{"id":22183,"date":"2016-01-06T19:20:09","date_gmt":"2016-01-06T21:20:09","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2016\/01\/06\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/"},"modified":"2024-02-02T11:53:32","modified_gmt":"2024-02-02T14:53:32","slug":"suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/22183","title":{"rendered":"\u201cSuffragette\u201d: li\u00e7\u00f5es do passado, quest\u00f5es do presente"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Publicado originalmente em:<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/<\/a><\/em><\/p>\n\n\n<p><strong>Rejane Carolina Hoeveler<\/strong><\/p>\n<p><em>As Sufragistas<\/em> estreou no Brasil no \u00faltimo dia 24 de dezembro e narra alguns momentos da luta das mulheres pelo direito ao voto na Inglaterra no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a partir da \u00f3tica da personagem fict\u00edcia Maud Watts (Carey Mulligan). Trabalhadora de lavanderia, como muitas de sua gera\u00e7\u00e3o, vivia desde crian\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 os sal\u00e1rios inferiores aos dos homens, mas tamb\u00e9m \u00e0 merc\u00ea dos ass\u00e9dios sexuais de seu supervisor. O filme se passa nos fat\u00eddicos anos de 1912 e 1913, quando a sufragette Emily Davison perdeu a vida durante uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, num epis\u00f3dio de repercuss\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Do ponto de vista est\u00e9tico, o filme n\u00e3o traz grandes inova\u00e7\u00f5es, muito embora o jogo de cores e luzes tenha sido usado de maneira interessante. Seu formato certamente ter\u00e1 grande valia para uso escolar, o que n\u00e3o \u00e9 menos importante para a difus\u00e3o de um tema t\u00e3o importante e t\u00e3o pouco tratado pelo \u201ccinem\u00e3o\u201d hollywoodiano.<\/p>\n<p>Muito tem sido discutido sobre o filme e seu objeto de representa\u00e7\u00e3o, e, s\u00f3 por despertar essa discuss\u00e3o mais ampla, de maneira intencional, o filme j\u00e1 tem enorme m\u00e9rito. Tr\u00eas aspectos, no entanto, nos parecem merecedores de aten\u00e7\u00e3o nos debates em curso: a confus\u00e3o existente acerca das diverg\u00eancias dentro do movimento sufragista; a quest\u00e3o racial, legitimamente levantada em decorr\u00eancia de um elenco totalmente branco e de uma infeliz campanha publicit\u00e1ria do filme; e as inquieta\u00e7\u00f5es que o filme suscita acerca das chamadas \u201cbandeiras democr\u00e1ticas\u201d relacionadas \u00e0 luta das mulheres hoje. Vejamos.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sufragistas, sufragettes e a fam\u00edlia Pankhurst<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso desfazer certa confus\u00e3o em torno do movimento retratado no filme, suas bases, dire\u00e7\u00f5es e t\u00e1ticas. A personagem Maud Watts \u00e9 uma oper\u00e1ria que, ao tomar contato com o movimento sufragista brit\u00e2nico, ingressa em uma das v\u00e1rias correntes que dentro dele existiam. Tal corrente tinha como refer\u00eancia Emmeline Pankhusrt (encarnada por Meryl Streep em uma bela participa\u00e7\u00e3o especial). Militante feminista desde os 14 anos, Emmeline era tamb\u00e9m esposa de um importante advogado apoiador do sufr\u00e1gio feminino, autor da legisla\u00e7\u00e3o que a partir de 1870 disp\u00f4s sobre as propriedades das mulheres casadas.