{"id":22388,"date":"2017-03-07T21:09:20","date_gmt":"2017-03-08T00:09:20","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2017\/03\/07\/a-aids-e-um-problema-de-todos-entrevista-especial-com-veriano-terto-jr\/"},"modified":"2024-01-31T13:56:12","modified_gmt":"2024-01-31T16:56:12","slug":"a-aids-e-um-problema-de-todos-entrevista-especial-com-veriano-terto-jr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/a-aids-e-um-problema-de-todos-entrevista-especial-com-veriano-terto-jr\/22388","title":{"rendered":"A aids \u00e9 um problema de todos. Entrevista especial com Veriano Terto Jr."},"content":{"rendered":"\n<p><em><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564732-a-aids-e-um-problema-de-todos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Publicado originalmente no Instituto Humanitas Unisinos<\/a> em 2017<\/em><\/p>\n\n\n<p>O primeiro diagn\u00f3stico de <strong>aids<\/strong> no <strong>Brasil<\/strong> ocorreu em 1982. Depois de 35 anos, ao se lan\u00e7ar um olhar retrospectivo sobre o tema, h\u00e1 que se reconhecer muitas conquistas no enfrentamento \u00e0 epidemia decorrentes, sobretudo, da organiza\u00e7\u00e3o e da mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil. No entanto, o <strong>preconceito<\/strong> e a <strong>desinforma\u00e7\u00e3o<\/strong> seguem sendo alguns dos maiores entraves para que pessoas que vivem com <strong>HIV<\/strong> tenham tranquilidade e dignidade.<\/p>\n<p>\u201cEm plena segunda metade do s\u00e9culo 20, quando todas as <strong>doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis<\/strong> j\u00e1 tinham tratamento e cura, e a <strong>aids<\/strong> aparece como uma doen\u00e7a sexualmente transmiss\u00edvel sem tratamento e sem cura, jogando por terra o poder da medicina e toda essa cren\u00e7a da imortalidade do homem moderno. Isso s\u00e3o fatores que tornaram a <strong>aids<\/strong> uma doen\u00e7a relacionada a estigmas\u201d, afirma o psic\u00f3logo <strong>Veriano Terto J\u00fanior<\/strong> em entrevista concedida por telefone \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>. \u201cO <strong>estigma<\/strong> vem sendo apontado h\u00e1 mais de 20 anos como um grande obst\u00e1culo para a resposta ao <strong>HIV<\/strong>, e pouco temos feito em rela\u00e7\u00e3o ao enfrentamento dele.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos avan\u00e7os no tratamento cl\u00ednico da doen\u00e7a, mas o momento \u00e9 delicado por conta da escassez de recursos e do recrudescimento de pensamentos conservadores e moralistas. \u201cA maioria das entidades que lutam no enfrentamento da <strong>aids<\/strong>, as chamadas ONGs e entidades comunit\u00e1rias, encontram uma dificuldade muito grande de acesso aos fundos\u201d, lamenta <strong>Terto<\/strong>.<\/p>\n<p>O Brasil mant\u00e9m um programa universal de acesso a medicamentos <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/526306-universidades-jesuitas-pedem-o-acesso-a-tratamentos-antirretrovirais-para-todos-os-doentes-de-aids\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">antirretrovirais<\/a><\/strong>\u00a0que \u00e9 o \u201csustent\u00e1culo principal da resposta \u00e0 <strong>aids<\/strong>\u201d. Conforme <strong>Terto<\/strong>, \u201c\u00e9 um programa realmente exitoso, que trouxe resultados incr\u00edveis\u201d, mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de riscos. \u201cA <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562916-entenda-o-que-esta-em-jogo-com-a-aprovacao-da-pec-55\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PEC 55<\/a>\u00a0[Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o N\u00ba 55], com os cortes de recursos da sa\u00fade, a m\u00e9dio prazo pode trazer amea\u00e7as ao programa, porque os novos medicamentos s\u00e3o cada vez mais caros.\u201d<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo ressalta que \u201ca preven\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo cont\u00ednuo na vida das pessoas\u201d, que deve \u201cestar ligada a toda uma trajet\u00f3ria de iniciativas educativas em sa\u00fade, de apoio, de enfrentamento do estigma, para que ela possa ser sustent\u00e1vel e efetiva\u201d. No entanto, hoje em dia pouco se fala no assunto. \u201cA \u00eanfase tem sido muito grande na testagem, que \u00e9 a ideia de controle do v\u00edrus, e temos falado pouco no que est\u00e1 envolvido na sexualidade, por que uma pessoa deixa de usar a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/529672-um-terco-dos-jovens-nunca-usa-camisinha-aponta-pesquisa-da-unifesp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">camisinha<\/a>, por que ela passa a adotar a camisinha, em que momento, em que situa\u00e7\u00f5es.\u201d <strong>Veriano<\/strong> lembra que a solidariedade \u00e9 important\u00edssima no enfrentamento da epidemia e afirma categoricamente: \u201cA <strong>aids<\/strong> \u00e9 um problema de todos\u201d.<\/p>\n<div class=\"ihu-small-image-left\">\n<div class=\"news-image-credits\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/10_02Veriano.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>Veriano Terto Jr. | Foto: Arquivo pessoal<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Veriano Terto J\u00fanior<\/strong> \u00e9 psic\u00f3logo pela <strong>Universidade do Estado do Rio de Janeiro<\/strong> \u2013 <strong>UERJ<\/strong>, mestre em Psicologia pela <strong>Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro<\/strong> \u2013 <strong>PUC\/RJ<\/strong> e doutor em Sa\u00fade Coletiva pela <strong>UERJ<\/strong>. \u00c9 coordenador de projetos da <strong>Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids<\/strong> \u2013 <strong>Abia<\/strong>, entidade da qual foi coordenador-geral de 1989 a 2012.