{"id":22289,"date":"2016-07-01T21:46:01","date_gmt":"2016-07-02T00:46:01","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2016\/07\/01\/as-pedagogias-do-estupro\/"},"modified":"2024-02-01T13:23:01","modified_gmt":"2024-02-01T16:23:01","slug":"as-pedagogias-do-estupro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/as-pedagogias-do-estupro\/22289","title":{"rendered":"As pedagogias do estupro"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Originalmente publicado pelo CLAM em: <a href=\"http:\/\/clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=12393\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=12393<\/a><\/em><\/p>\n\n\n<p><em>por Washington Castilhos<\/em><\/p>\n<p>A despeito de todo o julgamento moral que desencadeou nas redes sociais assim que veio a p\u00fablico por meio da divulga\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo no Twitter, o caso de estupro coletivo da jovem de 16 anos em uma comunidade do Rio de Janeiro tamb\u00e9m evidenciou o lugar da internet como mediador de opini\u00f5es e sensibilidades em rela\u00e7\u00e3o ao ide\u00e1rio feminista. A not\u00edcia impactante criou as condi\u00e7\u00f5es para que debates, antes restritos a p\u00e1ginas de alcance segmentado, ganhassem mais visibilidade. Campanhas no Facebook entraram em cena politizando o evento, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 rea\u00e7\u00e3o conservadora que o caso tamb\u00e9m despertou.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bolsademulher.com\/comportamento\/leitoras-contam-historias-reais-de-abuso-sexual-na-familia-estupro-no-trabalho-e-mais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Diversos blogs publicaram relatos de leitoras<\/a>\u00a0contando hist\u00f3rias reais de abuso na fam\u00edlia, no trabalho e em outros locais.<\/p>\n<p>Iniciativas de romper o sil\u00eancio n\u00e3o s\u00e3o novas \u2013 relatos de ass\u00e9dios j\u00e1 haviam tomado conta do Twitter atrav\u00e9s da campanha #meuprimeiroassedio, entre outras &#8211;, mas se tornaram mais frequentes a partir do caso que mobilizou o pa\u00eds nas \u00faltimas semanas. S\u00e3o relatos que desconstroem tratamentos e significados comumente atribu\u00eddos ao estupro, usualmente relacionado \u00e0 rua. No epis\u00f3dio do Rio de Janeiro, um grande n\u00famero de coment\u00e1rios que circularam na rede no primeiro momento buscavam desqualificar e culpabilizar a v\u00edtima, impulsionados tanto pelo tratamento dado pelo delegado inicialmente encarregado do caso (que, baseado em um exame de corpo de delito feito quatro dias ap\u00f3s o ocorrido, afirmou n\u00e3o haver sinais de viol\u00eancia sexual), como pelo contexto, circunst\u00e2ncia do crime e caracter\u00edsticas da v\u00edtima (favela carioca, adolescente pobre frequentadora de baile funk e m\u00e3e de uma crian\u00e7a de 3 anos).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, relatos como os citados \u2013 que, coincidentemente, se parecem com as hist\u00f3rias pessoais contadas por mulheres que participaram de Atos contra a cultura do estupro, convocados via internet e realizados em diversas cidades brasileiras no dia 1 de junho \u2013 mostram v\u00edtimas de perfis diferentes do da jovem violentada na comunidade da zona oeste do Rio de Janeiro. S\u00e3o mulheres que n\u00e3o sofreram a agress\u00e3o ap\u00f3s um baile funk.\u00a0<em>&#8220;Quando os homens saem \u00e0 noite com medo de levarem seu celular, n\u00f3s mulheres sa\u00edmos com medo de termos nossos corpos violados.