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, nenhuma das tr\u00eas principais for\u00e7as pol\u00edticas nacionais era realmente comprometida com a bandeira do sufr\u00e1gio feminino. Dos conservadores, j\u00e1 n\u00e3o se esperava nada mesmo. J\u00e1 entre os liberais, os chamados <em>whigs<\/em>, havia defensores que acenaram para o voto feminino mas, uma vez no governo, nada fizeram para implement\u00e1-lo. Mesmo entre os trabalhistas \u2013 o <em>Labour Party<\/em> foi fundado em 1900 com maior v\u00ednculo junto ao movimento oper\u00e1rio \u2013 refletia-se o conservadorismo do movimento oper\u00e1rio ingl\u00eas, com marcantes tra\u00e7os machistas. O fato de o <em>Labour<\/em> ter em seu programa a defesa do voto feminino \u2013 e a exist\u00eancia de uma corrente dentro do partido, o <em>Independent Labour Party<\/em>, mais comprometida com essa luta \u2013 possibilitou que entre suas fileiras surgissem militantes profundamente comprometidas com a causa, como a trabalhadora t\u00eaxtil Isabella Ford, membro da <em>Manchester Suffrage Society<\/em>.<\/p>\n<p>Um leque de argumentos reacion\u00e1rios vociferava contra o sufr\u00e1gio feminino, como a id\u00e9ia da inferioridade biol\u00f3gica da mulher, ou de uma suposta maior vulnerabilidade emocional e mental do g\u00eanero feminino, o que, de acordo com este pensamento arcaico, impossibilitaria a capacidade feminina de julgar sobre as quest\u00f5es da vida p\u00fablica. Mas \u00e9 preciso lembrar que nos restritos quadros da democracia de ent\u00e3o, mesmo o direito ao voto para os homens assalariados fora conseguido somente em 1884, excluindo ainda os mais pobres, os indiv\u00edduos considerados insanos e os criminosos \u2013 os quais constitu\u00edam cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n<p>As <em>sufragistas<\/em>, chamadas de \u201cconstitucionalistas\u201d, constitu\u00edam o setor mais tradicional do movimento, em geral pautado pelo respeito \u00e0 legalidade, que se reunia em torno da NUWSS \u2013 <em>National Union of Women\u2019s Suffrage Societies<\/em>, entidade fundada ainda em 1897. Segundo alguns autores, procuravam se colocar mais pr\u00f3ximos ao movimento oper\u00e1rio como um todo. J\u00e1 as <em>sufragettes<\/em> \u2013 objeto do filme \u2013 surgem posteriormente defendendo a\u00e7\u00f5es radicalizadas, e se organizando no WSPU \u2013 <em>Women\u2019s Social and Political Union<\/em>, associa\u00e7\u00e3o fundada em Manchester em 1903, pela fam\u00edlia Pankhurst: Emmeline, a m\u00e3e, e as filhas Christabel, Sylvia e Adela.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> A tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas do t\u00edtulo do filme n\u00e3o ajuda a esclarecer o problema, pois de <em>Suffragette<\/em>, t\u00edtulo original, o filme estreou no Brasil com o nome de <em>As Sufragistas<\/em>.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, Emmeline Pankhusrt imprimiu ao WSPU a t\u00e1tica de a\u00e7\u00e3o direta, adotando como lema \u201cA\u00e7\u00f5es, n\u00e3o palavras\u201d (<em>Deeds, not words).<\/em> O WSPU rapidamente ganhou amplas bases sociais e chegou a organizar passeatas com mais de 200 mil mulheres e homens apoiadores, os quais, no entanto, n\u00e3o eram aceitos no interior da organiza\u00e7\u00e3o (o WSPU, diferentemente do NWUSS, era uma organiza\u00e7\u00e3o exclusivamente composta por mulheres). Segundo Zina Abreu, a despeito das diverg\u00eancias, as entidades colaboravam bem entre si.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A descren\u00e7a perante um cen\u00e1rio pol\u00edtico marcado por posi\u00e7\u00f5es vacilantes era a principal alavanca para que a t\u00e1tica de a\u00e7\u00f5es diretas ganhasse adeptos. Essa t\u00e1tica tinha importantes m\u00e9ritos, entre eles o de atrair aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, nacional e internacionalmente. Por outro lado, seus cr\u00edticos afirmavam que ela afastava setores expressivos da classe trabalhadora feminina, que, fosse pelas maiores dificuldades objetivas, ou mesmo por conservadorismo moral, resistia a embarcar nesse tipo de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O historiador Sean Purdy, em interessante