{"id":22132,"date":"2015-10-21T17:38:44","date_gmt":"2015-10-21T19:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2015\/10\/21\/afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica\/"},"modified":"2025-01-28T14:53:54","modified_gmt":"2025-01-28T17:53:54","slug":"afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica\/22132","title":{"rendered":"Afinal, o que os evang\u00e9licos querem da pol\u00edtica?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Publicado originalmente na Ag\u00eancia P\u00fablica em outubro\/2015. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2015\/10\/afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/apublica.org\/2015\/10\/afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica\/<\/a><\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"container single-post-container\">\n<div class=\"clearfix\">\n<div id=\"left-area\">\n<div class=\"entry-content clearfix\">\n<p><em>A pesquisadora Bruna Suruagy conta o que descobriu sobre a bancada da b\u00edblia, alvo de sua tese de doutorado<\/em><\/p>\n<p>A professora de psicologia Bruna Suruagy, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, fez 42 entrevistas para sua tese de doutorado <u><a href=\"http:\/\/www.sapientia.pucsp.br\/tde_busca\/arquivo.php?codArquivo=13488\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Religia\u0303o e poli\u0301tica: ideologia e ac\u0327a\u0303o da \u2018Bancada Evange\u0301lica\u2019 na Ca\u0302mara Federal\u201d<\/a><\/u>. Ouviu parlamentares da bancada evang\u00e9lica (de 2007 a 2011), assessores e jornalistas. Continuou acompanhando o movimento dos pol\u00edticos evang\u00e9licos e o crescimento da bancada no Congresso. Em entrevista \u00e0 <strong>P\u00fablica,\u00a0<\/strong>Bruna explica como acontece a sele\u00e7\u00e3o dos candidatos dentro das igrejas, o esquema pol\u00edtico das principais denomina\u00e7\u00f5es pentecostais e o que querem os pol\u00edticos evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Leia a reportagem: <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2015\/10\/os-pastores-do-congresso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os pastores do Congresso<\/a><\/p>\n<p><strong>Como come\u00e7ou sua pesquisa sobre a bancada evang\u00e9lica?<\/strong><\/p>\n<p>Meu objetivo era entender como se processava a articula\u00e7\u00e3o entre os discursos religiosos e pol\u00edticos. Foi na legislatura de 2007 a 2011, que aconteceu logo ap\u00f3s a CPI das Sanguessugas que apresentou alguns nomes de parlamentares evang\u00e9licos. Na ocasi\u00e3o, a Igreja Universal retirou a candidatura de muitos parlamentares e o in\u00edcio da legislatura de 2007 foi bastante tenso por conta desse processo. Teve uma redu\u00e7\u00e3o significativa da bancada. Na \u00e9poca eles estavam com 45 membros.<\/p>\n<p><strong>Quando os evang\u00e9licos passaram a se organizar politicamente?<\/strong><\/p>\n<p>Antes da d\u00e9cada de 1990, j\u00e1 existiam v\u00e1rios parlamentares evang\u00e9licos, mesmo antes da Constituinte\u00a0\u2013 muitos protestantes hist\u00f3ricos e alguns pentecostais, mas n\u00e3o existia uma organiza\u00e7\u00e3o institucional da campanha desse grupo espec\u00edfico. Eram evang\u00e9licos que decidiam se candidatar e eventualmente recebiam o apoio de suas igrejas. Claro que, embora independentes, havia na C\u00e2mara uma certa articula\u00e7\u00e3o em nome sobretudo da manuten\u00e7\u00e3o dos interesses e valores morais pr\u00f3prios desse grupo. Mas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990<strong> a Universal <\/strong>passou a protagonizar a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre os evang\u00e9licos e j\u00e1 come\u00e7ou atuando com um plano pol\u00edtico. Ela<strong> criou uma forma de fazer pol\u00edtica no sentido de quase atuar como partido.