{"id":22092,"date":"2015-08-12T18:44:29","date_gmt":"2015-08-12T21:44:29","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2015\/08\/12\/novas-guerras-sexuais\/"},"modified":"2024-02-02T15:57:21","modified_gmt":"2024-02-02T18:57:21","slug":"novas-guerras-sexuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/novas-guerras-sexuais\/22092","title":{"rendered":"Novas Guerras Sexuais"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Publicado originalmente pelo <a href=\"http:\/\/clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=12201\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM\/IMS\/UERJ)<\/a><\/em><\/p>\n\n\n<p>Em <i>\u201cThinking sex: notes for a radical theory of the politics\u00a0<\/i><i>of sexuality\u201d<\/i>, de 1984, a antrop\u00f3loga norte-america Gayle Rubin apontou como os conflitos envolvendo valores e condutas sexuais no final do s\u00e9culo XX guardavam semelhan\u00e7as com as guerras religiosas de s\u00e9culos anteriores. No s\u00e9culo atual, o cen\u00e1rio n\u00e3o parece se distanciar daquele sugerido por Rubin, especialmente quando o fortalecimento social e pol\u00edtico de setores crist\u00e3os dogm\u00e1ticos \u00e9 cada vez mais not\u00e1vel no horizonte brasileiro, atrav\u00e9s de uma oposi\u00e7\u00e3o persistente contra iniciativas de promo\u00e7\u00e3o da diversidade sexual.<\/p>\n<p>No livro \u201cAs novas guerras sexuais: diferen\u00e7a, poder religiosos e identidade LGBT no Brasil\u201d (Garamond, 2013), os antrop\u00f3logos Marcelo Natividade (USP) e Leandro de Oliveira (URCA) descrevem os mecanismos, interesses e discursos de que se valem setores conservadores religiosos para dificultar o avan\u00e7o de direitos liberdades no campo do g\u00eanero e da sexualidade. Eles destacam como no\u00e7\u00f5es de perigo e contamina\u00e7\u00e3o associadas a indiv\u00edduos e pr\u00e1ticas que n\u00e3o se enquadram nas normas hegem\u00f4nicas s\u00e3o exploradas por autores conservadores de forma a alimentar p\u00e2nicos morais. Assim, \u00e9 comum ouvir ataques \u00e0s pessoas LGBT, acusando-as de \u201canormais\u201d, associando-as \u00e0 pedofilia e ao abuso de menores, \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do HIV\/Aids e \u00e0 desestrutura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia\u2013 resgatando fantasmas vitorianosantigos, do s\u00e9culo XIX,como a \u201cimoralidade\u201d e a \u201cdegeneresc\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, tais setores t\u00eam crescentemente ocupado espa\u00e7os de poder, impedindo a viabiliza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e legisla\u00e7\u00f5es para a garantia e promo\u00e7\u00e3o de direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBT. Conforme destacam Marcelo Natividade e Leandro de Oliveira, eles inclusive fazem uso de linguagem cient\u00edfica em uma esp\u00e9cie de \u201csexologia religiosa\u201d,sendo as iniciativas da chamada \u201ccura gay\u201d exemplos desse entrela\u00e7amento entre religi\u00e3o, pol\u00edtica e ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo os autores do livro, tal ofensiva est\u00e1 ligada a um processo de \u201ccrescente visibilidade LGBT e \u00e0s modestas conquistas pol\u00edticas obtidas por esta popula\u00e7\u00e3o junto ao Estado nos \u00faltimos anos, nas inst\u00e2ncias do Executivo e, especialmente, do Judici\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>O horizonte de guerras sexuais que intitula a obra, no entanto, \u00e9 o mesmo em que experi\u00eancias acolhedoras se desenvolvem. Na entrevista a seguir, os pesquisadores chamam tamb\u00e9m a aten\u00e7\u00e3o para um interessante fen\u00f4meno de reinven\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es religiosas que, se n\u00e3o apaga os ataques e radicaliza\u00e7\u00f5es, ao menos amplia as possibilidades de acolhimento de indiv\u00edduos LGBT em meio a homofobia predominante: as igrejas inclusivas.<\/p>\n<p>\u201cElas constituem reivindica\u00e7\u00f5es por liberdade religiosa, de gays e l\u00e9sbicas \u2013 pessoas que efetivamente ocupam os bancos das igrejas. Durante muitos anos, esses fi\u00e9is ocultaram suas experi\u00eancias e identidades, temendo as san\u00e7\u00f5es institucionais que incidem sobre quem desafia as normas da congrega\u00e7\u00e3o. Mas essas pessoas agora ganharam visibilidade na esfera p\u00fablica \u2013 elas reivindicam n\u00e3o apenas o direito de serem gays, l\u00e9sbicas, travestis e transexuais, mas <i>tamb\u00e9m<\/i>de serem <i>crist\u00e3os<\/i>\u201d, afirma Marcelo Natividade.<\/p>\n<p><b><i>Novos conservadorismos<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>A ofensiva de setores religiosos contra a diversidade sexual n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dita. Nos EUA, o movimento da Moral Majority nos anos 1970-1980 \u00e9 um exemplo de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica crist\u00e3 que se posicionava contra, entre outras quest\u00f5es, o reconhecimento do desejo e das uni\u00f5es gays. No Brasil, durante a Constituinte de 1988, setores conservadores pressionaram para que a express\u00e3o \u201corienta\u00e7\u00e3o sexual\u201d n\u00e3o fosse inclu\u00edda no texto que tratava sobre discrimina\u00e7\u00f5es. O que as novas guerras sexuais t\u00eam de semelhan\u00e7a e diferen\u00e7a a movimentos similares do passado?<\/b><\/p>\n<p><b><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/marcelo_nativadade.