{"id":22098,"date":"2015-08-24T20:28:23","date_gmt":"2015-08-24T23:28:23","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2015\/08\/24\/a-subalterna-e-uma-mulher-partiu-feminismo-seculo-xxi\/"},"modified":"2024-02-05T17:24:30","modified_gmt":"2024-02-05T20:24:30","slug":"a-subalterna-e-uma-mulher-partiu-feminismo-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/biblioteca-spw\/artigos\/a-subalterna-e-uma-mulher-partiu-feminismo-seculo-xxi\/22098","title":{"rendered":"A subalterna \u00e9 uma mulher: #partiu feminismo s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Por Carla Rodrigues<\/p>\n<p>A obra do fil\u00f3sofo Jacques Derrida interessou \u00e0 teoria feminista por muitas raz\u00f5es, uma delas foi a liga\u00e7\u00e3o que ele fez entre dois termos: falocentrismo, centramento no masculino, e logocentrismo, o centramento no logos, na raz\u00e3o, no sentido, forjando assim o neologismo falo-logocentrismo para indicar que todo discurso de poder \u00e9 um discurso falogoc\u00eantrico do homem, branco, europeu, heterossexual, carn\u00edvoro, e senhor de sua pr\u00f3pria raz\u00e3o, que tem o poder de dizer o que \u00e9 o mundo. Ficam de fora mulheres, negros, crian\u00e7as, animais, orientais, e todos aqueles que s\u00e3o subalternizados na categoria de \u201coutro\u201d. Essa \u00e9 uma das explica\u00e7\u00f5es para que as mulheres, sendo metade da humanidade, ou os negros, sendo mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira, sejam tratadas como \u201cminorias\u201d.<\/p>\n<p>Em maio de 1968, na abertura de um col\u00f3quio na Fran\u00e7a, Derrida come\u00e7ou dizendo que \u201ctodo e qualquer col\u00f3quio filos\u00f3fico tem necessariamente uma significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. A mim parece que no Brasil de 2015, todo e qualquer encontro em torno do tema do feminismo carrega uma significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que vai al\u00e9m das pautas espec\u00edficas das reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres, como direito ao aborto ou sal\u00e1rios iguais. A mim parece necess\u00e1rio, e eu diria mesmo urgente, que todo e qualquer semin\u00e1rio como esse, cuja pauta gira em torno do feminismo, tenha necessariamente uma significa\u00e7\u00e3o e um desdobramento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O que me trouxe at\u00e9 aqui foi um di\u00e1logo feminista com a fil\u00f3sofa Marcia Tiburi. Nossa conversa come\u00e7ou em torno do verbo partir, que carrega uma impressionante polissemia na l\u00edngua portuguesa. A partir dele, posso falar em in\u00edcio, ou naquele que partiu, porque foi embora ou porque dividiu algo, e tamb\u00e9m naquilo que se desfaz em m\u00faltiplos peda\u00e7os, se quebra ou se desfaz em in\u00fameras partes. Aquilo que est\u00e1 partido est\u00e1 tamb\u00e9m fragmentado. No entanto, o dicion\u00e1rio ensina que o termo partido equivale ainda a: \u201corganiza\u00e7\u00e3o social espont\u00e2nea que se fundamenta numa concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou em interesses pol\u00edticos e sociais comuns e que se prop\u00f5e alcan\u00e7ar o poder, associa\u00e7\u00e3o de pessoas em torno dos mesmos ideais, interesses, objetivos\u201d.<\/p>\n<p>Escolhemos candidatos de determinados partidos \u2013 palavra que est\u00e1 longe de poder designar uni\u00e3o, estabilidade, comunidade, por tudo que nela cont\u00e9m de quebra, divis\u00e3o, ruptura, estilha\u00e7amento \u2013 como se os partidos nos garantissem unidade em um programa de governo ou em um projeto de pa\u00eds. Votar com essa expectativa \u00e9 continuar votando a partir de uma formula\u00e7\u00e3o anacr\u00f4nica de democracia.