{"id":22082,"date":"2015-04-07T21:25:39","date_gmt":"2015-04-08T00:25:39","guid":{"rendered":"https:\/\/spw.fw2web.com.br\/ptbr\/2015\/04\/07\/estigma-e-discriminacao-pioram-epidemia-de-aids\/"},"modified":"2024-02-02T17:13:33","modified_gmt":"2024-02-02T20:13:33","slug":"estigma-e-discriminacao-pioram-epidemia-de-aids","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/recomendamos\/noticias-e-analises\/estigma-e-discriminacao-pioram-epidemia-de-aids\/22082","title":{"rendered":"Estigma e discrimina\u00e7\u00e3o pioram epidemia de aids"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Originalmente publicado na Fiocruz em 01\/04\/2015. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www6.ensp.fiocruz.br\/radis\/revista-radis\/151\/reportagens\/entrevista-richard-parker\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www6.ensp.fiocruz.br\/radis\/revista-radis\/151\/reportagens\/entrevista-richard-parker<\/a><\/em><\/p>\n\n\n<h2 class=\"title\">Entrevista: Richard Parker<\/h2>\n<div class=\"meta\">\u00a0<\/div>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"field field-type-text field-field-subtitulo\">\n<div class=\"field-items\">\n<div class=\"field-item odd\">\u201cEstigma e discrimina\u00e7\u00e3o pioram epidemia de aids\u201d<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www6.ensp.fiocruz.br\/radis\/sites\/default\/files\/151\/dsc05873_0.jpg\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div>\u201cClube do Carimbo\u201d. O termo at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido virou tema de dezenas de reportagens a partir do final de fevereiro, alardeando a exist\u00eancia de grupos de soropositivos que trocariam \u201ct\u00e1ticas\u201d para transmitir intencionalmente o v\u00edrus HIV. \u201cCarimbar\u201d seria o mesmo que contaminar algu\u00e9m, por meio do sexo sem camisinha, tamb\u00e9m conhecido como bareback. As not\u00edcias provocaram, de um lado, alarme na sociedade e, de outro, repulsa de organiza\u00e7\u00f5es e redes de pessoas vivendo com HIV\/aids. \u201cSensacionalistas\u201d, classificou em nota o Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/Aids (Unaids), alertando que as den\u00fancias veiculadas nos meios de comunica\u00e7\u00e3o tiveram como base informa\u00e7\u00f5es contidas em fontes de credibilidade question\u00e1vel. Segundo o texto, as mat\u00e9rias s\u00e3o equivocadas, criminalizantes, baseadas em estigmas e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) tamb\u00e9m se manifestou, afirmando que a imprensa criou clima de p\u00e2nico moral e falhou ao ignorar pesquisas, informa\u00e7\u00f5es qualitativas e diversas t\u00e9cnicas de preven\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis no Brasil e no mundo. Em entrevista \u00e0 Radis, o diretor-presidente da Abia, o antrop\u00f3logo americano Richard Parker, refor\u00e7a que afastar, estigmatizar e criminalizar as pessoas n\u00e3o vai parar a epidemia de aids, mas pior\u00e1-la. Para o professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, h\u00e1 novas ferramentas dispon\u00edveis que permitem controlar a expans\u00e3o da doen\u00e7a, mas os fantasmas do conservadorismo e da discrimina\u00e7\u00e3o aumentam os riscos.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Como avalia a divulga\u00e7\u00e3o dos chamados clubes do carimbo, em que homens soropositivos praticam sexo bareback (sem camisinha) supostamente com a inten\u00e7\u00e3o de transmitir o v\u00edrus HIV?<\/strong><\/div>\n<div>\u00c9 muito importante recuperar a hist\u00f3ria para descontruir a ideia de que esses comportamentos s\u00e3o novos, que surgiram agora. Na primeira d\u00e9cada da epidemia, nos anos de 1980, quando ainda n\u00e3o havia tratamento e nenhuma resposta eficaz em termos biom\u00e9dicos, as comunidades afetadas \u2014 sobretudo a gay \u2014 j\u00e1 tinham criado uma resposta: adotaram o uso da camisinha. O v\u00edrus HIV ainda n\u00e3o havia sido identificado mas elas j\u00e1 desconfiavam que a infec\u00e7\u00e3o era transmitida via sangue, sexo e drogas e, por isso, estabeleceram formas de se fazer sexo dentro de uma epidemia. O \u201csexo seguro\u201d surgiu como uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas para se evitar o risco. Uma maneira de se reduzir danos \u2014 apesar de essa express\u00e3o ser mais usada quando se fala em drogas \u2014 e manter uma vida sexual prazerosa, satisfat\u00f3ria, livre da opress\u00e3o da sociedade.