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"150\" align=\"right\" \/>Marcelo Natividade:\u00a0<\/b>O desejo de manuten\u00e7\u00e3o de certos privil\u00e9gios sociais por alguns atores nessa cena \u00e9 uma das semelhan\u00e7as. N\u00e3o \u00e9 novidade que grupos religiosos atuam no Brasil e em outros contextos de modo a obstruir a plena cidadania de gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, travestis e transexuais atrav\u00e9s da rejei\u00e7\u00e3o e milit\u00e2ncia contra o casamento igualit\u00e1rio, a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as por casais homossexuais, a express\u00e3o p\u00fablica do afeto. J\u00e1 na Constituinte de 1988, segmentos religiosos atuaram no sentido de assegurar que o termo orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o fosse inclu\u00eddo no texto da Constitui\u00e7\u00e3o e assim a homofobia n\u00e3o fosse criminalizada como o racismo, a xenofobia e o preconceito de g\u00eanero. Apesar da diversidade de correntes no cristianismo, \u00e9 digno de nota que \u2013 quando o assunto \u00e9 homossexualidade \u2013 sejam muito mais evidentes os posicionamentos de rep\u00fadio da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Nesse contexto, os privil\u00e9gios que det\u00e9m as hegemonias sexuais s\u00e3o justificados por meio do cultivo e difus\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es da homossexualidade que real\u00e7am estigmas e refor\u00e7am percep\u00e7\u00f5es negativas. Os discursos de certas lideran\u00e7as religiosas constroem homossexuais como pessoas perigosas e \u2018em perigo\u2019, que demandam controle, corre\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo \u201ccura\u201d. Mas me chama muita aten\u00e7\u00e3o a por\u00e7\u00e3o da n\u00e3o religi\u00e3o, nos argumentos sustentados por religiosos. Dito de outro modo, as raz\u00f5es para a n\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00f5es que protejam pessoas LGBT nada t\u00eam de religiosas, mas s\u00e3o express\u00f5es de p\u00e2nicos morais, de exageros, de exalta\u00e7\u00f5es da norma e de refor\u00e7o de estere\u00f3tipos que pretendem refor\u00e7ar desigualdades sociais entre heterossexuais e homossexuais. Certas lideran\u00e7as religiosas proclamam que as sexualidades n\u00e3o heterossexuais vivem a espalhar AIDS, a reproduzir abusos e viol\u00eancia sexual. Argumentam que avan\u00e7os da cidadania LGBT insuflariam a viol\u00eancia contra heterossexuais, o que chamam de \u201cheterofobia\u201d. \u00c9 por meio de uma virulenta milit\u00e2ncia para o refor\u00e7o desses estere\u00f3tipos que grupos conservadores justificam a recusa de direitos e impactam a constru\u00e7\u00e3o da igualdade e da democracia, no caso das pessoas LGBT.<\/p>\n<p>Gayle Rubin trata dessas desigualdades ao formular a no\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a er\u00f3tica. Essas guerras t\u00eam como pano de fundo reflex\u00f5es profundas sobre tais desigualdades e press\u00f5es pol\u00edticas para a amplia\u00e7\u00e3o de idiomas e instrumentos de justi\u00e7a social. Elas dramatizam disputas pela significa\u00e7\u00e3o da homossexualidade e por questionamento de opress\u00f5es que eram antes naturalizadas. Pr\u00e1ticas culturais at\u00e9 ent\u00e3o aceitas, come\u00e7am a ser constru\u00eddas como inaceit\u00e1veis, problematizadas, questionadas, denunciadas e tornadas mat\u00e9ria de ampla discuss\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio cultural de constru\u00e7\u00e3o da homofobia como uma categoria significativa, um problema social, que as desigualdades e preconceito por orienta\u00e7\u00e3o sexual recebem aten\u00e7\u00e3o do Estado e ensejam o engajamento de segmentos da sociedade civil em luta por formas de regula\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 interessante observar que novos fatos e eventos, levam a redefini\u00e7\u00f5es de posi\u00e7\u00f5es e novos alinhamentos. Evidentemente, os discursos do Papa Francisco t\u00eam reverberado de modo relativamente positivo e t\u00eam sido tomado por alguns segmentos da milit\u00e2ncia como poss\u00edveis sinais de abertura para a diversidade, apesar das estruturas de longa dura\u00e7\u00e3o que sustentam a reprova\u00e7\u00e3o da homossexualidade. A Igreja Presbiteriana norte-americana aprovou o casamento gay e h\u00e1 outros movimentos em curso. H\u00e1 d\u00e9cadas outras igrejas de perfil hist\u00f3rico discutem a ordena\u00e7\u00e3o de pastores homossexuais. Tudo isso sinaliza como posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o inst\u00e1veis e fruto de contextos e situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas espec\u00edficas.<\/p>\n<p><b><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/06\/leando_oliveira.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"158\" align=\"right\" \/>Leandro de Olveira<\/b>: Parece-me interessante lembrar que a no\u00e7\u00e3o de &#8220;Guerras Sexuais&#8221; \u00e9 uma met\u00e1fora, que pegamos emprestada dofamoso artigo de Gayle Rubin, &#8220;Pensando o Sexo&#8221;, que Marcelo citou. No mundo contempor\u00e2neo, as identidades sexuais se pluralizam do mesmo modo que as identidades \u00e9tnicas. Esta pluraliza\u00e7\u00e3o, em si, n\u00e3o tem nada de ruim \u2013 supondo que voc\u00ea acredite que a pluralidade \u00e9 algo bom, ou que voc\u00ea seja insens\u00edvel a ela, ou pelo menos que o diferente aceite ocupar uma posi\u00e7\u00e3o de inferioridade e se mantenha \u2018no seu devido lugar\u2019. O conflito ocorre quando porta-vozes de certos setores sociais se sentem amea\u00e7ados pela mera exist\u00eancia do diferente, por sua proximidade e visibilidade. Esse sentimento de alarme parece ser maior quando existe um temor de que o outro possa seduzir, recrutar, converter, contagiar \u2013 leia-se, transformar pelo contato as ditas \u2018pessoas normais\u2019 em algo distinto daquilo que elas supostamente deveriam ser.