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Por que sempre houve um olhar negativo no que se refere a temas relacionados a HIV\/aids? A vincula\u00e7\u00e3o a homossexuais, a pr\u00e1ticas sexuais e a comportamentos historicamente estigmatizados influenciam no preconceito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> H\u00e1 algumas raz\u00f5es para isso. Uma delas \u00e9 que a <strong>aids<\/strong> \u00e9 uma <strong>doen\u00e7a infectocontagiosa<\/strong> por via sexual. Em geral, as doen\u00e7as infecciosas j\u00e1 trazem um estigma relacionado a uma certa ideia de impureza, pelas condi\u00e7\u00f5es nas quais um v\u00edrus ou bact\u00e9ria se transmitem. Algo que fala de impureza, de sujeira. A segunda quest\u00e3o \u00e9 que sendo transmiss\u00edvel sexualmente, a <strong>aids<\/strong> toca em um tabu da sociedade ocidental e de v\u00e1rias sociedades pelo mundo, que \u00e9 a quest\u00e3o da sexualidade. Terceiro, e em especial, toca na quest\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/514972-homossexualidade-primado-da-pessoa-e-da-relacao-entrevista-com-giannino-piana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">homossexualidade<\/a>, j\u00e1 que os primeiros casos de <strong>aids<\/strong> foram descobertos \u2013 n\u00e3o \u00e9 que come\u00e7aram \u2013 em homens homossexuais jovens e de vida sexual ativa. Por causa dos estigmas relacionados \u00e0 homossexualidade, claro que a <strong>aids<\/strong> acabou sendo associada a essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Devido aos estilos de vida da comunidade homossexual americana e de outros pa\u00edses onde a quest\u00e3o da sexualidade \u00e9 muito premente, onde h\u00e1 uma sexualidade mais livre, menos carregada de valores negativos, acabou que a <strong>aids<\/strong> foi associada n\u00e3o somente \u00e0 homossexualidade, mas a comportamentos ditos sexualmente desviantes ou sexualmente condenados por estarem fora do casamento, por ser sexo relacionado ao prazer, enfim, a comunica\u00e7\u00e3o entre pessoas. Tudo isso \u00e9 alvo de muito preconceito na sociedade ocidental. Ent\u00e3o, por essas raz\u00f5es, pelo menos, a <strong>aids<\/strong> acabou se transformando em uma epidemia tamb\u00e9m de significa\u00e7\u00f5es, uma epidemia de preconceitos, de valores e ju\u00edzos negativos em rela\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00f5es \u2014 como os homossexuais \u2014, a comportamentos, a estilos de vida pr\u00f3prios de uma sexualidade mais livre e fora do casamento, fora da norma heterossexual dominante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse tabu, h\u00e1 a quest\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=496\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">morte<\/a>. Em plena segunda metade do s\u00e9culo 20, quando todas as doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis j\u00e1 tinham tratamento e cura, a <strong>aids<\/strong> aparece como uma doen\u00e7a sexualmente transmiss\u00edvel sem tratamento e sem cura, jogando por terra o poder da medicina e toda essa cren\u00e7a da imortalidade do homem moderno. Isso s\u00e3o fatores que tornaram a <strong>aids<\/strong> uma doen\u00e7a relacionada a estigmas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Fatores como classe social, g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual e ra\u00e7a d\u00e3o diferentes configura\u00e7\u00f5es para o preconceito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Exatamente. O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/557184-o-odio-aos-lgbt-e-um-suicidio-evitado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">preconceito<\/a>, antes de mais nada, \u00e9 uma atitude, um conjunto de valores que est\u00e1 no perpetrador, aquele que vai exercer alguma a\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o contra uma pessoa com determinadas caracter\u00edsticas. Ele ter\u00e1 um modo de ver as caracter\u00edsticas de outra pessoa, e isso \u00e9 um preconceito. Esse modo, essa atitude, vai estar relacionado a classe social, <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=463\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">g\u00eanero<\/a>, proced\u00eancia, lugar de onde vem quem tem o preconceito.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quem \u00e9 mais vulner\u00e1vel \u00e0 aids atualmente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> \u00c9 dif\u00edcil colocar a resposta em termos do mais vulner\u00e1vel. Se formos olhar do ponto de vista epidemiol\u00f3gico, isso reflete tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o social na qual o grupo de <strong>jovens homossexuais<\/strong> est\u00e1 inserido. Os jovens <strong>gays<\/strong>, neste momento, s\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o em que ainda h\u00e1 um crescimento agudo e acentuado do n\u00famero de casos novos. Por outro lado, tamb\u00e9m tem a popula\u00e7\u00e3o trans, principalmente as travestis. H\u00e1 estudos iniciais que demonstram um alto \u00edndice de soropreval\u00eancia e de incid\u00eancia dentro dessa popula\u00e7\u00e3o, mas que est\u00e1 relacionado diretamente nos dois casos a situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, basicamente de condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas na qual essa popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 inserida e que a vulnerabiliza para infec\u00e7\u00f5es ao <strong>HIV<\/strong> e a outas doen\u00e7as. S\u00e3o quest\u00f5es relacionadas a estigma, a status. S\u00e3o pessoas vistas de uma maneira muito ruim, em situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o social, muitas vezes em pobreza, sem acesso a educa\u00e7\u00e3o e a escola por causa do preconceito. E, nos servi\u00e7os de sa\u00fade, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/556461-qhomofobia-e-construida-no-cotidiano-desde-a-infanciaq-afirma-psicologa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>homofobia<\/strong> <\/a>e a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/?catid=0&amp;id=542729\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">transfobia <\/a>institucional vulnerabilizam essas duas popula\u00e7\u00f5es em especial.