an\u00e1lise publicada h\u00e1 alguns dias neste mesmo blog<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, levanta diversos problemas acerca de como a rela\u00e7\u00e3o entre o movimento sufragista e o movimento oper\u00e1rio aparece no filme, caracterizando nele uma perspectiva classista \u201csimplista\u201d e lembrando de fatos importantes, como a ruptura do WSPU com o movimento oper\u00e1rio desde 1907. Mas \u00e9 preciso pontuar que as sufragettes em diversos momentos tiveram tamb\u00e9m l\u00edderes de estratos sociais mais baixos, notadamente as irm\u00e3s Jessie e Annie Kenney, tendo a \u00faltima pertencido ao mais alto escal\u00e3o da WSPU e tamb\u00e9m se assumido como l\u00e9sbica.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Portanto, apesar de o WSPU ter composi\u00e7\u00e3o mais calcada em estratos altos e de classe m\u00e9dia, uma personagem como Maud n\u00e3o \u00e9 inveross\u00edmil historicamente.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mais interessante nesse contexto \u00e9 certamente a de Sylvia Pankhurst. Ela defenderia uma linha pol\u00edtica mais classista, discordando da linha do WSPU, que, como lembra Purdy, defendia prioritariamente o voto para mulheres que possu\u00edssem propriedade. Sylvia enxergava a luta das mulheres como parte fundamental de uma luta maior a ser travada ombro a ombro com os homens, luta que na \u00e9poca inclu\u00eda direitos aos trabalhadores e trabalhadoras, com amplas reformas sociais. Por essa posi\u00e7\u00e3o, enfrentou-se com a m\u00e3e e a irm\u00e3 Christabel. Em janeiro de 1914, Christabel era uma das principais dirigentes do WSPU e exigiu a expuls\u00e3o da <em>East London Federation of Suffragettes<\/em>, se\u00e7\u00e3o que reunia o maior n\u00famero de trabalhadoras, das fileiras da entidade. Nos anos 1920, Emmeline, a m\u00e3e, ingressaria no partido <em>Tory<\/em> (conservador), e com a eclos\u00e3o da guerra adotaria posi\u00e7\u00e3o chauvinista com o lema \u201cRei, p\u00e1tria e liberdade\u201d; enquanto Sylvia seria uma das fundadoras do Partido Comunista, se opondo \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>As sufragettes foram duramente perseguidas e sofreram a tortura da alimenta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada em suas greves de fome na pris\u00e3o. N\u00e3o apenas o gabinete liberal de H.H.Asquith (1908-1916) \u2013 com Lloyd George \u2013 ignorou as suas reivindica\u00e7\u00f5es, como reprimiu severamente as sufragettes, tendo autorizado a cria\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o especialmente voltada para reprimi-las, o <em>Cat and Mouse Act<\/em>, de 1913, que visava a enfraquecer a capacidade de barganha das greves de fome das prisioneiras. O apelido da lei, \u201cGato e Rato\u201d, tem a ver com a conhecida fama dos gatos em brincarem com suas presas antes de devor\u00e1-las: a t\u00e1tica do governo era soltar as prisioneiras quando elas estivessem muito fracas e impossibilitadas de retomar as a\u00e7\u00f5es, tornando a prend\u00ea-las assim se restabeleciam.<\/p>\n<p>Em 1918, o Parlamento ingl\u00eas aprovou o reconhecimento de cidadania \u00e0s mulheres, mas continuou havendo grandes restri\u00e7\u00f5es ao sufr\u00e1gio, j\u00e1 que este foi permitido apenas \u00e0s mulheres maiores de 30 anos e cujos maridos estivessem aptos a votar. Vale pontuar, entretanto, que essa conquista de 1918 \u2013 com todas suas limita\u00e7\u00f5es \u2013 foi produto n\u00e3o apenas dos longos anos de luta das sufragistas e o do papel das mulheres durante a guerra, mas tamb\u00e9m do impacto da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. Como se sabe, a eclos\u00e3o do movimento revolucion\u00e1rio russo n\u00e3o apenas teve as mulheres como epicentro, como tamb\u00e9m representou imediatas conquistas para elas, que em conjunto representaram avan\u00e7os muito maiores do que os existentes em qualquer outro pa\u00eds do Ocidente.