<\/p>\n<p>Nas guerras sexuais do s\u00e9culo XIX, os fantasmas eram a \u201cimoralidade\u201d e a \u201cdegeneresc\u00eancia\u201d, que amea\u00e7avam contaminar f\u00edsica e moralmente a burguesia e a popula\u00e7\u00e3o em geral. Entre os anos 1970-1980, assistimos a um recrudescimento de conservadorismos que respondiam \u00e0 pluraliza\u00e7\u00e3o de estilos de vida representadas pela contracultura e os movimentos feminista e homossexual. Hoje (no Brasil, em todo caso), \u00e9 prov\u00e1vel que estejamos ainda lidando com rea\u00e7\u00f5es \u00e0 crescente visibilidade LGBT e \u00e0s modestas conquistas pol\u00edticas obtidas por esta popula\u00e7\u00e3o junto ao Estado nos \u00faltimos anos, nas inst\u00e2ncias do Executivo e, especialmente, do Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p><b>Tornou-se rotina assistir a a\u00e7\u00f5es de parlamentares da bancada religiosa atuando para impedir a promo\u00e7\u00e3o de direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBT no Brasil. Por que a predile\u00e7\u00e3o por essa popula\u00e7\u00e3o? Por que, no final das contas, desejos e condutas sexuais, bem como o marcador social de g\u00eanero, s\u00e3o mobilizados com tamanha intensidade?<\/b><\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira: <\/b>Essa \u00e9 uma pergunta bem interessante. Em parte, alguns acidentes hist\u00f3ricos podem ter ajudado a configurar essa predile\u00e7\u00e3o. Retomando um pouco o tema da pergunta anterior, conv\u00e9m sublinhar que a Assembleia Nacional Constituinte ocorreu em um per\u00edodo no qual os discursos sobre a epidemia de HIV ainda associavam homossexualidade e AIDS (representando os homossexuais como &#8220;culpados&#8221; pela difus\u00e3o de uma doen\u00e7a tida como letal e incur\u00e1vel, capazes inclusive de transmiti-la por via n\u00e3o-sexual para &#8220;v\u00edtimas inocentes&#8221;, como as crian\u00e7as hemof\u00edlicas). N\u00e3o me parece que essa conjuntura, por si s\u00f3, tenha sido um fator que explica porque, a despeito das press\u00f5es exercidas pelo movimento homossexual na \u00e9poca, a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o por orienta\u00e7\u00e3o sexual deixou de ser inclu\u00edda no texto constitucional. Mas n\u00e3o deixa de ser curioso que o mesmo texto tenha contemplado formas de reconhecimento a mulheres, popula\u00e7\u00f5es negras e ind\u00edgenas (extremamente significativas, enquanto conquistas simb\u00f3licas e pol\u00edticas, para os respectivos movimentos sociais). Em um cen\u00e1rio em que medos coletivos eram insuflados e manipulados por setores conservadores para tentar obstruir processos de mudan\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel que os homossexuais tenham servido como um bode expiat\u00f3rio dispon\u00edvel e particularmente conveniente, um s\u00edmbolo para diferen\u00e7as &#8220;indesej\u00e1veis&#8221; em nossa nova ordem pol\u00edtica democr\u00e1tica e pluralista.<\/p>\n<p>Dez anos depois, com as paradas do orgulho, temos uma intensifica\u00e7\u00e3o da visibilidade daquelas pessoas hoje referidas pela sigla \u201cLGBT\u201d. Pessoas que desafiam as conven\u00e7\u00f5es de g\u00eanero \u2013 travestis, transexuais e que transitem entre masculino e feminino \u2013 podem ser particularmente perturbadoras, sob perspectivas que se v\u00eaem como \u2018conservadoras\u2019, devido \u00e0 visibilidade da diferen\u00e7a que est\u00e1 inscrita em seus corpos, roupas e gestos. Claro, conv\u00e9m lembrar que este dito conservadorismo, pra n\u00f3s, n\u00e3o implica preserva\u00e7\u00e3o ou resgate do passado, mas uma resist\u00eancia ativa a mudan\u00e7as, que recorre com frequ\u00eancia a imagens de um passado imagin\u00e1rio (por exemplo, ideais sobre a \u2018fam\u00edlia tradicional\u2019). A diversidade (nas formas de express\u00e3o de g\u00eanero e nos gostos sexuais, assim como nas identidades constitu\u00eddas a partir destes jeitos e gostos) acaba sendo retratada como a grande amea\u00e7a a esse passado id\u00edlico. Penso que, em parte, o inc\u00f4modo com as pessoas LGBT tenha rela\u00e7\u00e3o com uma representa\u00e7\u00e3o sobre sua proximidade e relativa \u2018onipresen\u00e7a\u2019 no mundo contempor\u00e2neo, que a visibilidade massiva das \u00faltimas duas d\u00e9cadas teve o poder de real\u00e7ar.<\/p>\n<p>Quem imagina as pessoas LGBT como seres \u2018distantes\u2019 de modo geral n\u00e3o se preocupa muito com eles \u2013 a n\u00e3o ser, talvez, que se descubra subitamente vinculado a algum. Est\u00e1 se falando, evidentemente, de certas fantasias culturais (formas de construir e imaginar o outro, que confirmam a imagem que tenho de mim mesmo). N\u00e3o se trata aqui de um \u2018outro\u2019 considerado distante ou isolado em territ\u00f3rios espaciais espec\u00edficos. Ele aparece em telenovelas e notici\u00e1rios, pode ser meu vizinho, pode ser o filho de um vizinho, o colega de escola ou professor ou amigo de um de meus filhos, etc. Ele n\u00e3o est\u00e1 apenas nas ruas e na m\u00eddia \u2013 est\u00e1 nas igrejas, nos estabelecimentos de ensino, nos estabelecimentos comerciais. Talvez, mesmo, esteja infiltrado no Estado (este outro representante do Mal no mundo) e nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, conspirando para minar e destruir a moral e os bons costumes. Este sentido de onipresen\u00e7a, se combinado com a cren\u00e7a cultural de que estes gostos sexuais podem ser particularmente sedutores e infectantes (qui\u00e7\u00e1 capazes de contagiar minha casa, meus filhos ou minha congrega\u00e7\u00e3o), fornece ingredientes particularmente explosivos para o embate.