&#8221;<\/em>, escreveu uma internauta logo ap\u00f3s o v\u00eddeo ter viralizado. Distante da associa\u00e7\u00e3o corrente, restritiva e problem\u00e1tica &#8220;estupro-classe social-favela-negritude&#8221;, a realidade \u00e9 que mulheres podem ser violentadas dentro de relacionamentos afetivos ou em uma ida a um baile funk, independente de sua conduta. Ou seja, a experi\u00eancia da mo\u00e7a de Jacarepagu\u00e1 (bairro na regi\u00e3o Oeste do Rio de janeiro) n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sua vez, o agressor tamb\u00e9m \u00e9 muito distante da ideia de &#8220;monstro&#8221;, termo preferencialmente usado por boa parte dos internautas que se escandalizaram com o caso para se referirem aos criminosos em seus coment\u00e1rios na rede. Em geral, mulheres que j\u00e1 sofreram viol\u00eancia sexual n\u00e3o foram violentadas por desconhecidos. O agressor pode ser familiar, namorado ou amigo, com quem a vitima se relaciona afetivamente. Coloc\u00e1-lo como monstro reifica a ideia de se tratar de uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A abordagem do estupro como um ato monstruoso e pelo lado da conduta da v\u00edtima fortalece uma ideia de excepcionalidade, tanto com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vitima quanto em rela\u00e7\u00e3o ao agressor. O conceito de cultura do estupro \u00e9 uma ferramenta pol\u00edtica importante porque fala da n\u00e3o excepcionalidade e dos mecanismos sociais que faz com que a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade permane\u00e7a&#8221;, avalia a antrop\u00f3loga Regina Facchini, pesquisadora do N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero &#8211; PAGU\/Unicamp.<\/p>\n<p>&#8220;Viol\u00eancia\/agress\u00e3o sexual\/estupro s\u00e3o temas pol\u00edticos, que fazem parte de uma produ\u00e7\u00e3o social\/cultural cotidiana, dai a no\u00e7\u00e3o de cultura do estupro. Um coment\u00e1rio bastante preocupante que vi foi\u00a0<em>&#8220;sou solid\u00e1ria com todas as mulheres que sofreram e sofrem abusos, mas n\u00e3o gasto 1% da minha energia defendendo bandidos (&#8230;) garota que posta que adora dar para bandidos e gosta de orgia n\u00e3o me representa&#8221;<\/em>. O estupro nesse tipo de posicionamento n\u00e3o \u00e9 recha\u00e7ado como viol\u00eancia que fere a gram\u00e1tica de direitos humanos, \u00e9 apenas adequado a uma gram\u00e1tica moral, refor\u00e7ando a ideia da exist\u00eancia de mulheres estupr\u00e1veis &#8211; &#8220;aquelas que gostam de bandidos&#8221;, &#8220;as que gostam de orgias&#8221;, ou seja, a ideia de mulher estupr\u00e1vel fica intocada, produzindo um sujeito moral e hierarquizando feminilidades ligadas a condutas, corpos, classe, cor da pele, orienta\u00e7\u00e3o sexual&#8221;, afirma a cientista social Carolina Branco de Castro Ferreira, tamb\u00e9m pesquisadora do PAGU\/Unicamp.<\/p>\n<p>Neste sentido, ambas as pesquisadoras chamam a aten\u00e7\u00e3o para como a internet tem sido um campo importante de atua\u00e7\u00e3o e inst\u00e2ncia pedag\u00f3gica de constru\u00e7\u00e3o de sensibilidades em rela\u00e7\u00e3o a ide\u00e1rios feministas, atrav\u00e9s do ativismo virtual (do chamado &#8220;ciberfeminismo&#8221; ou milit\u00e2ncia feminista virtual) e do engajamento de mulheres mais jovens.<\/p>\n<p>&#8220;A gram\u00e1tica pol\u00edtica dos feminismos incide em ansiedades e medos difusos, transformando-os em indigna\u00e7\u00e3o e tecendo uma trama moral, cognitiva e emocional inspiradora da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, bastante \u00fatil como forma de comunica\u00e7\u00e3o social entre p\u00fablicos m\u00faltiplos. Mas que, no caso do qual estamos tratando, produz uma s\u00e9rie de ambival\u00eancias como indigna\u00e7\u00e3o seletiva e a (re)produ\u00e7\u00e3o de sujeitos morais no \u00e2mbito de pol\u00edticas sexuais&#8221;, observa Carolina Branco.<\/p>\n<p>O contexto de fortes express\u00f5es conservadoras no Brasil \u2013 evidenciadas em muitas das rea\u00e7\u00f5es ao caso de estupro coletivo \u2013 est\u00e1, sem d\u00favida, vinculado ao cen\u00e1rio pol\u00edtico do pa\u00eds, de grandes amea\u00e7as de retrocessos aos direitos humanos, especialmente ap\u00f3s o afastamento da presidente Dilma Rousseff e da instala\u00e7\u00e3o do governo provis\u00f3rio de Michel Temer, que, ao nomear apenas homens brancos para compor seu minist\u00e9rio e rebaixar as Secretarias de Pol\u00edticas para as Mulheres, de Direitos Humanos e da Igualdade Racial (que nos governos de Lula e Dilma Rousseff gozavam de status de minist\u00e9rios) como ap\u00eandices do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, mostrou evid\u00eancias de que para o &#8220;novo governo&#8221; (rigorosamente, governo interino) as quest\u00f5es racial e de g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o prioridades.