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p><strong>Elenco branco: veridicidade hist\u00f3rica e representa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica incontorn\u00e1vel ao filme foi levantada por um setor do movimento negro nos Estados Unidos, ainda antes de seu lan\u00e7amento. A pol\u00eamica eclodiu quando a revista <em>Time Out<\/em> publicou um ensaio fotogr\u00e1fico de promo\u00e7\u00e3o do filme com as atrizes principais do mesmo vestindo a camisa \u201c<em>I\u2019d rather be a rebel than a slave\u201d<\/em> [\u201cPrefiro ser uma rebelde do que uma escrava\u201d] \u2013 frase de Emmeline Pankhurst citada no filme, que, em seu contexto original, era um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o para as mulheres.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Sobre este ponto, e independentemente do m\u00e9rito da cr\u00edtica, vale em primeiro lugar localizar historicamente o que significava a compara\u00e7\u00e3o, ainda que ret\u00f3rica, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, que na altura de 1912 j\u00e1 havia sido abolida na Inglaterra e na maior parte do mundo. O movimento oper\u00e1rio ingl\u00eas, muito embora fosse permeado pelo racismo, nasceu imerso na luta abolicionista.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Muitas vezes os trabalhadores mais pauperizados comparavam a sua situa\u00e7\u00e3o com a dos escravos, chamando o assalariamento em seus prim\u00f3rdios de \u201cescravid\u00e3o moderna\u201d.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Essa compara\u00e7\u00e3o continha uma rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia de escravid\u00e3o, e n\u00e3o aos seres humanos que foram escravizados.<\/p>\n<p>Segundo Zina Abreu, nas d\u00e9cadas de 1830 e 1840, as militantes inglesas uniram-se tanto ao movimento cartista quanto ao movimento abolicionista. A primeira associa\u00e7\u00e3o pelo direito ao sufr\u00e1gio universal feminino na Inglaterra, a <em>Female Political Association<\/em>, foi fundada em 1847 por Anne Knight (1786-1862), quacre militante dos movimentos cartista e anti-escravagista. Knight empenhou-se na causa feminina especialmente ap\u00f3s sua expuls\u00e3o, ocorrida pelo fato de ser mulher, da Conven\u00e7\u00e3o Anti-escravista ocorrida em Londres, em 1840. Pode-se dizer, assim, que o feminismo encontra ra\u00edzes no movimento abolicionista tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, mas \u00e9 somente nos Estados Unidos haveria l\u00edderes feministas negras importantes nesse per\u00edodo.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> A partir dessa contextualiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel relativizar um pouco a id\u00e9ia de que a escravid\u00e3o n\u00e3o era questionada pelas feministas, presente em algumas cr\u00edticas ao filme.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>A bi\u00f3grafa de Emmeline Pankhusrt, Paula Bartley, considerou \u2013 a nosso ver corretamente \u2013 que o ensaio fotogr\u00e1fico foi \u201cmuito insens\u00edvel\u201d. No entanto, ela discorda da cr\u00edtica de que o filme teria apagado o papel das pessoas n\u00e3o-brancas na luta pelo voto na Inglaterra, afirmando que, \u00e0 aquela altura, o pa\u00eds era de fato predominantemente branco, e que era natural que a composi\u00e7\u00e3o de qualquer movimento refletisse isso. A historiadora Sumita Mukerjee, pesquisadora das sufragettes indianas, afirmou que o caso do movimento sufragista na Inglaterra foi diferente do caso americano, australiano e neozeland\u00eas justamente neste quesito, pois embora houvesse algumas minorias \u00e9tnicas, n\u00e3o havia nem de longe a mesma escala ou as mesmas quest\u00f5es relacionadas \u00e0 cidadania que havia em outros pa\u00edses.