<\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b> Penso que o inc\u00f4modo \u00e9 com todas as express\u00f5es das identidades e sexualidades que se encontram \u00e0s margens da fam\u00edlia reprodutora e dos modelos de g\u00eanero hegem\u00f4nicos. As putas e os homossexuais s\u00e3o os principais alvos de uma campanha moralista que tem sido reinventada e alimentada por tais segmentos, que se percebem amea\u00e7ados nas suas fantasias de identidade de que seus valores e vis\u00f5es de mundo s\u00e3o universais. Contudo, no rol dos pecados sexuais, \u00e9 evidente que as pessoas LGBT s\u00e3o preferencialmente objeto de discursos e formas de controle, afinal, n\u00e3o se criam grupos de ex-masturbadores nem programas governamentais dedicados a resgatar pessoas do v\u00edcio da masturba\u00e7\u00e3o ou das experi\u00eancias extraconjugais, embora essas condutas tamb\u00e9m sejam objeto das pastorais sexuais. Tamb\u00e9m n\u00e3o se conjectura que prostitutas ou \u201cviciados sexuais\u201d tenham um plano maligno de contamina\u00e7\u00e3o da humanidade. Mas isso acontece com os homossexuais, a partir da percep\u00e7\u00e3o de que eles pretendem homossexualizar a sociedade e obrigar pessoas heterossexuais a serem homossexuais. Esse \u00e9 um excelente exemplo do p\u00e2nico moral que j\u00e1 mencionamos, que opera pelo exagero e deturpa\u00e7\u00e3o das leg\u00edtimas reivindica\u00e7\u00f5es por direitos civis.<\/p>\n<p>Talvez essas virulentas rea\u00e7\u00f5es morais de desqualifica\u00e7\u00e3o configurem um certo tipo negativo de resposta das igrejas \u00e0 epidemia de HIV\/ AIDS, uma vez que elas reciclam todo o imagin\u00e1rio da epidemia dos anos 1980, especialmente, insuflando discursos de medo que ensejam a prote\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, das crian\u00e7as e das ditas pessoas comuns, como observou Leandro. Elas refor\u00e7am as divis\u00f5es entre <i>n\u00f3s e eles<\/i>, e alimentam posturas de hostilidade que podem amparar certas formas de viol\u00eancia mais expl\u00edcitas, incluindo a viol\u00eancia f\u00edsica. A homossexualidade \u00e9 constru\u00edda como a alteridade, por excel\u00eancia, contaminadora e que exige retra\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica. \u00c9 curioso que a agenda da milit\u00e2ncia conservadora contra o casamento igualit\u00e1rio acabe por se encontrar com a milit\u00e2ncia contra as novas fam\u00edlias e contra a doa\u00e7\u00e3o de sangue pelos homossexuais, todas amparadas na percep\u00e7\u00e3o de LGBTs como sexualidades amea\u00e7adoras, que n\u00e3o devem ter respaldo e prote\u00e7\u00e3o do Estado e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o devem nem mesmo existir. A recusa dos direitos civis dos homossexuais \u00e9 uma recusa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Acho que esses argumentos t\u00eam impactado at\u00e9 mesmo as pol\u00edticas p\u00fablicas, em epis\u00f3dios \u2013 como j\u00e1 foi dito \u2013 da proibi\u00e7\u00e3o do kit-anti-homofobia pelo Governo ou do veto das campanhas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de preven\u00e7\u00e3o ao HIV\/AIDS que apresentavam casais homoafetivos, no Carnaval de 2012. O medo da contamina\u00e7\u00e3o pela homossexualidade \u00e9 a for\u00e7a motora do temor de \u201cfazer propaganda da diversidade sexual\u201d, sustentada por agentes da Governan\u00e7a P\u00fablica, em raz\u00e3o das press\u00f5es de segmentos religiosos. O grande desafio \u00e9 que tudo o que discutimos impacta o modo como pessoas LGBT t\u00eam acesso a servi\u00e7os e benef\u00edcios dos sistemas de sa\u00fade, de seguran\u00e7a, de educa\u00e7\u00e3o e outros. Tenho observado de perto como o campo da pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 impactado por ades\u00f5es e perten\u00e7as religiosas de t\u00e9cnicos, gestores e outros agentes, que acabam por intervir ou mesmo extinguir a\u00e7\u00f5es que beneficiam popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o heterossexuais.<\/p>\n<p><b>Voc\u00eas analisam no livro o que chamam de novos conservadorismos e discursos fundamentalistas. Um aspecto que tem chamado a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o uso da ci\u00eancia por grupos religiosos para legitimar suas vis\u00f5es de mundo, do que \u00e9 exemplo o projeto de lei da \u201ccura gay\u201d, que propunha terapia para converter homossexuais em heterossexuais baseada nos saberes psi. Como voc\u00eas avaliam tal interface entre campos de saber distintos, que tem como palco privilegiado espa\u00e7os pol\u00edticos institucionais como o Congresso? Estamos diante de mais de um fundamentalismo, isto \u00e9, n\u00e3o apenas de natureza religiosa, mas tamb\u00e9m de teor cient\u00edfico e pol\u00edtico?<\/b><\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b>Acho importante deixar claro que entendemos tanto a religi\u00e3o como a laicidade como constru\u00e7\u00f5es sociais. Desse modo, as l\u00edquidas e m\u00f3veis fronteiras entre o que \u00e9 laico e religioso em nossa sociedade indicam apenas a fic\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica de que tais esferas sociais s\u00e3o apartadas. Nesse sentido, o surgimento de uma sexologia religiosa, como discutimos no livro, exemplifica como tais fronteiras s\u00e3o atualizadas e as ambi\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias de tais grupos religiosos, empenhados em colocar em pr\u00e1tica pastorais sexuais e certas formas de gest\u00e3o da vida \u00edntima. Semelhante aos sex\u00f3logos do in\u00edcio do s\u00e9culo passado, eles instituem mecanismos de corre\u00e7\u00e3o que exaltam a heterossexualidade como a \u00fanica