<\/p>\n<p>Como Secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para as Mulheres, o presidente em exerc\u00edcio nomeou uma mulher contr\u00e1ria \u00e0s pautas feministas, que inicialmente se declarou oposta, inclusive, ao direito ao aborto em casos de estupro, j\u00e1 previsto em lei. E enquanto parte da sociedade pauta nas redes sociais a quest\u00e3o do abuso sexual e da cultura do estupro, tramita no Congresso Nacional brasileiro francamente conservador v\u00e1rias proposi\u00e7\u00f5es que buscam retroceder na mat\u00e9ria. J\u00e1 aprovado na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da C\u00e2mara dos Deputados, sob patroc\u00ednio da bancada religiosa, o Projeto de Lei 5069\/2013 prev\u00ea que uma v\u00edtima de abuso sexual ou estupro ter\u00e1 que realizar um boletim de ocorr\u00eancia (B.O.) e fazer um exame de corpo de delito para, s\u00f3 ent\u00e3o, ser atendida em uma unidade de sa\u00fade. Sabe-se, no entanto, da exist\u00eancia de uma s\u00e9rie de mecanismos que impedem a vitima de sentir-se segura de denunciar, como a opera\u00e7\u00e3o inadequada do Direito (a vis\u00e3o machista do delegado posteriormente afastado do caso da jovem estuprada \u00e9 um caso exemplar disto) e a dificuldade de se punir o agressor.<\/p>\n<p>O texto do PL tamb\u00e9m modifica o tipo de atendimento que a v\u00edtima receber\u00e1 no hospital, vetando, por exemplo, que ela receba orienta\u00e7\u00f5es sobre aborto legal \u2013 no pa\u00eds, somente em casos de estupro, de risco de morte para a m\u00e3e ou para fetos anenc\u00e9falos (em alguns casos, para outras malforma\u00e7\u00f5es fetais que trazem inviabilidade \u00e0 vida extra-uterina, mas que dependem de decis\u00f5es judiciais favor\u00e1veis). Al\u00e9m disso, de acordo com o projeto de lei, ela s\u00f3 poder\u00e1 receber medicamentos que n\u00e3o forem abortivos, embora o texto n\u00e3o defina o que \u00e9 abortivo. Assim, se aprovada (o projeto ainda ter\u00e1 de ser votado pelo plen\u00e1rio da C\u00e2mara), a lei servir\u00e1 para uma posterior proibi\u00e7\u00e3o da p\u00edlula do dia seguinte (hoje vendida legalmente em qualquer farm\u00e1cia), caso um m\u00e9dico julgue a p\u00edlula como abortiva.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do PL 5069, esperam para entrar em vota\u00e7\u00e3o o PL 7443\/2006, que determina a inclus\u00e3o do aborto entre os crimes considerados hediondos; o PL 1545\/2011, que imp\u00f5e ao m\u00e9dico que realizar o aborto, fora das hip\u00f3teses previstas em lei, uma pena de pris\u00e3o que vai de seis a 20 anos; e a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o &#8211; PEC 164\/2012, que determina que a inviolabilidade do direito \u00e0 vida \u00e9 garantia de todos &#8220;desde a concep\u00e7\u00e3o&#8221;, incluindo, portanto, o feto.<\/p>\n<p>Aliado a essas proposi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 ainda a tentativa de se retirar as tem\u00e1ticas de g\u00eanero e da diversidade dos planos de educa\u00e7\u00e3o, sufocando a possibilidade de uma pr\u00e1tica de ensino e de socializa\u00e7\u00e3o mais igualit\u00e1rias para meninos e meninas nas escolas e de pol\u00edticas preventivas que passam pela Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As posi\u00e7\u00f5es explicitamente ultra-conservadoras e discriminat\u00f3rias de alguns deputados e senadores ganham apoio na sociedade e, com isso, opini\u00f5es claramente racistas, sexistas e homof\u00f3bicas cada vez mais se multiplicam na rede, j\u00e1 que as pessoas se sentem \u00e0 vontade para express\u00e1-las. Cabe considerar que tais for\u00e7as j\u00e1 estivam na sociedade, embora represadas. Como percebe o\u00a0<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/04\/15\/de-onde-vem-o-conservadorismo\/\">fil\u00f3sofo Mauro Iasi, da UFRJ,\u00a0<\/a>o conservadorismo sempre esteve por aqui, forte e persistente, portanto denomina\u00e7\u00f5es como &#8220;onda conservadora&#8221; ou &#8220;nova direita&#8221; podem ser enganosas.