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Nos primeiros anos, a aids era algo presente no cotidiano devido \u00e0 visibilidade das marcas da doen\u00e7a. Com o aprimoramento dos tratamentos, ela ficou menos evidente. Isso pode ser uma das explica\u00e7\u00f5es para o aumento da preval\u00eancia da infec\u00e7\u00e3o entre jovens nascidos a partir dos anos 1990, que n\u00e3o testemunharam a \u00e9poca de maior evid\u00eancia da doen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> N\u00e3o temos dados que isso efetivamente ocorra. Penso diferente. Esses jovens pegaram uma \u00e9poca em que tem muito menos campanhas, muito menos a\u00e7\u00f5es de controle da epidemia. N\u00f3s temos rem\u00e9dio, mas, efetivamente, temos uma juventude que n\u00e3o tem passado por informa\u00e7\u00f5es corretas, campanhas educativas sobre o <strong>HIV<\/strong>. N\u00f3s temos uma juventude que tem enfrentado um per\u00edodo muito conservador, em que falar de sexualidade, falar de preven\u00e7\u00e3o, de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/506989-direitos-sexuais-e-reprodutivos-da-mulher-debate-entre-estado-x-igreja\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sa\u00fade reprodutiva<\/a>, de preven\u00e7\u00e3o de <strong>DSTs<\/strong>, \u00e9 quase um tabu. Vejamos o que aconteceu recentemente, com a quest\u00e3o da reprova\u00e7\u00e3o e censura ao <strong>kit anti-homofobia<\/strong> que o pr\u00f3prio <strong>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong> e a <strong>Unesco<\/strong> [Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura] queriam colocar nas escolas brasileiras. Ao mesmo tempo em que esses jovens que nasceram nessa \u00e9poca, dos anos 1990 para c\u00e1, eles chegam \u00e0 entrada de sua vida sexual praticamente sem informa\u00e7\u00f5es sobre <strong>HIV<\/strong>, e vai se criando um ju\u00edzo que o problema s\u00e3o esses jovens, porque eles n\u00e3o veem a <strong>aids<\/strong>. Eles n\u00e3o veem a aids n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o veem pessoas doentes, mas porque n\u00e3o veem preven\u00e7\u00e3o. Um exemplo: eu fui na \u00faltima <strong>parada gay<\/strong> de <strong>Porto Alegre<\/strong> e, segundo os organizadores, havia cerca de 70 mil pessoas. N\u00e3o importa, que fossem 40 mil. H\u00e1 pelo menos 15 anos, as primeiras paradas tinham uma presen\u00e7a do governo e das ONGs com material educativo, com camisinha, com gel, barraquinhas, enfim, bal\u00f5es, que marcavam presen\u00e7a e davam visibilidade \u00e0 preven\u00e7\u00e3o. Nessa agora, n\u00e3o tinha absolutamente nada. Havia\u00a0um carro da prefeitura parado, um carro de testagem com muito pouco material, pouca gente, que n\u00e3o conseguia atingir a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia muitos jovens de 14, 15 anos, que s\u00e3o justamente as pessoas que nasceram de 2000 para c\u00e1. Naquela \u00e9poca, havia\u00a0campanhas. Em qualquer lugar de <strong>Porto Alegre<\/strong>, por exemplo, tinha informa\u00e7\u00e3o do <strong>Nuances<\/strong>, da Secretaria da Sa\u00fade. Hoje em dia, agora h\u00e1 pouco tem voltado, mas durante muitos anos, se f\u00f4ssemos aos lugares de pega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se via absolutamente nada de informa\u00e7\u00e3o. Uma cidade que tem os maiores \u00edndices de <strong>aids<\/strong> do <strong>Brasil<\/strong>, a capital mais atingida, com n\u00fameros alarmantes n\u00e3o s\u00f3 de <strong>HIV<\/strong>, mas de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/561444-ministro-da-saude-admite-que-brasil-vive-uma-epidemia-de-sifilis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00edfilis<\/a>, e n\u00e3o havia quase nada, porque as ONGs est\u00e3o com portas fechadas. O <strong>SOMOS<\/strong>, o <strong>Gapa<\/strong>, o pr\u00f3prio <strong>Nuances<\/strong>, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. A\u00ed se coloca a responsabilidade no jovem, mas a responsabilidade \u00e9 do governo tamb\u00e9m. Esse jovem apenas reflete o que a sociedade enfrenta. Se a sociedade n\u00e3o v\u00ea mais a <strong>aids<\/strong> como algo importante, se os governos n\u00e3o colocam mais a aids como algo importante, esse jovem tamb\u00e9m n\u00e3o, mesmo se ele estivesse vendo ou n\u00e3o pessoas morrendo. Nas nossas cidades, a gente v\u00ea pessoas morrendo o tempo todo por crime, atropelamento, e ningu\u00e9m deixa de ir \u00e0 rua ou de sair por causa disso. Ent\u00e3o eu tendo a n\u00e3o concordar com esse argumento de que os jovens hoje em dia s\u00e3o inconsequentes porque eles n\u00e3o viram e n\u00e3o passaram pela situa\u00e7\u00e3o aguda dos anos 80 e 90, e por isso n\u00e3o d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o ao <strong>HIV<\/strong>. Eles n\u00e3o d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o porque eles nem sabem direito o que \u00e9 preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Casos de s\u00edfilis crescem entre a popula\u00e7\u00e3o mais jovem, em decorr\u00eancia do abandono do uso do preservativo. Essa pr\u00e1tica deve refletir tamb\u00e9m em maior incid\u00eancia da aids. O que falta para os jovens n\u00e3o recusarem a camisinha como medida preventiva?