sexualidade leg\u00edtima e saud\u00e1vel e constroem a homossexualidade como patologia. Esses novos militantes da pureza sexual se apropriam de certas teorias do campo <i>psi<\/i>em relativo desuso, ultrapassadas, que operam por uma l\u00f3gica patologizante, procurando definir o bom e o mau sexo. Suas representa\u00e7\u00f5es entram em choque com o conhecimento cient\u00edfico contempor\u00e2neo que n\u00e3o compreende a homossexualidade como doen\u00e7a, mas assinala que condutas e identidades sexuais s\u00e3o complexas e fruto de experi\u00eancias e intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com efeito, tanto a homossexualidade, como a bissexualidade e a heterossexualidade s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais, em um leque de identidades sexuais poss\u00edveis que tem se pluralizado, a partir do surgimento de novos sujeitos de direitos. A milit\u00e2ncia religiosa, contudo, insiste em que a heterossexualidade \u00e9 natural, enquanto a diversidade sexual \u00e9 fruto de traumas, abusos, portanto, patol\u00f3gica. Observamos uma verdadeira explos\u00e3o discursiva que cultiva uma obsess\u00e3o com a suposta g\u00eanese da homossexualidade. Mas se trata de uma \u201cpsicologia\u201d a servi\u00e7o da religi\u00e3o, como discutiu o antrop\u00f3logo Luiz Fernando Dias Duarte, instituindo did\u00e1ticas para uma \u201cvida crist\u00e3\u201d. Com efeito, essa did\u00e1tica defende que se a homossexualidade \u00e9 um comportamento apreendido, pode ser pass\u00edvel de <i>cura<\/i> e transforma\u00e7\u00e3o. A cura apregoada nada mais faz do que instituir pedagogias do g\u00eanero, alguns modos de tornar certos homens mais masculinos e certas mulheres mais femininas.<\/p>\n<p>Certamente, um dos alvos desse discurso \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o de travestis e transexuais em \u201cex-travestis\u201d e \u201cex-transexuais\u201d. Existem hoje no Brasil pequenos minist\u00e9rios empenhados em converter essa popula\u00e7\u00e3o e refor\u00e7ar todo tipo de preconceito contra pessoas transg\u00eaneros. Eles recomendam e instituem mecanismos de controle que passam pela retirada de pr\u00f3teses e silicones e alimentam as fantasias de identidade de que todas as pessoas devem ser heterossexuais e adequar-se aos modelos de g\u00eanero dominantes. Contudo, n\u00e3o devemos achar que esses discursos est\u00e3o restritos a ambientes religiosos, mas entender que ele possui um alcance capilar. Basta lembrar o modo como \u00e9 recorrente a apresenta\u00e7\u00e3o de projetos de lei, tanto em n\u00edvel federal como nos estados e munic\u00edpios, que pretendem criar programas governamentais de <i>cura gay<\/i>.<\/p>\n<p>A outra face dessa milit\u00e2ncia religiosa \u00e9 o esfor\u00e7o para obstruir a\u00e7\u00f5es governamentais que procuram desestabilizar certas formas de opress\u00e3o nos sistemas de educa\u00e7\u00e3o, de seguran\u00e7a p\u00fablica, de sa\u00fade e outros servi\u00e7os sociais. Nesse momento, essa discuss\u00e3o \u00e9 muito oportuna, pois setores religiosos v\u00eam atuando de modo a obstruir pol\u00edticas p\u00fablicas no campo da educa\u00e7\u00e3o empenhadas em discutir g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual nas escolas como uma forma de combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher e a homofobia. Esse ativismo religioso e conservador, amparado na palavra de ordem \u201cg\u00eanero n\u00e3o\u201d, como foi noticiado na m\u00eddia nos \u00faltimos dias, tem como pressuposto que as discuss\u00f5es sobre igualdade, liberdade e equidade n\u00e3o devem ser feitas na escola e muito menos na sociedade brasileira. Esse \u00e9 um exemplo vivo sobre como as guerras que descrevemos se atualizam o tempo todo na esfera p\u00fablica e indicam os enlaces entre ci\u00eancia, religi\u00e3o e pol\u00edtica.<\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira:<\/b> Bem, a separa\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, pol\u00edtica e religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno universal, mas uma constru\u00e7\u00e3o artificial do pensamento moderno. Uma distin\u00e7\u00e3o artificial que, como diz Bruno Latour (em \u201cJamais Fomos Modernos\u201d), faz coisas h\u00edbridas proliferarem por toda a parte. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o acho nada especialmente espantoso no fato que se produzam discursos h\u00edbridos que misturem ci\u00eancia, pol\u00edtica e religi\u00e3o. As pr\u00f3prias igrejas inclusivas produzem certas misturas entre religi\u00e3o e pol\u00edtica, talvez mesmo entre religi\u00e3o e ci\u00eancia (estou pensando no fato de existirem lideran\u00e7as inclusivas com forma\u00e7\u00e3o em \u00e1reas como psicologia e que consomem literatura acad\u00eamica sobre temas ligados a sexualidade). Um aspecto que chama nossa aten\u00e7\u00e3o, nas controv\u00e9rsias p\u00fablicas sobre a <i>cura gay<\/i>, \u00e9 o fato de que a \u201cci\u00eancia\u201d que comparece nessa encruzilhada \u00e9 desprovida de qualquer respaldo nos consensos correntes da comunidade cient\u00edfica \u2013 creio que Marcelo j\u00e1 sinalizou para este ponto.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outra coisa: no caso do projeto de lei da <i>cura gay<\/i> havia uma tentativa expl\u00edcita de controle do campo cient\u00edfico-terap\u00eautico a partir de uma a\u00e7\u00e3o situada no campo jur\u00eddico-pol\u00edtico (a qual pode, por sua vez, ter resson\u00e2ncias com valores religiosos). O caso, no fundo, \u00e9 bem simples: m\u00e9dicos e psic\u00f3logos s\u00f3 podem \u2018tratar\u2019 algo que seja definido como \u201cdoen\u00e7a\u201d; quem hoje det\u00e9m autoridade pra discutir e definir o que \u00e9 ou n\u00e3o uma \u201cdoen\u00e7a\u201d \u00e9 a comunidade cient\u00edfica; um projeto de lei que vise implementar a \u201ccura\u201d gay tenta usurpar esta autoridade. Aqui, n\u00e3o se trata simplesmente de hibridiza\u00e7\u00e3o, mas de uma tentativa de encompassar um campo por outro, de subordinar um destes campos a outros.