<\/strong><\/p>\n<p>Funciona assim: A c\u00fapula da igreja, formada por um conselho de bispos da confian\u00e7a de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participa\u00e7\u00e3o da comunidade. Os crit\u00e9rios para a escolha desses candidatos geralmente t\u00eam base em um certo recenseamento que se faz do n\u00famero de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada regi\u00e3o, tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual. Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos candidatos e a partir de uma distribui\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe um partido que \u00e9 da Universal, o PRB, que fica cada vez mais forte no Congresso. Na \u00e9poca, havia uma distribui\u00e7\u00e3o por v\u00e1rios partidos para garantir a elei\u00e7\u00e3o. E s\u00e3o escolhidos bispos com um carisma midi\u00e1tico, que conduziram programas, radialistas e mesmo n\u00e3o bispos, mas figuras que se destacavam como comunicadores. Porque existe uma interface da m\u00eddia religiosa com a igreja e a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o parlamentares que se destacam na quest\u00e3o lit\u00fargica como grandes estudiosos da B\u00edblia\u00a0\u2013 at\u00e9 porque a tradi\u00e7\u00e3o pentecostal est\u00e1 mais na produ\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es e de momentos afetivos do que de fato na liturgia. Ent\u00e3o os bispos e l\u00edderes religiosos que promovem essas catarses coletivas e demonstram esse carisma institucional s\u00e3o normalmente os escolhidos para candidatos. A Universal se tornou um modelo para outras igrejas porque a cada novo mandato havia um aumento significativo dos parlamentares da Universal. A Assembleia de Deus, que hoje tem a maioria dos deputados, mas que n\u00e3o funcionava assim, passou a ter a Universal como modelo. N\u00e3o atuando da mesma forma porque o funcionamento institucional \u00e9 outro. A Assembleia \u00e9 uma igreja com muitas dissid\u00eancias e muitas divis\u00f5es internas, por isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer hierarquicamente os candidatos oficiais. As igrejas t\u00eam fortes lideran\u00e7as regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede n\u00e3o tem tanta for\u00e7a e, por isso, eles criam pr\u00e9vias eleitorais. As pessoas se apresentam voluntariamente ou s\u00e3o levadas pela pr\u00f3pria igreja e ainda h\u00e1 a ideia de que alguns s\u00e3o indicados por Deus porque mobilizam grandes multid\u00f5es, ou contagiam, como dizia Freud, tamb\u00e9m termina sendo um crit\u00e9rio.<\/p>\n<div class=\"simplePullQuote\">\n<p>ainda h\u00e1 a ideia de que alguns s\u00e3o indicados por Deus porque mobilizam grandes multid\u00f5es<\/p>\n<\/div>\n<p>Ent\u00e3o tem uma lista, depois uma pr\u00e9-sele\u00e7\u00e3o que passa por um conselho de pastores\u00a0\u2013 isso em cada minist\u00e9rio [a Assembleia de Deus \u00e9 uma igreja com muitas ramifica\u00e7\u00f5es]. \u00c9 interessante que os que pretendem se candidatar assinam um documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele n\u00e3o seja escolhido. Na Universal, como o poder \u00e9 nacional, tem uma sede hierarquizada que consegue controlar a institui\u00e7\u00e3o, candidaturas independentes n\u00e3o acontecem. At\u00e9 porque os parlamentares que foram eleitos com esse apoio institucional e que na segunda legislatura tentaram se candidatar de forma independente n\u00e3o ganharam as elei\u00e7\u00f5es. A vit\u00f3ria est\u00e1 totalmente atrelada \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. Existe uma estrat\u00e9gia bem constru\u00edda porque eles preveem uma fidelidade de 20%, que n\u00e3o \u00e9 alta. A Assembleia de Deus est\u00e1 tentando construir essa fidelidade e essa unidade pol\u00edtica que s\u00e3o extremamente dif\u00edceis devido a essa fragmenta\u00e7\u00e3o interna. E faz as pr\u00e9vias nacionais com a participa\u00e7\u00e3o de pastores e obreiros, novamente sem a participa\u00e7\u00e3o da comunidade\u00a0\u2013 n\u00e3o \u00e9 um processo transparente. No Congresso ent\u00e3o voc\u00ea tem essas lideran\u00e7as religiosas que demonstram uma maior habilidade na interlocu\u00e7\u00e3o com o sujeito, um carisma que gera catarse, cont\u00e1gio, impacto afetivo e as lideran\u00e7as que foram identificadas e constitu\u00eddas pela igreja como nomes importantes para ocupar o cen\u00e1rio nacional.