<\/p>\n<p>H\u00e1 no Brasil de hoje uma democracia de fato, mas de baixo teor democr\u00e1tico, que mant\u00e9m a ideia de que povo \u00e9 aquele que vota no representante de um partido cuja capacidade de governar em nome dos que o elegeram deve se manter inquestion\u00e1vel, em nome da sobreviv\u00eancia da democracia. A democracia representativa, no entanto, depende de uma forma de representa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em crise, cuja hist\u00f3ria gira em torno da impossibilidade de representa\u00e7\u00e3o de um objeto ao sujeito, do mundo a um eu, de um uma realidade a um conceito; crise que tem nos obrigado a pensar novas formas de fazer pol\u00edtica e de pensar o mundo. N\u00e3o apenas pela necessidade de cr\u00edtica \u00e0 forma partido, como a um de seus objetivos inerentes ao seu formato unificado: tomar o poder e, uma vez ali, reproduzir os mesmos mecanismos de exclus\u00e3o que se pretendia combater.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Jacques Ranci\u00e8re faz uma cr\u00edtica importante quando diz que toda democracia representativa \u00e9 hoje uma forma disfar\u00e7ada de oligarquia, que se mant\u00e9m no poder em nome da defesa dos seus pr\u00f3prios interesses. Nesse sentido, a filosofia de Derrida e a sua formula\u00e7\u00e3o de democracia porvir me ajuda a pensar sobre a forma partido, recusada por ele em prol de tomadas de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sobre in\u00fameros temas contempor\u00e2neos. Quem diz posi\u00e7\u00f5es, diz conting\u00eancia, evoca palavras como acidental, fortuito, aleat\u00f3rio, imprevis\u00edvel, indeterminado. S\u00e3o formas que n\u00e3o cabem em partidos pol\u00edticos cujas premissas devem estar previamente estabelecidas em plataformas fechadas. A forma partida nos mostra partidos incapazes de nos representar, \u00e9 porque talvez a pol\u00edtica feita a partir dos partidos primeiro exija uma totaliza\u00e7\u00e3o a partir da qual a pol\u00edtica passa a ser feita por lideran\u00e7as partid\u00e1rias, inst\u00e2ncias de representa\u00e7\u00e3o de um conjunto que foi forjado a fim de criar a lideran\u00e7a. E, como disse um manifestante na Pra\u00e7a Tahrir, no Egito: \u201cN\u00e3o estamos procurando um l\u00edder que nos governe, mas uma consci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Propostas de democracia direta, movimentos pol\u00edticos, forma\u00e7\u00e3o de conselhos populares, reconhecimento de um parlamento pautado principalmente pelos seus pr\u00f3prios interesses s\u00e3o s\u00f3 alguns dos sinais \u2013 n\u00e3o exclusivos da pol\u00edtica brasileira \u2013 de que partir, quebrar, fragmentar, fraturar caminham ao lado de designa\u00e7\u00f5es como dar in\u00edcio, come\u00e7ar, lan\u00e7ar-se, p\u00f4r-se a caminho de um certo destino ainda desconhecido.<\/p>\n<p>Venho pensando na crise da representa\u00e7\u00e3o ao longo de toda a minha trajet\u00f3ria filos\u00f3fica, movida por uma mesma quest\u00e3o: como transformar a democracia formal em democracia de fato? Resumo o debate a este ponto para retomar um argumento feminista cl\u00e1ssico. Nunca houve um regime que pudesse se auto-denominar democracia antes que as mulheres tivessem direito ao voto. \u00c9 uma reivindica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica: se as mulheres s\u00e3o metade da humanidade, nenhum regime representativo consegue fazer justi\u00e7a a essa denomina\u00e7\u00e3o se as mulheres n\u00e3o tiverem participado da escolha. Se retomar o argumento de Ranci\u00e8re, posso dizer que as oligarquias s\u00e3o sempre masculinas.<\/p>\n<p>Historicamente, mulheres foram subrepresentadas na estrutura democr\u00e1tica, uma esp\u00e9cie de defici\u00eancia origin\u00e1ria na hist\u00f3ria da democracia desde a Gr\u00e9cia antiga. Criar um partido feminista, portanto, poderia ser uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica decisiva para suprir esse diferen\u00e7a. A conquista pelas mulheres do direito ao voto \u00e9 resultado de in\u00fameras lutas. De batalha em batalha, desempenhamos importante papel no processo de aprimoramento do sistema representativo. Somos hoje muito poderosas, mas somos minoria na esfera pol\u00edtica, o que importa muito se tomarmos aqui uma diferen\u00e7a entre poder como capacidade de realizar e pol\u00edtica como capacidade de decidir o que realizar.