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>O sexo seguro surgiu, ent\u00e3o, por iniciativa da pr\u00f3pria comunidade.<\/strong><\/div>\n<div>Os especialistas ficaram fora dessa primeira d\u00e9cada de epidemia. O sexo seguro era uma pr\u00e1tica comunit\u00e1ria. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o vinha de uma inten\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica \u2014 \u201ceu vou me proteger\u201d \u2014 mas de uma inten\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria \u2014 \u201ccomo eu vou proteger os meus parceiros\u201d. No final dos anos 1980, come\u00e7aram a se formar os programas nacionais de aids, incluindo o do Brasil. Entre 1987 e 1990, 129 pa\u00edses criaram seus programas. S\u00f3 ent\u00e3o os especialistas come\u00e7aram a entrar na jogada. Eles transformaram a l\u00f3gica do sexo seguro, que passou a ser uma \u201cpr\u00e1tica saud\u00e1vel\u201d, centrada na prote\u00e7\u00e3o individual. Em meados dos anos de 1990, finalmente surgiu um tratamento eficaz, com a terapia combinada de v\u00e1rios antirretrovirais. Onde havia sistema de sa\u00fade adequado para oferecer acesso universal aos medicamentos, se abriu a possibilidade de o HIV n\u00e3o ser mais uma doen\u00e7a inevitavelmente fatal, com morte terr\u00edvel, e sim uma doen\u00e7a cr\u00f4nica control\u00e1vel. Foi justamente nessa \u00e9poca em que, em uma escala pequena, em alguns setores da comunidade gay, mas tamb\u00e9m entre heterossexuais, come\u00e7ou a haver os questionamentos: \u201cser\u00e1 que vale a pena usar camisinha se a aids n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o terr\u00edvel quanto era? eu preciso sacrificar meu prazer sexual por isso?\u201d.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Que \u00e9 o chamado bareback&#8230;<\/strong><\/div>\n<div>Foi a\u00ed que surgiu a pr\u00e1tica do bareback, por uma parcela de pessoas que haviam adotado o uso do preservativo, mas n\u00e3o lidavam bem com ele. No barebacking, a inten\u00e7\u00e3o de transar sem a camisinha \u00e9 fundamental. N\u00e3o \u00e9 uma categoria em que devem ser inclu\u00eddas pessoas que de repente transam sem prote\u00e7\u00e3o, por uma circunst\u00e2ncia; \u00e9 usada para descrever pessoas que transam intencionalmente sem preservativo.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>E qual a diferen\u00e7a entre barebacking e clube do carimbo?<\/strong><\/div>\n<div>Em compara\u00e7\u00e3o com o clube do carimbo, a diferen\u00e7a do barebacking \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de infectar nem ser infectado. Ao contr\u00e1rio: h\u00e1 v\u00e1rias estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o de danos. Por exemplo, o serosorting, quando se escolhe fazer sexo com uma pessoa sabidamente da mesma sorologia (positiva ou negativa). Quando os parceiros t\u00eam a mesma sorologia, a necessidade de se usar o preservativo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande. \u00c9 claro que h\u00e1 um risco, porque eventualmente um que acredita ser negativo pode ter sido infectado depois de passar pelo teste. Outra estrat\u00e9gia \u00e9 chamada de negotiated safety, muito comum em casais homo e heterossexuais, que decidem n\u00e3o usar preservativo dentro da rela\u00e7\u00e3o \u2014 caso um deles transe com uma terceira pessoa, usa camisinha para n\u00e3o trazer risco para o casal. Obviamente, todo mundo que escolhe transar sem preservativo sabe que n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica 100% sem risco \u2014 mas a camisinha tamb\u00e9m n\u00e3o oferece 100% de prote\u00e7\u00e3o. O barebacking acaba sendo uma escolha para pessoas que n\u00e3o procuram se infectar nem infectar os outros mas que, avaliando suas circunst\u00e2ncias, decidem correr certo risco. Assim como um skatista que n\u00e3o usa capacete ou um motorista que dirige sem cinto de seguran\u00e7a. Cada um de n\u00f3s avalia e decide o grau de risco que pode assumir em suas vidas, a partir de circunst\u00e2ncias particulares. O que me preocupa quando surgem tantas not\u00edcias sobre o clube do carimbo, \u00e9 essa confus\u00e3o que trata o barebacking como uma inten\u00e7\u00e3o de infectar os outros ou de ser infectado, o que n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Mas como se deve entender essa pr\u00e1tica de carimbar?