<\/p>\n<p><strong>A\u00a0bancada evang\u00e9lica \u00e9 homog\u00eanea?<\/strong><\/p>\n<p>Na bancada evang\u00e9lica no Congresso e tamb\u00e9m nas bancadas estaduais e municipais, voc\u00ea tem uma diversidade t\u00e3o grande de integrantes que n\u00e3o d\u00e1 pra pensar esse grupo como um bloco coeso, homog\u00eaneo. Muitos v\u00eam representando a Assembleia de Deus e a Universal e algumas neopentecostais que tentam imitar essa estrat\u00e9gia, como, por exemplo, Sara Nossa Terra, de onde saiu o Cunha. Voc\u00ea tem muitos parlamentares das chamadas protestantes hist\u00f3ricas [batistas, presbiterianas, luteranas, metodistas] que t\u00eam uma candidatura totalmente independente porque n\u00e3o h\u00e1 um plano pol\u00edtico j\u00e1 estabelecido dentro das igrejas. Eles simplesmente s\u00e3o evang\u00e9licos, mas a trajet\u00f3ria pol\u00edtica geralmente n\u00e3o se d\u00e1 dentro da igreja e n\u00e3o h\u00e1 uma vincula\u00e7\u00e3o direta ao exerc\u00edcio da f\u00e9. Esses parlamentares gostam de dizer que separam bem a f\u00e9 no \u00e2mbito privado da pol\u00edtica na esfera p\u00fablica. Mas \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria porque eles tomam, sim, como refer\u00eancia algumas cren\u00e7as e valores para orientar suas pr\u00e1ticas parlamentares e vota\u00e7\u00f5es como quando se discute aborto e homofobia,a por exemplo.<\/p>\n<div class=\"simplePullQuote\">\n<p><strong>a Universal <\/strong>passou a protagonizar a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre os evang\u00e9licos e j\u00e1 come\u00e7ou atuando com um plano pol\u00edtico<\/p>\n<\/div>\n<p>Lembro que um parlamentar me disse na \u00e9poca em que fiz as entrevistas que n\u00e3o h\u00e1 como fazer uma separa\u00e7\u00e3o absoluta porque um marxista, por exemplo, vai acabar se submetendo a essa orienta\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia na hora de atuar. E que ele, como crist\u00e3o, se submete a essa orienta\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia. Mas que vota orientado pela consci\u00eancia, e n\u00e3o por uma filia\u00e7\u00e3o religiosa ou institucional espec\u00edfica. Ent\u00e3o, nas protestantes hist\u00f3ricas, n\u00e3o h\u00e1 essa presen\u00e7a ostensiva da institui\u00e7\u00e3o. A pentecostal, que traz consigo a teologia da prosperidade, que tem a presen\u00e7a do neoliberalismo, do conservadorismo institucional e moral, j\u00e1 tem essa coisa de pr\u00e1ticas pol\u00edticas fisiol\u00f3gicas e clientelistas. \u00c9 um grupo heterog\u00eaneo, mas os parlamentares pentecostais t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o mais orientada pelas institui\u00e7\u00f5es religiosas. O mandato n\u00e3o \u00e9 do parlamentar; \u00e9 pouco do partido, \u00e9 mais da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Isso j\u00e1 \u00e9 combinado com rela\u00e7\u00e3o aos temas que eles v\u00e3o defender? \u201cTe ponho l\u00e1 mas voc\u00ea me garante que o aborto n\u00e3o sai!