<\/p>\n<p><b>S\u00e3o not\u00f3rias as articula\u00e7\u00f5es entre setores evang\u00e9licos e setores cat\u00f3licos e esp\u00edritas contr\u00e1rios aos direitos sexuais. Como voc\u00eas avaliam esse \u201cecumenismo\u201d no contexto dos novos conservadorismos e discursos fundamentalistas apontados no livro?<\/b><\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira:<\/b>Creio que daria pra resumir minha vis\u00e3o sobre este tema em uma frase: em situa\u00e7\u00f5es de confronto pol\u00edtico, \u2018o inimigo de meu inimigo \u00e9 meu amigo\u2019. Enfrentamentos deste tipo podem gerar alian\u00e7as que a princ\u00edpio pareceriam improv\u00e1veis. Ent\u00e3o, a alian\u00e7a em si faz parte dos jogos da pol\u00edtica, e n\u00e3o tem nada de surpreendente. O que \u00e9, talvez, um pouco surpreendente \u00e9 o idioma mais ou menos consensual por meio do qual essas articula\u00e7\u00f5es s\u00e3o formuladas. Com freq\u00fc\u00eancia, elas s\u00e3o justificadas como em defesa da \u2018fam\u00edlia\u2019 ou de tradi\u00e7\u00f5es e valores que seriam \u2018comuns\u2019 a todos. As teorias sobre os p\u00e2nicos morais, mencionadas por Marcelo h\u00e1 pouco, oferecem algumas pistas pra gente refletir sobre este tipo de consenso. Tudo se passa como se a varia\u00e7\u00e3o sexual servisse enquanto um s\u00edmbolo que focaliza m\u00faltiplas ansiedades coletivas diante de mudan\u00e7as culturais; um alvo pol\u00edtico que suscita coaliz\u00f5es e propicia a supera\u00e7\u00e3o de dissensos entre fac\u00e7\u00f5es na esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00f3s refletimos um pouco sobre este tipo de processo no livro. Os homossexuais n\u00e3o s\u00e3o meramente vistos como indiv\u00edduos com gostos pessoais moralmente controversos. Eles s\u00e3o pessoas supostamente geradas em fam\u00edlias desestruturadas e investidas do poder de desestruturar as fam\u00edlias alheias; responsabilizados pela difus\u00e3o da AIDS e da pedofilia; acusados de tentar \u2018converter\u2019 as gera\u00e7\u00f5es mais jovens em homossexuais (basta lembrar as controv\u00e9rsias em torno do kit anti-homofobia), etc. A constru\u00e7\u00e3o de um inimigo comum acaba sendo uma estrat\u00e9gia poderosa e eficiente neste processo de forma\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p><b>Que tipo de impacto tais discursos podem exercer na vida pessoal e familiar de indiv\u00edduos ligados a grupos religiosos fundamentalistas? Qual o papel de pastores na media\u00e7\u00e3o de tais discursos e como isso afeta as rela\u00e7\u00f5es pessoais no \u00e2mbito privado?<\/b><\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b>A experi\u00eancia religiosa de pessoas LGBT \u00e9 marcada por estigmas e m\u00faltiplas perspectivas de exclus\u00e3o nas congrega\u00e7\u00f5es crist\u00e3s em que boa parte delas foi socializada, mas tamb\u00e9m existem possibilidades de negocia\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro. Chamou-nos aten\u00e7\u00e3o o modo como o desejo de autoexterm\u00ednio diante da percep\u00e7\u00e3o de si como objeto do <i>\u00f3dio de Deus<\/i> pode ser uma recorr\u00eancia sociol\u00f3gica. Nos bancos das igrejas, as amea\u00e7as de dana\u00e7\u00e3o eterna parecem exercer forte impacto sobre a subjetividade, instaurando conflitos dilacerantes para os quais a morte parece, em um dado momento das biografias, a solu\u00e7\u00e3o. Nunca perguntamos especificamente sobre essa tem\u00e1tica, mas ela aparecia espontaneamente, em alguns relatos, materializadas em declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es suicidas ou de pr\u00e1ticas nesse sentido. Por outro lado, discrimina\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia e discrimina\u00e7\u00e3o no ambiente religioso se interseccionam em algumas narrativas, pois as redes religiosas e familiares se sobrep\u00f5em no cultivo de certas formas de hostilidade da diversidade sexual. Nesse sentido, a socializa\u00e7\u00e3o em contextos pentecostais se revelou o mais dram\u00e1tico, do ponto de vista das tens\u00f5es vivenciadas.<\/p>\n<p>Mas existem formas de puni\u00e7\u00e3o plurais, quando a homossexualidade do fiel \u00e9 revelada. Quando esse fiel encontra uma igreja inclusiva, um ambiente social que prescreve a concilia\u00e7\u00e3o entre cristianismo e homossexualidade, a experi\u00eancia \u00e9 de ressignifica\u00e7\u00e3o dos dogmas da igreja de origem. As lideran\u00e7as inclusivas desempenham um importante papel na oferta de relatos compartilhados do <i>amor de Deus<\/i> pelos homossexuais, sem exig\u00eancia de mudan\u00e7a ou abstin\u00eancia sexual. Em outras palavras, esses l\u00edderes exercem uma <i>pedagogia da aceita\u00e7\u00e3o<\/i>, que leva a constru\u00e7\u00e3o de imagens positivas de si e a remo\u00e7\u00e3o de estigmas, uma verdadeira descoberta de aprendizado de ser evang\u00e9lico e ser homossexual, algo anteriormente inimagin\u00e1vel. \u00c9 claro que essa \u00e9 uma experi\u00eancia que envolve conflitos, ambival\u00eancias e media\u00e7\u00f5es entre as igrejas de origem e a nova religi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante, por exemplo, como categorias como <i>cura<\/i>, <i>pecado<\/i>ou <i>dem\u00f4nio<\/i> s\u00e3o apropriadas, em alguns contextos, e investidas de novos