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> \u00c9 muito dif\u00edcil quando se coloca como op\u00e7\u00e3o para uma pessoa a <strong>camisinha<\/strong> ou a <strong>aids<\/strong>. Precisa haver mais estrat\u00e9gias de educa\u00e7\u00e3o que possam mostrar aos jovens algumas alternativas, outras pr\u00e1ticas sexuais que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o arriscadas para o <strong>HIV<\/strong>, mas que podem ser para a <strong>s\u00edfilis<\/strong>. Por exemplo, sexo oral sem ejacula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso dar para a pessoa a possibilidade de negocia\u00e7\u00e3o na sua vida sexual. O que acontece hoje em dia \u00e9 que as pessoas s\u00f3 t\u00eam a mensagem de usar sempre a camisinha. Se houver apenas esta mensagem, \u00e9 muito dif\u00edcil a negocia\u00e7\u00e3o. Faltam mais abordagens, \u00e9 preciso trazer de volta a quest\u00e3o do <strong>sexo seguro<\/strong>, em que se trabalhava justamente com a negocia\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e comportamentos que podem ser mais ou menos arriscados, e que as pessoas possam ir administrando. N\u00e3o se fala mais nisso. Ou \u00e9 use sempre a camisinha ou a infec\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O frustrante dessa perspectiva \u00e9 que certamente ser\u00e1 barrada por conta da onda moralista, do fundamentalismo religioso.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Sim. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o bem importante. No Brasil, estamos come\u00e7ando a implementar as chamadas <strong>novas tecnologias de preven\u00e7\u00e3o<\/strong>, que \u00e9 a <strong>profilaxia pr\u00e9-exposi\u00e7\u00e3o<\/strong> [<strong>PrEP<\/strong>], em vias de implementa\u00e7\u00e3o, e a <strong>profilaxia p\u00f3s-exposi\u00e7\u00e3o<\/strong> [<strong>PEP<\/strong>] a uma situa\u00e7\u00e3o de risco, que j\u00e1 est\u00e1 implementada. Por exemplo, na PEP, um dos obst\u00e1culos para implementa\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica \u00e9 a <strong>transfobia<\/strong> e a <strong>homofobia<\/strong> institucionais ou muitos preconceitos relacionados \u00e0 sexualidade. Quando a pessoa vai buscar o servi\u00e7o, muitas vezes n\u00e3o encontra um ambiente acolhedor que efetivamente a estimule a fazer de maneira correta a profilaxia, que d\u00e1 trabalho, pois envolve quase um m\u00eas de uso de antirretroviral, uma testagem, uma volta ao servi\u00e7o no final dos 28 dias. Se a pessoa n\u00e3o encontra um ambiente acolhedor, onde ela se sinta respeitada, ela n\u00e3o volta. Pode at\u00e9 receber medicamento, mas vai se sentir desestimulada no meio do caminho e vai fazer a PEP de uma maneira incorreta, que pode gerar resist\u00eancia e efetivamente permitir uma infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A PrEP vai enfrentar preconceito, j\u00e1 que tamb\u00e9m seria implementada como uma pol\u00edtica p\u00fablica. Certamente haver\u00e1 aqueles ju\u00edzos que v\u00e3o dizer que o governo garantir acesso a medicamentos para preven\u00e7\u00e3o por parte de popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 estigmatizadas seria como estimular a devassid\u00e3o, o n\u00e3o uso de\u00a0camisinha. O que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Esse seria um argumento muito conservador, que j\u00e1 vimos acontecer em v\u00e1rias partes do mundo. Realmente a quest\u00e3o do estigma e do momento conservador s\u00e3o obst\u00e1culos \u00e0 preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A partir dos anos 1980, a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil foi fundamental na cobran\u00e7a de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para o enfrentamento da aids e na constru\u00e7\u00e3o de uma rede de apoio e solidariedade aos soropositivos. Em fun\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o de desvios de verbas ocorridos em ONGs, o governo federal dificultou o acesso aos recursos. Por outro lado, organismos internacionais deixaram de financiar projetos no Brasil. Isso desarticulou parte consider\u00e1vel da rede estruturada em torno da tem\u00e1tica da aids. Qual a situa\u00e7\u00e3o atual dessas entidades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> A maioria das entidades que lutam no enfrentamento da <strong>aids <\/strong>encontram uma dificuldade muito grande de acesso aos fundos, e isso se deve a algumas raz\u00f5es. Uma delas \u00e9 que, durante os anos 90, uma grande parte dos recursos para essas organiza\u00e7\u00f5es vinha da coopera\u00e7\u00e3o internacional, por ag\u00eancias e funda\u00e7\u00f5es internacionais que apoiavam o trabalho no Brasil. Com os resultados que o Brasil conseguiu no final dos anos 90, por causa do acesso universal aos medicamentos, a partir de 1996 houve uma queda de mortalidade grande, quase 50%, e isso fez com que essas ag\u00eancias pensassem que a quest\u00e3o da <strong>aids<\/strong> no Brasil estaria caminhando para um controle, ent\u00e3o resolveram sair do pa\u00eds e colocar seus recursos em outras regi\u00f5es do mundo onde o <strong>HIV<\/strong> se expandia de forma mais r\u00e1pida e aguda, como na <strong>\u00c1frica<\/strong> e em alguns pa\u00edses da <strong>\u00c1sia<\/strong>. Isso deixou um v\u00e1cuo dentro do