\u201d<\/strong><\/p>\n<p>No come\u00e7o, a gente tem a impress\u00e3o de que a igreja interfere totalmente em tudo. Mas o Edir Macedo, por exemplo,\u00a0\u00e9 um l\u00edder muito complexo. Alguns parlamentares me contaram que ele determinou que eles precisavam ter uma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ent\u00e3o eles frequentam cursos de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns outros cursos s\u00e3o dirigidos para bispos e parlamentares da Igreja Universal. Eles disseram isso explicando que n\u00e3o iam totalmente despreparados. \u201cA gente tem uma forma\u00e7\u00e3o, antes de vir tenta entender e conhecer.\u201d O grande paradoxo da Universal \u00e9 que no per\u00edodo eleitoral h\u00e1 uma mistura entre religi\u00e3o e pol\u00edtica que \u00e9 clara, n\u00e3o \u00e9 velada. Ela se d\u00e1 dentro do templo, o templo vira palco, o p\u00falpito vira palanque pol\u00edtico e as discuss\u00f5es pragm\u00e1ticas sobre as elei\u00e7\u00f5es acontecem no p\u00falpito. Tem toda uma pedagogia eleitoral que acontece dentro do templo. E no Parlamento eles tentam separar o discurso pol\u00edtico do discurso religioso. Na verdade, isso come\u00e7ou a ser exigido pela c\u00fapula da Universal depois de aparecerem esc\u00e2ndalos e irregularidades envolvendo parlamentares evang\u00e9licos. Na \u00e9poca, quem era o grande l\u00edder pol\u00edtico era o Bispo Rodrigues, que era o bra\u00e7o-direito do Edir Macedo. Depois dos esc\u00e2ndalos do caso Waldomiro e do mensal\u00e3o [que o levou\u00a0\u00e0 condena\u00e7\u00e3o a\u00a0seis anos e tr\u00eas meses de pris\u00e3o por lavagem de dinheiro], ele renunciou em 2005, perdeu o t\u00edtulo de bispo e retiraram todas as candidaturas dos parlamentares justamente para n\u00e3o arranhar a imagem da igreja. Dizem que o Edir Macedo tem o privil\u00e9gio de n\u00e3o participar desses momentos.<\/p>\n<div class=\"simplePullQuote\">\n<p>O templo vira palco, o p\u00falpito vira palanque pol\u00edtico e as discuss\u00f5es pragm\u00e1ticas sobre as elei\u00e7\u00f5es acontecem no p\u00falpito<\/p>\n<\/div>\n<p>Tem at\u00e9 um l\u00edder de outra igreja, o Robson Rodovalho, que \u00e9 da Sara Nossa Terra, que se candidatou e se elegeu, que dizia que era muito dif\u00edcil para ele como l\u00edder estar ali. Que para o Edir Macedo era muito mais f\u00e1cil porque, se algum parlamentar fosse citado ou cometesse alguma irregularidade, ele simplesmente diria que n\u00e3o sabia de nada. No caso dele, a igreja correria o risco de se enfraquecer. O que me chamou aten\u00e7\u00e3o quando fiz as entrevistas foi que nenhum tinha mais o t\u00edtulo de bispo. Com os outros, eu come\u00e7ava sem perguntar nada sobre a religi\u00e3o, e eles mesmos em algum momento entravam nessa parte da f\u00e9. J\u00e1 os parlamentares da Universal n\u00e3o falavam de Deus, era um discurso totalmente parlamentar. N\u00e3o mais progressista, mas eles queriam separar os processos. E, segundo um deles, o pr\u00f3prio Edir Macedo orienta os parlamentares a seguir as orienta\u00e7\u00f5es do partido nas vota\u00e7\u00f5es exatamente para que eles n\u00e3o tenham diverg\u00eancias e eventualmente percam as verbas p\u00fablicas destinadas\u00a0\u00e0s emendas parlamentares.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o qual \u00e9 o grande interesse da Universal?<\/strong><\/p>\n<p>Quando as tem\u00e1ticas s\u00e3o institucionais, relacionadas a isen\u00e7\u00e3o fiscal, alvar\u00e1 de funcionamentos das igrejas, doa\u00e7\u00f5es de terrenos, distribui\u00e7\u00e3o de concess\u00e3o de r\u00e1dios e TV, a transforma\u00e7\u00e3o de eventos evang\u00e9licos em eventos culturais pra receber financiamento da Lei Rouanet, quest\u00f5es relacionadas\u00a0\u00e0 lei do sil\u00eancio. A\u00ed eles atuam de forma articulada, como um bloco, convergem em nome desses interesses, como em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es morais. Com algumas diferen\u00e7as, mas muitas aproxima\u00e7\u00f5es. Alguns cargos dos gabinetes t\u00eam que ficar\u00a0\u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da