<\/p>\n<p>O Brasil teve no ano passado ao menos 47.646 estupros, mostram os dados oficiais das secretarias estaduais da Seguran\u00e7a coletados pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. O n\u00famero equivale a um caso a cada 11 minutos, em m\u00e9dia. Os n\u00fameros incluem tamb\u00e9m os estupros de vulner\u00e1vel, crime cometido contra menores de 14 anos. Como a subnotifica\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente elevada no pa\u00eds, o F\u00f3rum acredita que possam ter ocorrido entre 136 mil e 476 mil casos de estupro no Brasil no ano passado.<\/p>\n<p>Na mesma semana em que a jovem foi violentada no Rio, outro caso de estupro coletivo ocorria no Piau\u00ed e, at\u00e9 o fechamento deste texto, outro era relatado no mesmo estado. Todos tendo como v\u00edtimas adolescentes menores de idade. Por conta do crime de Jacarepagu\u00e1, que tomou maior repercuss\u00e3o midi\u00e1tica, o presidente em exerc\u00edcio Michel Temer apressou-se em fazer passar no Senado, em regime de urg\u00eancia, um projeto que aumenta a pena em at\u00e9 30 anos para quem comete o crime. E o governador (tamb\u00e9m em exerc\u00edcio) do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, chegou at\u00e9 a falar em pena de morte.<\/p>\n<p>&#8220;No Brasil h\u00e1 sempre a tradi\u00e7\u00e3o do recurso \u00e0 lei penal punitiva, como se fosse resolver todos os problemas, sem levar em conta os problemas sociais que est\u00e3o em jogo. N\u00e3o adianta aumentar a pena ou pensar em solu\u00e7\u00f5es simplistas punitivas quando a quest\u00e3o de fundo \u00e9 a Educa\u00e7\u00e3o&#8221;, avalia Regina Facchini.<\/p>\n<p>O recurso \u00e0 lei penal tamb\u00e9m foi acionado pelo governo indiano ap\u00f3s o estupro coletivo de uma param\u00e9dica em um \u00f4nibus de Nova Deli em 2013 (<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=10553\">leia artigo publicado aqui<\/a>). Na \u00e9poca, no Brasil operava o suposto de quecrimes como esse seriam carater\u00edsticos de outras culturas e n\u00e3o aconteceriam por aqui por serem distantes da nossa realidade. Entretanto, h\u00e1 muitos tra\u00e7os em comum. A frase cunhada por movimentos feministas mobilizados em campanha contra a banaliza\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia sexual contra mulheres, \u201ccultura do estupro\u201d, d\u00e1 conta dessas analogias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>Viol\u00eancia sexual nas universidades.<\/strong><\/em><strong>\u00a0Informe de situa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><em>por Thaisa Alves<\/em><\/p>\n<p>Os casos de estupro acontecidos na rua s\u00e3o os que ocupam o imagin\u00e1rio das pessoas, mas h\u00e1 os que acontecem dentro de casa e outros que ocorrem no \u00e2mbito das institui\u00e7\u00f5es. Recentes casos de estupro na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), a principal do pa\u00eds, amparados na falta de uma a\u00e7\u00e3o efetiva de puni\u00e7\u00e3o, expuseram o problema da omiss\u00e3o e o despreparo das universidades em lidar com a quest\u00e3o dentro de seus muros.<\/p>\n<p>No dia 23 de maio, diversos coletivos feministas de estudantes, juntamente com a Uni\u00e3o Brasileira de Mulheres, \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a p\u00fablica e inst\u00e2ncias representativas de universidades p\u00fablicas do Rio de Janeiro se reuniram na Assembleia Legislativa do Estado (ALERJ), \u00e0 convite da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher, para uma audi\u00eancia que teve como tema &#8220;Sociedade Fluminense contra os crimes de viol\u00eancia e estupro de mulheres nas universidades p\u00fablicas e privadas do Estado do Rio de Janeiro&#8221;.