<\/strong><\/div>\n<div>Para todos que valorizamos o cuidado, \u00e9 dif\u00edcil de compreender. \u00c9 a ant\u00edtese da inten\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria dos anos 1980 de proteger os parceiros. Mas tamb\u00e9m me preocupa essa tend\u00eancia de julgar sem entender, de fazer uma leitura moral que leva diretamente \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o. O estigma e a discrimina\u00e7\u00e3o s\u00e3o as vari\u00e1veis mais consistentes ao longo de 35 anos de epidemia de aids, o que mais tem dificultado o enfrentamento da epidemia. \u00c9 por causa de estigma que governos n\u00e3o querem fazer campanhas, foi por causa de estigma que levou tanto tempo at\u00e9 serem criados os programas de aids, \u00e9 por causa de estigma que as pessoas com HIV ainda hoje s\u00e3o marginalizadas em todos os setores. Tem sido mais f\u00e1cil mudar o comportamento das pessoas do que mudar o estigma. Vendo isso reproduzido na discuss\u00e3o do clube do carimbo, fico muito preocupado.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Por que o estigma permanece?<\/strong><\/div>\n<div>O que faz com que o estigma e a discrimina\u00e7\u00e3o sejam t\u00e3o dif\u00edceis de se enfrentar \u00e9 o fato de terem diversas ra\u00edzes. Desigualdades de g\u00eanero, sexual, de ra\u00e7a e etnia, econ\u00f4mica&#8230; A epidemia caminha justamente onde esses diversos eixos de desigualdade se cruzam. Um dos pioneiros no ativismo LGBT no Brasil, Herbert Daniel, tinha an\u00e1lise brilhante da aids: ele dizia que a aids caminhava pelas fissuras, pelas rupturas da sociedade. Onde a sinergia de desigualdades \u00e9 maior, a vulnerabilidade \u00e9 maior e o estigma \u00e9 mais devastador. O estigma n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte com um homem gay branco de classe m\u00e9dia. Mas a travesti negra da favela sofre com a desigualdade de g\u00eanero, da opress\u00e3o sexual, do racismo, da pobreza&#8230; Tudo isso se junta e por a\u00ed a epidemia vai. As pessoas n\u00e3o nascem discriminando, elas s\u00e3o ensinadas a discriminar. O estigma tem que ser reproduzido em cada gera\u00e7\u00e3o, para manter as rela\u00e7\u00f5es de poder distribu\u00eddas em uma sociedade. Se usa o estigma para afastar e excluir as pessoas que est\u00e3o \u00e0 margem. Nesse entendimento, o estigma refor\u00e7a as estruturas desiguais da sociedade. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 efetivamente justificar a desigualdade. Transforma o que podia ser simplesmente diferen\u00e7a em desigualdade. Acredito que uma das coisas que levantou essa poeira toda com as reportagens do clube do carimbo foi a oportunidade de o estigma \u2014 mais ou menos existente, mas n\u00e3o barulhento \u2014 vir \u00e0 tona.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>A sociedade tem dificuldade de lidar com a diversidade sexual?<\/strong><\/div>\n<div>O problema continua sendo a sexualidade. Quando se trata da sexualidade, surgem todos os fantasmas. Em termos gerais, penso que o Brasil, historicamente em compara\u00e7\u00e3o com outras sociedades, tem caminhado relativamente bem. Conseguiu abrir um debate p\u00fablico razoavelmente respeitoso sobre quest\u00f5es da sexualidade. Mas, nas beiradas, sempre tem preconceito, medo, fobia, terror, todos esses fantasmas psicol\u00f3gicos que o tema traz \u00e0 tona. Da\u00ed surgiram hist\u00f3rias de que pessoas estavam botando sangue infectado no catchup e tantas outras de uns supostamente tentando infectar outros. Essas hist\u00f3rias voltam. E o estigma afasta as pessoas, as leva para longe do sistema de sa\u00fade, para longe dos centros de apoio. Algu\u00e9m que se identifica como soropositivo pode perder o trabalho, ser hostilizado na rua. Parece \u00f3bvio que essa pessoa n\u00e3o vai querer mostrar a cara, nem fazer a testagem com medo de ser positivo e ficar sujeito a discrimina\u00e7\u00e3o. Os direitos humanos s\u00e3o t\u00e3o importantes na hist\u00f3ria da aids n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 o correto eticamente mas tamb\u00e9m porque s\u00e3o eficazes em termos de sa\u00fade p\u00fablica.