igreja, que indica quem vai ocupar. \u00c9 uma igreja pragm\u00e1tica, tem muito mais interesses institucionais do que morais. Se for analisar do ponto de vista moral, \u00e9 muito mais flex\u00edvel e aberta do que igrejas como a Assembleia de Deus. Essa, sim, tem um discurso de natureza moral al\u00e9m do institucional, de manuten\u00e7\u00e3o da ordem. Quando h\u00e1 converg\u00eancia nesses temas institucionais e morais, a bancada se articula. \u00c9 importante salientar que poucas vezes voc\u00ea verifica a articula\u00e7\u00e3o desse bloco de forma totalmente coesa. Eles excluem a pol\u00edtica nessa discuss\u00e3o de pauta dos parlamentares evang\u00e9licos para criar uma falsa apar\u00eancia de unidade. Muitas vezes a imprensa anuncia a bancada evang\u00e9lica como um ser \u00fanico, e para a bancada \u00e9 muito interessante aparecer assim como um corpo \u00fanico, um bloco suprapartid\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p><strong>E dizer \u201ca bancada\u201d convenientemente n\u00e3o d\u00e1 nomes, n\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente, uma entidade com um poder e as divis\u00f5es n\u00e3o aparecem. Mas no discurso desses parlamentares que est\u00e3o\u00a0\u00e0 frente e que normalmente s\u00e3o os das igrejas pentecostais apresentam a bancada dessa forma. \u201cA bancada decidiu\u201d.<\/p>\n<p><strong>Eles se re\u00fanem?<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00eddia faz parecer que sim, mas n\u00e3o. Porque eles est\u00e3o filiados a partidos e a movimenta\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara se d\u00e1 por partidos. Eles ficam muito indignados com a falta de poder que t\u00eam, porque t\u00eam poder na igreja, mas a divis\u00e3o por partido privilegia o alto clero. Voc\u00ea tem alguns l\u00edderes partid\u00e1rios que definem as orienta\u00e7\u00f5es e eles tem que seguir ou s\u00e3o punidos de alguma forma, principalmente n\u00e3o tendo as verbas p\u00fablicas para realiza\u00e7\u00e3o das emendas parlamentares. \u201cEstou aqui mas n\u00e3o tenho muito poder de decis\u00e3o, tenho sempre que obedecer partido, n\u00e3o tenho autonomia\u201d eram reclama\u00e7\u00f5es constantes. Estou falando principalmente desse grupo pentecostal, que \u00e9 o mais barulhento e que fala pela bancada, principalmente os assembleianos [da Assembleia de Deus]. Eles t\u00eam o Feliciano, o Cunha, o Jo\u00e3o Campos, que \u00e9 o l\u00edder da Frente. Engra\u00e7ado que na \u00e9poca em que eu fiz a pesquisa o Eduardo Cunha era superinexpressivo como integrante da bancada evang\u00e9lica. Mas eles se re\u00fanem muito pouco, \u00e0s vezes no dia do culto, quarta de manh\u00e3, fazem o ritual religioso e t\u00eam alguma discuss\u00e3o sobre projetos de lei e discuss\u00e3o de pauta.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o dos assessores. Eles acompanham os projetos diariamente, em uma tentativa de mapeamento dos projetos em tramita\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o dos mais importantes, projetos \u201canticrist\u00e3os\u201d. Voc\u00ea tamb\u00e9m tem uma distribui\u00e7\u00e3o dos parlamentares pelas comiss\u00f5es que eles consideram mais importantes como a de Seguridade Social, de Direitos Humanos, de Constitui\u00e7\u00e3o Justi\u00e7a e Cidadania. A\u00ed eles v\u00e3o tentando barrar a tramita\u00e7\u00e3o dos projetos. Alguns mais ativos tentam conseguir posto de presidente ou relator. Voc\u00ea tem uma estrat\u00e9gia bem elaborada, mas n\u00e3o conta com uma participa\u00e7\u00e3o t\u00e3o ativa quanto parece. \u00c9 uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impress\u00e3o de volume, de quantidade de poder, de coes\u00e3o. Acho que tamb\u00e9m \u00e9 uma estrat\u00e9gia de parecer maior do que \u00e9 pelo grito. Que \u00e9 o que acontece nas