significados e sentidos. Por exemplo, quando lideran\u00e7as ou fi\u00e9is, gays e l\u00e9sbicas, inclusivos, compreendem a discrimina\u00e7\u00e3o por orienta\u00e7\u00e3o sexual sofrida na fam\u00edlia como fruto da interfer\u00eancia do dem\u00f4nio, sendo o diabo o autor de gestos e atitudes homof\u00f3bicas. Ou quando se emprega a categoria cura, n\u00e3o <i>da homossexualidade<\/i>, mas das feridas emocionais deixadas pelo preconceito e rejei\u00e7\u00e3o familiar. Ou quando se busca deslocar o pecado da homossexualidade para experi\u00eancias sexuais que prescindem do consentimento (a viol\u00eancia sexual seria pecado) ou para todas as formas de relacionamento afetivo-sexuais que contrariam o modelo do amor monog\u00e2mico crist\u00e3o. Em todo caso, estamos diante de inven\u00e7\u00f5es de novos v\u00ednculos entre religi\u00e3o e sexualidade que certamente o livro coloca em discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><b><i>Igrejas inclusivas<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>O que o surgimento de igrejas crist\u00e3s inclusivas, que adotam uma linguagem mais acolhedora em rela\u00e7\u00e3o aos homossexuais, representa neste cen\u00e1rio \u201cb\u00e9lico\u201d que o t\u00edtulo do livro sugere?<\/b><\/p>\n<p><b>Marcelo Natividade:<\/b>Eu penso que elas representam brechas, fissuras, tentativas de tomada do poder, protagonizadas por pessoas LGBT, a exemplo do que ocorreu com as mulheres e a emerg\u00eancia das teologias feministas. Elas constituem reivindica\u00e7\u00f5es por liberdade religiosa, de gays e l\u00e9sbicas \u2013 pessoas que efetivamente ocupam os bancos das igrejas. Durante muitos anos, esses fi\u00e9is ocultaram suas experi\u00eancias e identidades, temendo as san\u00e7\u00f5es institucionais que incidem sobre quem desafia as normas da congrega\u00e7\u00e3o. Mas, essas pessoas agora ganharam visibilidade na esfera p\u00fablica \u2013 elas reivindicam n\u00e3o apenas o direito de serem gays, l\u00e9sbicas, travestis e transexuais, mas <i>tamb\u00e9m<\/i>de serem <i>crist\u00e3os<\/i>. \u00c9 claro que este \u00e9 um movimento pol\u00edtico minorit\u00e1rio, em meio a um cen\u00e1rio religioso em que a homofobia predomina. Apesar disso, a atua\u00e7\u00e3o destas pessoas pode ser vista como ag\u00eancia e protagonismo daqueles que se encontram \u00e0 margem da religi\u00e3o, em luta por reconhecimento.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia das igrejas inclusivas evidencia como tradi\u00e7\u00f5es religiosas podem ser reinventadas. Nesse sentido, \u00e9 importante compreender igrejas n\u00e3o como institui\u00e7\u00f5es est\u00e1ticas, sem movimento: elas s\u00e3o redes e articula\u00e7\u00f5es nas quais existem disson\u00e2ncias, polissemias, disputas. Ent\u00e3o, igrejas inclusivas s\u00e3o iniciativas dissidentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s hegemonias doutrin\u00e1rias, cultivadas pelas religi\u00f5es crist\u00e3s, especialmente, \u00e0quelas articuladas ao interdito da homossexualidade e \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o das identidades LGBT. Elas encenam certos modos contempor\u00e2neos de constru\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o em que se concilia cristianismo e diversidade sexual. Representam tamb\u00e9m inova\u00e7\u00f5es t\u00edpicas das din\u00e2micas de cria\u00e7\u00e3o e diversifica\u00e7\u00e3o do protestantismo, que se amparam na livre interpreta\u00e7\u00e3o do texto b\u00edblico, por exemplo, proclamando que a homossexualidade \u00e9 <i>b\u00ean\u00e7\u00e3o divina<\/i> e promovendo leituras e interpreta\u00e7\u00f5es gays e l\u00e9sbicas <i>da Palavra<\/i>. Ao inv\u00e9s de sustentar e propagar discursos de rep\u00fadio, como fazem algumas correntes religiosas cat\u00f3licas ou evang\u00e9licas, nas igrejas inclusivas n\u00e3o \u00e9 preciso deixar de ser homossexual. Uma pessoa gay, l\u00e9sbica, travesti ou transexual pode se tornar pastor ou pastora, presb\u00edtero ou presb\u00edtera, di\u00e1cono ou diaconisa, enfim, exercer uma vida eclesial.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de rejei\u00e7\u00e3o nas religi\u00f5es levam a rupturas e \u00e0 busca por solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas individuais, mas coletivas, institucionais, motivando a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os espec\u00edficos. Nos Estados Unidos, existem igrejas gays desde 1968, mas no Brasil, o movimento tem pouco mais de uma d\u00e9cada de exist\u00eancia, apesar das anteriores iniciativas isoladas. Esses grupos t\u00eam se dedicado a produzir falas positivas sobre a diversidade sexual, legitimando a experi\u00eancia religiosa dessas pessoas, amparando-se nos ideias de igualdade, autonomia e liberdade &#8211; que constituem valores laicos de nossa sociedade contempor\u00e2nea. Certamente, seus discursos produzem deslocamentos importantes no cen\u00e1rio religioso, especialmente, ao reposicionar a homossexualidade no campo das sexualidades leg\u00edtimas, recorrendo a representa\u00e7\u00f5es naturalizantes sobre a orienta\u00e7\u00e3o sexual. As igrejas inclusivas nos ajudam a descongelar imagens do religioso como essencialmente homof\u00f3bico (ou conservador) e perceber os muitos v\u00ednculos entre ativismo, pol\u00edtica e religi\u00e3o. Ilustram a pluralidade das trajet\u00f3rias, movimentos e sentidos da religi\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo. Tamb\u00e9m alargam nossa vis\u00e3o, demonstrando que n\u00e3o s\u00e3o apenas as religi\u00f5es de matriz africana que acolhem a diversidade sexual no Brasil, ao conceber certos lugares sociais para gays e l\u00e9sbicas no culto.