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Em que sentido?<\/strong><\/div>\n<div>Se voc\u00ea evita que a pessoa sofra as consequ\u00eancias da discrimina\u00e7\u00e3o e do estigma, voc\u00ea a traz para dentro do sistema de apoio, faz a testagem, oferece medicamentos, transforma a infec\u00e7\u00e3o em uma doen\u00e7a cr\u00f4nica, abaixa a carga viral, diminui as chances de ela infectar outros&#8230; Por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, quando as pessoas s\u00e3o acolhidas, s\u00e3o protegidas, se reduz a probabilidade de a epidemia avan\u00e7ar. Por isso, podemos estar muito preocupados com um pequeno clube em que supostamente as pessoas t\u00eam inten\u00e7\u00e3o de infectar outras, mas temos que entender o que est\u00e1 acontecendo a partir da perspectiva delas e n\u00e3o transform\u00e1-las em alvo para criminaliza\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>A Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo se mostrou disposta a abrir inqu\u00e9rito para investigar os clubes do carimbo.<\/strong><\/div>\n<div>No come\u00e7o da epidemia, em v\u00e1rias partes do mundo, houve uma grande discuss\u00e3o sobre as saunas gays. Os mais moralistas pediam o fechamento das saunas alegando que eram antros de infec\u00e7\u00e3o, onde as pessoas transavam adoidadamente. No outro lado desse debate, os ativistas falavam que as saunas podiam ser locais de interven\u00e7\u00e3o para se reduzir o risco de transmiss\u00e3o, oferecendo camisinha, gel, interven\u00e7\u00f5es educativas. Se voc\u00ea fecha a sauna, os frequentadores v\u00e3o procurar outro lugar para transar e se perde a oportunidade de fazer promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade naquele contexto. No caso do clube do carimbo, o argumento \u00e9 o mesmo. Afastar, estigmatizar e criminalizar n\u00e3o vai parar a epidemia, mas pior\u00e1-la.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Campanhas que tratam da diversidade sexual t\u00eam sido censuradas no Brasil. Isso se deve a um crescente conservadorismo, especialmente no Congresso?<\/strong><\/div>\n<div>Nos anos 1990, o Brasil conseguiu se construir como uma grande lideran\u00e7a no enfrentamento da epidemia de aids em escala internacional, por seu programa de acesso universal aos antirretrovirais mas tamb\u00e9m por sua ousadia em lidar com a sexualidade com certa abertura e franqueza. Mas, na \u00faltima d\u00e9cada, isso tem ficado cada vez mais dif\u00edcil. O conservadorismo na sociedade brasileira vem se manifestando mais claramente via conservadorismo religioso \u2014 que n\u00e3o \u00e9 exclusivo dos evang\u00e9licos. O resultado \u00e9 que o Congresso tem bancadas que defendem valores conservadores e fica cada vez mais dif\u00edcil trabalhar a sexualidade da maneira ousada como j\u00e1 se fez. A sexualidade vai sumindo da preven\u00e7\u00e3o da aids, sendo marginalizada. A discuss\u00e3o sobre preven\u00e7\u00e3o acontece quase que independente da discuss\u00e3o sobre sexualidade. Alguns acham que repetir o mantra \u201cuse camisinha\u201d \u00e9 discutir a sexualidade. N\u00e3o \u00e9. \u00c9 simplesmente uma ordem. Com a elei\u00e7\u00e3o da presidenta Dilma Rousseff, sendo talvez menos h\u00e1bil politicamente e por isso muito mais sujeita a press\u00f5es de diversos tipos, o conservadorismo religioso tomou conta. E n\u00e3o s\u00f3 na \u00e1rea da sa\u00fade, com a censura de campanha de carnaval, mas tamb\u00e9m em outras \u00e1reas, vide a censura \u00e0 campanha contra homofobia na escola. Materiais mais dirigidos a subgrupos, como os transexuais ou os jovens de homens que fazem sexo com homens, foram tirados de circula\u00e7\u00e3o. Isso j\u00e1 \u00e9 um ato de discrimina\u00e7\u00e3o. Quando isso acontece, as pessoas a quem s\u00e3o negadas essas informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 entendem que est\u00e3o sendo discriminadas. Se o pa\u00eds quer criminalizar alguma coisa, que seja a bancada conservadora. Quantas pessoas morrem porque essas campanhas s\u00e3o tiradas do ar? Eu acredito que mais que pelo clube do carimbo. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o medem as consequ\u00eancias de suas posturas pol\u00edticas. Desde o come\u00e7o, o que de fato mais apoia a epidemia \u00e9 o conservadorismo, seja do governo Reagan nos Estados Unidos, do governo Mbeki na \u00c1frica do Sul, ou o governo Dilma no Brasil. S\u00e3o exemplos de como a pol\u00edtica eleitoral pode reverter ganhos do campo da sa\u00fade. \u00c9 importante dizer que a culpa n\u00e3o \u00e9 dos t\u00e9cnicos da \u00e1rea, mas das for\u00e7as pol\u00edticas que impedem que fa\u00e7am bem seu trabalho. Devemos falar em criminaliza\u00e7\u00e3o de deputados que querem combater os direitos sexuais e que impossibilitam que a sexualidade seja tratada de maneira positiva. \u00c9 um desservi\u00e7o para o pa\u00eds.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Um dos avan\u00e7os recentes na preven\u00e7\u00e3o da aids internacionalmente foi a profilaxia pr\u00e9-exposi\u00e7\u00e3o (PrEP, que consiste no uso de rem\u00e9dios antirretrovirais, por pessoas que n\u00e3o t\u00eam HIV, como forma de evitar a infec\u00e7\u00e3o), mas o Brasil ainda n\u00e3o a incorporou ao SUS.\u00a0<\/strong><\/div>\n<div>O Brasil tem demorado, sim, a adotar a profilaxia pr\u00e9-exposi\u00e7\u00e3o e outras tecnologias novas. Hoje, h\u00e1 muitas op\u00e7\u00f5es para se trabalhar com preven\u00e7\u00e3o, mas ainda estamos congelados no tempo. A preven\u00e7\u00e3o p\u00f3s-exposi\u00e7\u00e3o (uso de medicamentos que fazem parte do coquetel utilizado no tratamento da aids logo ap\u00f3s uma situa\u00e7\u00e3o de risco), por exemplo, est\u00e1 dispon\u00edvel no SUS, mas muitas pessoas n\u00e3o sabem disso \u2014 e provavelmente o Estado n\u00e3o divulga porque \u00e9 caro. O Brasil ainda n\u00e3o incorporou a preven\u00e7\u00e3o pr\u00e9-exposi\u00e7\u00e3o, do tipo Truvada, n\u00e3o sei por que raz\u00f5es. Provavelmente porque \u00e9 caro, mas j\u00e1 h\u00e1 testes de um PrEP injet\u00e1vel que protege por seis meses. Os Estados Unidos adotaram esse tipo de preven\u00e7\u00e3o, como carro-chefe de sua campanha nacional e tamb\u00e9m em n\u00edvel estadual, como em Nova Iorque. Temos que come\u00e7ar a pensar a preven\u00e7\u00e3o como uma caixa de ferramentas. Existem v\u00e1rias ferramentas que podem ser usadas, por diferentes pessoas em diferentes situa\u00e7\u00f5es de risco. Cada uma vai avaliar a sua situa\u00e7\u00e3o de risco e saber quais s\u00e3o as metodologias melhores para ela. Isso nos obriga a ter um grau de informa\u00e7\u00e3o sobre essas ferramentas e a conscientizar as pessoas sobre como avaliar sua situa\u00e7\u00e3o de risco. Sem abandonar o preservativo como ferramenta central, precisamos reconhecer que n\u00e3o s\u00e3o todos que conseguem usar, por diversas raz\u00f5es. Em vez de adotar uma postura de avestruz, enfiar a cabe\u00e7a na areia para n\u00e3o ver, devemos reconhecer a realidade, parar de planejar em cima de fantasmas e fantasias. Trazer a preven\u00e7\u00e3o para o s\u00e9culo 21, para a realidade, e n\u00e3o para o conto de fadas. Assim, podemos voltar a vencer a epidemia. Enquanto isso, com certeza a epidemia vai continuar vencendo, com o aumento da infec\u00e7\u00e3o em popula\u00e7\u00f5es-chave, como os jovens gays e a popula\u00e7\u00e3o trans. Uma epidemia fora de controle quando h\u00e1 armas capazes de controla-la.<\/div>\n<div class=\"field field-type-text field-field-autor\">\n<div class=\"field-items\">\n<div class=\"field-item odd\">\n<div class=\"field-label-inline-first\">\u00a0<\/div>\n<div class=\"field-label-inline-first\">Autor:<br \/>Bruno Dominguez<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Originalmente publicado na Fiocruz em 01\/04\/2015. Dispon\u00edvel em:\u00a0http:\/\/www6.ensp.fiocruz.br\/radis\/revista-radis\/151\/reportagens\/entrevista-richard-parker Entrevista: Richard Parker \u00a0 \u201cEstigma e discrimina\u00e7\u00e3o pioram epidemia de aids\u201d \u201cClube do Carimbo\u201d. 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