<\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es est\u00e3o em debate na proposta da partidA, numa refer\u00eancia expl\u00edcita ao g\u00eanero feminino \u2013 A \u2013 e num deslocamento da letra mai\u00fascula para o final, porque se A indica for\u00e7a, que esta for\u00e7a esteja no g\u00eanero feminino que a palavra assim grafada apresenta. A partidA carrega a ideia de iniciar, mover, movimentar, da\u00ed a g\u00edria que Marcia Tiburi recupera: #partiu e que por isso faz parte do meu t\u00edtulo. partidA me parece indicar duas transforma\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias na forma de fazer pol\u00edtica representativa, capazes de responder a pelo menos duas cr\u00edticas. A primeira cr\u00edtica: um dos problemas dos partidos representativos tem a ver com a exig\u00eancia de uma univocidade interna, de uma coer\u00eancia que estabilize diferen\u00e7as, e portanto acabe, contraditoriamente, impondo uma forma \u00fanica para aquilo que s\u00f3 tem pot\u00eancia pol\u00edtica se for disforme, plural, equivocado. A segunda cr\u00edtica: um partido pol\u00edtico corre o risco de manter-se no poder n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o daqueles que o elegeram, mas apenas em fun\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios interesses de se manter no poder, o que se pode ver \u00e0 esquerda ou \u00e0 direita.<\/p>\n<p>As diversas ondas do feminismo s\u00e3o marcadas por fatos hist\u00f3ricos, mas n\u00e3o acho que seja necess\u00e1rio aqui relembr\u00e1-los. Gostaria de pensar para al\u00e9m, pensar se somos capazes de imaginar qual seria o fato hist\u00f3rico com o qual as feministas do futuro ir\u00e3o identificar isso que estamos tentando fazer hoje. Para pensar sobre isso, gostaria de retomar um dos debates propostos pela fil\u00f3sofa Judith Butler, que h\u00e1 25 anos questionou a possibilidade de n\u00e3o mais fazer das mulheres o motor da pol\u00edtica feminista. Se a partir dali parecia que ela anunciara o fim do feminismo, de fato suas provoca\u00e7\u00f5es estavam apontando um paradoxo importante: de nada adiantava primeiro exigir das mulheres uma configura\u00e7\u00e3o estabilizada em uma identidade para depois pretender libert\u00e1-las. Era preciso, argumentava Butler, interrogar as pr\u00f3prias exig\u00eancias de identidade. Tratava-se de poder pensar um feminismo que n\u00e3o seja feito em fun\u00e7\u00e3o de representar o \u201csujeito mulher\u201d, o que exige uma identidade pr\u00e9via do referente mulher a ser representado e, contraditoriamente, obriga a um fechamento no lugar onde se quer reivindicar abertura.<\/p>\n<p>Somos muito diferentes entre n\u00f3s para sermos reduzidas \u00e0 categoria mulher. E ao mesmo tempo estamos, nessa categoria, reduzidas ao lugar de subalternidade. \u00c9 um problema pol\u00edtico estabelecer os termos contra os quais se vai lutar contra a hierarquia de g\u00eanero, que \u00e9 tamb\u00e9m uma hierarquia de ra\u00e7a e de classe. Por isso, com Butler talvez se possa pensar em fazer pol\u00edtica em dire\u00e7\u00e3o a um referente vazio de conte\u00fado, capaz de representar n\u00e3o um grupo previamente restrito a certas caracter\u00edsticas identit\u00e1rias, mas a todas as singularidades (o que, a rigor, redunda numa outra forma de universalidade, n\u00e3o mais totalizante ou unificadora).Butler estava nos provocando a pensar sobre como fazer um feminismo que n\u00e3o tivesse apenas as mulheres como sujeito da emancipa\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo desconstruindo a categoria mulher e ampliando a pol\u00edtica feminista para toda forma de subalternidade e propondo pensar que fazer pol\u00edtica \u00e9 tomar como pol\u00edtico os pr\u00f3prios termos em que se estabelece o que \u00e9 objeto da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O que estou tentando pensar, a partir da leitura que fa\u00e7o da Butler, \u00e9 se a luta contra a subalternidade pode ser o objeto de uma pol\u00edtica feminista hoje, uma bandeira que conseguiria reunir mulheres diante da constata\u00e7\u00e3o de que a subalternidade \u00e9 feminina. Num texto cl\u00e1ssico dos estudos subalternos, a feminista indiana Gaiatri Spikav pergunta: \u201cpode o subalterno falar?