pr\u00f3prias igrejas. As igrejas t\u00eam esse discurso de guerra, de combate. O ex\u00e9rcito da Universal que deixou todo mundo perplexo, mas isso sempre aconteceu, \u00e9 o discurso de todas as igrejas. A convoca\u00e7\u00e3o nas igrejas tem todo esse ritual b\u00e9lico mesmo. E o soldado \u00e9 aquele que est\u00e1 ali para obedecer e para combater. A bancada usa isso tamb\u00e9m. Voc\u00ea valoriza o tamanho do advers\u00e1rio para convocar os integrantes. Mas eu ouvi muitos relatos de parlamentares que estavam acompanhando vota\u00e7\u00f5es e que tinham poucos para impedir a continua\u00e7\u00e3o da vota\u00e7\u00e3o. A\u00ed o assessor ligava para a lista da FPE: \u201cEsse \u00e9 pr\u00f3-vida, vou chamar\u201d. A\u00ed liga: \u201cDeputado, vem aqui, pede vista\u201d. Eles t\u00eam uma assessoria que conhece os procedimentos regimentais e que orienta os parlamentares que muitas vezes n\u00e3o sabem nem o que est\u00e1 acontecendo ali. Tem uma disponibilidade em participar quando convocados e uma entrega total de alguns pela causa.<\/p>\n<div class=\"simplePullQuote\">\n<p>\u00c9 uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impress\u00e3o de volume, de quantidade de poder, de coes\u00e3o<\/p>\n<\/div>\n<p>Qual \u00e9 a miss\u00e3o da bancada evang\u00e9lica nesse sentido? Ao meu ver, \u00e9 de preserva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o querem criar projetos, querem manter tudo intacto. \u00c9 uma atua\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas cr\u00edticas, eles est\u00e3o tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manuten\u00e7\u00e3o de uma ordem do que de transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o mais combativa, defender uma ordem social hegem\u00f4nica. Os projetos que est\u00e3o surgindo s\u00e3o pra fazer frente a projetos que est\u00e3o em andamento, por exemplo, com rela\u00e7\u00e3o a projetos do grupo LGBT. Criminaliza\u00e7\u00e3o da homofobia \u2013 criminaliza\u00e7\u00e3o da heterofobia. S\u00e3o projetos estapaf\u00fardios. Aborto, drogas, criminaliza\u00e7\u00e3o da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, s\u00e3o contra a discuss\u00e3o de g\u00eanero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedag\u00f3gicos e educativos que combatem qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, sexual\u2026<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que \u00e9 uma causa leg\u00edtima? Eles acreditam mesmo nisso?<\/strong><\/p>\n<p>Antes do Eduardo Cunha, eles estavam caminhando para um discurso mais coerente com aquele espa\u00e7o. No fim de 1980, os discursos condenavam o aborto e justificavam trazendo passagens b\u00edblicas, dizendo que Deus n\u00e3o permite. Depois a bancada amadureceu um pouco nesse sentido, entendeu que n\u00e3o dava pra usar esse discurso porque n\u00e3o tinha coer\u00eancia e come\u00e7aram a argumentar de forma mais legislativa, aderir a um discurso que tinha mais resson\u00e2ncia naquele contexto. Toda moral \u00e9 um sistema de controle. A sexualidade \u00e9 um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem um sistema normativo de controle. \u00c9 genu\u00edno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto \u00e9 um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que \u00e9 um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto \u00e9 uma possibilidade. \u00c9 uma defesa genu\u00edna de posi\u00e7\u00f5es morais que eles querem transferir para a realidade social. \u00c9 leg\u00edtimo que um grupo pense assim. O que n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo \u00e9 trazer esse discurso para a esfera p\u00fablica de um Estado laico.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na Ag\u00eancia P\u00fablica em outubro\/2015. 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