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>Segundo a diretora do filme, Sarah Gavron, a \u00fanica figura indiana que foi conhecida no movimento sufragista brit\u00e2nico era a princesa Sophia Duleep Singh, estudada pela pesquisadora Anita Anaud. A diretora afirma que optou por n\u00e3o se focar nessa personagem justamente por causa do corte de classe, tendo priorizado em sua pel\u00edcula uma personagem principal oper\u00e1ria.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> \u201cEmmeline [Pankhurst] trabalhou com Sophia Duleep Singh, que ter\u00e1 um programa de televis\u00e3o sobre ela, ela \u00e9 um personagem fascinante, mas ela era uma aristocrata, e era tratada muito diferente das mulheres trabalhadoras\u201d, afirmou Gavron. A pr\u00f3pria estudiosa da princesa Sophia declarou que adoraria que ela aparecesse no filme, mas que seria imposs\u00edvel em apenas uma hist\u00f3ria envolver todas as figuras do movimento.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Mukerjee afirma ainda que houve passeatas das <em>suffragettes<\/em> em 1911 que contaram com uma ala de mulheres da Austr\u00e1lia, \u00cdndia e Nova Zel\u00e2ndia, e que as sufragettes brit\u00e2nicas tentaram convenc\u00ea-las de que se conseguissem o voto, representariam as mulheres das outras comunidades do Imp\u00e9rio brit\u00e2nico, posi\u00e7\u00e3o que a historiadora classifica como imperialista. Mas aqui, novamente, o mais determinante parece mesmo ter sido a heterogeneidade no movimento: enquanto l\u00edderes como a pr\u00f3pria Emmeline viriam a ser entusiastas do Imp\u00e9rio, especialmente no contexto da guerra, outras militantes como Millicent Fawcett e Catherine Impey iriam se empenhar fortemente na milit\u00e2ncia anti-racista e anti-imperialista.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> A pr\u00f3pria Sylvia Pankhusrt, como lembra o artigo de Sean Purdy, acabaria seus dias lutando na Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es \u00e9tnicas e raciais s\u00e3o fundamentais para o feminismo hoje, e suas cr\u00edticas precisam ser ouvidas. Certamente h\u00e1 ainda muito a debater sobre a quest\u00e3o da representatividade, para al\u00e9m da veridicidade hist\u00f3rica aqui discutida.<\/p>\n<p><strong>Liberais, socialistas e a atualidade das bandeiras democr\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>Um \u00faltimo aspecto levantado pela hist\u00f3ria deste que \u00e9 considerado o primeiro movimento propriamente feminista e de massas na modernidade diz respeito ao car\u00e1ter de seu programa: a defesa do sufr\u00e1gio. Uma vis\u00e3o estreita da luta socialista pode levar \u00e0 id\u00e9ia de que tal bandeira \u00e9 intrinsecamente liberal, j\u00e1 que inserida dentro do sistema pol\u00edtico burgu\u00eas. Mas o fato de que a reivindica\u00e7\u00e3o do sufr\u00e1gio fosse, tendencialmente, compat\u00edvel com uma democracia liberal, n\u00e3o quer dizer que esta, enquanto regime pol\u00edtico burgu\u00eas, tenha assimilado tal demanda sem resist\u00eancia. O mesmo se deu com uma s\u00e9rie de outras demandas democr\u00e1ticas dos explorados e oprimidos em geral (como os pr\u00f3prios direitos sociais, trabalhistas, de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica etc).