\u201d Sua resposta \u2013 n\u00e3o \u2013 \u00e9 um perfomativo, porque dizer n\u00e3o j\u00e1 \u00e9 dizer algo. \u00c9 sobre essa subalternidade, alega Spivak, que nenhuma estrutura de representa\u00e7\u00e3o pode dar conta (muito menos a representa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria). No contexto da produ\u00e7\u00e3o colonial, o sujeito subalterno n\u00e3o tem hist\u00f3ria, n\u00e3o pode falar, e \u00e9 irremediavelmente heterog\u00eaneo. Nesse contexto, o sujeito subalterno feminino \u00e9 ainda mais profundamente ignorado, invis\u00edvel, silenciado. No contexto brasileiro, o sujeito subalterno feminino negro, a mulher negra, \u00e9 ainda mais profundamente ignorada, invis\u00edvel, silenciada e explorada. \u00c9 um gesto pol\u00edtico fundamental reconhecer que a subalternidade da mulher negra e pobre \u00e9 diferente da subalternidade da mulher branca, e talvez em torno da subalternidade como denominador comum se possa encontrar aquilo que Butler chama de \u201cfundamentos contingentes\u201d para arregimentar partidas feministas em torno e contra a subalternidade feminina.<\/p>\n<p>Quero dizer arregimentar para n\u00e3o dizer representar, por que entendo que a crise da representa\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa maior e mais importante crise pol\u00edtica, e \u00e9 com ela e a partir dela que podemos trazer algo de novo. N\u00e3o se trata mais de feministas intelectuais representando ativistas, de mulheres brancas falando em nome de mulheres negras, de mulheres urbanas representando mulheres rurais, de mulheres burguesas falando por mulheres prolet\u00e1rias. Trata-se de, tomando o contundente n\u00e3o, o subalterno n\u00e3o pode falar, de Spivak, mesmo assim ter voz. N\u00e3o uma voz \u00fanica em nome da mulher, mas milhares de vozes ensurdecedoras e insurgentes. Vozes que emergem da subalternidade para denunciar a subalternidade.<\/p>\n<p>Para falar da subalternidade feminina, vou tomar um exemplo da revolta dos curdos que aprendi lendo a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Fabian Cantieri, orientada pela professora Carla Francalanci. Os curdos s\u00e3o um grupo \u00e9tnico em torno de 30 milh\u00f5es de pessoas que, ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, perderam suas demarca\u00e7\u00f5es territoriais e se separaram em quatro pa\u00edses: Turquia, S\u00edria, Ir\u00e3 e Iraque. Em cada um destes Estados, sob diferentes condi\u00e7\u00f5es, os curdos enfrentaram opress\u00e3o. Nos anos 70, enquanto os olhos do ocidente se voltavam para as revoltas em Paris, havia no oriente um efervescente movimento marxismo leninista e mao\u00edsta radical, e das universidades e pris\u00f5es surge o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK). \u00d6calan era o mais importante representante deste partido e pretendia conquistar a independ\u00eancia curda atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o. Para isso, manteve uma guerrilha intensa contra o estado turco ao longo dos anos 80 e 90. Conforme a guerrilha cresceu, o papel da mulher, que sempre havia sido um modelo de determina\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia e igualdade diante das armas, come\u00e7ou a ser contestado, quando muitos homens da zona rural aderiram ao movimento, recusando-se a reconhecer as guerrilheiras mulheres como iguais. Nos anos 1990, enquanto o partido sofria imensas crises devido aos intensos ataques turcos, um movimento aut\u00f4nomo feminista come\u00e7ava a contestar seu papel subalterno na hierarquia patriarcal do partido \u2013 lutar contra a opress\u00e3o deveria come\u00e7ar internamente. \u00d6calan foi preso em 1999 e depois disso, com a for\u00e7a exercida pelo movimento aut\u00f4nomo feminino, ele reformulou suas ideias sobre o papel das mulheres. Eu gostaria de citar aqui um trecho da sua mea-culpa, porque me parece