escopo das ONGs que o pr\u00f3prio governo e a filantropia nacional n\u00e3o conseguiram cobrir. H\u00e1 outras raz\u00f5es tamb\u00e9m, que \u00e9 o n\u00e3o reconhecimento mais recente das ONGs e dos movimentos sociais como for\u00e7as pol\u00edticas importantes na governan\u00e7a do pa\u00eds. Concentra-se tudo no Estado como o grande lugar de governan\u00e7a do pa\u00eds, esquecendo que, em uma democracia, deveria haver considera\u00e7\u00e3o e reconhecimento de outros setores que s\u00e3o importantes, e esses setores, por tamb\u00e9m trabalharem no interesse p\u00fablico, deveriam ter acesso a recursos p\u00fablicos. Esses fatores acabaram criando uma situa\u00e7\u00e3o de muita dificuldade de acesso aos fundos p\u00fablicos, e isso vem ocasionando que v\u00e1rias ONGs fechem as portas, deixando de lado uma possibilidade de preven\u00e7\u00e3o, de assist\u00eancia, de for\u00e7a pol\u00edtica que possa inclusive garantir algumas pol\u00edticas maiores do Estado, como o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/44402-sus-acesso-universal-igualitario-e-gratuito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acesso universal<\/a>, a universalidade do <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=6570&amp;secao=491\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SUS<\/a>, a quest\u00e3o da equidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Com a falta de recursos e desarticula\u00e7\u00e3o de ONGs, uma quest\u00e3o que fica descoberta \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o de uma rede de apoio ao soropositivo que n\u00e3o seja necessariamente de natureza m\u00e9dica e cl\u00ednica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Exatamente. H\u00e1 um v\u00e1cuo na rede de preven\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m na de assist\u00eancia no \u00e2mbito biom\u00e9dico, cuidados de outras dimens\u00f5es para com quem vive com <strong>HIV<\/strong>, e isso se relaciona a aspectos sociais, psicol\u00f3gicos e afetivos da pessoa. Para isso, as ONGs eram uma refer\u00eancia muito importante que, com o fechamento de v\u00e1rias delas, fica muito prejudicado\u00a0essa possibilidade de cuidado, para al\u00e9m da quest\u00e3o cl\u00ednica. Para pessoas que vivem com <strong>HIV<\/strong>, esse outro cuidado social e psicol\u00f3gico \u00e9 t\u00e3o importante quanto o cl\u00ednico, eles devem andar em paralelo, mas isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo a contento nem do ponto de vista cl\u00ednico, e muito menos do ponto de vista sociopsicol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 No passado, houve muito empenho para descaracterizar a ideia de grupos de risco. Foi uma estrat\u00e9gia positiva? Isso n\u00e3o diminuiu a interven\u00e7\u00e3o em grupos mais vulner\u00e1veis, como homens homossexuais, mulheres transg\u00eanero, profissionais do sexo e usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> O foco nesse tipo de abordagem em cima de popula\u00e7\u00f5es espec\u00edficas \u2013 antigamente se falava em <strong>grupos de risco<\/strong>, hoje em dia se usa a ideia de <strong>popula\u00e7\u00f5es-chaves<\/strong> \u2013, n\u00e3o que n\u00e3o seja importante do ponto de vista epidemiol\u00f3gico, at\u00e9 pode ser, mas n\u00e3o pode ser a \u00fanica maneira de se referenciar as pessoas mais impactadas ou os grupos populacionais mais impactados pelo <strong>HIV<\/strong>, porque se acaba colocando uma \u00eanfase muito grande no controle do v\u00edrus, e n\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas nas quais esse v\u00edrus se propaga.<\/p>\n<p>\u00c9 aquele neg\u00f3cio: s\u00f3 se olha para a popula\u00e7\u00e3o para controlar o v\u00edrus, mas se n\u00e3o trabalhar as condi\u00e7\u00f5es sociais nas quais essa popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 inserida e que as levou \u00e0quela infec\u00e7\u00e3o, do ponto de vista da sustentabilidade, vai ficar dif\u00edcil. N\u00e3o \u00e9 somente sustentabilidade econ\u00f4mica, mas da pr\u00f3pria sustentabilidade da pol\u00edtica. N\u00e3o adianta apenas dar o rem\u00e9dio para controlar o v\u00edrus, \u00e9 preciso olhar tamb\u00e9m a validade desse medicamento, o entorno social em que vive a pessoa que est\u00e1 tomando o medicamento. Eu n\u00e3o posso controlar o v\u00edrus sem tamb\u00e9m colocar \u00eanfase no que est\u00e1 em volta. Por isso preferimos trabalhar mais com a ideia, pelo menos na <strong>Abia<\/strong> [Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids], de condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade do que colocar muita \u00eanfase somente em controle do v\u00edrus em popula\u00e7\u00f5es-chave. Popula\u00e7\u00f5es-chave porque s\u00e3o mais atingidas pelo v\u00edrus, mas tamb\u00e9m porque s\u00e3o extremamente estigmatizadas, exclu\u00eddas socialmente, ent\u00e3o temos que trabalhar a quest\u00e3o do estigma e da exclus\u00e3o social, para que se possa controlar as condi\u00e7\u00f5es que levaram essas pessoas a se infectar com HIV e outras doen\u00e7as, inclusive as condi\u00e7\u00f5es pelas quais elas podem n\u00e3o estar mudando seu comportamento, porque podem estar inseridas em contextos de opress\u00e3o de g\u00eanero, de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/557177-uma-data-para-lembrar-o-racismo-como-parte-da-exclusao-social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">racismo<\/a>, e realmente fica complicado fazer uma negocia\u00e7\u00e3o sexual seja para o uso da camisinha, seja para a ado\u00e7\u00e3o das novas tecnologias de preven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o