<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n<p>Assim, \u00e9 necess\u00e1rio em primeiro lugar criticar a leitura liberal sobre a origem dos direitos democr\u00e1ticos, especialmente quanto ao tema do voto. Ao longo dos s\u00e9culos XVIII, XIX e at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, a maior parte dos pr\u00f3ceres do pensamento liberal se opuseram de forma persistente \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do sufr\u00e1gio, defendendo sua restri\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s mulheres, como tamb\u00e9m aos homens da classe trabalhadora. Entre as revolucion\u00e1rias marxistas, a luta pelo voto feminino esteve sempre presente, de que \u00e9 exemplo a atua\u00e7\u00e3o de Clara Zetkin no \u00e2mbito da esquerda da social-democracia alem\u00e3, depois no Partido Comunista Alem\u00e3o e na Internacional Comunista.<a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>O movimento feminista com corte de classe continua lutando hoje por bandeiras que, a rigor, s\u00e3o \u201cliberais\u201d, como o direito ao aborto e aos direitos reprodutivos, que nada mais significa que dispor sobre o pr\u00f3prio corpo. Lembremos ainda que o reconhecimento dos direitos civis aos negros nos Estados Unidos, nos anos 1950-1960, por exemplo, embora n\u00e3o os elevassem para al\u00e9m da categoria abstrata de cidad\u00e3o (juridicamente burguesa), foi uma luta fundamental encampada por toda a esquerda revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por fim, nota-se que a lista dos anos em que as mulheres conquistaram o direito ao voto nos mais diversos pa\u00edses causa compreens\u00edvel espanto a qualquer espectador. O pr\u00f3prio Reino Unido, palco das lutas retratadas no filme, s\u00f3 promulgaria o voto feminino universal em 1928.<\/p>\n<p>Mas a catarse trazida pelo filme s\u00f3 pode levar a uma conclus\u00e3o: o quanto ainda \u00e9 preciso avan\u00e7ar. Os elementos trazidos ao longo da narrativa, como a superexplora\u00e7\u00e3o das mulheres, a quest\u00e3o da maternidade, entre tantas outras, nos remetem ao sentimento de que, afinal, n\u00e3o se trata de um passado t\u00e3o distante assim. E de como precisamos de um forte movimento feminista enraizado na classe trabalhadora, atualizado pelas quest\u00f5es do presente e consciente de seu passado.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Havia ainda outras associa\u00e7\u00f5es menores espalhadas pela Inglaterra.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> ABREU, Zina. \u201cLuta das mulheres pelo direito do voto. Movimentos sufragistas na Gr\u00e3-Bretanha e nos Estados Unidos\u201d. <em>Arquip\u00e9lago Hist\u00f3ria, <\/em>n. VI, 2002, p. 462.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> PURDY, Robert Sean. Sufragistas: classe, g\u00eanero e pol\u00edtica. <em>Blog Junho<\/em>, 1 de janeiro de 2016. <a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/category\/sean-purdy\/\">http:\/\/blogjunho.com.br\/category\/sean-purdy\/<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LESZKIEWICZ, Anna. \u201cWhat did suffragette movement really look\u201d. <em>New Statesman<\/em>, 07 de outubro de 2015. Dispon\u00edvel em: http:\/\/bit.ly\/1G2al6O.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> A chamada Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro teve como estopim as mobiliza\u00e7\u00f5es do Dia Internacional da Mulher (8 de mar\u00e7o em nosso calend\u00e1rio, 23 de fevereiro no antigo calend\u00e1rio russo), onde figuravam os protestos contra as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida e contra a participa\u00e7\u00e3o russa na Guerra \u2013 um desastre humanit\u00e1rio em todos os sentidos. A repress\u00e3o brutal \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o fundamentalmente feminina em S\u00e3o Petersburgo desencadeou a d\u00e9b\u00e2cle do czarismo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Que, nos Estados Unidos, tem ainda uma ambig\u00fcidade relacionada ao fato de que os \u201crebeldes\u201d eram os sulistas confederados, escravistas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cf. THOMPSON, E. P. <em>A forma\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria na Inglaterra<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, 3v. Uma introdu\u00e7\u00e3o a este tema, com foco maior nos socialistas, pode ser encontrada em: MATTOS, Marcelo Badar\u00f3. A Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores e o Brasil: pensando em Marx, o movimento internacional da classe trabalhadora, a escravid\u00e3o e a quest\u00e3o racial. <em>Hist\u00f3ria e Luta de Classes<\/em>, a. 11, n. 20, set. 2015, p.13-23.