adequada a muitas das situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que enfrentamos hoje:<\/p>\n<p><i>O monop\u00f3lio do homem vem sendo mantido sobre a vida e o mundo da mulher por toda a hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 como o monop\u00f3lio em cadeia do capital sobre a sociedade. Mais importante, \u00e9 o mais velho e poderoso monop\u00f3lio. N\u00f3s poderemos tirar conclus\u00f5es mais realistas se avaliarmos a exist\u00eancia da mulher como o mais velho fen\u00f4meno colonial. Pode ser mais preciso chamar a mulher de o mais velho povo colonizado que jamais virou uma na\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia, nesse contexto social, desenvolveu-se como o pequeno Estado do homem. A fam\u00edlia como institui\u00e7\u00e3o tem sido continuamente aperfei\u00e7oada por toda a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, somente por causa do refor\u00e7o que fornece ao poder e ao aparato estatal.<\/i><\/p>\n<p>A partir da\u00ed, houve uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica no movimento, que teve com consequ\u00eancias a Revolu\u00e7\u00e3o Rojava, primeiro e mais promissor embri\u00e3o da primavera \u00e1rabe. O que o exemplo dos curdos pode nos fazer pensar? E como esse exemplo se articula com a crise da representa\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, me parece que posso retornar a Butler para pensar com ela sobre as estruturas que criamos para nos libertar \u2013 a guerrilha, um partido pol\u00edtico, um movimento feminista \u2013 e que pode reproduzir internamente os mesmos mecanismos de domina\u00e7\u00e3o dos quais gostar\u00edamos de nos emancipar. Em parte, o que aconteceu com as mulheres curdas \u00e9 o que acontece com todas n\u00f3s, mulheres, o tempo todo: somos relegadas a um lugar de subalternidade diante dos homens. Neste ponto, eu gostaria de citar uma feminista francesa, a Monique Wittig, cujo radicalismo nos anos 1970 ainda \u00e9 atual: \u201cComo n\u00e3o existem escravos sem amos, n\u00e3o existem mulheres sem homens. [\u2026] \u00c9 a opress\u00e3o que cria o sexo, e n\u00e3o o contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que n\u00f3s, mulheres, tamb\u00e9m podemos incorrer no equ\u00edvoco pol\u00edtico de produzir novas subalternidades em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s. Hierarquias entre intelectuais e ativistas, entre brancas e negras, entre hetero e homossexuais, cis e trans, por exemplo, s\u00e3o facilmente percebidas no interior do movimento de mulheres.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, pensar a subalternidade como fundamento contingente pode ser tentar colocar em pr\u00e1tica novas formas de fazer pol\u00edtica, nas quais n\u00e3o se precise ou procure um denominador comum unificador, mas se encontre pontos de contato em tornos dos quais alian\u00e7as podem frutificar. Pontos de contato que n\u00e3o exijam configura\u00e7\u00f5es \u00fanicas, mas partidas. Talvez essas possam vir a ser as nossas heran\u00e7as, talvez n\u00e3o. \u00c9 nesse talvez que est\u00e1 a nossa possibilidade de provocar alguma mudan\u00e7a, pensando sobre as estruturas falogoc\u00eantricas de poder e buscando formas pol\u00edticas de parti-las.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/carlarodrigues.uol.com.br\/index.php\/2991\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fonte: http:\/\/carlarodrigues.uol.com.br\/index.php\/2991<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carla Rodrigues A obra do fil\u00f3sofo Jacques Derrida interessou \u00e0 teoria feminista por muitas raz\u00f5es, uma delas foi a liga\u00e7\u00e3o que ele fez entre<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[283],"tags":[333,139,164,353],"class_list":{"0":"post-22098","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-artigos","7":"tag-democracia","8":"tag-feminismos","9":"tag-igualdade-de-genero","10":"tag-raca-etnia"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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