posso confiar somente na ideia de controle de risco do ponto de vista cl\u00ednico e epidemiol\u00f3gico; em uma epidemia, tem que ir um pouco mais al\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O Relat\u00f3rio Gap, elaborado pelo Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/Aids (Unaids) e divulgado em 2014, alertou que das 35 milh\u00f5es de pessoas que vivem com HIV\/aids no mundo, 19 milh\u00f5es desconhecem essa condi\u00e7\u00e3o. Como esse dado pode ser interpretado? Que a\u00e7\u00f5es ele demanda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Demoramos quase 20 anos para colocar 16 milh\u00f5es de pessoas em tratamento, mostrando a dificuldade e a extrema complexidade que \u00e9 a preven\u00e7\u00e3o e o acesso a medicamentos no mundo. Como vamos incluir essas outras pessoas que nem conhecem a sua situa\u00e7\u00e3o? Se foi t\u00e3o dif\u00edcil incluir esses 16 milh\u00f5es, temos que pensar muito seriamente por que e ver se com esse debate podemos acelerar para incluir os tantos milh\u00f5es que est\u00e3o faltando. Temos medicamentos, condi\u00e7\u00f5es e conhecimento sobre as formas de propaga\u00e7\u00e3o do <strong>HIV<\/strong>. Mas s\u00f3 o medicamento n\u00e3o ser\u00e1 suficiente. Temos que ter sistemas de sa\u00fade p\u00fablica bem preparados, campanhas muito incisivas sobre a quest\u00e3o do estigma, sistemas legais que protejam essas pessoas vivendo com <strong>HIV<\/strong>. Agora, em um mundo onde ainda tem tantos pa\u00edses que criminalizam a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/520710-ministro-da-saude-demite-responsavel-por-campanha-favoravel-a-prostituicao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>prostitui\u00e7\u00e3o<\/strong> <\/a>e a <strong>homossexualidade<\/strong>, um n\u00famero crescente de pa\u00edses que criminalizam a transmiss\u00e3o do <strong>HIV<\/strong> e um contexto cada vez mais conservador, realmente as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o muito animadoras. O recrudescimento da <strong>s\u00edfilis<\/strong>, tanto no Brasil como em outros pa\u00edses, j\u00e1 \u00e9 uma amostra dessa dificuldade crescente que estamos tendo de efetivamente enfrentar as doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em consequ\u00eancia da mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil, o Brasil se tornou uma refer\u00eancia mundial por ser um dos poucos pa\u00edses a manter um programa p\u00fablico de acesso universal a medicamentos para HIV\/aids. Qual a situa\u00e7\u00e3o desse programa atualmente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Este programa universal de acesso aos <strong>medicamentos antirretrovirais<\/strong> \u00e9 ainda o sustent\u00e1culo principal da resposta \u00e0 <strong>aids<\/strong> no Brasil. \u00c9\u00a0um programa realmente exitoso, que trouxe resultados incr\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o tanto \u00e0 parte da assist\u00eancia como da preven\u00e7\u00e3o. Houve uma queda na taxa de mortalidade em cinco anos de implementa\u00e7\u00e3o dele. O tratamento trouxe tamb\u00e9m bons resultados para a preven\u00e7\u00e3o. Pessoas que usam os medicamentos e t\u00eam carga viral indetect\u00e1vel n\u00e3o transmitem o <strong>HIV<\/strong> para outras pessoas. Ent\u00e3o, realmente o programa \u00e9 exitoso, mas tem uma s\u00e9rie de amea\u00e7as. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/166-sem-categoria\/562338-tania-bacelar-a-pec-55-antiga-241-e-a-maquina-brasileira-de-produzir-desigualdade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PEC 55<\/a>, com os cortes de recursos da sa\u00fade, a m\u00e9dio prazo pode trazer amea\u00e7as ao programa, porque os novos medicamentos s\u00e3o cada vez mais caros. Na <strong>aids<\/strong> \u00e9 assim. Os medicamentos v\u00e3o passando por gera\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que h\u00e1 a quest\u00e3o de resist\u00eancia, s\u00e3o colocados no mercado produtos que t\u00eam menos efeitos colaterais, h\u00e1 uma necessidade de renovar o elenco de medicamentos de tempos e tempos, s\u00f3 que esses novos medicamentos s\u00e3o caros e v\u00e3o exigir uma mobiliza\u00e7\u00e3o tanto da sociedade civil como do governo no sentido de encontrar mecanismos para baixar o pre\u00e7o. E isso vai ter que se dar com press\u00e3o pol\u00edtica, com <strong>licenciamento compuls\u00f3rio<\/strong>, com leis de patente mais flex\u00edveis que facilite a produ\u00e7\u00e3o e a compra de <strong>gen\u00e9ricos. <\/strong>S\u00e3o caminhos que o governo e a sociedade civil ter\u00e3o que enfrentar para baixar os medicamentos e garantir, dessa forma, o programa de acesso universal nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual a posi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria farmac\u00eautica no panorama da aids?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> O interesse da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559111-o-congresso-no-bolso-da-industria-farmaceutica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ind\u00fastria farmac\u00eautica<\/a>, como empresa, \u00e9 sempre o mercado e o lucro. No seu investimento relacionado \u00e0 <strong>aids<\/strong>, \u00e9 esse o caminho, como qualquer empresa no mundo capitalista, seja medicamento gen\u00e9rico ou de marca. N\u00f3s temos que estar vigilantes para que esses interesses do mercado n\u00e3o se sobreponham aos da sa\u00fade p\u00fablica. A sa\u00fade n\u00e3o pode ser vista como um com\u00e9rcio. Ela \u00e9 um bem do cidad\u00e3o, um direito humano fundamental, e isso tem que estar valendo sempre. Por isso que h\u00e1 conflito entre os interesses de mercado e os interesses da sa\u00fade p\u00fablica e dos direitos humanos na busca da manuten\u00e7\u00e3o e da amplia\u00e7\u00e3o de acesso aos medicamentos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A concess\u00e3o de patentes para medicamentos \u00e9 um tema delicado. Legisla\u00e7\u00f5es internacionais preveem que Estados flexibilizem patentes, em prol da sa\u00fade p\u00fablica. Qual a postura dos governos brasileiros neste tema?