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> A prop\u00f3sito disso, a obra de Marx est\u00e1 cheia de rela\u00e7\u00f5es entre a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores assalariados e a escravid\u00e3o, e o termo \u201cescravid\u00e3o assalariada\u201d aparece com frequ\u00eancia. Isso pode ser encontrado por exemplo nas mensagens escritas pela Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT), que afirmavam identificar-se com a luta antiescravagista americana.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Duas delegadas mulheres dos Estados Unidos nessa conven\u00e7\u00e3o de 1840 em Londres tamb\u00e9m se revoltaram com o machismo dos abolicionistas ingleses, entre elas uma negra, Lucrecia Mott, que criou por l\u00e1 uma entidade tamb\u00e9m precursora do feminismo. Um interessante relato sobre o caso pode ser encontrado em: World\u2019s Anti-Slavery Convention, London, England, Jun. 1840. Dispon\u00edvel em: http:\/\/bit.ly\/1OF7vbJ. Agrade\u00e7o a Marcelo Badar\u00f3 pela refer\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> \u201cNaquela \u00e9poca e lugar, a mulher negra n\u00e3o era inclu\u00edda nessa luta, pois sua escravid\u00e3o n\u00e3o era questionada nem pelas feministas.\u201d FINCO, Nina. \u201cO movimento sufragista \u2013 ou parte dele\u201d. \u00c9poca, 23 dez. 2015. Disponivel em: http:\/\/glo.bo\/1kDh7Wp.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LESZKIEWICZ,<em> Op. Cit<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> ERBLAND, Kate. \u201c\u2019Suffragette\u2019 director Sarah Gavron explains why she didn\u2019t cast women of color\u201d. <em>Ind<\/em><em>ie Wire<\/em>, 13 out. 2015. Dispon\u00edvel em: http:\/\/bit.ly\/1OtyLI9.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> LESZKIEWICZ, <em>Op. Cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> LESZKIEWICZ, <em>Op. Cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Sobre esse ponto, uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel \u00e9 o livro da historiadora e polit\u00f3loga americana Ellen M. Wood, especialmente a segunda parte. WOOD, Ellen M. <em>Democracia contra capitalismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogjunho.com.br\/suffragette-licoes-do-passado-questoes-do-presente\/#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Sobre este ponto ver HONEYCUTT, Karen. \u201cClara Zetkin: a socialist approach to the problem of woman\u2019s oppression\u201d. <em>Feminist Studies,<\/em> v. 3, n. 3\/4, 1976, p.131-144.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Sufragistas estreou no Brasil no \u00faltimo dia 24 de dezembro e narra alguns momentos da luta das mulheres pelo direito ao voto na Inglaterra no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a partir da \u00f3tica da personagem fict\u00edcia Maud Watts (Carey Mulligan).<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[333,139,147,164,238,275],"class_list":{"0":"post-22183","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-noticias-e-analises","7":"tag-democracia","8":"tag-feminismos","9":"tag-genero","10":"tag-igualdade-de-genero","11":"tag-racismo","12":"tag-violencia-sexual"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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