<\/p>\n<p>Apesar da diversidade interna e das nuances discursivas, grupos inclusivos tomam como parte de sua miss\u00e3o religiosa desenvolver projetos e atividades de apoio emocional e assistencial \u00e0s pessoas soropositivas e de preven\u00e7\u00e3o da AIDS, al\u00e9m de atuar em defesa do casamento igualit\u00e1rio e do direito \u00e0 homoparentalidade. Tamb\u00e9m \u00e9 comum o incentivo e amparo para que fi\u00e9is atravessem o processo transexualizador. Em suma, a agenda religiosa e a agenda da amplia\u00e7\u00e3o dos direitos civis das popula\u00e7\u00f5es homossexuais s\u00e3o entrela\u00e7adas.<\/p>\n<p><b>No livro, voc\u00eas observam que alguns grupos inclusivos empreendem esfor\u00e7os no sentido de definir uma homossexualidade santificada (crist\u00e3, monog\u00e2mica e discreta). Outros grupos est\u00e3o comprometidos com um discurso mais afastado das normas hegem\u00f4nicas de regula\u00e7\u00e3o da sexualidade. At\u00e9 que ponto a inclus\u00e3o \u00e9 referendada no paradigma dos direitos humanos?<\/b><\/p>\n<p><b>Leandro de Oliveira: <\/b>Bem, primeiramente, acho que a gente precisa ter em mente que os \u201cdireitos humanos\u201d n\u00e3o s\u00e3o um todo homog\u00eaneo, mas um campo de disputas. Por exemplo, pode haver certa tens\u00e3o entre, de um lado, o projeto universalizante intr\u00ednseco aos discursos sobre direitos humanos e, de outro lado, a incorpora\u00e7\u00e3o dos direitos culturais, o direito \u00e0 diferen\u00e7a, como parte deste mesmo projeto. Do mesmo modo, pode haver diverg\u00eancias na defini\u00e7\u00e3o do que deve ou n\u00e3o ser compreendido como inerente ao \u201chumano\u201d e pass\u00edvel de prote\u00e7\u00e3o. As igrejas inclusivas possuem vertentes distintas \u2013 algumas com um estilo de culto mais pr\u00f3ximo do protestantismo hist\u00f3rico, outras que incorporam elementos da f\u00e9 e do ritual pentecostais. No campo que realizamos, a gente observou inicialmente, nessas igrejas de estilo protestante hist\u00f3rico, uma maior afinidade com um discurso mais universalista sobre os direitos sexuais na esfera p\u00fablica. Este \u00e9, sem d\u00favida, o caso da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM).<\/p>\n<p>As igrejas inclusivas mais pentecostalizadas pareciam estar preocupadas com outro tipo de coisa, tocantes mais estritamente ao bem estar espiritual dos fieis, \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o de um sentimento de santidade entre seus integrantes, \u00e0 cura do sofrimento e das feridas espirituais, a projetos de felicidade envolvendo a parceria conjugal monog\u00e2mica e a reestrutura\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os com a fam\u00edlia de origem. E menos preocupadas com a milit\u00e2ncia pelos direitos sexuais na esfera p\u00fablica. Ent\u00e3o, olhando de relance, poderia parecer que as primeiras estariam em sintonia com a defesa um projeto de direitos humanos universais, enquanto as \u00faltimas estariam simplesmente exercendo o direito cultural de existir na sua diferen\u00e7a. Contudo, \u00e0 medida que ganhamos mais intimidade com esses mundos sociais, percebemos que havia processos mais complexos em jogo.<\/p>\n<p>Os membros de uma igreja inclusiva carregam, com frequ\u00eancia, uma trajet\u00f3ria de passagem por diversos outros grupos religiosos, podendo inclusive migrar de uma igreja inclusiva para outra igreja inclusiva, ou frequentar concomitantemente uma igreja inclusiva e igrejas mais convencionais. Esta circula\u00e7\u00e3o de fi\u00e9is, por si s\u00f3, torna cada grupo um espa\u00e7o de negocia\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00f5es entre perspectivas e vis\u00f5es de mundo bastante plurais. Al\u00e9m disto, constatamos, especialmente em comunidades que expressam um ethos marcadamente pentecostal entre lideran\u00e7as e membros (como a Igreja Crist\u00e3 Contempor\u00e2nea e a Comunidade Crist\u00e3 Nova Esperan\u00e7a, que exercem um particular apelo sobre pessoas oriundas de setores economicamente desprivilegiados), a exist\u00eancia de formas capilares de atua\u00e7\u00e3o religioso-pol\u00edtica, com extensa penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os integrantes destes grupos se apropriam criativamente de categorias dos discursos de defesa dos direitos humanos. Isto se d\u00e1, por exemplo, atrav\u00e9s de discursos que identificam o \u201cpreconceito\u201d como a causa das feridas espirituais e que promovem a \u201ccura da homofobia\u201d. Por meio da linguagem religiosa e de rituais religiosos, estes grupos fazem circular um discurso sobre direitos sexuais com um sotaque local particular, mas bastante afinado com a agenda global de defesa das minorias sexuais. Justamente por ser vertido nesse idioma religioso, esse discurso inclusivo pode ter uma efic\u00e1cia e alcance bastante amplo, penetrando em espa\u00e7os que talvez fossem menos perme\u00e1veis \u00e0s estrat\u00e9gias discursivas mais convencionais do movimento LGBT.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente pelo Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM\/IMS\/UERJ) Em \u201cThinking sex: notes for a radical theory of the politics\u00a0of sexuality\u201d, de 1984,<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":13883,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[317,139,320,326,329],"class_list":{"0":"post-22092","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-noticias-e-analises","8":"tag-conservadorismos","9":"tag-feminismos","10":"tag-lgbtqia","11":"tag-politicas-identitarias","12":"tag-religioes"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - 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