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Com os governos brasileiros em geral, ainda que um tanto t\u00edmidos, n\u00f3s temos conseguido algumas vit\u00f3rias. Neste ano mesmo, em maio, completar\u00e1 dez anos do primeiro e \u00fanico licenciamento compuls\u00f3rio de um medicamento de tratamento da aids, que \u00e9 o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/7004-direito-a-propriedade-intelectual-entrevista-especial-com-pedro-paranagua-moniz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">efavirenz<\/a>. Por um lado, \u00e9 triste que foi apenas um, mas, por outro lado, mostrou que \u00e9 poss\u00edvel fazer licenciamento compuls\u00f3rio sem causar aquela trag\u00e9dia econ\u00f4mica que ind\u00fastria e setores mais conservadores pr\u00f3-mercado sempre dizem que ocorreria, que o licenciamento compuls\u00f3rio seria\u00a0uma agress\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao conhecimento. N\u00e3o \u00e9 verdade. Est\u00e1 todo mundo produzindo os seus medicamentos, criando novos, e o licenciamento compuls\u00f3rio existe. Mas isso s\u00f3 demonstra que \u00e9 importante este trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o e de incid\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o, das comunidades, da sociedade civil organizada sobre quest\u00f5es de propriedade intelectual e pre\u00e7os de medicamentos, para que o direito \u00e0 vida e \u00e0 sa\u00fade esteja sempre resguardado em primeiro lugar. Infelizmente, temos perdido a batalha n\u00e3o somente no que se refere \u00e0 <strong>aids<\/strong>, pois continuam chegando medicamentos patenteados e com pre\u00e7os muito altos, mas tamb\u00e9m no que se refere a\u00a0outras doen\u00e7as como c\u00e2ncer e hepatite, cujos doentes tamb\u00e9m sofrem com medicamentos muito caros e acabam morrendo por n\u00e3o ter acesso.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A profilaxia de pr\u00e9-exposi\u00e7\u00e3o (PrEP) \u00e9 um m\u00e9todo complementar de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 aids recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade &#8211; OMS e aplicado em pa\u00edses desenvolvidos em homens que fazem sexo com homens. A droga deve ser tomada todos os dias a fim de evitar o cont\u00e1gio pelo HIV. Estima-se que, em complemento \u00e0 pr\u00e1tica de sexo seguro, a PrEP elimine o cont\u00e1gio em mais de 90% dos casos. No Brasil, a libera\u00e7\u00e3o desta tecnologia ainda n\u00e3o ocorreu. Por qu\u00ea? E qual a consequ\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> N\u00f3s temos algumas raz\u00f5es pelas quais a <strong>PrEP<\/strong> ainda n\u00e3o existe no Brasil. Primeiramente, apenas uma corre\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o \u00e9 adotada apenas em pa\u00edses desenvolvidos. H\u00e1 pa\u00edses em desenvolvimento, como <strong>Uganda<\/strong> e <strong>Qu\u00eania<\/strong>, onde ela j\u00e1 est\u00e1 sendo implementada. Na <strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>, <strong>Peru<\/strong> e <strong>M\u00e9xico<\/strong> tamb\u00e9m est\u00e3o em vias de come\u00e7ar a investir na <strong>PrEP<\/strong> como uma pol\u00edtica de sa\u00fade.<\/p>\n<p>No Brasil, ainda temos entraves. Um deles diz respeito ao pre\u00e7o do medicamento, j\u00e1 que inicialmente a empresa que det\u00e9m a patente estaria cobrando um valor muito alto para que ele fosse colocado como pol\u00edtica p\u00fablica, ou seja, para atingir milhares de pessoas. Para isso, n\u00e3o pode ser um medicamento muito caro, em rela\u00e7\u00e3o ao que o Brasil poderia pagar. Segundo, ainda n\u00e3o temos o registro do <strong>Truvada<\/strong>, que \u00e9 o antirretroviral a ser usado na <strong>PrEP<\/strong>. O registro dele para preven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas para tratamento, ainda n\u00e3o foi efetivado. Sem esse registro na <strong>Anvisa<\/strong> [Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria], n\u00e3o se pode fazer a <strong>PrEP<\/strong>, nem comprar o medicamento para a rede p\u00fablica. Ent\u00e3o \u00e9 o pre\u00e7o, o registro e h\u00e1 ainda uma pend\u00eancia jur\u00eddica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 patente do Truvada, que h\u00e1 poucas semanas foi rejeitada pelo <strong>Instituto Brasileiro de Propriedade Intelectual<\/strong>. A empresa detentora ainda pode recorrer, mas isso significa atraso. Entre essa pend\u00eancia jur\u00eddica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 patente e o registro do medicamento para a preven\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter sido efetivado, tudo isso acaba demorando para que a <strong>PrEP<\/strong> aconte\u00e7a no Brasil. Acho que j\u00e1 est\u00e1 tudo pronto para que isso seja feito, mas sem o medicamento mais barato, sem o registro oficializado e com essa pend\u00eancia jur\u00eddica na patente, ainda vai atrasar.