,106,107,139,147,155,320,353,238,323,328,272],"class_list":{"0":"post-22438","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-noticias-e-analises","8":"tag-criminalizacao","9":"tag-direitos-reprodutivos","10":"tag-direitos-sexuais","11":"tag-feminismos","12":"tag-genero","13":"tag-hivaids","14":"tag-lgbtqia","15":"tag-raca-etnia","16":"tag-racismo","17":"tag-sexualidades","18":"tag-trabalho-sexual-prostituicao","19":"tag-violencia"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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