<\/p>\n<p>Uma p\u00e1gina, criada em 2013 por uma aluna da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, relata 615 casos de viol\u00eancia dentro da unidade, de 1970 a 2016. Alguns ainda n\u00e3o publicados, porque muitas mulheres convivem com o medo. Na Audi\u00eancia, a dona da p\u00e1gina relatou ser o n\u00famero 616, e que decidiu criar esse meio de expor os casos para dar voz \u00e0s mulheres, diante da omiss\u00e3o da reitoria. Por ser a criadora desse portal, ela afirmou sofrer intermin\u00e1veis retalia\u00e7\u00f5es e que ouviu ser um caso isolado ao pedir ajuda da dire\u00e7\u00e3o. A reitoria explica que a localiza\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica da universidade e o quantitativo reduzido de vigilantes intensifica as a\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A representante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) relatou desde casos de estupro onde o agressor foi solto na mesma semana a viol\u00eancias nos alojamentos, e festas de alto teor machista organizadas na inten\u00e7\u00e3o de assediar as estudantes. Segundo ela, os alojamentos s\u00e3o habitados por pessoas que n\u00e3o possuem v\u00ednculo algum com a universidade.<\/p>\n<p>As representantes da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) afirmaram que l\u00e1 os relatos v\u00e3o desde a persegui\u00e7\u00e3o aos movimentos feministas por parte dos membros do DCE (Diret\u00f3rio Central dos Estudantes) ao cuidado com as palavras: caso fa\u00e7am uma mesa sobre aborto, ela deve ser chamada de &#8220;sa\u00fade da mulher&#8221;, por conta da liga\u00e7\u00e3o que a faculdade possui com a Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Segundo as representantes da Universidade Estadual da Zona Oeste (UEZO), a situa\u00e7\u00e3o na unidade \u00e9 ainda mais complicada, porque a seguran\u00e7a p\u00fablica na \u00e1rea \u00e9 subordinada \u00e0 mil\u00edcia, uma das respons\u00e1veis pelos casos de estupro. As normalistas sofrem ass\u00e9dio constante e, mesmo quando s\u00e3o estupradas, n\u00e3o denunciam por medo de morrer.<\/p>\n<p>Segundo relatos da representante da Universidade Federal Fluminense (UFF), no campus da universidade na cidade de Rio das Ostras os estupros acontecem \u00e0 luz do dia, h\u00e1 casos de trancamento de matr\u00edcula ap\u00f3s situa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio e tentativa em v\u00e3o de expuls\u00e3o de um professor machista. Uma mulher chegou a ser sequestrada e abusada por quatro homens que a jogaram em um rio ao pensarem que estava morta.<\/p>\n<p>A diretora da UNE, Barbara Cardoso, pontuou que &#8220;\u00e9 necess\u00e1rio que haja o reconhecimento por parte das universidades de que h\u00e1 machismo nesses espa\u00e7os e que se reconhe\u00e7a tamb\u00e9m as diversas formas de viol\u00eancia, bem como a opress\u00e3o psicol\u00f3gica por parte dos professores&#8221;.<\/p>\n<p>Presente \u00e0 Audi\u00eancia, a coordenadora da Uni\u00e3o Brasileira de Mulheres, Luciana Targino, explicou que colocar a Pol\u00edcia Militar (PM) dentro das universidades aumentaria o n\u00famero de casos, j\u00e1 que a maioria dos policiais s\u00e3o homens e com hist\u00f3rico forte de machismo na corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato dessas informa\u00e7\u00f5es serem compartilhadas e essas situa\u00e7\u00f5es de flagrante agress\u00e3o e descaso institucional serem debatidas constitui um passo \u00e0 frente, dado por coletivos de mulheres universit\u00e1rias.<\/p>\n<p><b><i>Publicada em: 16\/06\/2016<\/i><\/b><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A despeito de todo o julgamento moral que desencadeou nas redes sociais assim que veio a p\u00fablico por meio da divulga\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo no Twitter, o caso de estupro coletivo da jovem de 16 anos em uma comunidade do Rio de Janeiro tamb\u00e9m evidenciou o lugar da internet como mediador de opini\u00f5es e sensibilidades em rela\u00e7\u00e3o ao ide\u00e1rio feminista.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[103,107,139,147,275],"class_list":{"0":"post-22289","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-noticias-e-analises","7":"tag-direitos-humanos","8":"tag-direitos-sexuais","9":"tag-feminismos","10":"tag-genero","11":"tag-violencia-sexual"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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