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que h\u00e1 de novo, no que se refere a temas ligados a HIV\/aids? O que tem que ser mais discutido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> N\u00f3s temos que voltar a trazer quest\u00f5es da sexualidade de volta para a preven\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 muito importante. Entender que a preven\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo cont\u00ednuo na vida das pessoas, n\u00e3o \u00e9 simplesmente algo que se resolve com uma interven\u00e7\u00e3o, por exemplo. N\u00e3o basta usar o medicamento para <strong>PrEP<\/strong> ou dizer para usar sempre a camisinha para que as coisas se resolvam. A preven\u00e7\u00e3o tem que estar ligada a toda uma trajet\u00f3ria de iniciativas educativas em sa\u00fade, de apoio, de enfrentamento do estigma, para que ela possa ser sustent\u00e1vel e efetiva. Hoje em dia, por\u00e9m, temos falado muito pouco. A \u00eanfase tem sido muito grande na <strong>testagem<\/strong>, que \u00e9 a ideia de controle do v\u00edrus, e temos falado pouco no que est\u00e1 envolvido na sexualidade, por que uma pessoa deixa de usar a camisinha, por que ela passa a adotar a camisinha, em que momento, em que situa\u00e7\u00f5es. Temos que trazer o que j\u00e1 tivemos nos anos 90, a ideia de negocia\u00e7\u00e3o sexual para preven\u00e7\u00e3o. Segundo, temos que colocar mais press\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o dos medicamentos e enfatizar os interesses da sa\u00fade p\u00fablica como sendo primordiais, inclusive na frente dos interesses do mercado. Isso \u00e9 algo que a sociedade precisa conversar, se articular, porque s\u00e3o os caminhos para n\u00e3o apenas sustentar, mas ampliar a resposta ao <strong>HIV<\/strong>.<\/p>\n<p>A ideia de <strong>solidariedade<\/strong> tamb\u00e9m \u00e9 muito importante. Grupos t\u00eam que se unir e entender que estamos todos dentro do mesmo barco, alguns mais atingidos, outros menos, mas, efetivamente, a <strong>aids<\/strong> \u00e9 um problema de todos, e \u00e9 com essa solidariedade, essa participa\u00e7\u00e3o de todos em conjunto, que temos que trabalhar, buscando caminhos para promover mais toler\u00e2ncia, mais justi\u00e7a, acesso a educa\u00e7\u00e3o, o que interessa para todo mundo, sejam gays, travestis, h\u00e9teros, toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que \u00e9 mais preocupante hoje em dia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> N\u00e3o d\u00e1 para dizer um fator \u00fanico. \u00c9 um conjunto de fatores. O estigma vem sendo apontado h\u00e1 mais de 20 anos como um grande obst\u00e1culo para a resposta ao <strong>HIV<\/strong>, e pouco temos feito em rela\u00e7\u00e3o ao enfrentamento dele. As condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o a\u00ed. Para qualquer pessoa vivendo com <strong>HIV<\/strong>, as quest\u00f5es relacionadas \u00e0 vida profissional \u2013 principalmente em algumas profiss\u00f5es como militar \u2013, como promo\u00e7\u00f5es, s\u00e3o mais complicadas. As quest\u00f5es relacionadas \u00e0 sexualidade s\u00e3o muito complicadas em rela\u00e7\u00e3o ao <strong>HIV<\/strong>. Apesar de as evid\u00eancias mostrarem que pessoas soropositivas tomando antirretrovirais e com a carga viral indetect\u00e1vel, com CD4 acima de mil e sem outras DSTs n\u00e3o transmitirem o <strong>HIV<\/strong>, a carga de culpa e de estigma em cima delas ainda torna a sexualidade do soropositivo uma quest\u00e3o muito dura, muito sofrida. S\u00e3o v\u00e1rias quest\u00f5es nesse aspecto. O <strong>racismo<\/strong> institucional, a <strong>transfobia<\/strong> e a <strong>homofobia<\/strong> tanto nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, quanto nas de ensino, acabam favorecendo a vulnerabilidade \u00e0s <strong>DSTs<\/strong>, j\u00e1 que essas pessoas passam a ter acesso dif\u00edcil a informa\u00e7\u00f5es, a uma conversa, a aconselhamento, a acolhida dentro dos servi\u00e7os. No Brasil, n\u00e3o temos muitas oportunidades para o profissional de sa\u00fade fazer um bom trabalho. Ele n\u00e3o consegue se reciclar, se informar, ser acolhido tamb\u00e9m em suas dificuldades em lidar com a popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o quest\u00f5es que acabam complicando muito \u00e0 resposta ao <strong>HIV<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 E a cura da aids?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Veriano Terto \u2013<\/strong> Esta \u00e9 uma quest\u00e3o importante. A cura \u00e9 um caminho. N\u00f3s n\u00e3o vivemos mais este discurso de que a aids n\u00e3o tem cura, e devemos evit\u00e1-lo. Sim, do ponto de vista cient\u00edfico, a aids n\u00e3o tem cura, mas ela pode ter cura, e isso \u00e9 o mais importante. Na comunidade cient\u00edfica internacional, com os resultados das \u00faltimas pesquisas, pelo menos j\u00e1 se v\u00ea a cura como um caminho. \u00c9 algo que n\u00f3s sabemos que vamos chegar. N\u00e3o estamos l\u00e1 ainda, mas os resultados preliminares e iniciais j\u00e1 mostram que h\u00e1 um caminho para chegar l\u00e1. Em vez de trabalharmos com o fatalismo \u2013 como algumas campanhas ainda insistem em fazer, como dizer que a aids n\u00e3o tem cura \u2013, as campanhas t\u00eam que mostrar que a aids pode ter cura. Com luta, com informa\u00e7\u00e3o, com participa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s vamos chegar mais r\u00e1pido l\u00e1. N\u00e3o temos que trabalhar com aspectos negativos, mas com estrat\u00e9gias para que quanto mais mobiliza\u00e7\u00e3o e mais participa\u00e7\u00e3o houver, mais r\u00e1pido chegaremos \u00e0 cura.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente no Instituto Humanitas Unisinos em 2017 O primeiro diagn\u00f3stico de aids no Brasil ocorreu em 1982. 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